Integração entre imagem e prática clínica exige novos caminhos na formação médica

Integração entre imagem e prática clínica exige novos caminhos na formação médica

Recursos de visualização tridimensional aproximam diagnóstico, planejamento de intervenções e ensino, com implicações para a formação e a atuação de diferentes especialidades

O avanço dos recursos de visualização médica coloca em discussão a preparação dos profissionais para incorporar novas possibilidades do diagnóstico às decisões assistenciais. Reconstruções tridimensionais, simulação e realidade virtual ampliam as formas de explorar informações anatômicas e planejar intervenções. Seu aproveitamento depende da conexão entre conhecimento clínico, interpretação da imagem e compreensão das tecnologias disponíveis.

Essa relação entre formação e prática médica foi um dos temas abordados por Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed, em entrevista a Marco Bego, diretor-executivo do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (InRad-HCFMUSP), no podcast Inova na Real. Ao discutir a convergência entre medicina, tecnologia e engenharia, Nomura destacou a necessidade de atualizar o ensino diante das mudanças na assistência.

“Não dá para ensinar a Medicina como nós aprendemos há 20 anos, nem há 10 anos, talvez nem há cinco anos. Um básico vai se manter, mas tem muita coisa nova surgindo”, afirmou.

A discussão tem implicações para o valor da medicina diagnóstica. A contribuição dos exames para o cuidado está relacionada à capacidade das equipes de interpretar seus resultados e utilizá-los na definição de condutas. Nesse contexto, a formação é parte das condições necessárias para que os avanços tecnológicos tenham aplicação clínica.

O ensino da anatomia ilustra essa conexão. O uso de tomografia e ressonância aproxima o aprendizado das representações anatômicas que serão utilizadas na investigação de doenças, na discussão de casos e no planejamento terapêutico.

“A radiologia hoje é obrigatória. Na maioria das faculdades, você já ensina aos alunos anatomia topográfica pela tomografia e pela ressonância”, disse Nomura.

Essa presença na graduação reforça a importância de compreender a informação produzida pelo diagnóstico por imagem em diferentes especialidades. A integração entre o conhecimento do radiologista e o das equipes assistenciais favorece a discussão dos achados à luz da condição clínica e dos objetivos do cuidado.

Compreensão espacial e planejamento de intervenções

As tecnologias de visualização acrescentam novas possibilidades a esse aprendizado. Reconstruções tridimensionais e ambientes de realidade virtual permitem explorar relações espaciais entre estruturas anatômicas, aproximando a análise das imagens das necessidades de planejamento de uma intervenção.

“Na realidade virtual, o interessante é que você vai para um mundo 3D, para uma interação que, a meu ver, é fundamental. Principalmente porque, ao realizar uma cirurgia, você precisa entender o modelo tridimensional”, ressaltou. 

O ponto destacado por Nomura conecta o desenvolvimento tecnológico a uma competência clínica: relacionar as representações do organismo à anatomia do paciente e à abordagem planejada. Em procedimentos laparoscópicos e robóticos, essa compreensão espacial ganha relevância na articulação entre informações pré-operatórias e visualização durante a intervenção.

A informação diagnóstica integra, assim, diferentes momentos da assistência. Sua utilização no planejamento e na condução do cuidado reforça a importância do diálogo entre as equipes responsáveis pelos exames e aquelas que utilizarão seus resultados.

Convergência entre áreas e atualização profissional

A aproximação entre medicina, tecnologia e engenharia também traz questões para a atualização dos profissionais e a incorporação de novos recursos aos serviços de saúde. Compreender suas aplicações e limitações é parte do processo de avaliar como podem contribuir para a prática clínica.

“Hoje, eu não consigo imaginar que medicina, tecnologia e engenharia não vão caminhar juntas”, comentou durante a entrevista.

Essa convergência exige que a formação acompanhe tanto a evolução das ferramentas quanto as mudanças na maneira de utilizar a informação diagnóstica. Para instituições de ensino e serviços de saúde, isso envolve conectar aprendizado, discussão multidisciplinar e necessidades assistenciais.

O valor desses avanços se concretiza quando a informação produzida pelos exames qualifica o planejamento e sustenta decisões ao longo do cuidado. Preparar os profissionais para esse uso é um componente estratégico da inovação em medicina diagnóstica.

Postado em: 20/10/2026

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