Prêmio Dr. Luiz Gastão Rosenfeld homenageia José Carlos Barbério por trajetória de 71 anos dedicada à saúde

Aos 95 anos, pioneiro na produção de radiofármacos no Brasil foi reconhecido durante a 10ª edição do FILIS por sua contribuição à medicina diagnóstica brasileira

Na 8ª edição do Prêmio Dr. Luiz Gastão Rosenfeld, a Abramed homenageou o Prof. Dr. José Carlos Barbério, ex-presidente do Instituto de Ensino e Pesquisa na Área da Saúde (IEPAS). A entrega ocorreu durante a histórica 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), no Teatro Santander, em São Paulo, reunindo lideranças e protagonistas do ecossistema da saúde. 

Pioneiro na produção de radiofármacos no Brasil, Barbério contribuiu para o desenvolvimento da medicina nuclear e do radioimunoensaio no país, além de promover, ao longo da carreira, a capacitação, a qualidade e a integração entre hospitais, clínicas e laboratórios. 

A longevidade dessa contribuição deu à cerimônia um caráter especialmente emocional. Visivelmente emocionado, Barbério dedicou boa parte do agradecimento à família e aos amigos que o acompanharam ao longo desses anos, recorrendo a uma lembrança do pensador italiano Norberto Bobbio para resumir o sentimento do momento:

“Ninguém sobe um degrau na escada da vida se não contou com o auxílio da sua família, dos seus amigos queridos — muitos aqui — e de outros que praticamente viveram comigo os anos muito longos.”

E completou: “Muito obrigado pela honra e pela beleza do presente que recebi. Quero, mais uma vez, agradecer a todos que permitiram que eu, aos 95 anos, ainda recebesse esse prêmio”.

Muito além de celebrar a trajetória de uma carreira, a homenagem reconhece quem acompanhou e ajudou a construir diferentes etapas da evolução da medicina diagnóstica brasileira. Da produção de radiofármacos à formação de profissionais, Barbério fez do conhecimento e da qualidade instrumentos para ampliar a capacidade da Saúde de oferecer diagnósticos cada vez mais qualificados aos pacientes.

Ao homenageá-lo em uma edição histórica do FILIS, a Abramed também reforça um dos princípios que sustentam o Prêmio Dr. Luiz Gastão Rosenfeld: preservar a memória de quem abriu caminhos para o setor e reconhecer profissionais cuja contribuição continua servindo de referência para as novas gerações.

Sobre o Prêmio Dr. Luiz Gastão Rosenfeld

Criado em 2018, o Prêmio leva o nome do patologista Luiz Gastão Rosenfeld (in memoriam), referência nacional em hematologia e patologia clínica e membro da Câmara Técnica da Abramed. A homenagem reconhece profissionais que contribuíram para o desenvolvimento da medicina diagnóstica e da saúde brasileira.

Tradicionalmente, a premiação é entregue por Nydia Bacal, médica hematologista e esposa do saudoso Dr. Luiz Gastão Rosenfeld, e por outras lideranças da Abramed. 

Nas edições anteriores, foram homenageados*:

  • 2018 – Jarbas Barbosa, subdiretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas;
  • 2019 – Mayana Zatz, bióloga molecular, geneticista e docente do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo;
  • 2021 – Margareth Dalcolmo, médica pneumologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz);
  • 2022 – Dimas Tadeu Covas, presidente do Instituto Butantan e do Conselho Curador da Fundação Butantan;
  • 2023 – Alberto Duarte, pesquisador, doutor em Nefrologia pela Unifesp, pós-doutor pela Harvard Medical School e diretor de Análises Clínicas da Rede D’Or SP;
  • 2024 – Giovanni Guido Cerri, presidente dos Conselhos do InRad e do InovaHC, do HCFMUSP, e ex-secretário de Estado da Saúde de São Paulo;
  • 2025 – Pedro Westphalen, médico e deputado federal, reconhecido por sua atuação e articulação política em defesa da Saúde.

*Os cargos se referem à época da entrega da premiação.

Clique aqui e confira todas as publicações sobre a 10ª edição do FILIS!

