Debate do 5° FILIS discutiu as consequências da pandemia no desenvolvimento da medicina no Brasil

Debate do 5° FILIS discutiu as consequências da pandemia no desenvolvimento da medicina no Brasil

Representantes de instituições de pesquisa, da indústria de produtos para a saúde e da medicina diagnóstica apontaram erros e acertos do período e quais pontos merecem maior atenção

“O avanço da medicina sob pressão” foi tema da sala paralela no segundo dia do 5° Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), evento promovido pela Abramed (Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica). Patrocinada pela Thermo Fisher, a sessão contou com a moderação de Cláudia Cohn, CEO do Alta Excelência Diagnóstica e Diretora-Executiva da Dasa.

Participaram do debate Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da      Universidade de São Paulo (USP); Esper Kallas, professor titular do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da USP; Roberto Santoro, CEO do Grupo Pardini; e Nicolas Marchon, diretor de marketing Latam da Thermo Fisher.

Para iniciar, Claudia contextualiza explicando que a medicina sofre pressão em todos os aspectos e durante a pandemia continuou em plena ação, mesmo com os desafios remotos na organização e gestão da saúde, na produção de equipamentos e insumos, no transporte e logística dos materiais, enfrentando novos casos e diagnósticos variados nestes quase dois anos. Segundo ela, um Brasil sofrido que continuou a exercer sua atividade incansavelmente na área médica. 

“Vimos a medicina pública e privada contribuindo entre si, eliminando todo o viés político. Foi muito importante termos entes públicos que continuaram a regular e a definir políticas de diagnóstico e tratamento”, disse a moderadora, citando também a importância da indústria nesse período e convidando Nicolas Marchon  para iniciar sua fala.

Para ele, a velocidade de resposta da indústria à pandemia foi ímpar, após o momento inicial de surpresa. Entre os fatores primordiais que geraram este resultado citou o senso de urgência, devido ao potencial pandêmico; o avanço na pesquisa voltada aos testes de Covid-19, pois não foi necessário      desenvolver nenhuma tecnologia nova; e a colaboração entre os stakeholders da saúde. “Vimos indústria, universidades, agências reguladoras e      governo      atuando de forma uníssona”, ressaltou.

Na sequência, Ester Sabino contou que quando os casos de covid-19 começaram, a entidade já estava trabalhando em como responder de forma rápida a epidemias. “Tão logo apareceram os casos na China, nós nos organizamos. A resposta imediata depende do fortalecimento pré-pandemia. Por isso é importante investir em ciência”, expôs.

Outra questão importante citada foi o fato de a ciência ter passado a fazer parte do dia a dia das pessoas, recebendo seu merecido reconhecimento. “Isso estava faltando, não se conhecia o que a ciência vem produzindo no Brasil”, disse, comentando, inclusive, como o conceito de fator R0 (R zero) acabou se tornando assunto entre os leigos. 

Já Esper Kallas  aproveitou para chamar a atenção para as zoonoses, que podem dar um salto e causar outras pandemias. “Precisamos crescer na identificação dos vírus e outros patógenos que estão em circulação, temos um longo caminho para nos desenvolvermos nesta área. As iniciativas de enfrentamento que surgiram no Brasil se deram através da colaboração entre grupos que já existiam. Não há investimento em estudo de novas zoonoses. Veja, ainda, o recente corte no orçamento para pesquisas. É ultrajante”, comentou.

Segundo ele, o país não está preparado para enfrentar as próximas doenças, não tem fortalecido grupos para estudar pandemias, como de zika, nem criado estratégias racionais de enfrentamento, tampouco investido em ciência. “Claro que sempre há a possibilidade de erro. Erramos em vários momentos durante a pandemia. Poderíamos ter evitado mortes, mas, na posição de médicos, tivemos de encontrar uma solução. Tentamos algumas estratégias de tratamento, mas o que faltou, de forma geral, foi entender que a ciência é construída e se desenvolve ao longo do acúmulo do conhecimento”, frisou Esper.

O professor também criticou a politização durante a pandemia no Brasil, que acabou gerando a morte de muitas pessoas. “O conhecimento científico deveria ser respeitado. Essa interferência externa prejudicou ainda mais a situação. A saúde pública tem de ser, sim, uma conjunção entre ciência e política, mas, no nosso caso, a integração foi muito danosa. Faltou construir com a população, ao longo dos anos, a aceitação da importância da ciência. E faltou nutrir os nossos políticos de opiniões mais especializadas para a tomada de decisão. Temos de trazer essa discussão para a sociedade. A ciência é um método para encontrar soluções para a saúde coletiva.”

Claudia Cohn aproveitou a ocasião para ressaltar que a Abramed vem fazendo seu papel de levar luz a essas questões, para que políticos e sociedade entendam a importância do conhecimento científico. “Não dá para transformar o Brasil em uma referência sem construirmos isso juntos.”

Para Roberto Santoro, durante a pandemia, foi evidenciada a importância da medicina diagnóstica no Brasil e a sua adaptação sob pressão. “A medicina diagnóstica é infraestrutura, é logística, é capacidade de produção, é pesquisa & desenvolvimento, é interface de sistemas. A pandemia trouxe a visão da necessidade de uma infraestrutura melhor no Brasil”, disse.

Quando a demanda aumentou, o Pardini, que tem 10 mil laboratórios em todo o Brasil, desenvolveu inovações tanto na produção quanto na logística. “Hoje percorremos 90 mil quilômetros por dia, estamos em mais de dois mil municípios e temos mais de 100 bases logísticas. Nunca atuamos nesta dimensão.”

Um ponto que preocupa Santoro está relacionado justamente a esse crescimento e ao futuro. Uma projeção sobre a necessidade de laboratórios nos próximos cinco anos mostra que haverá um déficit no setor. Outro ponto que merece atenção é a falta da medicina diagnóstica na atenção primária e secundária e também na área oncológica. “Receio que este gap pode evoluir levando ao aumento da mortalidade desses pacientes”, expôs.

Santoro também citou a questão da interoperabilidade no Brasil. “Utilizar os dados coletados para construir modelos preditivos através de analytics e fazer interface com operadores de saúde, atenção pública e privada são grandes desafios. Na Europa, os setores público e privado compartilham dados, mas isso ainda é difícil no Brasil.”

Confira aqui o debate na íntegra deste e das demais palestras e painéis concretizados nesta 5° edição do FILIS. A gravação estará disponível até o final do mês de outubro.

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