Abramed apresenta desafios da medicina diagnóstica em ciclo de palestras do A.C. Camargo

Encontro virtual expôs panorama do mercado, identificou tendências e compartilhou dados relevantes do setor

20 de outubro de 2020

Com participação de Wilson Shcolnik e Priscilla Franklim Martins, respectivamente presidente do Conselho de Administração e diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), episódio do Ciclo de Palestras promovido pelo A.C. Camargo Cancer Center, em 16 de outubro, traçou um panorama do mercado de diagnóstico na saúde suplementar brasileira, elencando os principais desafios e tendências do setor.

O encontro foi moderado por dois executivos do A.C. Camargo: Marcos Cunha, diretor de negócios, e Edson Costa, supervisor de estratégia e inteligência. Quem participou teve acesso a um compilado de dados relevantes que traduzem o atual cenário do país.

“Vivemos um momento de incerteza devido à instabilidade econômica visto que a maior parte dos beneficiários dependem de seus empregos para terem acesso a convênios e à rede da saúde suplementar”, comentou Shcolnik ao dizer que a perspectiva dos economistas, hoje, é positiva e indica crescimento de muitos setores.

O executivo mencionou quais tem sido os principais pleitos do setor, enfatizando o impacto da Reforma Tributária. “Apoiamos a reforma que é muito importante para o país, mas temos preocupações com relação ao aumento da carga de impostos em toda a cadeia de saúde. Por isso nossa luta é pela neutralidade e, via Abramed, estamos em contato direto com o Governo para expor quais serão esses impactos”, declarou.

Shcolnik também mencionou o ambiente regulatório. Citou questões relativas às consultas públicas 911 e 912 que estão em andamento pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e preocupam os especialistas por permitir que exames sejam realizados fora dos ambientes altamente controlados dos laboratórios, expondo os pacientes à riscos de segurança; a revisão da RDC 50, que trata da infraestrutura e de projetos para serviços em saúde; e sobre a RDC 330 que, publicada em 2019 e com vigência prevista para início em dezembro, trata da infraestrutura e do funcionamento de clínicas de diagnóstico por imagem. “Quanto à RDC 330 solicitamos adiamento à Anvisa pois muitas clínicas e hospitais precisam de mais tempo para se adequar”, explicou.

Outro ponto que foi amplamente debatido durante a palestra diz respeito à incorporação de novos exames no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) que, inclusive, está com consulta pública aberta. “Precisamos sempre continuar estudando esses impactos para que novos recursos sejam trazidos para o sistema de saúde nacional. Esse é um desafio permanente, pois as inovações não param, são incessantes, e temos de colocá-las à disposição do público”, esclareceu.

União e compartilhamento

O A.C. Camargo Cancer Center detém muito conhecimento em oncologia e entende que é possível compartilhar esse conhecimento a fim de tornar tanto o acesso ao diagnóstico quanto aos tratamentos mais fáceis pelo país. Para Cunha, as oportunidades são inúmeras. “Temos um serviço B2B para prover exames específicos e, como fazemos muita pesquisa, às vezes temos alguns painéis que ainda não estão no mercado”, disse sobre dividir essa expertise com outros hospitais e laboratórios.

Para Priscilla, o caminho é benéfico: “Existem enormes oportunidades tanto assistenciais quanto de geração de negócios para o hospital. No Brasil, que tem dimensões continentais, há muitos vazios assistenciais que precisam ser encarados de forma mais pragmática. Pensar em parcerias como forma de suprir essas carências é trazer um olhar interessante ao cenário”.

Painel Abramed

Shcolnik também aproveitou a oportunidade para falar sobre a terceira edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico. O relatório, que está em fase final de consolidação e deve ser lançado no próximo mês, traz este ano um capítulo inteiro dedicado ao tema COVID-19, e informações detalhadas sobre o mercado de medicina diagnóstica, abordando desde o número de exames complementares realizados no país; distribuição de profissionais do setor no território nacional; detalhes sobre o mercado de trabalho; número de resultados de exames acessados pela Internet; e mais detalhes sobre o comportamento do paciente no ramo da medicina diagnóstica.

Prevenção e boas práticas minimizam riscos na gestão de terceiros

Políticas de compliance, due diligence e monitoramento constante auxiliam na gestão de parceiros de negócios

14 de outubro de 2020

As constantes mudanças no cenário econômico brasileiro se refletem na necessidade de uma gestão dos parceiros de negócio de forma cada vez mais proativa e efetiva nas organizações, para melhoria contínua da gestão, da conformidade contratual e regulamentar e da mitigação dos riscos envolvendo terceiros.

Entre os principais fatores que impulsionam a necessidade de uma governança e monitoramento de terceiros, inclusive na área da saúde, estão a expectativa de crescimento de serviços terceirizados nas organizações, as novas regulamentações em âmbito nacional e internacional e a alta velocidade de divulgação das informações na era digital.

Para permanecerem competitivas e alinhadas às tendências do mercado, as empresas estão buscando cada vez mais tratar as vulnerabilidades existentes em diversas dimensões do negócio, inclusive no que diz respeito aos riscos que podem comprometer sua imagem e reputação.

Nesse contexto, Vanessa Torres, gerente de Compliance e coordenadora do curso de pós-graduação em ética e compliance na saúde do Hospital Israelita Albert Einstein e membro do Comitê de Governança, Ética e Compliance (GEC) da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), diz ser importante a integridade da cadeia de suprimentos, visando garantir que os relacionamentos comerciais das empresas ocorram dentro de padrões legais e morais vigentes, prevenindo irregularidades e distorções em decisões de aquisição, que possam corromper a cadeia de fornecimento, permitindo a construção de práticas de mercado justas, com livre concorrência, contribuindo para uma dinâmica econômica mais transparente e uma sociedade mais ética. “Para tanto, o princípio norteador deve ser a transparência nas transações, fazendo com que a decisão sobre o negócio seja pautada na mensuração dos riscos identificados”, afirma.

Ela explica que os benefícios com esta postura ativa das organizações são prezar e promover o engajamento da cadeia produtiva para que o mercado seja formado de companhias éticas; aumentar a segurança das relações comerciais e mitigar eventuais riscos de fraude, corrupção e lavagem de dinheiro no relacionamento com os terceiros; e minimizar riscos de penalização por qualquer ação irregular de funcionários e terceiros (mesmo sem o conhecimento ou aprovação da instituição, a chamada “responsabilidade solidária”, prevista na Lei Anticorrupção – nº 12.846/2013).

Na visão de Vanessa, no processo de compra de materiais e insumos, as boas práticas de governança, ética e compliance devem ser aplicadas. “A preocupação de quem está comprando deve ir além do preço. É preciso observar se o fornecedor está alinhado com os princípios éticos da organização, como esse profissional ou a empresa fornecedora de bens e serviços atua, sua capacidade de produção e entrega, se há riscos de corrupção e práticas ilegais, qual a parte responsabilizada frente às sanções e até mesmo qual o impacto do cancelamento de um pedido feito junto a um fornecedor que pode ter algum grau de dependência econômica com a sua organização”, orienta.

A pandemia do novo coronavírus, segundo a gerente de Compliance, fez multiplicar a necessidade do consumo de produtos e serviços no setor de saúde, havendo significativo redimensionamento das demandas. Por tudo isso, faz-se necessária a responsabilidade compartilhada entre as partes.

