Integração de dados e uso responsável da tecnologia orientam debate sobre inovação na saúde

Integração de dados e uso responsável da tecnologia orientam debate sobre inovação na saúde

Participação da Abramed no 8º CIMES destacou a importância de orientar a adoção de tecnologias pelas necessidades dos pacientes, com segurança, sustentabilidade e ampliação do acesso

Integrar informações clínicas, laboratoriais e de imagem pode ampliar a contribuição do diagnóstico para as decisões médicas e a continuidade do cuidado. Para que esse potencial se traduza em benefícios aos pacientes, é necessário superar barreiras de confiança, padronizar dados e definir com clareza os objetivos da incorporação tecnológica. Esses desafios estiveram no centro da participação de Cesar Higa Nomura, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), no 8º Congresso de Inovação em Materiais e Equipamentos para Saúde (CIMES).

Organizado pela Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo), o encontro ocorreu em 16 de setembro, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital paulista, com o tema “Soluções Inovadoras na Saúde: Como e para quem desenvolver?”.

Nomura participou do painel “A velocidade da inovação em soluções digitais na saúde: quais preocupações devemos ter?”, ao lado de Giovanni Cerri, presidente do Instituto de Radiologia (InRad) e do Instituto Coalizão Saúde (ICOS), com moderação de Denizar Vianna, superintendente do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS).

Incorporar tecnologia com objetivos definidos

Para Nomura, tanto a interoperabilidade quanto o uso da inteligência artificial precisam partir de uma definição sobre o que se pretende alcançar. “Se sei onde quero chegar, é mais fácil desenhar a solução”, afirmou. Ele alertou que incorporar uma ferramenta apenas porque ganhou visibilidade pode adicionar custos sem responder às necessidades da organização e do cuidado, em um contexto de pressão sobre as margens dos diferentes segmentos da saúde.

A escolha também exige planejamento de longo prazo. “Na saúde, não é fácil trocar sistemas e plataformas”, observou, ao comparar a adoção de uma solução tecnológica a um compromisso duradouro.

Na avaliação de Cerri, a distância entre o desenvolvimento de uma tecnologia e sua aplicação em benefício da população demanda maior capacidade de avaliação e implementação. “A inovação não precisa ser mais lenta. A governança precisa ser mais rápida”, afirmou. Para ele, gerar valor depende de associar inovação, evidências, validação, segurança e implementação em escala.

Ao contextualizar o debate, Vianna citou a experiência do UK Biobank, banco de dados e amostras biológicas do Reino Unido, como exemplo do potencial da integração de informações genômicas, clínicas e de acompanhamento dos pacientes para apoiar pesquisas e decisões. Também ressaltou o papel da regulação na segurança das tecnologias e a necessidade de proteger informações que, embora valiosas para o cuidado, podem ser utilizadas inadequadamente.

OpenCare Interop e o compartilhamento centrado no paciente

A interoperabilidade foi um dos principais pontos da discussão. Nomura identificou a desconfiança sobre o uso dos dados e os custos de infraestrutura entre os obstáculos à conexão entre instituições. As dúvidas envolvem quem terá acesso às informações, para quais finalidades e como será financiada a operação.

Como exemplo de iniciativa para enfrentar essas barreiras, apresentou o OpenCare Interop, projeto de interoperabilidade com participação da Abramed, de instituições de saúde e do InovaHC, Núcleo de Inovação Tecnológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Segundo explicou, o piloto em São Paulo prevê a consulta às informações mantidas nas instituições de origem, mediante autorização do paciente, sem a formação de um grande repositório central.

“Quem terá o poder de autorizar ou não o compartilhamento é o paciente”, destacou. A possibilidade de consultar exames já realizados pode apoiar a avaliação médica e evitar repetições desnecessárias. Para Nomura, colocar o paciente no centro ajudou a aproximar instituições que tinham expectativas distintas sobre o uso dos dados.

Cerri acrescentou que o projeto conta com a participação da B3 — Brasil, Bolsa, Balcão — e aproveita a experiência de interoperabilidade e cibersegurança do sistema financeiro. Vianna ressaltou que essa organização em torno do paciente pode contribuir para enfrentar o desalinhamento de incentivos entre os diferentes atores da saúde.

