Entre equipamentos em fim de vida útil, excesso de informação e modelos de remuneração, lideranças discutiram os desafios de sustentar a evolução da medicina diagnóstica no Brasil.
Temas como inteligência artificial, interoperabilidade de dados, sustentabilidade financeira e a relação entre inovação e acesso à saúde conduziram o primeiro debate promovido pela Abramed durante a 31ª edição da Hospitalar. A discussão mostrou como a medicina diagnóstica vem passando por uma transformação acelerada, ao mesmo tempo em que precisa enfrentar desafios relacionados à eficiência operacional, integração de informações e sustentabilidade do sistema de saúde.
Com esse foco, a entidade reuniu lideranças do setor no painel “Tecnologia e Inovação na Medicina Diagnóstica: Tendências Estratégicas para Crescimento Sustentável”, moderado por Marcos Queiroz, líder do Comitê Técnico de Radiologia e Diagnóstico por Imagem da Abramed e diretor do Hospital Israelita Albert Einstein.
Participaram Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês; Douglas Penha, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Soluções Digitais na Roche Diagnóstica; Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin; e Rodrigo Lorenzo, diretor de diagnóstico por imagem da Siemens Healthineers para a América Latina.
Marcos Queiroz iniciou o debate chamando atenção para a pressão crescente sobre a medicina diagnóstica, impulsionada pelo envelhecimento populacional, pelo aumento do volume e da complexidade dos exames e pela incorporação de tecnologias voltadas à medicina preditiva e personalizada.
A trajetória do Grupo Sabin foi um dos pontos de partida desse debate. Lídia Abdalla compartilhou como a empresa conseguiu crescer de forma expressiva, mantendo seus padrões de excelência e qual o papel da tecnologia nesse processo.
“Integramos todos os nossos sistemas para ter uma visão única do paciente. O cliente valoriza muito o histórico dos exames e hoje conseguimos entregar um diferencial enorme para médicos e pacientes”, afirmou. Para ela, no entanto, ferramentas são meio, não fim: “Nossos pilares são tecnologia, qualidade e gente. Gente é sempre o principal”.
Um dos principais paradoxos atuais da medicina diagnóstica também foi debatido: a abundância de dados que ainda não se traduz em inteligência aplicada. “Geramos muitos dados, mas ainda não usamos todos eles. O desafio é ter dados mais estruturados para trazer insights e tomar decisões, rumo a uma medicina de precisão cada vez mais personalizada”, destacou Douglas Penha.
Ele também apontou a patologia digital e o conceito de analisador digital como as próximas fronteiras de inovação, além da inteligência artificial como ferramenta para democratizar o acesso a especialistas em regiões de escassez de profissionais.
Essa visão foi endossada por Cesar Nomura, que ressaltou que o setor ainda utiliza pouco o potencial da jornada integrada do paciente: “As informações ainda estão muito segmentadas. Enquanto não integrarmos tudo isso com custo adequado, não conseguiremos entregar valor”.
Lídia Abdalla complementou com um questionamento que resume bem o desafio coletivo: “Temos ilhas de excelência no Brasil. Como conectá-las para que isso vire valor para o sistema como um todo? Como propor melhorias sem dados e sem informação?”.
A fragilidade econômica do setor, a relação com operadoras e os modelos de remuneração também foram discutidos. Com cerca de 35% dos equipamentos no Brasil em fim de vida útil e ausência de remuneração por qualidade, o risco de sucateamento é real. “Você usa um tomógrafo que projeta menos radiação no paciente e não será melhor remunerado por isso”, alertou Cesar Nomura.
Para Douglas Penha, a saída rumo ao próximo estágio passa por mostrar números que comprovem que as novas tecnologias reduzem custos no longo prazo — uma mudança que, conforme adiantou a CEO do Grupo Sabin, exigirá coragem e disposição de ambos os lados para manter o equilíbrio e o benefício para todos.
Na plateia, Claudia Cohn, membro do Conselho de Administração da Abramed, levantou a questão da confiança e do prazo necessário para que investimentos em saúde gerem retorno, especialmente diante da rotatividade dos beneficiários nos planos. Rodrigo Lorenzo destacou o papel das empresas contratantes na valorização da qualidade assistencial durante as negociações com operadoras, para ajudar a minimizar as perdas.
Ele também trouxe a perspectiva da indústria e explicou o desafio de incorporar tecnologia em um setor de alto custo, especialmente na área de imagem. Em sua opinião, a solução passa por parcerias de valor, que considerem a venda de equipamentos e todo o ciclo de vida da tecnologia. A visão de um hub integrado de soluções diagnósticas, inspirado em modelos como o do Salesforce, foi apresentada como caminho para reduzir custos e ampliar o acesso à inovação.
Ao final, Cesar Nomura reforçou que a interoperabilidade pode ajudar o setor a operar com mais eficiência e gerar valor real ao paciente. “Ninguém quer ganhar em cima de algo que não é necessário. A interoperabilidade nos permite olhar para o setor com mais eficiência e levar valor ao paciente: fazer o que precisa ser feito”, concluiu.
O debate deixou evidente que a transformação da medicina diagnóstica não depende apenas da incorporação de novas tecnologias, mas da capacidade do setor de reorganizar relações, integrar informações e construir modelos sustentáveis de financiamento e remuneração.
Em um ambiente cada vez mais pressionado por eficiência, envelhecimento populacional e expansão da demanda, inovação isolada já não basta. O desafio agora é fazer com que avanço tecnológico, qualidade assistencial e viabilidade econômica consigam evoluir no mesmo ritmo.
Confira aqui o painel “Qualidade e Segurança na Medicina Diagnóstica”, que também foi realizado pela Abramed durante a Hospitalar 2026.