Seguir os aspectos legais, por meio das normas para licitação e contratos da administração pública para a garantia da isonomia e um desenvolvimento nacional sustentável, também é fundamental.

Devido à pandemia, como houve a dispensa de licitação para aquisição e contratação de bens, serviços e insumos destinados ao enfrentamento da Covid-19, Vanessa explica que há a necessidade do gerenciamento de riscos rigoroso durante a execução desses contratos, avaliação cuidadosa dos controles que podem ou não ser flexibilizados e  das fragilidades e limitações do processo e a realização de diligências, com avaliação de impacto jurídico, financeiro e reputacional, além de manter os registros que comprovem que, apesar do momento de incertezas e dificuldades, a instituição atuou com princípios éticos, diligência e transparência.

Outro ponto importante a ser observado é o conflito de interesses, que na rede de interações entre profissionais e organizações no setor da saúde pode acontecer.

O risco surge quando se estabelecem modelos de incentivo e financiamentos que podem distorcer o propósito real e justo de se oferecer a melhor resolutividade e experiência ao paciente. “O Conselho de Administração deve zelar para que as transações entre partes envolvidas nas relações comerciais e de trabalho sejam conduzidas dentro de padrões de mercado em todos os aspectos”, orienta Vanessa, que ainda lembra que se  deve garantir que as transações sejam reportadas adequadamente nos relatórios da organização e que o estatuto ou contrato social exija que as negociações sejam aprovadas pela alta administração, permitindo decisões institucionais diante de riscos de conflitos de interesses.

Estratégia de negócio

Monitorar a atuação dos fornecedores cada vez mais revela-se como uma ação estratégica para o negócio. Não é rara a divulgação de notícias que relatam prejuízos para a empresa contratante decorrente de situações envolvendo terceirizadas e por isso a palavra de ordem para as corporações é: prevenção.

A gerente de Compliance do Hospital Albert Einstein diz ser fundamental avaliar se há histórico de corrupção e improbidade, de má gestão ou desvio de recursos, pois um processo mal conduzido pode trazer consequências para a empresa e seus executivos. “A corrupção continua sendo crime e a boa intenção não é suficiente para justificar a falta dos devidos controles necessários para um processo de aquisição seguro”, garante.

Por esse motivo, muitos estabelecimentos de saúde estão adotando políticas de compliance, com regras, regulamentos e diretrizes internas. É uma área emergente e importante para o mercado nacional e mundial, pois visa buscar ética, transparência e integridade na condução dos negócios, protegendo o patrimônio e reduzindo a possibilidade de fraudes.

Dentre os elementos fundamentais de um programa de compliance estão o comprometimento da alta administração, elaboração de políticas, treinamento de colaboradores e a gestão de terceiros. “Essa transparência – que deve ser mantida em todas as relações no setor, sejam elas entre clientes, fornecedores, acionistas, sociedade e órgãos reguladores – impulsiona um movimento empresarial para implementação e fortalecimento de programas de governança e compliance, bem como visa influenciar o setor de medicina diagnóstica a assumir compromissos com práticas transparentes e de equidade”, destaca Vanessa Torres.

A responsabilidade institucional de fazer negócios com uma instituição que não está em compliance com as diretrizes normativas do setor é algo indiscutível. Daí a importância de se realizar uma due diligence para prestar um serviço de excelência na saúde e garantir a sustentabilidade do setor.

A due diligence de terceiros é uma pesquisa de antecedentes em relação a uma pessoa física ou jurídica para que a organização saiba com quem está se relacionando ou pretende se relacionar.

É importante observar que, por exemplo, a busca por conhecimento pela instituição de saúde em relação aos antecedentes éticos de empresas e profissionais está plenamente embasada pelo Princípio da Transparência. Vanessa finaliza dizendo que é necessário reforçar o processo de gestão de riscos de terceiros, pois “é importante ser vigilante para corrigir e tratar problemas identificados tempestivamente, estando próximo dos fornecedores, construindo parcerias sólidas e confiáveis, para garantir a sustentabilidade dos negócios de forma transparente”.

Mamografias caem 46,4% durante a pandemia

Dados compilados pela Abramed mostram impacto da COVID-19 no diagnóstico precoce do câncer de mama

9 de outubro de 2020

Principal exame para detecção precoce do câncer de mama, a mamografia é uma das grandes aliadas da saúde feminina. Porém, durante a pandemia de COVID-19, muitas mulheres deixaram de fazer esse procedimento que salva vidas. A queda na quantidade de mamografias realizadas no país, segundo dados das empresas associadas à Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), foi de 46,4% quando comparado o período de março a agosto de 2020 com os mesmos meses de 2019. Importante frisar que as associadas à Abramed representam 56% do total de exames realizados na saúde suplementar.

No Sistema Único de Saúde (SUS) o cenário é igualmente preocupante: entre janeiro e junho de 2019 foram realizados 180.093 exames na rede pública. No mesmo período de 2020, a quantidade de exames caiu para 131.617.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), em 2020 o Brasil deve assistir à 66.280 novos casos de câncer de mama, doença que em 2018 matou mais de 17 mil mulheres no país. Importante enfatizar que o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE) divulgou recentemente a pesquisa “Câncer de mama: o cuidado com a saúde durante a quarentena” que afirma que 62% das 1.400 mulheres entrevistadas não foram ao médico durante a pandemia com medo de contrair COVID-19. Entre o grupo de risco, composto por mulheres com mais de 60 anos de idade, 73% disseram estar aguardando a pandemia passar para retomar suas consultas e exames.

Essa situação exposta pelo IBOPE reflete parte do impacto da crise na medicina diagnóstica no país. O setor previa a realização de mais de 480 milhões de exames no primeiro semestre de 2020 e foram realizados apenas 353 milhões, o que representa uma queda geral de mais de 36%.

“O setor de medicina diagnóstica é rigidamente regulado para garantir a segurança do paciente. Com a pandemia, as empresas reforçaram ainda mais seus protocolos de segurança, aumentaram os intervalos entre os agendamentos, eliminaram agendamentos presenciais,  reduziram drasticamente o número de pessoas nas recepções, criaram fluxos de atendimento separados para atender pacientes com sintomas de síndrome gripal, aumentaram a coleta domiciliar, criaram o sistema de coleta drive-thru. Tudo isso aliado a uma comunicação consistente sobre a importância de manter a rotina de exames preventivos e de continuidade de tratamentos. As outras doenças não vão esperar a pandemia passar e não podemos descuidar dos cuidados com nossa saúde”, relata Priscilla Franklim Martins, diretora-executiva da Abramed.

Considerando que o Brasil é um país continental, a situação do atraso nos diagnósticos de câncer de mama pode ser ainda mais complexa em determinadas regiões do país. Informações do Painel Abramed de 2019 – O DNA do Diagnóstico mostram que a região Sudeste concentra quase metade dos mamógrafos do Brasil, o que gera desigualdade na oferta de exames nos estados e leva ao chamado vazio assistencial. A região Norte, por exemplo, possui apenas 6% dos equipamentos do país.

Com a chegada do Outubro Rosa, campanhas diversas incentivam as mulheres a realizar exames preventivos importantes como a mamografia que, segundo o Instituto Oncoguia, é capaz de detectar pequenos nódulos de 1 milímetro até três anos antes da mulher conseguir senti-los na palpação. Assim, com o diagnóstico precoce e iniciando o tratamento do câncer de mama ainda no estágio inicial, as chances de cura chegam a 95%.