Inteligência artificial começa a redesenhar diagnóstico, eficiência e cuidado personalizado

Em palestra internacional no FILIS 2026, Moritz Hartmann, da Roche Information Solutions, mostrou aplicações concretas da IA na saúde e defendeu equilíbrio entre inovação, segurança e geração de valor

A inteligência artificial já é utilizada em diferentes frentes e começa a ser incorporada aos processos diagnósticos, à organização dos laboratórios e à identificação mais precoce de riscos clínicos. Essa foi a perspectiva apresentada por Moritz Hartmann, Global Head da Roche Information Solutions, durante palestra internacional no FILIS 2026.

Hartmann chamou atenção para o fato de a saúde produzir volumes crescentes de dados, mas ainda utilizar apenas uma parte desse potencial para apoiar decisões clínicas e melhorar desfechos. A evolução das ferramentas digitais e dos algoritmos abre justamente a possibilidade de conectar informações antes dispersas e transformá-las em conhecimento aplicável ao cuidado.

Para o executivo, o diagnóstico in vitro começa a percorrer um caminho semelhante ao vivido anteriormente pela radiologia. Com a digitalização das imagens e a evolução dos sistemas de armazenamento e análise, a especialidade passou a trabalhar com um volume e uma qualidade de informação cada vez maiores. No laboratório, a combinação entre dados produzidos por diferentes tecnologias, interoperabilidade e IA pode permitir uma visão mais integrada do paciente.

Segundo ele, novas abordagens diagnósticas, incluindo testes multimodais e multiômicos, dependerão da capacidade de reunir informações de diferentes fontes e analisá-las em conjunto. Dados longitudinais acompanhando o mesmo paciente ao longo do tempo também tendem a ganhar importância para compreender doenças complexas e apoiar o desenvolvimento de novas terapias.

Entre o entusiasmo tecnológico e a aplicação clínica

Um dos pontos destacados na palestra foi a necessidade de separar o avanço mensurável da tecnologia do hype que frequentemente acompanha a inteligência artificial. Nem toda novidade apresentada pelo mercado chegará imediatamente à prática assistencial e, na saúde, esse intervalo também está relacionado à necessidade de validar segurança, desempenho e efetividade.

Hartmann observou que algoritmos de machine learning já são utilizados clinicamente em aplicações reguladas, enquanto tecnologias mais recentes, como a IA agêntica, inicialmente devem encontrar espaço em processos operacionais. A questão, segundo ele, é identificar em quais situações a tecnologia efetivamente melhora a assistência ou a eficiência do sistema.

Essa abordagem também passa pela preparação das equipes. O executivo relatou que a Roche estruturou sua estratégia interna de IA a partir de três bases: tecnologia e parcerias estratégicas; princípios regulatórios e éticos; e capacitação das pessoas. A companhia adotou programas de formação para ampliar a alfabetização em IA entre os profissionais e estimular seu uso cotidiano, paralelamente à identificação de processos que podem ser redesenhados com apoio da tecnologia.

Ao afirmar que não existe uma única fórmula para incorporar IA à saúde, ele comparou dois movimentos internacionais: um modelo mais orientado à construção de grandes infraestruturas tecnológicas e outro que parte primeiro de casos de uso com retorno previamente definido. O desafio estaria em encontrar um equilíbrio, criando estrutura suficiente sem perder de vista a aplicação concreta e a geração de valor.

Prever, melhorar o desempenho e personalizar

Para organizar os impactos da inteligência artificial na saúde, Hartmann apresentou três frentes: Predict, Perform e Personalize — prever, melhorar o desempenho e personalizar.

Na primeira, a IA pode ajudar o sistema a avançar de uma lógica predominantemente reativa para uma abordagem mais preventiva, identificando riscos antes do aparecimento de manifestações clínicas mais evidentes. Entre os exemplos apresentados estão algoritmos utilizados para apoiar estratégias de vigilância do carcinoma hepatocelular e para identificar pessoas com maior risco de câncer colorretal que poderiam se beneficiar de investigação adicional.