Padronização como base para integrar informações

Outro requisito apontado por Nomura é a padronização dos dados. Exames semelhantes podem receber nomenclaturas e códigos diferentes, dificultando sua identificação e integração.

Nesse contexto, ele mencionou o trabalho da Abramed e de suas associadas na padronização da codificação dos exames e na interlocução com o Ministério da Saúde para o envio de informações sobre doenças de notificação compulsória à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS).

Na sua avaliação, iniciativas do setor privado e a estruturação da rede pública podem avançar de forma complementar. O objetivo é criar condições para que as informações acompanhem o paciente e possam ser utilizadas ao longo de sua jornada de cuidado.

Segurança e avaliação contínua dos algoritmos

A segurança da transformação digital exige acompanhamento permanente. Cerri destacou a necessidade de avaliar o desempenho dos algoritmos, identificar vieses, rastrear incidentes e analisar os resultados clínicos e econômicos após a implantação. “Não basta validar antes da implantação. É preciso garantir o monitoramento contínuo”, afirmou.

Ele também chamou atenção para a proteção da privacidade, a cibersegurança, a transparência e a definição das responsabilidades de médicos, instituições e desenvolvedores. A dependência excessiva de fornecedores e de soluções fechadas foi apontada como outro risco, por limitar a integração entre sistemas e a autonomia das organizações.

A adequação das ferramentas à população atendida também foi discutida. Cerri relatou que, durante a pandemia, algoritmos desenvolvidos em outros países para identificar alterações pulmonares associadas à covid-19 nem sempre apresentavam o desempenho esperado na população local, o que motivou o desenvolvimento de uma solução própria. “Os algoritmos precisam funcionar, de fato, na população que atendemos”, ressaltou.

Acesso e sustentabilidade na adoção de tecnologias

Ao abordar o acesso, Cerri destacou o potencial da telessaúde para aproximar pacientes de profissionais especializados, da interoperabilidade para disponibilizar informações em diferentes pontos de atendimento e da inteligência artificial para apoiar o planejamento em saúde. “A transformação digital pode trazer mais equidade e mais acesso”, afirmou.

Vianna acrescentou à discussão o desafio do financiamento. Segundo ele, os custos de pesquisa, desenvolvimento e incorporação tecnológica precisam ser considerados diante de orçamentos que não crescem na mesma proporção. A avaliação da viabilidade econômica e de modelos de financiamento integra, portanto, a busca por acesso com qualidade e sustentabilidade.

Integração diagnóstica e oportunidades na patologia digital

Na medicina diagnóstica, Nomura destacou que a automação e o uso de algoritmos já fazem parte da rotina laboratorial há décadas. A evolução da contagem manual de células para processos automatizados exemplifica ganhos de escala e agilidade que apoiam o atendimento em diferentes ambientes assistenciais.

Para o presidente do Conselho de Administração da Abramed, uma das principais oportunidades está em combinar os resultados laboratoriais com informações clínicas, genômicas e de imagem. Ele citou aplicações na avaliação do risco cardiovascular e na investigação de doenças hepáticas como exemplos do potencial dessa integração para qualificar a avaliação dos pacientes.

Nomura também apontou a patologia digital como uma área que demanda avanço, especialmente diante da escassez de especialistas em determinadas regiões. A digitalização pode ampliar o acesso à análise especializada e apoiar a medicina de precisão, com impacto tanto na saúde pública quanto na privada.

Nesse processo, voltou a destacar a importância de padrões comuns. Segundo ele, o uso de linguagens e sistemas proprietários dificultou a evolução da integração na anatomia patológica, enquanto a adoção de uma linguagem padronizada favoreceu o desenvolvimento de soluções na radiologia.

Informação associada ao julgamento clínico

Ao encerrar o painel, Vianna reforçou que a ampliação do acesso à informação precisa ser acompanhada de julgamento clínico. As condições de saúde, as comorbidades e o contexto social e cultural de cada paciente exigem interpretação individualizada e decisões compartilhadas.

“Estamos avançando muito no acesso ao conhecimento, mas precisamos agregar sabedoria ao processo diagnóstico”, concluiu.

Postado em: 25/09/2026

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