Debate do CFM trata da segurança do paciente no contexto do diagnóstico

Realizado na noite de 8 de outubro, encontro virtual foi moderado por Wilson Shcolnik

13 de outubro de 2020

O presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), Wilson Shcolnik, moderou um debate promovido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) sobre raciocínio clínico e melhoria do diagnóstico. O encontro contou com apresentações de Lucas Zambon, diretor do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente (IBSP); Leandro Arthur Diehl, professor na área de Clínica Médica e Semiologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL); e Pedro Alejandro Gordan, professor do Centro Universitário São Lucas.

“Diagnosticar não é simples. É um processo complexo que exige conhecimento do médico e capacidade para aplicar esse conhecimento em um ambiente de trabalho que muitas vezes é desafiador”, disse Shcolnik ao iniciar as apresentações. Segundo o executivo, que é médico patologista, o processo diagnóstico pode trazer armadilhas que impactam os pacientes e, quando desencadeiam eventos adversos e danos, geram constrangimento e sensação de culpa nos médicos.

O debate circundou alguns aspectos principais: é preciso entender o raciocínio clínico, mudar a cultura médica diante da ocorrência de incidentes e eventos adversos, e compreender o papel dos processos assistenciais quando as falhas ocorrem. Esses são, segundo os palestrantes, os principais caminhos para reduzir o risco de erros diagnósticos e ampliar a segurança do paciente dentro do sistema de saúde.

Falando sobre os motivos que podem levar a um raciocínio clínico equivocado, Diehl abordou a racionalidade do ser humano. “Temos capacidade de tomar decisões racionais, mas esse não é nosso modo padrão de funcionamento”, declarou. Segundo o professor contamos com dois sistemas de pensamento: o primeiro é um processo rápido, automático, que não exige esforço, inconsciente e que funciona com reconhecimento de padrão. “A gente tende a aceitar rapidamente a resposta que vem desse nosso sistema intuitivo. Mas ele está sujeito a vieses e também a interferências que podem induzir ao erro”, declarou.

A segunda modalidade de pensamento está relacionada a um sistema mais lento, deliberado, que exige esforço e atenção, é totalmente consciente e gera comparações entre ações, caminhos e alternativas. “Quando recebemos resposta desse sistema, ficamos inseguros”, complementou Diehl com a intenção de mostrar que se manter o tempo inteiro raciocinando dentro da segunda modalidade nos deixa cansados.

Em sua apresentação, Gordan concordou ser extremamente necessário estudar o raciocínio clínico. “Das 337 faculdades de medicina em funcionamento no Brasil, nem 10% discutem o raciocínio clínico de forma estruturada”, apontou. Segundo o especialista, é papel de entidades como CFM, a Associação Brasileira de Educação Médica (Abem) e a Associação Médica Brasileira (AMB), além das universidades, colocar o tema em discussão.

Trazendo estudos que embasam estatísticas bastante interessantes sobre erros diagnósticos, Zambon destacou que nos Estados Unidos a estimativa é de que 74 mil pessoas morram ao ano em decorrência de assistências inadequadas diante de erros diagnósticos. “A literatura chega a dizer que todo cidadão viverá a experiência de enfrentar um erro de diagnóstico na vida”, disse.

Para ele, esses estudos nos mostram que o debate é apenas a ponta do iceberg. “Temos uma crise que está fora da superfície e, portanto, fora do nosso olhar”, pontuou. Porém é preciso entender que não há apenas um responsável pelo cenário. “O processo de diagnóstico é complexo e cheio de pontos de falhas. O médico é agente central, mas depende de uma série de tarefas, tecnologias, formação e questões organizacionais”, disse.

O bate-papo completo está disponível no canal do YouTube do CFM. Clique AQUI para acessar.

Percepções do setor de saúde a respeito das Consultas Públicas 911 e 912

Diante da publicação das Consultas Públicas (CPs) 911 e 912, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que seguem abertas até 23 de outubro e tratam, respectivamente, da regulação de farmácias e drogarias, bem como das diretrizes que regem as atividades dos laboratórios clínicos, várias entidades da saúde uniram-se para analisar essas propostas e apresentar as principais percepções acerca do tema.

O setor de laboratórios clínicos há muitos anos vem sinalizando à Anvisa a necessidade de incluir, em sua agenda regulatória, a revisão da RDC 302, principal norma que rege as atividades desses estabelecimentos. Ao longo do tempo, a norma contribuiu com melhorias para que a regulação controlasse com rigidez os ambientes e as boas práticas laboratoriais, em conformidade com a nova realidade tecnológica.

No entanto, para surpresa do setor, a CP 912 apresentada em consulta pública não considera muitos desses apontamentos. Além disso, traz propostas de terminologias não observadas em normas internacionais que regem o setor, colocando em risco a segurança dos pacientes. Paralelamente, a CP 911 – que revisa a RDC 44 sobre regulação de serviços farmacêuticos – considera que qualquer unidade de saúde pode aferir parâmetros fisiológicos e bioquímicos por meio de dispositivos de apoio ao diagnóstico, sem definir quais testes podem ser realizados e quais práticas devem ser respeitadas fora do ambiente laboratorial.

Diante desse cenário, o conglomerado de entidades que questionam as propostas apresentadas em consultas públicas sugere a adoção de posicionamento embasado nas mensagens-chave elencadas a seguir, a serem reforçadas pelos porta-vozes da entidade e de empresas associadas em todas as interações e oportunidades que tenham com imprensa, formadores de opinião, influenciadores, comunidade médica, órgãos reguladores, legisladores, governos e a sociedade em geral.

  1. Considerando que cerca de 70% das decisões médicas se baseiam em resultados de exames laboratoriais, a confiabilidade desses exames é fundamental para garantir diagnósticos precoces, precisos e decisões corretas sobre definição e monitoramento de tratamentos. Liberar a realização de exames fora de ambientes altamente controlados, como os observados nos laboratórios clínicos, coloca a segurança dos pacientes em risco, visto que, sem definição clara de como serão feitos os controles de qualidade, torna-se inviável garantir a confiabilidade e utilidade dos resultados desses exames, sobretudo em casos que exigem intervenção médica imediata.
  • As propostas das CPs 911 e 912 não consideram os apontamentos de melhorias feitos nos últimos anos pelos laboratórios clínicos brasileiros que estão em consonância com normas internacionalmente aceitas. Ademais, são mencionadas nos textos das CPs terminologias incompatíveis com as utilizadas pela Anvisa, assim como pelas normas nacionais e internacionais; e previsões igualmente incompatíveis com as atividades dos laboratórios clínicos que, desconectadas da realidade, prejudicam a prestação de serviços laboratoriais e afetam a segurança dos pacientes.
  • As propostas desprestigiam o setor e desrespeitam os profissionais que se capacitaram, especializaram, treinaram e adquiriram expertise nas práticas laboratoriais ao permitir que qualquer profissional lotado em unidade de saúde seja equiparado a um profissional de laboratório clínico.
  • A CP 912 permite a oferta de serviços em locais sem nenhum critério mínimo de infraestrutura, enquanto os laboratórios clínicos seguem rígidas recomendações vigentes para assegurar a mitigação de riscos, a segurança sanitária e a qualidade.
  • A CP 911 não define os limites da assistência farmacêutica, ou seja, não estabelece critérios e classificações para definição de complexidade de quais exames poderiam ser realizados fora do ambiente laboratorial. Os point-of-care testing (POCT), também conhecidos como testes laboratoriais remotos (TLR), podem incluir exames de variadas complexidades, e outros países, a exemplo dos Estados Unidos, apenas autorizam a realização de POCT classificados como testes de baixa complexidade em farmácias e drogarias, exigindo inspeções periódicas quando são ofertados exames de média e alta complexidade.

