Desafios da saúde atual e o que podemos mudar

Desafios da saúde atual e o que podemos mudar

Setembro de 2018

A saúde no Brasil e no mundo tem desafios tão relevantes que muitos gestores e líderes influentes concentram sua atenção no gerenciamento dos recursos imediatos para prover a continuidade das empresas e cumprimento das obrigações do sistema.

Se a discussão estiver focada no recurso financeiro ou na sua falta, não evoluiremos e nem traremos a transformação como ferramenta de melhoria do sistema. Com força de tsunami, a inovação tecnológica está avançando, mas o uso adequado, por consenso e entendimento da melhor racionalidade do uso pelo sistema, não!

Hoje, as palavras que aparecem em fóruns sobre o sistema são doença, legislação, regulação, fraude, confiança, população, longevidade, modelo, incorporação tecnológica e custos. Afinal, quando conseguiremos realmente ter foco sob todos os aspectos das intensas mudanças que vêm chegando com o desenvolvimento tecnológico para um futuro promissor da saúde no Brasil? Enquanto pensamos em uso racional dos recursos, os próprios recursos estão mudando.

Novos medicamentos, tratamentos, dispositivos e meios de comunicação impulsionarão a inovação e, novamente, os fatores humanos continuarão sendo uma das limitações ​​dos avanços. Viajemos numa reflexão que não se limite a “se usar será mais caro”, mas mergulhemos em exemplos de fragmentos sobre o futuro, buscando insumo para termos a clareza sobre como chegar onde realmente queremos ir e para onde o mundo vai, inevitavelmente, com ou sem cada um de nós. Para isso, gostaria de trazer nesta reflexão alguns desses fragmentos:

1 – Desafio dos Dados
Os pacientes geram enormes quantidades de informações. Substituir o papel por resumos informatizados torna o atendimento mais fácil e eficiente. No futuro, essa quantidade aumentará dramaticamente devido à genômica e à medicina personalizada.

Logo, mais informações estarão disponíveis, quase que sem condições de tê-las em papel. Se os computadores coletam dados sobre doenças, tratamentos e resultados, obtém-se automaticamente informações valiosas sobre tratamentos, efeitos colaterais e características de cada paciente. Uma vez que as mínimas infraestruturas foram configuradas, o custo incremental de adicionar um novo paciente será baixo, e essa economia de escala conduzirá a outros desenvolvimentos adicionais. Os epidemiologistas se beneficiarão enormemente, mas os benefícios aos indivíduos são menos óbvios, e virão no longo prazo.

Uma tendência tecnológica desejável, então, deve ser a garantia de que os dados permaneçam acessíveis e utilizáveis ​​em longos períodos de tempo, de forma isenta e acessível, e com autorização de cada indivíduo, permeando a prevenção, promoção, recuperação e reabilitação, de forma transparente e sigilosa, mas com informações geradas para benefício do sistema.

2 – Doenças raras/especiais
Nos últimos anos, a indústria farmacêutica colocou ênfase nas doenças crônicas e síndromes que afetam menor número de pessoas. Atualmente, 42% das drogas nos estágios finais da aprovação da FDA são medicamentos especiais para estas doenças. A despesa neste nicho aumenta ano a ano e é esperado chegar a números insustentáveis.

De acordo com dados da Interfarma , há 13 milhões de pessoas com doenças raras no Brasil. Embora essas doenças afetem menor parcela da população, espera-se que esses pacientes representem 50% das despesas com medicamentos até 2025. Isso pode afetar qualquer pessoa no setor de saúde e é relevante para financiadores, prestadores de serviços, profissionais de saúde. Vamos refletir, pois a maioria está fora do sistema, muitas vezes sem acesso. Como vamos lidar com esta realidade?

3 – Genética: A tecnologia chega mais perto de curar a doença
Nós estamos frente a um grande avanço na engenharia molecular e da terapia de genes. As tecnologias podem ajudar a eliminar doenças como fibrose cística, distrofia muscular e muitas outras. Também fez grandes avanços no tratamento do câncer por meio da programação celular para atacar células tumorais.

Com notícias de erradicação potencial de doenças tão terríveis, é um momento emocionante para fazer parte do setor de saúde. Porém, precisamos planejar para que seja racional, para que estejam todas as forças e players sintonizados em como será este avanço no sentido regulatório, ético, de financiamento, para um futuro com grandes resultados. O fato é: já é realidade. Não é ficção.

4 – Telemedicina
Espera-se que o campo de serviços de telemedicina cresça exponencialmente. Essa é a mudança mais promissora para os cuidados de saúde em décadas, porque pode ajudar pessoas que não conseguem chegar ao consultório médico. Uma vez que ele alcance seu potencial, ampliará horizontes de populações para acesso e capilaridade jamais imaginadas por sistemas, otimização de tempo e recursos. Será que não poderíamos, com quem define regras, formatar um plano de ação? Todos os cuidados com fraude e ética devem ter o que citei no início: o paciente, a população como centro no planejamento deste futuro.

5 – Implantes, Orteses, Próteses
A discussão sobre este tema gira em torno da ética e da real necessidade. Deve ser aprofundada e sempre focada no paciente. E para colaborar com a busca da eficiência, as impressoras 3D são pura realidade. São capazes de fazer objetos de qualquer forma, em grandes quantidades e com custos menores, mas o mais importante é saber quando usar. Em nossa reflexão, vamos aproveitar para avaliar como tornar racional, ético e personalizado quando necessário.

6 – Dispositivos: do diagnóstico ao tratamento, quando usar?
O paciente que gosta de tecnologia quer acompanhar e ter controle. Sensores de saúde podem ser facilmente comprados na internet e é simples para especialistas construírem equipamentos sofisticados para coletar e analisar dados pessoais ou clínicos usando seus próprios computadores.

E não são feitos apenas para as pessoas com doenças, mas as que querem liderar estilos de vida mais saudáveis. Se eles contribuem para dados agregados, estão contribuindo para a saúde dos cidadãos. Na sua forma mais simples, eles estariam construindo bases em que outras pessoas podem encontrar suas condições médicas semelhantes, e, portanto, descobrir comunidades de apoio. Esta prática não se restringe aos pacientes: um médico já pode acoplar seus dispositivos com acessórios médicos para o smartphone.

7 – Mídias sociais e saúde
Novas tecnologias terão implicações éticas difíceis de antecipar. Num mundo preocupado com segurança é inevitável que as tecnologias, mesmo nos cuidados de saúde, estejam alinhadas com as prioridades nacionais. Por exemplo, tomar impressões digitais dos pacientes e outros identificadores biomédicos será mais fácil; porém a noção atual de confidencialidade do paciente será corroída de uma maneira que será impossível para os clínicos controlarem.

Hoje, podemos pensar que isso seria censurável, mas é salutar lembrar que divulgamos todos os tipos de informações pessoais com o uso de celulares, cartões de crédito e da internet. Ao considerar tendências de cuidados de saúde, podemos esperar compromissos semelhantes. Parece que a perda de nossas identidades é um preço trivial a pagar.

Com a evolução constante da tecnologia, há muitos futuros a serem planejados. Assim que chegarmos ao nosso futuro, haverá outro – e estaremos sempre vendo soluções parcialmente concluídas substituídas por ideias ainda melhores.

Para o futuro previsível, teremos que viver com tecnologias fragmentadas e parcialmente funcionais.

Claudia Cohn
Presidente do Conselho da ABRAMED – Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica / Diretora Adjunta do Com Saúde da FIESP

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