Conceito que orienta a 10ª edição do FILIS traduz uma mudança que já alcança laboratórios e hospitais e reposiciona a medicina diagnóstica na jornada do cuidado
Depois de “indústria 4.0”, virou comum nomear qualquer salto tecnológico com uma numeração parecida. Na medicina diagnóstica, porém, mesmo que uma nova tecnologia entre em operação, o equipamento ganhe velocidade, o sistema processe mais informações e novas ferramentas ajudem a identificar padrões em grandes volumes de dados, nada disso, isoladamente, define o “Diagnóstico 5.0”.
O termo marca a passagem de uma fase em que digitalizar e automatizar eram os principais objetivos para outra em que a tecnologia só faz sentido quando gera resultados mais precisos e ágeis para o paciente.
Exames de biologia molecular e testes genéticos já permitem identificar a causa de uma doença com mais precisão e ajustar o tratamento a cada paciente, em vez de repetir o mesmo protocolo para todo mundo. Segundo projeções do setor, exames de alta complexidade e medicina de precisão avançam de duas a três vezes mais rápido que o mercado como um todo, entre 15% e 25% ao ano, e devem chegar a R$ 70 bilhões até 2030.
Contudo, um levantamento do Comitê Gestor da Internet no Brasil mostra que, hoje, apenas 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros usam Inteligência Artificial. Esse percentual sobe para 29% nos serviços de apoio diagnóstico e terapêutico, mas o uso ainda é concentrado em tarefas operacionais, como organização de processos. O mercado de IA aplicada à saúde no Brasil deve crescer 38% ao ano até 2030, um ritmo alto exatamente porque a base de hoje ainda é pequena.
“O crescimento da medicina de precisão não é modismo, é continuidade de um movimento que já sustenta a medicina diagnóstica há 15 anos. A diferença é que, agora, cada ganho de tecnologia só se justifica se vier acompanhado da capacidade de transformar aquele resultado em decisão clínica ou de gestão”, avalia Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed.
O ponto de transformação só acontecerá quando esses recursos passarem a conectar etapas que, por muito tempo, funcionaram de forma fragmentada: solicitação, realização do exame, análise, interpretação dos resultados, definição da conduta e acompanhamento do paciente. Nesse modelo, o diagnóstico deixará de ser compreendido como um momento pontual da jornada assistencial e ampliará sua participação nas decisões que orientam o cuidado.
“Diagnóstico 5.0 é sobre integrar todas essas informações com segurança e transformar isso em cuidado personalizado para quem está do outro lado do resultado”, diz Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.
Para quem gerencia um laboratório ou uma rede hospitalar, isso deixou de ser uma discussão de médio prazo para se tornar uma decisão estratégica de agora: quanto investir em genômica, como preparar equipes para interpretar resultados mais complexos, como precificar um exame que entrega mais informação, mas também custa mais para ser feito.
São respostas que não podem ser dadas por uma única área. Elas são técnicas, financeiras, éticas e clínicas ao mesmo tempo. Respondê-las exige diálogo entre empresas, profissionais de saúde, reguladores, fontes pagadoras, desenvolvedores de tecnologia e representantes dos pacientes. Essa mistura é, talvez, a definição mais honesta de Diagnóstico 5.0, que não é uma tecnologia específica, mas o momento em que tecnologia, dado e decisão de negócio deixam de ser conversas separadas dentro de uma mesma organização.
Informação para cuidar e também para planejar
Os efeitos do Diagnóstico 5.0 ultrapassam a decisão sobre um caso individual. Quando analisados de forma agregada, segura e responsável, os dados produzidos pela medicina diagnóstica também podem revelar perfis de demanda, lacunas assistenciais, mudanças epidemiológicas e oportunidades de aprimoramento dos serviços.
Essas informações contribuem para dimensionar a capacidade de atendimento, planejar investimentos, organizar fluxos, reduzir repetições desnecessárias e direcionar recursos para onde podem gerar maior impacto. O diagnóstico passa, assim, a apoiar tanto as decisões clínicas quanto as organizacionais.
Uma mudança que fortalece o papel das empresas de medicina diagnóstica como parceiras na construção de modelos assistenciais mais eficientes, sustentáveis e orientados a melhores desfechos e aumenta ainda mais a necessidade de garantir a qualidade de todos os processos diagnósticos.
A precisão técnica do exame continua sendo indispensável e, cada vez mais, passará a integrar um conjunto mais amplo de responsabilidades, que inclui padronização das informações, rastreabilidade, proteção de dados, segurança dos sistemas e critérios transparentes para o uso de novas tecnologias.
“Estamos falando de uma transformação que atravessa toda a organização. Ela exige investimento em tecnologia, mas também em governança, qualificação das equipes, integração entre instituições e clareza sobre o valor que se pretende gerar. O Diagnóstico 5.0 só fará sentido se a inovação chegar à prática, fortalecer a sustentabilidade do sistema e produzir benefícios perceptíveis para pacientes e profissionais”, destaca Milva Pagano.
Uma transformação que depende de escolhas
Avançar não significa incorporar toda tecnologia disponível, mas saber escolher aquelas capazes de resolver problemas que há muito tempo fazem parte do setor. A tecnologia permite dar escala a essa capacidade de análise. O conhecimento médico, por sua vez, preserva o contexto necessário para definir qual investigação é necessária, em que momento deve ser realizada e como o resultado pode modificar uma conduta, evitando que os resultados sejam reduzidos a um conjunto de indicadores.
Essa discussão fará parte da 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), promovido pela Abramed em 26 de agosto, no Teatro Santander, em São Paulo. Sob o macrotema “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”, o encontro conectará Regulação, Valor da Medicina Diagnóstica, ESG e Inteligência Artificial.
Para participar do FILIS 2026, acesse o site do evento e adquira seu ingresso.