Reforçamos que as CPs 911 e 912 seguem abertas até 23 de outubro. A situação traz riscos para o paciente e para o funcionamento dos laboratórios clínicos, o que torna imprescindíveis a reflexão sobre o tema e a repercussão dele.

Encontro virtual debate dificuldades e oportunidades de melhorias da cadeia de suprimentos em saúde

Quinto encontro do #DiálogosDigitais Abramed contou com especialistas relatando entraves da pandemia e lições para o futuro

08 de outubro de 2020

O setor de suprimentos em saúde foi um dos primeiros impactados pela pandemia de COVID-19. Assim que o novo coronavírus se espalhou pelo mundo, o crescimento exponencial da demanda por equipamentos de proteção individual (EPIs), respiradores e outros tantos insumos – entre eles os laboratoriais – somado à problemas de logística gerou uma disputa internacional e uma defasagem generalizada. O que a crise deixa de aprendizado para o futuro da cadeia de suprimentos e quais os atuais entraves para melhorias nesse fluxo foram debatidos no quinto encontro da série #DiálogosDigitais Abramed, realizado na noite de 6 de outubro.

Moderando o bate-papo, Guilherme Collares, membro do Conselho Fiscal da Abramed e diretor de Operações do Hermes Pardini, disse ter vivenciado muitos dos entraves trazidos pela COVID-19 em sua atuação no ambiente laboratorial. “Enfrentei todas essas dificuldades e assisti a situação melhorar ao longo do tempo se transformando em uma oportunidade para aprendermos e repensarmos a forma como fazemos nossas negociações”, comentou ao apresentar Antonio Fabron Jr, CEO da DB Diagnósticos do Brasil; Malu Sevieri, diretora-executiva da Medical Fair Brasil; Sergio Rocha, presidente da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI); e Thiago Liska, diretor-executivo da Diagnóstica Cremer, como os palestrantes da noite.

Abrindo espaço para que os participantes comentassem como a COVID-19 impactou a medicina diagnóstica, Collares convidou Fabron a contar mais sobre sua experiência na DB Diagnósticos do Brasil. Segundo o executivo, foram diversas as dificuldades, mas uma gestão eficiente conseguiu contorná-las para que o paciente final não fosse prejudicado. “Com relação à logística, tivemos de reestruturar toda nossa malha aérea, mas como descentralizamos nossas unidades, o impacto não foi tão grande”, comentou Fabron.

Ainda sobre a questão logística, Rocha mencionou o que percebeu junto aos associados da ABRAIDI. “Hoje até 80% do que importamos vêm dos EUA. Com o corte dos voos internacionais, o começo da pandemia foi muito difícil. Para reduzir esse impacto, investimos na interlocução com o poder público fazendo reuniões com o Ministério da Saúde, o Ministério da Economia e até mesmo com a ANAC para buscar alternativas”, declarou. Esse diálogo com o governo e entidades que atuam diretamente com a logística do Brasil foi feito, inclusive, em conjunto com a Abramed.

Dependência de importações

A dependência brasileira de insumos importados foi um dos temas abordados ao longo do debate. “Não temos a missão de suprir 100% das nossas necessidades internas, mas não podemos ser totalmente dependentes de importações senão continuaremos suscetíveis”, comentou Liska.

O setor de saúde, de forma generalizada, está em plena evidência, na opinião de Rocha. Para o executivo, é hora de agir. “Para isso precisamos parar de olhar para nosso próprio umbigo e nos organizarmos, atuarmos em conjunto. Não podemos deixar de lado tudo o que vem ocorrendo nos últimos sete meses. Nossa educação tem de mudar. Ou a gente evolui tecnologicamente ou continuaremos importando mais de 90% do que utilizamos”, disse.

Ampliar a produção interna é um desafio. “Precisamos criar uma situação econômica que favoreça as empresas nacionais e as multinacionais com fabricação em nosso território para que produzam mais dos insumos que precisamos. Assim poderemos enfrentar novas pandemias e novos cenários desfavoráveis com mais serenidade”, encerrou Fabron.

Impacto na relação entre comprador e vendedor

Criar bons laços com os fornecedores foi a alternativa encontrada pela DB Diagnósticos do Brasil para evitar prejuízos em seus estoques. “Com relação aos EPIs, fomos afetados, mas graças às entregas programadas e ao bom relacionamento com nossos fornecedores, o impacto foi assimilável”, disse Fabron.

Para falar sobre como o distanciamento social imposto pela COVID-19 impactou essas relações, Malu Sevieri, que comanda a Medical Fair Brasil, fez seus comentários. O evento, que é a versão brasileira da Feira MEDICA da Alemanha, foi adiado para maio de 2021 devido à pandemia, mas seguiu auxiliando seus parceiros. “Atendemos clientes que nos ligavam para pedir ajuda. Vimos fábricas que fecharam por 90 dias pois não tinham motivos para produzir, já que toda a compra estava voltada à COVID-19 ou às emergências. Agora percebemos que com a volta das cirurgias eletivas, a demanda está retomando aos poucos”, pontuou.

Dando o parecer da indústria, Liska relatou situações que levaram a um aumento de custos nem sempre bem compreendido pelos clientes, como por exemplo o aumento do valor do frete internacional. “No curto prazo temos que torcer para aumentar a oferta e para que os fabricantes consigam ajustar à demanda fazendo o preço voltar à normalidade. E, no médio e longo prazos, investir em conversas estruturadas com poder público e a iniciativa privada viabilizando maior produção local”, avaliou.

União para evolução

Falta confiança entre os elos da complexa cadeia de saúde na opinião de Liska. “A gente consegue ter a tecnologia e fazê-la funcionar. Mas vejo pouca confiança entre os entes e baixo apetite para a interoperabilidade, conectividade e eficiência da cadeia. Precisamos nos reunir com maturidade, nos despir de nossas agendas individuais, e pensarmos, juntos, como construir um mercado mais integrado, mais eficiente e menos custoso”, completou.

Malu trouxe bons exemplos de como a tecnologia ajuda. “Existem, hoje, startups dedicadas a compras consolidadas. Um hospital ou mesmo um laboratório clínico compra, por exemplo, de cinco fornecedores distintos. Ele pode consolidar tudo isso em uma mesma carga. Precisa, apenas de planejamento”, explicou. Além disso, a executiva mencionou que vários compradores podem se unir para fazer um único pedido, conseguindo preços mais competitivos e até mesmo fretes mais baratos.

Para que esse diálogo se concretize, são diversos os caminhos possíveis. Na opinião de Rocha, a criação de grupos de trabalho é um deles. “Criar grupos com pessoas da área que estão envolvidas com seus setores e têm vontade de trabalhar, deixando a política de lado, é ótimo”, pontuou.

