Qualidade e segurança na medicina diagnóstica: cultura, dados e o desafio da melhoria contínua

Qualidade e segurança na medicina diagnóstica: cultura, dados e o desafio da melhoria contínua

Da acreditação à interoperabilidade, debate da Abramed na Hospitalar mostrou os desafios de sustentar a excelência laboratorial em um cenário de maior complexidade diagnóstica e pressão financeira.

A qualidade e a segurança vêm ganhando centralidade nas discussões sobre o futuro da medicina diagnóstica, especialmente diante do avanço tecnológico, das novas exigências regulatórias e da crescente complexidade da assistência à saúde. Garantir processos seguros, rastreáveis e resultados confiáveis tornou-se um desafio estratégico para o setor.

Com esse foco, a Abramed promoveu, durante a Hospitalar, o painel “Qualidade e Segurança na Medicina Diagnóstica”, moderado por Milva Pagano, diretora-executiva da entidade. A sessão reuniu Luiza Bottino, gerente de P&D da Controllab; Carlos Eduardo Ferreira, líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed e gerente médico do Laboratório Clínico do Einstein Hospital Israelita; e Guilherme Ferreira de Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), para debater os desafios regulatórios, operacionais e tecnológicos envolvidos na melhoria contínua dos serviços diagnósticos e na segurança do paciente.

O encontro se iniciou com a palestra de Luiza Bottino, que apresentou o papel do controle externo da qualidade na segurança do paciente e mostrou como o erro laboratorial pode impactar diretamente a vida do paciente, a reputação do laboratório e a cadeia de fornecedores. 

Conforme explicou, o controle externo funciona como antídoto para a miopia da gestão: ao comparar o desempenho com outros players do mercado, o laboratório consegue monitorar tendências, imprecisões e falhas antes que elas cheguem à rotina clínica.

Luiza também ressaltou que, além da função regulatória, os dados gerados por esses programas apoiam decisões estratégicas das instituições, incluindo avaliação de metodologias, desempenho de equipamentos e identificação de oportunidades de melhoria.

“O controle externo entrega dados de forma rápida para a sociedade”, reforçou, apontando que laboratórios com participação contínua em programas de controle externo apresentam melhoria de 8% no desempenho.

De acordo com sua apresentação, o futuro passa pela automação, para que a ferramenta seja incorporada à rotina sem impactar o fluxo operacional, e por um ecossistema integrado de qualidade, com painéis que reúnam desempenho de controle interno, externo e comparativo entre unidades de uma mesma rede.

No debate, realizado durante a segunda parte do encontro, Guilherme Ferreira de Oliveira lembrou que 70% das decisões médicas são baseadas em resultados laboratoriais e que a medicina diagnóstica brasileira não deve nada a nenhuma outra no mundo. Apesar disso, provar esse valor com dados objetivos ainda é um desafio. 

“O laboratório provoca desfechos intermediários, o que dificulta a medição. Depositamos na interoperabilidade a esperança de medir isso de forma mais sólida”, afirmou.

Carlos Eduardo Ferreira complementou, destacando a crescente complexidade do cenário: a medicina caminha para painéis com 50 a 100 indicadores integrados, e o desafio de garantir qualidade se amplifica nessa escala. “Estamos saindo da era do achismo para uma era em que implementamos a cultura de dados. É importante ter informação, mas também conduta e tomada de ação diante de resultados inadequados”, pontuou.

Qualidade como cultura, não como obrigação

Um dos momentos mais ricos do debate foi a discussão sobre o que sustenta a qualidade no longo prazo. Para Guilherme, qualidade, resultados confiáveis e segurança do paciente não podem ser tratados como caixas separadas. Além disso, tudo começa no topo. “Se a alta direção não estiver comprometida, haverá muitas barreiras. As pessoas precisam comprar esse discurso e entender que o problema não é errar, mas não descobrir a não conformidade”. 

Luiza acrescentou que um dos maiores desafios para sustentar programas de qualidade está na gestão de pessoas e na disseminação da cultura organizacional. “Se a qualidade não estiver incorporada na cultura da empresa, ela não ganha tração”.

Entre os temas abordados, os participantes comentaram as contradições do setor. As certificações ainda se concentram nos grandes laboratórios, em um percentual considerado baixo diante do universo total do setor. O presidente da SBPC/ML apontou o fator financeiro como determinante: enquanto a inflação acumulou 154% em determinado período, a remuneração dos laboratórios cresceu apenas 10%.

“A remuneração não acompanhou a escala de realização de exames. Precisamos dar condições para que todos os laboratórios invistam em qualidade. A qualidade tem preço, mas ela é um investimento”, alertou.

Carlos Eduardo apontou outra distorção que afeta diretamente o acesso: um laboratório pode realizar o mesmo exame com tecnologias completamente diferentes e receber a mesma remuneração.

Na etapa final, os debatedores falaram sobre soluções diagnósticas mais avançadas, como testes moleculares e tecnologias ômicas. O líder do Comitê de Análises Clínicas da Abramed destacou que boa parte dessas soluções ainda permanece restrita a poucos centros no Brasil e que o setor precisa avançar também em técnicas essenciais que ainda não chegam de forma adequada a toda a população.

Outra provocação trazida por Milva para a mesa foi que, embora a qualidade esteja no centro da operação laboratorial, grande parte desse trabalho permanece invisível para o paciente, que percebe o atendimento e a experiência final, enquanto boa parte da construção da qualidade acontece nos bastidores. 

A discussão terminou com uma reflexão sobre o próprio modelo da saúde suplementar. Muitas vezes, o paciente sequer consegue escolher o laboratório que deseja utilizar, já que essa decisão costuma estar vinculada às operadoras e aos contratos corporativos. Para Guilherme, essa desconexão entre paciente, assistência e decisão sobre o cuidado também é um dos desafios que o setor precisará enfrentar.

Confira aqui o debate “Tecnologia e Inovação na Medicina Diagnóstica: Tendências Estratégicas para Crescimento Sustentável”, também promovido durante a Hospitalar 2026 pela Abramed.

Postado em: 26/05/2026

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