A Reunião Mensal de Associados (RMA) da Abramed realizada em 31 de outubro reuniu lideranças da Medicina Diagnóstica para um debate sobre os impactos práticos da Reforma Tributária. Moderado por Milva Pagano, o encontro contou com a participação de Cesar Nomura, Renato Nunes, Ademar Paes Júnior, Lídia Abdalla, Linaldo Vieira Júnior, Júlio Aderne e Edivaldo Bardella.
O debate deixou evidente um consenso: embora a Reforma tenha sido desenhada para simplificar o sistema, a transição que se inicia será marcada por alta complexidade. Até 2033, empresas terão de conviver com dois modelos tributários — o atual e o novo sistema, baseado em CBS e IBS — o que exigirá revisão de controles, processos de auditoria, contratos, sistemas e rotinas fiscais. Milva Pagano, Diretora Executiva da Abramed, sintetizou esse dilema ao afirmar que “a promessa da Reforma é simplificar, mas precisamos entender se esse objetivo se concretizará na prática”.
Hoje, o setor trabalha com uma carga tributária em torno de 6%, considerando PIS, COFINS e ISS. Com a chegada dos novos tributos, especialistas estimam que esse percentual possa chegar próximo de 11%, com impacto direto em margens, sustentabilidade e estrutura de custos.
Para Renato Nunes, a adoção da não cumulatividade — modelo já conhecido pela indústria — exigirá controles mais rigorosos e um nível de auditoria que pode elevar o custo operacional. “Na Medicina Diagnóstica, devemos ter aumento de complexidade e custo. A tendência é um período inicial mais oneroso”, observou.
A dimensão tecnológica surge como um dos pontos mais sensíveis. A primeira fase de testes da Reforma começa já em janeiro de 2026, com novo layout de nota fiscal e necessidade de adaptação imediata de sistemas. Júlio Aderne, Gerente Geral de Diagnóstico Laboratorial e Líder da Abbott Brasil, reforçou a urgência: sem o novo arquivo XML, nenhuma nota será validada. Edivaldo Bardella, Gerente Fiscal da Abbott Brasil, complementou destacando que a Abbott revisa processos e produtos individualmente para evitar ruptura de fornecimento — risco real diante da aceleração das exigências técnicas.
Entretanto, como destacou Ademar Paes Júnior, sócio da Clínica Imagem e membro do Conselho de Administração da Abramed, o desafio não se limita à emissão de documentos. O ponto crítico é o controle. “Precisamos desenvolver sistemas de automação de controle, não só de emissão. É isso que vai dizer se o governo está cobrando corretamente, caso contrário, as empresas correm risco de não sobreviver”, alertou.
O executivo enfatizou ainda que a Reforma só será viável se vier acompanhada de uma verdadeira reforma digital, capaz de elevar o padrão tecnológico de toda a cadeia. Sem isso, a pressão por controles, auditorias e maturidade de sistemas tende a acentuar desigualdades já existentes: empresas menores — que hoje não dispõem de estrutura tecnológica, compliance ou governança de dados — podem não conseguir acompanhar o nível de exigência imposto pelo novo modelo.
Nesse cenário, há um risco real de aceleração da maior consolidação de mercado da história recente do setor, com espaço cada vez mais restrito para organizações sem sistemas robustos, processos digitalizados e capacidade de operação em ambiente altamente fiscalizado.
Outro tema debatido foi o risco de alteração no perfil de cobertura em saúde suplementar. A busca por créditos pode estimular terceirizações excessivas e mudanças na forma como empresas contratam planos de saúde, ampliando fragilidades já observadas no acesso. Soma-se a isso o fato de que a folha de pagamento não gerará crédito — um ponto crítico para prestadores intensivos em mão de obra, como laboratórios e clínicas.
Lídia Abdalla, Vice-Presidente da Abramed e CEO do Grupo Sabin, destacou que a empresa estruturou sua preparação em três pilares: impacto financeiro, adaptação tecnológica e revisão contratual com fornecedores e fontes pagadoras. A qualidade da informação e a consistência dos dados serão determinantes para evitar glosas, falhas operacionais e insegurança jurídica.
Já Linaldo Vilar Júnior, Diretor de Operações Laboratoriais na Dasa, comentou que o risco de erros é inerente a essa transição, por isso, a tecnologia, em conjunto com a revisão de contratos, se coloca como indispensável”.
Diante desse cenário, Cesar Nomura, Presidente do Conselho de Administração da Abramed, reforçou a importância estratégica da atuação institucional da Abramed. “Nossos associados prezam por qualidade, acreditações e eficiência. Crescer sem perder esses princípios é o nosso desafio”, afirmou, lembrando que o setor precisa se posicionar diante das operadoras para reequilibrar as relações, já que a elevação das alíquotas terá impacto direto no segmento diagnóstico.
Milva Pagano encerrou reiterando que o papel da Abramed, neste momento, é integrar o setor, antecipar riscos, orientar decisões e apoiar a transição. A Associação prepara materiais técnicos e treinamentos em conjunto com o escritório Machado Nunes — esforços essenciais para fortalecer a sustentabilidade do setor diante de uma das maiores transformações tributárias das últimas décadas.