Legado da pandemia

“O que a COVID-19 deixa de legado? Quais aprendizados devemos levar”, questionou Collares.

Para Liska, a visão de coletivo foi o ponto de maior aprendizado. “Começamos a entender que temos uma responsabilidade coletiva”, disse. Rocha concordou. “A coletividade está acima da individualidade”. Já para Malu, o principal destaque está na capacidade de adaptação do povo brasileiro. “Estamos de parabéns. Reagimos rápido”, disse. Encerrando as ponderações sobre o legado, Fabron mencionou a tecnologia: “temos que investir pesado na digitalização”.

Para fechar o bate-papo, Priscilla Franklim Martins, diretora-executiva da Abramed, trouxe uma pergunta do presidente do Conselho de Administração da entidade, Wilson Shcolnik: “vivemos uma situação inédita onde todos se empenharam para manter o abastecimento do mercado. Mas olhando para frente, teremos produção? Vamos conseguir fazer a distribuição, garantindo exames e cirurgias?”.

Com a experiência da DB Diagnósticos do Brasil, Fabron disse que não só estão retomando a produção como estão produzindo 15% a mais do que produziam antes da crise. Collares também aposta em melhorias, em uma produção mais veloz e segura. Rocha e Liska também são otimistas quanto a entrega. Já Malu tem suas dúvidas e acredita que o equilíbrio deve demorar um pouco mais para ocorrer.

O bate-papo completo deste episódio está disponível no canal do YouTube da Abramed (clique AQUI para assistir) e a próxima edição está marcada para 20 de outubro e trará, como tema principal, “Cuidado Inteligente”.

COVID-19 – Congresso debate visão das entidades médicas e riscos dos laboratórios clínicos durante a crise

1º Congresso Virtual da SBPC/ML contou com participação de Wilson Shcolnik, da Abramed, em duas mesas redondas

05 de outubro de 2020

Entre 28 e 30 de setembro, o presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), Wilson Shcolnik, participou de duas mesas redondas que compuseram a ampla agenda de debates do 1º Congresso Virtual da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML). Na segunda-feira (28), a discussão tratou da visão das entidades médicas sobre a crise de COVID-19. Já na quarta-feira (30), o assunto se voltou aos riscos enfrentados pelos laboratórios clínicos durante a pandemia.

Moderado por Daniel Kanaa Faria, médico patologista da DASA e membro da comissão do Congresso, o debate da segunda-feira contou com apresentações de Shcolnik e, também, de Gustavo Campana, vice-presidente da SBPC/ML; Lincoln Lopes Ferreira, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB) e Natasha Slhessarenko, conselheira titular do estado do Mato Grosso do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Em sua apresentação, Natasha reforçou uma pesquisa realizada pelo CFM sobre a percepção dos cidadãos quanto a atuação médica nacional no contexto da pandemia. “A maioria da população aprova o desempenho do médico e a qualidade do atendimento, visto que tivemos mais de 60% de avaliações entre ótimo e bom”, disse.

Segundo a conselheira, essa percepção reflete o empenho da classe profissional no enfrentamento, já que de acordo com dados por ela apresentados, o país conta com mais de 422 mil médicos aptos a atuar no combate (com menos de 60 anos de idade), o que seria “uma proporção excelente”. “De janeiro a maio passamos a contar com quase 10 mil novos médicos que puderam antecipar suas formaturas. Assim, a razão de médicos no país chegou a 2,49 profissionais por mil habitantes, o que é mais do que na Coreia, na Polônia, no Japão e apenas um pouco abaixo do Canadá e dos EUA”, explicou.

Representando a SBPC/ML, Campanha parabenizou a medicina diagnóstica nacional relembrando que os laboratórios privados agiram com muita rapidez assim que o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus foi confirmado no país. “Tenho orgulho em dizer que no Brasil em fevereiro nós já tínhamos o teste de RT-PCR disponível”, disse.

Se havia médicos suficientes para atender à toda a população exposta ao novo coronavírus e o país conseguiu rapidamente desenvolver soluções diagnósticas – por mais que o acesso tenha sido um pouco complicado por outras razões –, o sistema poderia não estar tão preparado. Foi esse um dos temas abordados por Ferreira na apresentação. “Nossa preocupação inicial foi com o possível colapso do sistema, visto que as demais enfermidades seguiriam seu curso normal e precisaríamos continuar atendendo a infartos, embolias, neoplasias e traumas”, enfatizou.

Com o sistema resistindo, visto que felizmente o Brasil não assistiu às cenas tristes vistas na Europa de cidadãos sem atendimento médico devido à lotação máxima dos hospitais ter sido atingida em muitas cidades, foi preciso focar no setor de diagnóstico, principalmente depois da Organização Mundial da Saúde (OMS) ter declarado que o caminho para o combate à COVID-19 era “testar, testar e testar”.

Entrando nesse assunto, Shcolnik relembrou o sucesso do projeto de validação de testes para COVID-19, uma iniciativa da Abramed em parceria com a SBPC/ML, a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL) e a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC). “Foram utilizados soros de pacientes infectados colhidos em diferentes períodos da doença e tivemos mais de 10 mil amostrar analisadas”, comentou.

Na quarta-feira, para tratar sobre os riscos, foram convidados profissionais do setor jurídico em atuação na área de medicina diagnóstica. Dessa vez, Shcolnik coordenou o bate-papo que recebeu Ana Paula Aleixo Schimiloski, supervisora jurídico e compliance da DB Diagnósticos do Brasil; Gustavo Rola, especialista em direito do trabalho e procurador em Belém (PA); Juliana Micheletti, coordenadora de Contratos do Grupo Hermes Pardini; e Walquiria Nakano Eloy Favero, superintendente jurídico, compliance e regulatório da DASA.

Foram tratados diversos assuntos inerentes à insegurança jurídica que se instalou diante de um cenário de incertezas causado por um patógeno desconhecido. Rola mencionou as medidas provisórias 927 e 936, que impactaram diretamente as empresas ao propor mudanças nas relações de trabalho como, por exemplo, alternativas para a manutenção do emprego e possibilidades de suspensão ou redução do contrato de trabalho.

Já Walquiria, com base e sua experiência na DASA, falou sobre as mudanças operacionais que os laboratórios tiveram que instituir para que estivessem preparados para os atendimentos. Entre as mudanças elencadas pela especialista relativas à segurança do paciente e controle epidemiológico estavam a medição de temperatura, o uso de máscaras pelos pacientes e o distanciamento social que obrigou as unidades a controlar o acesso. “Caso os laboratórios não respeitassem essas regras estavam sujeitos à fiscalização da vigilância sanitária e multas”, explicou.

Com todas as mudanças que ocorreram nos últimos meses, as empresas precisam estar atentas, pois o cenário é de oscilação. Para Juliana, as orientações têm sido dinâmicas, visto que seguem as recomendações da OMS e dos demais órgãos de saúde nacionais. “Isso também gera um certo conflito, visto que estados e municípios podem legislar de forma diferente”, pontuou.

Assim, os departamentos jurídicos tiveram de ficar 100% em estado de alerta acompanhando o cenário global e o que vinha acontecendo “dentro de casa”. Foi o que mencionou Ana Paula. “Em um curto período tivemos uma imensidão de medidas provisórias na área trabalhista, um excesso de portarias que precisaram – e ainda precisam – de análise contínua”, disse.