A segunda frente é a eficiência operacional. Nos laboratórios, a combinação de dados e algoritmos pode contribuir para organizar fluxos, estabelecer prioridades e reduzir etapas desnecessárias. Hartmann citou experiências nas quais ferramentas analíticas foram empregadas para acompanhar o tempo de liberação dos exames, a validação de resultados e o desempenho das operações.

Um dos casos apresentados ocorreu em um laboratório hospitalar de alta complexidade em São Paulo. Segundo os dados mostrados na palestra, o uso de ferramentas analíticas esteve associado à redução de 16% no volume de tubos coletados, aumento de 22% na proporção de resultados críticos comunicados dentro do prazo definido e redução de 3 horas e 12 minutos no tempo médio de liberação de resultados no pronto atendimento.

Para Hartmann, essa lógica poderá avançar ainda mais. Em vez de trabalhar apenas com prazos fixos para liberação de exames, sistemas baseados em IA poderão considerar a necessidade clínica relacionada a cada resultado e ajustar dinamicamente a prioridade das análises. Assim, amostras mais urgentes poderiam ser processadas mais rapidamente, enquanto outras seriam distribuídas de forma mais eficiente ao longo da capacidade do laboratório.

A terceira dimensão é a personalização do cuidado. Nesse campo, Hartmann destacou a patologia digital e o uso de algoritmos para apoiar a avaliação de biomarcadores e características de tecidos. Em um exemplo brasileiro apresentado no FILIS, uma tecnologia que combina plataforma de patologia digital e algoritmo para avaliação de biomarcadores de câncer de mama reduziu de aproximadamente uma hora para segundos o tempo de uma etapa de interpretação que antes era realizada manualmente.

A proposta é direcionar o trabalho humano para atividades de maior complexidade. Em um cenário de escassez de profissionais em algumas especialidades, ferramentas automatizadas podem assumir tarefas repetitivas, apoiar a análise e reduzir filas, mantendo a decisão clínica sob responsabilidade dos profissionais.

Ao encerrar a apresentação, Hartmann procurou afastar a ideia de que essas transformações pertencem a um futuro distante. Os exemplos apresentados mostram que parte delas já começa a fazer parte da rotina de hospitais, laboratórios e programas de pesquisa.

Seus impactos, entretanto, dependerão da combinação entre infraestrutura, interoperabilidade, qualificação profissional, governança e aplicações que respondam às reais necessidades do sistema de saúde.

Clique aqui e confira todas as publicações sobre a 10ª edição do FILIS!

IA na saúde começa pelo problema e pelos dados, não pela ferramenta, mostra debate no FILIS 2026

No dia em que a Resolução CFM nº 2.454/2026 entrou em vigor, painel com Google Cloud, Roche e InovaHC discutiu como incorporar algoritmos com segurança, regulação e resultados. 

A Inteligência Artificial já ocupa espaço crescente na saúde, mas sua incorporação exige decisões que começam antes da escolha do algoritmo. Que problema precisa ser resolvido? A instituição tem dados e infraestrutura para sustentar a solução? Qual o risco envolvido? Como acompanhar o desempenho depois da implantação?

Essas questões conduziram o debate “Caminhos para a adoção segura e estratégica da IA na saúde”, realizado durante o FILIS 2026. Moderado por Marcos Queiroz, membro do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Einstein Hospital Israelita, o painel reuniu Moritz Hartmann, diretor global da Roche Information Solutions (RIS); Priscila Cruzatti, especialista em Inovação e Saúde Digital para o Brasil no Google Cloud; e Giovanni Guido Cerri, presidente do Conselho Diretor do InRad-HCFMUSP, do InovaHC e do Conselho de Administração do ICOS.

A discussão aconteceu justamente no dia em que entrou em vigor a Resolução CFM nº 2.454/2026, que regulamenta o uso da inteligência artificial na prática médica. Na abertura, Marcos lembrou que a norma estabelece responsabilidades no uso da tecnologia, classifica as aplicações conforme o grau de risco, prevê transparência ao paciente e mantém sob responsabilidade do médico as decisões tomadas com o apoio da IA. 

