FILIS 2026 debate caminhos para uma regulação alinhada à realidade, com foco em segurança e qualidade assistencial

FILIS 2026 debate caminhos para uma regulação alinhada à realidade, com foco em segurança e qualidade assistencial

Debate mostrou que o cumprimento de normas deve caminhar ao lado de cultura organizacional, governança, tecnologia, formação humana e diálogo com órgãos regulatórios

A discussão sobre regulação em saúde deve considerar os impactos das normas na relação com o paciente, nos processos das organizações e na qualidade dos serviços oferecidos. Esse foi um dos focos do segundo debate do FILIS 2026, que contou com mediação de Wilson Shcolnik, membro do Conselho de Administração da Abramed e gerente de Relações Institucionais do Grupo Fleury. Participaram Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury; Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin; Rafael Lucchesi, CEO da Dasa; e Thiago Lopes Cardoso Campos, diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Os executivos discutiram como os marcos regulatórios podem contribuir para serviços mais seguros e eficientes, relacionando a atuação das agências à incorporação desses princípios na gestão e na operação das instituições. 

Na abertura, Thiago Lopes Cardoso Campos destacou o esforço da Anvisa para ampliar o diálogo com o setor, enfrentar gargalos acumulados e fortalecer o acompanhamento dos serviços e produtos ao longo de todo o ciclo de vida. Segundo ele, a agenda de segurança e qualidade não nasceu apenas de uma determinação regulatória, mas das próprias necessidades identificadas nos serviços de saúde e posteriormente incorporadas às políticas públicas.

Nas experiências apresentadas pelo Grupo Sabin, Fleury e Dasa, qualidade e segurança apareceram diretamente relacionadas à cultura organizacional, à formação das pessoas e à capacidade de manter padrões comuns mesmo em operações de grande escala e com presença em diferentes regiões do país.

Lídia Abdalla lembrou que o Brasil reúne realidades muito distintas de infraestrutura, sistemas de saúde e qualificação profissional.Por isso, desde a escolha de novos mercados e parceiros, o processo de expansão do Sabin considera a afinidade cultural e a capacidade de incorporar os padrões da organização. “Nós não abrimos mão e não há flexibilidade em segurança do paciente e qualidade”, afirmou. A integração envolve desde requisitos sanitários e sistemas informatizados até a capacitação das equipes e valorização de lideranças locais.

No Fleury, segundo Jeane Tsutsui, a padronização precisa acompanhar toda a jornada diagnóstica, incluindo preparo do paciente, coleta, transporte e as etapas pré-analítica, analítica e pós-analítica. Para uma operação que reúne unidades próprias, atendimento móvel, hospitais e milhares de laboratórios parceiros, transformar o conhecimento dos especialistas em processos institucionalizados e replicáveis é parte essencial da manutenção da qualidade. “A governança técnica é fundamental”, resumiu.

Já Rafael Lucchesi trouxe a experiência da Dasa e reforçou que a escala só se transforma em vantagem quando vem acompanhada de integração, processos e indicadores capazes de mostrar rapidamente qualquer desvio. Segundo ele, indicadores financeiros e de experiência do paciente convivem hoje com painéis específicos de qualidade assistencial e segurança. Quando algum risco é identificado, a informação chega prioritariamente à alta gestão. 

Com a digitalização dos serviços e o avanço da Inteligência Artificial, a cibersegurança também entrou nessa rotina de acompanhamento. Lucchesi destacou que os riscos tecnológicos passaram a exigir atenção permanente das lideranças. Wilson Shcolnik reforçou que, para o setor de saúde, proteger sistemas e informações também significa proteger o próprio paciente.

A gestão do parque tecnológico dessas empresas mostrou outra dimensão da estrutura de qualidade. Os participantes relataram processos contínuos de acompanhamento de equipamentos, que envolvem engenharia clínica, manutenção, desempenho analítico, qualidade de imagem, produtividade, calibração e planejamento de substituições.

No Sabin, o monitoramento alcança todo o parque tecnológico e é acompanhado diariamente. No Fleury, Jeane ressaltou que “a qualidade começa na seleção dos equipamentos” e explicou que o acompanhamento se estende durante toda a vida útil da tecnologia. Em 2025, o grupo destinou R$ 98 milhões à renovação de equipamentos. Já na Dasa, a aprovação regulatória é seguida por uma validação técnica própria antes da incorporação: equipamentos que não atingem os parâmetros estabelecidos pela instituição podem retornar aos fornecedores para ajustes antes de entrar na operação.

Uma regulação mais integrada

Ao tratar do papel da Anvisa, Thiago apresentou a complexidade da atuação da agência, especialmente nas áreas de portos, aeroportos, fronteiras e importações. De acordo com ele, o desafio envolve não apenas a amplitude das atribuições, mas a necessidade de aperfeiçoar processos e integrar os diferentes órgãos envolvidos nas análises.

Ele defendeu que a modernização precisa simplificar a relação com o poder público sem comprometer a avaliação sanitária. “Um processo na administração pública não pode ser tratado como uma gincana”, afirmou, ao defender sistemas em que diferentes órgãos possam analisar simultaneamente um mesmo processo, em vez de impor sucessivas etapas ao setor regulado.

Thiago também apontou a convergência internacional como um caminho importante para o aperfeiçoamento regulatório. A Anvisa já participa de fóruns globais e trabalha para aproximar suas regras das referências adotadas em outros mercados, embora algumas áreas ainda tenham espaço para ampliar esse intercâmbio. Para o diretor da Agência, a discussão precisa partir sempre da avaliação do risco sanitário que o país está disposto a aceitar e das melhores práticas disponíveis para gerenciá-lo.

A discussão mostrou que a regulação estabelece uma base indispensável, mas a qualidade se sustenta no dia a dia, por meio da formação das equipes, da governança técnica, do acompanhamento de indicadores e da atualização de processos e equipamentos. O desafio é construir normas capazes de responder às diferentes realidades dos serviços sem perder de vista o princípio que orientou todo o debate: a segurança do paciente. 

Clique aqui e confira todas as publicações sobre a 10ª edição do FILIS!

Postado em: 09/09/2026

Associe-se Abramed

Assine nossa Newsletter

    Veja também