Ao abrir a mesa redonda para o debate, Shcolnik levou aos palestrantes algumas das perguntas do público, entre elas como explicar ao paciente que nem sempre ele terá um resultado conclusivo do teste de COVID-19. “Muitas vezes o paciente não entende o resultado inconclusivo. Ele quer receber uma informação precisa. Porém sabemos que o momento da coleta da amostra tem relação com o resultado obtido e que os testes sorológicos têm variação ainda maior. Vocês tiveram queixas ou problemas nesses moldes? Como proceder?”, questionou.

Para Walquiria, que confirmou que na DASA ocorreram esses casos, um dos caminhos está na transparência com o paciente e, para minimizar a frustração, oferecer um voucher para que ele realize um novo teste. “Possibilitar uma liberação ou um desconto para a realização de um segundo exame confirmatório é uma atitude bem-vinda e que preserva a imagem da rede”, disse.

Além dessas duas mesas redondas, o 1º Congresso Virtual da SBPC/ML contou com inúmeras outras palestras. Foram sete dias de debates, workshops e conferências, realizado entre os dias 25 de setembro e 2 de outubro de 2020.

Abramed fala sobre impactos da pandemia e novos pleitos da medicina diagnóstica

Encontro virtual promovido pelo Banco Citi Brasil recebeu Priscilla Franklim Martins, diretora-executiva da Associação

29 de setembro de 2020

Ultrapassando as barreiras do setor de saúde, Priscilla Franklim Martins, diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) participou, dia 29 de setembro, de uma live do Banco Citi Brasil sobre a atual situação e as perspectivas do setor de medicina diagnóstica do país. Mediado por Tobias Stingelin e Leandro Bastos, respectivamente diretor e analista de research para Varejo, Saúde e Educação, o bate-papo trouxe detalhes sobre os impactos da pandemia e os atuais pleitos desse segmento essencial da saúde.

Depois de apresentar a Abramed e falar sobre a representatividade da Associação no mercado de saúde brasileiro, enfatizando que os associados são responsáveis pela realização de 56% de todos os exames feitos na saúde suplementar, Priscilla teve a oportunidade de falar sobre a evolução da medicina diagnóstica diante da pandemia de COVID-19.

“O setor de diagnósticos, que é prestador de serviços assim como os hospitais, foi muito impactado na pandemia. Os pacientes desapareceram das unidades e a queda no atendimento de laboratórios e clínicas chegou a 70%”, comentou a executiva mencionando que a rede privada de laboratórios foi muito eficiente e, logo que o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus foi confirmado no Brasil, saiu em disparada para desenvolver os exames e, assim, poder testar a população o mais rapidamente possível.

Claro que uma pandemia dessas proporções também traz desafios diários para as equipes de saúde. Segundo Priscilla, um dos principais foi a disputa internacional por insumos. “Somos um setor dependente da indústria estrangeira e competimos com muitos outros países”, disse. No que diz respeito à importação, Priscilla comemorou o fato de que se por um lado tínhamos dificuldade em obter esses produtos do mercado externo, por outro o setor conseguiu duas vitórias junto Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): liberação dos insumos em apenas 24 horas (antes levava 10 dias), e isenção fiscal em mais de 200 itens.

Outro desafio mencionado por Priscilla durante o encontro virtual foi a interrupção da malha aérea e de problemas relativos ao transporte terrestre, o que colocou todo o setor em contato direto com o Ministério da Infraestrutura para minimizar os entraves, o que foi essencial.

Vencidos muitos empecilhos, na opinião da diretora da Abramed, houve uma evolução natural e gradual do combate à crise e, hoje, a situação soa praticamente normalizada. “O setor já segue rígidas regulações focadas na segurança do paciente. Passamos a comunicar as pessoas de que elas deveriam retomar seus cuidados com a saúde. Em junho começamos a ver um reaquecimento e hoje ainda não chegamos ao mesmo nível pré-pandemia, mas estamos muito perto disso”, declarou.

Como em toda crise, a pandemia de COVID-19 despertou a criatividade das empresas. “O que o setor tem feito para se reinventar”, questionou Stingelin. Priscilla mencionou a ampliação do atendimento na residência, com coletas domiciliares, e a vasta implementação do drive-thru, dando segurança e conforto para os pacientes. Paralelamente, mencionou uma certa competitividade prejudicial que fez com que houvesse muita irresponsabilidade na realização de testes em locais totalmente inapropriados. “Vimos testes para COVID-19 sendo feitos em postos de gasolina, conduzidos por profissionais que nem mesmo a máscara sabiam utilizar corretamente”, declarou. “Qual a procedência desses testes? Eles tiveram sua qualidade comprovada”, complementou.

Interessado em entender as lições que uma pandemia infecciosa como a do novo coronavírus gera em um setor tão importante da economia, Stingelin perguntou: “qual o grande aprendizado que veio para ficar e mudará a dinâmica do setor daqui para frente?”. Para Priscilla, a resposta está na telemedicina e na ampliação do diálogo entre todos os atores da complexa cadeia de saúde. “O telediagnóstico já existe há dez anos, mas a telessaúde como um todo, que a gente já desejava, foi acelerada e é um caminho sem volta. Assim como o diálogo que melhorou muito. Vimos muitas decisões serem tomadas a várias mãos e uma melhor comunicação com o governo”, apontou.

Novos pleitos do setor

Bastos questionou Priscilla sobre qual a atual agenda da medicina diagnóstica. Foi quando a executiva elencou os principais pleitos do segmento, começando pelas análises das Consultas Públicas 911 e 912 – que revisam a RDC 44, que regula as farmácias, e a RDC 302, responsável pelas diretrizes de funcionamento dos laboratórios clínicos – legislações que estão em andamento e visam a liberação de exames em farmácias e drogarias.

“Essa é uma discussão ampla, complexa, com prós e contras. Nosso setor entende que esse é sim um caminho, mas que não pode haver dois pesos e duas medidas. Caso as farmácias passem a realizar exames, deve haver regulação exatamente igual à que há para os laboratórios, até porque são justamente esses rígidos protocolos que garantem a segurança dos pacientes”, explicou.

Na sequência, Priscilla apresentou qual a percepção do setor quanto à atual Reforma Tributária que corre no Congresso Nacional, lembrando que laboratórios e clínicas de imagem apoiam a desburocratização, desde que haja neutralidade e que a essencialidade da saúde – bem como da educação – seja reconhecida. “As propostas que estamos vendo gerarão uma superoneração do sistema de saúde. Na medicina diagnóstica o aumento da carga tributária pode ultrapassar 40%. As empresas do setor, que não conseguirão arcar com suas folhas de pagamento, vão demitir e fechar; os beneficiários de planos de saúde vão ter dificuldade em manter seus convênios, migrando para o SUS; e o acesso ficará restrito independentemente da classe social das pessoas. É um problema que afeta todos”, explicou.

A executiva aproveitou a oportunidade para mencionar a campanha digital #aSaudeNaoPodePagarEssaConta e a aliança Saúde e Educação, formada entre os dois setores, para lutar pelo reconhecimento de sua essencialidade.