A 8ª edição do Painel Abramed — O DNA do Diagnóstico mostra que 52,9% das associadas investiram em novos modelos de negócio e 35,3% estabeleceram parcerias ou realizaram investimentos em startups, inclusive em soluções de inteligência artificial. Diante de um setor que já experimenta diferentes caminhos de inovação, Marcos perguntou o que as lideranças precisam responder antes de aprovar uma iniciativa de IA. 

Priscila Cruzatti defendeu que a prioridade deve ser dada aos problemas de maior impacto e alinhados à estratégia da instituição. A IA deve entrar como uma ferramenta a ser comparada às demais alternativas, e não como um fim em si mesma. Muitas vezes, já existem soluções possíveis, mas o problema ainda não recebeu prioridade dentro da instituição. 

Ela sugeriu uma matriz de impacto, risco e viabilidade para ordenar projetos e lembrou que há um trabalho estruturante de bastidores, envolvendo arquitetura e governança, que já não cabe apenas à área de TI. Priscila também recomendou a realização de protótipos antes de investimentos mais amplos. 

“Não adianta eu falar de IA sem falar de dados. Eu posso ter um modelo muito interessante, mas, se ele não souber quem é o paciente, não vai dar uma resposta sobre aquela pessoa especificamente; será uma resposta genérica. Então, o ponto de qualquer arquitetura para a saúde é entender a qualidade, a disponibilidade desse dado ou desse conjunto de dados para poder, de fato, funcionar e ter contexto. Tudo começa pelos dados”, ponderou.

Já Giovanni Guido Cerri compartilhou a experiência do InovaHC, cujo laboratório de Inteligência Artificial, criado em 2020, reúne cerca de 30 pesquisadores e desenvolve projetos com Philips, GE, AWS e outras empresas, sempre em codesenvolvimento. O exemplo da AWS partiu de uma insatisfação com laudos radiológicos que ainda seguem o modelo do século passado. O projeto tem três etapas: entregar ao radiologista um resumo clínico do paciente, estruturar o laudo com o apoio da IA e separar a linguagem dirigida ao médico da dirigida ao paciente. Outra solução, de caráter administrativo, automatizou a elaboração da escala de técnicos e biomédicos que atuam nos 16 equipamentos de ressonância do HC, uma tarefa que antes mobilizava vários profissionais durante dois dias. 

“Todo pensamento de introdução de algoritmos de Inteligência Artificial tem que seguir esse modelo. Tem que resolver um problema que nós temos e não só incorporar por incorporar. Eu acho que esse é o grande risco da tecnologia”, comentou.

Para ele, o codesenvolvimento também tem a vantagem de evitar importar algoritmos treinados em outras populações, que chegam com viés e sem validação local.  Parcerias com empresas de tecnologia permitem o acesso a equipes e recursos que as instituições de saúde dificilmente conseguiriam manter na mesma escala: há empresas com 200 ou mil desenvolvedores, sendo que 30 já é muito para a realidade de um hospital. 

A condição é que a solução seja adaptada à realidade local e tenha seus resultados monitorados. Sobre o estágio atual, Giovanni foi enfático ao afirmar que a IA já está consolidada no back office e começa a aparecer em soluções clínicas pontuais. As aplicações mais disruptivas, como a radiômica, que extrai das imagens informações quantitativas imperceptíveis ao olho humano, ainda estão por vir. 

Outro aspecto a ser considerado foi a manutenção das soluções depois da implementação. Marcos Queiroz observou que o desafio é tornar a inovação um ativo permanente da instituição, com manutenção e validação contínuas, pois o desempenho do algoritmo pode diminuir ao longo do tempo. 

Moritz Hartmann concordou que o ponto de partida deve ser o problema, mas propôs que os casos de uso sejam ordenados conforme o risco. Aplicações operacionais que economizam tempo apresentam menor risco e podem avançar mais rapidamente. Já os algoritmos capazes de interferir na assistência exigem mais cautela. Segundo Moritz, a avaliação deve considerar se o modelo foi treinado com um conjunto fechado de dados ou se continua aprendendo durante a operação. Ele contou que a própria Roche já engavetou projetos porque, dos 28 pontos de dados necessários, apenas cinco ou seis estavam disponíveis.

