Biomarcadores no sangue ampliam caminhos para o diagnóstico do Alzheimer

Biomarcadores no sangue ampliam caminhos para o diagnóstico do Alzheimer

Reunião do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed debateu o avanço dos testes plasmáticos e os desafios de qualidade, interpretação e incorporação à prática assistencial 

Durante muito tempo, a investigação da doença de Alzheimer se apoiou na avaliação clínica, em exames de imagem e, em casos específicos, na análise de biomarcadores no líquor. A chegada de testes capazes de detectar no sangue alterações biológicas associadas à doença amplia as possibilidades diagnósticas. Para a assistência, a gestão e a medicina diagnóstica, surge uma questão central: como incorporar essa tecnologia de forma segura, clinicamente útil e operacionalmente viável? 

Foi esse o tema da reunião do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed, realizada em 13 de agosto, na sede da Roche, em São Paulo, que reuniu especialistas para discutir a evolução do diagnóstico da doença, as evidências para os novos biomarcadores e os desafios de levar essa tecnologia da pesquisa para a rotina assistencial.

Guilherme Lemos, coordenador de Valor Médico da Roche Diagnóstica Brasil, abriu a apresentação perguntando: quem nunca saiu de casa e voltou para conferir se tinha trancado a porta? A provocação chegou ao ponto principal da palestra: esquecimentos acontecem. O problema é quando passam a ser tratados automaticamente como consequência da idade e deixam de ser investigados.

O diagnóstico ainda costuma chegar tarde 

Estima-se que 2,71 milhões de pessoas com 60 anos ou mais vivam com demência no Brasil, número que pode chegar a 5,6 milhões em 2050. A doença de Alzheimer é a causa mais frequente, representando de 60% a 70% dos casos. Outro dado chama atenção: aproximadamente quatro em cada cinco idosos que apresentam critérios para demência não receberam diagnóstico formal. 

A ciência, porém, mostra sinais prévios: a patologia amiloide pode surgir cerca de 20 a 30 anos antes das primeiras manifestações clínicas. Identificar a doença mais cedo muda a conversa sobre diagnóstico, acompanhamento e, principalmente, elegibilidade para novas terapias.

A análise de biomarcadores no líquor e o PET amiloide são métodos consolidados, mas envolvem custos, infraestrutura e, no caso do líquor, uma coleta invasiva. Os biomarcadores plasmáticos entram nesse cenário com uma vantagem que interessa a qualquer gestor: escala. Uma coleta de sangue é mais simples, mais fácil de incorporar à rotina de um laboratório e mais acessível a um número maior de pacientes.

Nos dados apresentados, a p-tau217 se destacou pela sensibilidade e especificidade e pela capacidade de diferenciar pacientes com e sem patologia amiloide; a p-tau181 foi apresentada como alternativa relevante, sobretudo para triagem.

Gustavo Bruniera, coordenador médico do serviço de Líquido Cefalorraquidiano (LCR) do Einstein Hospital Israelita, reconstruiu essa evolução: dos critérios clínicos da década de 1980, passando pela sistema biológico AT(N) a partir de 2018, até a reclassificação mais recente, que ampliou a presença dos biomarcadores plasmáticos.

“Ninguém tem dúvida de que o plasma vai chegar, na verdade já chegou. Mas a grande dúvida é como isso vai ser utilizado”, afirmou.

Segundo ele, a Academia Brasileira de Neurologia segue uma linha próxima à do grupo europeu associado a Dubois, que exige a combinação entre manifestação clínica e biomarcador positivo. Já a linha americana, associada a Jack, trabalha com uma definição biológica da doença, em que o biomarcador tem papel central.

“O guideline não é uma reserva de mercado. É uma padronização de como todos nós temos que agir”, concluiu.

O laboratório passa a ter uma responsabilidade ainda maior

O debate mostrou que, além do desempenho clínico, existe uma segunda camada igualmente importante: a qualidade do processo laboratorial. Os novos testes trabalham com concentrações muito baixas, o que aumenta a importância do controle pré-analítico, da padronização e da automação, pontos que Guilherme destacou ao falar dos ganhos da automação no desempenho dos exames.

Carlos Eduardo Ferreira, um dos líderes do Comitê Técnico da Abramed e gerente médico do Laboratório Clínico do Einstein Hospital Israelita, levou essa discussão para a prática laboratorial. “Estamos discutindo um, dois, três, quatro marcadores soltos. Daqui a pouco, teremos a opção de mensurar um número maior de marcadores”, ponderou. “Se já está complexo com um ou dois marcadores, na hora que você colocar uma quantidade grande chegando ao mercado, isso pode gerar confusão”, completou. Ele vê na inteligência artificial uma ferramenta possível para organizar esse cenário, mas alerta para um problema anterior: entender o que significa um resultado alterado em quem ainda não tem comprometimento cognitivo.

A expansão dos biomarcadores aumenta a importância dos laboratórios. Os médicos, porém, também precisarão interpretá-los melhor dentro da história do paciente, dos sintomas e da avaliação cognitiva.

Foi nessa fronteira que Márcio Vega, coordenador médico do Senne Líquor Diagnóstico, trouxe a experiência de quem acompanha a utilização desses exames pelas equipes médicas. Segundo ele, na casuística acompanhada pelo serviço, a proporção de resultados positivos nas assinaturas clássicas de biomarcadores em líquor passou de cerca de 30%, anos atrás, para mais de 60% atualmente. Ainda assim, defendeu cautela em pacientes assintomáticos, lembrando que detectar uma alteração antes dos sintomas nem sempre muda a conduta clínica.

Alex Galoro, um dos líderes do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed e gerente médico da DB Diagnósticos, ampliou a discussão, relacionando o avanço das doenças neurodegenerativas à própria transformação do perfil epidemiológico mundial: à medida que a medicina controla melhor doenças infecciosas e cardiovasculares e as pessoas vivem mais, as enfermidades neurodegenerativas ganham espaço e passam a demandar mais biomarcadores e tratamentos capazes de alterar sua evolução. Segundo ele, é para organizar esse volume crescente de variáveis, e não para substituir o raciocínio clínico, que a inteligência artificial deve ganhar espaço.

Uma agenda que vai crescer

As demências também têm uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. Segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, o custo total anual foi estimado em R$ 96,7 bilhões em 2022 e pode chegar a R$ 199,4 bilhões em 2050. Na estimativa referente a 2019, os custos indiretos representavam 78% do total. O estudo mostrou ainda que 83,6% dos cuidadores exerciam essa atividade de maneira informal e sem remuneração. 

Os participantes convergiram no ponto de que os biomarcadores já estão mudando o diagnóstico do Alzheimer, mas o setor ainda está aprendendo a organizar o uso dessa informação. A indústria desenvolve novos marcadores e a literatura cresce em velocidade; diretrizes, modelos assistenciais e critérios de incorporação ainda precisam acompanhar esse movimento.

Esse debate ultrapassa o território da neurologia e envolve laboratórios, hospitais, médicos, gestores, indústria diagnóstica e regulação. Também amplia o papel da medicina diagnóstica diante de um desafio crescente: transformar dados biológicos em informação clínica útil, capaz de produzir valor real para o paciente e para o sistema de saúde.

Postado em: 19/08/2026

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