Oferecendo ambiente seguro e tecnológico, é possível atender todos os pacientes com confiança

Confira a entrevista com Carlos Figueiredo, do HCor, sobre telemedicina, COVID-19 e a importância de um setor unido e diverso

28 de setembro de 2020

É notório que a pandemia de COVID-19 impactou todos os setores e mudou muitos dos processos há anos consolidados. Com a tecnologia agregada ao DNA das corporações, a adaptação foi menos densa. Para Carlos Figueiredo, superintendente de Negócios e Operações do HCor, a telemedicina se tornou um dos pilares de inovação da instituição.

Paralelamente a esse avanço, que já fazia parte da realidade do hospital, mas foi alavancado pelo novo coronavírus, serviços de saúde tiveram de se movimentar a fim de criar um ambiente seguro para receber tanto pacientes com COVID-19 quanto pacientes que precisavam de consultas, exames e atendimentos para outras tantas doenças que nunca deixaram de se manifestar. E criar uma relação de confiança foi o que fez o HCor conseguir trazer esses pacientes de volta ao estabelecimento.

Nessa entrevista exclusiva para o Abramed em Foco, Figueiredo também fala sobre a importância de um setor unido e diverso para que a troca de experiências seja proveitosa.

Confira a entrevista completa.

Abramed em Foco – Em 2019, a Central de Telemedicina do HCor – que emite laudos à distância de exames de eletrocardiograma (ECG) para todo o país – completou 10 anos atingindo a marca de 1 milhão de laudos. O que a telemedicina representa para a instituição?

Carlos Figueiredo – Desde que começamos a atender aos usuários do SAMU através do Tele-Eletrocardiograma, muita coisa mudou na Telemedicina. Naquela época, o principal objetivo era levar atendimento qualificado a regiões onde não havia disponibilidade de profissionais e equipamentos para atender um caso de emergência cardiológica. Um cidadão de um município longínquo que sofria uma dor no peito e era atendido pela equipe do SAMU, realizando um eletrocardiograma em tempo real, com laudo feito aqui no HCor, por uma equipe médica altamente qualificada, com recomendação da melhor conduta de continuidade do cuidado, usando os protocolos mais atuais. Isso foi a diferença entre a vida e a morte de muitas pessoas. Atualmente, oferecemos outras modalidades de atendimento, como segunda opinião médica e consultas. A telemedicina é um dos pilares de inovação do HCor. É um caminho que a pandemia da Covid-19 consolidou.

Abramed em Foco – Há mais de um ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamentou o atendimento online no Brasil e, com a pandemia de COVID-19, passamos a integrar essa realidade em nossa rotina. Quais ainda são os grandes desafios da telemedicina no país?

Carlos Figueiredo – Vejo a telemedicina como uma grande oportunidade de acesso, como no caso do Tele-Eletrocardiograma. Sabemos que há diversas regiões do país que são carentes de profissionais e equipamentos. Mas para a telemedicina disponibilizar todo o potencial que ela pode nos proporcionar, precisamos de infraestrutura de telecomunicações. Há lugares onde não temos banda larga de qualidade que nos permita fazer um atendimento em tempo real, seja para avaliar e laudar exames de imagens ou seja para uma avaliação de segunda opinião entre dois médicos. Outro desafio importante é cuidarmos para que não percamos o contato, o toque e tudo que compreende o processo do diagnóstico do paciente. De qualquer forma, esse é um aspecto que a tecnologia tem evoluído muito rapidamente. Antes pensávamos que a tecnologia iria nos afastar, hoje estamos mais próximos. Mesmo de longe.

Abramed em Foco – O Centro de Diagnósticos por Imagem HCor disponibiliza serviços como tomografia computadorizada, ressonância magnética, medicina nuclear, mamografia, MAPA, ecocardiograma e serviços de laboratório, entre outros. Durante a pandemia do novo coronavírus, muitos brasileiros estão deixando de realizar exames e de se prevenirem de outras doenças. Esses exames tiveram queda no número de realizações no CD HCor? Como a instituição está lidando com esse cenário?

Carlos Figueiredo – Assim como todas as instituições, precisamos construir fluxos específicos para pacientes Covid-19 e pacientes que denominamos do HCor+Seguro – ou seja, pacientes sem sintomas clínicos da doença. No primeiro momento, muitos pacientes, mesmo precisando realizar exames e outros procedimentos, deixaram de frequentar as instituições de saúde por medo de contrair a doença. Mas conseguimos construir fluxos seguros, de isolamento e distanciamento social, que transmitiram aos pacientes a segurança necessária para retomarem seus cuidados. Atualmente, conseguimos atender a todos, seja no fluxo da síndrome gripal ou no HCor+Seguro, com todas as regras e protocolos de proteção e segurança necessários.

Abramed em Foco – O Centro de Diagnósticos por Imagem do HCor reúne tecnologias avançadas e equipamentos de última geração. A inovação na esfera hospitalar é essencial, sobretudo para manter a competitividade da instituição no mercado. Em seu ponto de vista, o fortalecimento do setor está diretamente atrelado à inovação tecnológica?

Carlos Figueiredo – Diria que inovação e tecnologia são pilares do fortalecimento do setor. Com a evolução, temos conseguido oferecer uma gama cada vez maior de exames, com precisão e confiabilidade, embora o acesso a esses serviços ainda possa melhorar. Não é incomum um paciente precisar de um determinado exame e não encontrar locais onde realizá-lo. E, quando encontra, ou precisa se deslocar um longo tempo ou a disponibilidade de agenda não é imediata. O acesso é algo que ainda precisa evoluir em nosso sistema de saúde.

Abramed em Foco – Quais lições a Saúde pode aprender com a pandemia do novo coronavírus, especialmente a área de medicina diagnóstica?

Carlos Figueiredo – Diria que nossa maior lição foi entender que a velocidade de adaptação de processos e adoção de protocolos de segurança fazem a diferença. Foi necessário conquistar a confiança de nossos pacientes, através de medidas e ações concretas. Lembrem-se que, felizmente, os pacientes são bem informados e exigentes, conhecem os riscos da doença e sabem quando uma instituição de saúde está oferecendo medidas adequadas de proteção. Outro aspecto fundamental foi a capacidade de nossas equipes de lidarem com esses novos fluxos distintos. Como sempre, pessoas preparadas e engajadas são a receita do sucesso.

Abramed em Foco – Qual a importância de uma associação como a Abramed congregar serviços diversos dentro da área da medicina diagnóstica, incorporando desde hospitais, grandes grupos laboratoriais e até mesmo as pequenas empresas que atuam no segmento?

Carlos Figueiredo – A diversidade de experiências é fundamental. Aprendemos umas com as outras, através de compartilhamento de melhores práticas. E não importa o tamanho da organização, os problemas atingem a todos. A Abramed é um catalisador de processos. Isso faz com que o setor de medicina diagnóstica como um todo evolua. Ao mesmo tempo, a cooperação na troca de melhores práticas estimula a competição na oferta de melhores serviços aos nossos pacientes. É o que chamamos de coopetição. Cooperamos nas melhores práticas e competimos na conquista dos clientes através dos melhores serviços. No resultado final, ganham os pacientes.

Abramed em Foco – Este ano, a Abramed comemora 10 anos. Como associado, o que esperar da Associação para a próxima década?

Carlos Figueiredo – A Abramed já se consolidou como entidade representativa do segmento e como fórum de compartilhamento de melhores práticas, através dos diversos comitês e grupos técnicos. Espero que ela cresça no número de associados, para que, cada vez mais, outras organizações possam trilhar esses caminhos. Ganha o setor de medicina diagnóstica, ganha o setor saúde como um todo e, acima de tudo, ganham os nossos pacientes.

Expectativa x Realidade – Quais os pontos de discordância da CP 912?

Encontro virtual promovido pela LabRede coloca em debate a nova consulta pública proposta pela Anvisa que considera a realização de exames fora dos ambientes laboratoriais

25 de setembro de 2020

Na noite de 24 de setembro, três especialistas da área laboratorial estiveram reunidos em um debate virtual promovido pela LabRede para discutir a Consulta Pública 912, que envolve a revisão da RDC 302 e impacta diretamente o setor de medicina diagnóstica. Mediada por Roberto Joji Kimura, biomédico e CEO da Sancet Medicina Diagnóstica; a conversa recebeu Luisane Vieira, médica patologista clínica, auditora e consultora em gestão de qualidade; e Wilson Shcolnik, médico patologista clínico e presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).

O webinar traçou um paralelo entre a expectativa do setor quanto à revisão da RDC 302 e a realidade que está se construindo com base na proposta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Foram colocados todos os principais pontos de discordância do segmento quanto à essa legislação.

Quando o setor analisou o texto da CP 912, na opinião de Shcolnik, o primeiro sentimento foi de espanto e preocupação, visto que foram muitas as solicitações para que a revisão da RDC 302 entrasse na agenda, mas o texto apresentado para a consulta pública deixa de considerar muitos dos apontamentos dos laboratórios clínicos. Porém, na visão do presidente da Abramed, vivemos um momento oportuno para que todos estejam unidos em prol de uma única batalha.

“Esse cenário criou uma oportunidade para que as entidades se aglutinassem em torno desse tema. É um momento importante para a história das análises clínicas”, enfatizou ao mencionar que uma recente reunião com a Anvisa para tratar especificamente desse assunto contou com a participação do Conselho Federal de Medicina (CFM), Conselho Federal de Farmácia (CFF), Conselho Federal de Biomedicina (CFBM), Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), Confederação Nacional da Saúde (CNSaúde), Associação Brasileira de Biomedicina (ABBM), além da Abramed e de vários sindicatos de várias regiões do país.

Um dos primeiros pontos de estranhamento apresentados no debate diz respeito a mudanças diretas no cenário de exames laboratoriais. “A impressão que tivemos foi que há um movimento para realização de exames laboratoriais em configurações diferentes das atuais, uma ampliação para que esses exames possam ser realizados por outras entidades como se análise clínica fosse uma atividade que pode ser feita por qualquer pessoa e em qualquer equipamento”, comentou Luisane.

Concordando com essa percepção, Shcolnik enfatizou a relevância das análises clínicas, atividade responsável por exames preditivos, confirmação de diagnósticos, definição e monitoramento de tratamentos e, inclusive, pela medicina personalizada, um grande avanço da saúde que depende dos resultados laboratoriais para ser constituída. “Nos sentimos desprestigiados diante dessa nova proposta”, apontou.

Testes Laboratoriais Remotos – TLR

Os Testes Laboratoriais Remotos (TLR), também conhecidos por sua terminologia em inglês Point-of-Care (POCT), existem há décadas no mercado e já eram mencionados na RDC 302. Com essa nova consulta pública, o assunto volta ao debate. “Nós que trabalhamos em laboratórios clínicos sabemos das virtudes e dos problemas desses testes, então a questão mercadológica não nos assusta”, explicou Shcolnik. Na visão do executivo, o problema está na forma como esses testes são realizados. “Temos visto exames sendo feitos em farmácias, mas também em outros locais como postos de gasolina, consultórios odontológicos e até pet shops. Será que todo mundo tem capacitação para realizar um exame, por mais simples que seja o dispositivo?”, questionou lembrando que o setor de laboratórios é um setor regulado com muita rigidez e que deve permanecer assim para que os interesses sanitários e populacionais sejam plenamente atendidos.

Para os especialistas, um dos pontos mais importantes e que precisam ser questionados está em quais exames serão permitidos fora do ambiente laboratorial. “Uma tira reagente de urina, uma pesquisa de sangue oculto nas fezes, uma glicemia em sangue capilar, são exemplos com equipamentos e sistemas de operação simples onde o risco é considerado tolerável para que seja executado sem toda a regulamentação que o laboratório clínico deve atender”, disse Luisane antes de explicar por qual motivo os TLRs são considerados complexos.

“Podemos fazer um teste para dengue em uma campanha de saúde de forma remota e podemos fazer dentro do laboratório. É o mesmo teste. O que caracteriza o TLR é que o resultado será entregue sem passar por toda a cadeia que o laboratório executa antes da geração do laudo. O resultado é imediato e por isso é de alto risco”, explicou.

Complementando esse raciocínio, Shcolnik, que é médico patologista clínico, questionou até onde a Anvisa pretende liberalizar os testes. “Hoje temos TLR até para biologia molecular e metodologias mais complexas. É desejo da Agência liberar todos os tipos de testes fora do ambiente laboratorial? Será que a população estará segura para receber resultados com essa complexidade?”, questionou.

Segundo o executivo, a própria consulta pública conta com documentos e estudos internacionais que mostram que os outros países impõem limites claros. “A Inglaterra permite a realização apenas de glicemia, colesterol, gripe e hepatites A e B nas farmácias. Na Escócia, o documento diz que farmácias podem realizar apenas testes de gravidez e de HIV. Já a França autoriza a realização desses testes fora dos laboratórios para glicemia, influenza e estreptococos do grupo A”, apontou.

O que está por trás da limitação? São criadas categorias para os testes remotos com base em diversos critérios como conhecimento, treinamento, experiência; preparação de materiais e de reagentes; e características dos espaços operacionais. Além disso, a liberação dos exames também obedece a critérios como calibração, controle de qualidade, ensaios de proficiência, resolução de problemas comuns, manutenção dos equipamentos, interpretação e julgamento de resultados. “Tanto o local quanto a pessoa que vai realizar esses testes fora do ambiente laboratorial devem atender a todos esses requisitos que servem para categorizar os exames”, completou Shcolnik.

Programas de ensaio de proficiência, inclusive, são fundamentais, na opinião do executivo, para que os diferentes kits que apresentam desempenho variável tenham essas diferenças evidenciadas e possam ser sinalizados aqueles com melhor qualidade.

Expectativa x Realidade

Shcolnik se mostrou confiante. “Acredito que com os dados que apresentamos à Anvisa e com todo o nosso conhecimento para contribuir com uma revisão saudável da RDC 302 chegaremos a um bom termo que levará benefícios para todos nós, profissionais sérios que atuam em laboratórios clínicos, e para todos os pacientes que recorrem aos nossos serviços”, disse.

Parafraseando Ariano Suassuna, Luisane disse que “o otimista é bobo, o pessimista é chato e bom mesmo é ser um realista esperançoso”. Para ela, é preciso entender o atual cenário e se posicionar. “Gostaria que todos lessem a CP 912 e comparassem com a RDC 302 e que se manifestassem”, comentou ao incentivar que tanto pessoas físicas quanto pessoas jurídicas acessassem a consulta pública para opinar.

Encerrando o webinar, Kimura questionou: “qual vai ser o desfecho disso tudo?”. Segundo ele, o momento é dinâmico e trará muito aprendizado e conhecimento para todos.