Sobre interoperabilidade, explicou que esse não é um problema exclusivo do Brasil, mas um desafio global, presente no âmbito das instituições, dos países e das empresas. A Roche só passou a ter uma estratégia harmonizada de dados no diagnóstico in vitro há dois ou três anos. Ele  acrescentou que a IA inverte a lógica dos sistemas transacionais, que guardam pouco dado para não travar: agora o interesse é reter o máximo de informação para alimentar os modelos. 

Moritz também apontou uma tensão que o setor terá de administrar: um analisador leva três anos para ser desenvolvido e permanece 15 anos em uso sem mudanças significativas, enquanto a IA evolui continuamente. As duas lógicas terão de coexistir. Ao ser questionado sobre equidade, Moritz citou a ausência de modelos de remuneração como uma barreira à adoção e defendeu que a inovação se pague pela eficiência, o que amplia o acesso. “É aceitável deixar de incorporar um algoritmo que detecta câncer melhor quando há um paciente esperando pelo resultado?”, indagou.

Giovanni também defendeu que os médicos sejam preparados para compreender o funcionamento dos algoritmos. A tecnologia se desenvolve em meses, entra nos hospitais em anos e na academia demora ainda mais. O currículo de medicina reúne dezenas de especialidades e a maioria dos docentes não viveu a transformação digital. Enquanto isso, o perfil dos alunos mudou. Segundo ele, cerca de 30% dos estudantes que ingressam na faculdade não pretendem seguir uma carreira médica tradicional, mas pretendem empreender.

Ao encerrar o debate, Marcos pediu a cada um a decisão sobre IA que tomaria hoje para prestar contas em 2030. Priscila escolheu priorizar a estruturação e o uso transparente dos dados, para que eles possam ser transformados em informação e ação. Moritz escolheu o parceiro certo, porque ninguém faz essa jornada sozinho. 

Cerri respondeu que, em um país que investe pouco per capita e mantém um sistema universal, a transformação digital é um caminho para ampliar o acesso e reduzir desigualdades e custos. Segundo ele, a interoperabilidade poderia reduzir em até 15% os gastos em saúde e aumentar a segurança do paciente ao favorecer diagnósticos mais precoces. Haverá erros de decisão, admitiu, mas o caminho é necessário e precisa ser acelerado.

Clique aqui e confira todas as publicações sobre a 10ª edição do FILIS!

Diagnóstico oportuno amplia valor para o paciente e para o sistema de saúde, aponta debate do FILIS 2026 

Terceiro debate do evento abordou diagnóstico oportuno, qualidade, dados e modelos de cuidado capazes de melhorar desfechos e reduzir desperdícios

O diagnóstico realizado no momento adequado pode mudar a conduta médica, permitir o início do tratamento na janela terapêutica correta e evitar custos associados ao avanço de uma doença. Foi a partir dessa relação entre resultado clínico e sustentabilidade que o terceiro debate do FILIS 2026 discutiu a contribuição da Medicina Diagnóstica para um sistema de saúde mais eficiente.

Dados da 8ª edição do Painel Abramed — O DNA do Diagnóstico ajudam a dimensionar essa participação na assistência. Em 2025, foram realizados cerca de 1,13 bilhão de exames na saúde suplementar, em um cenário marcado pelo envelhecimento da população e pela crescente necessidade de prevenção, acompanhamento e diagnóstico precoce. 

Moderado por Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin, o painel reuniu Bruno Sobral, diretor-executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde); Daniela Carlini, líder Médica da Área Terapêutica de Imunologia da Sanofi; Daniel Greca, diretor de Novos Negócios de Saúde no Sírio-Libanês; e Raquel Lisbôa, gerente de Estímulo à Inovação e Avaliação da Qualidade dos Prestadores de Serviços (GEIQP), da DIDES/ANS.

Na abertura, Lídia lembrou que a Medicina Diagnóstica acompanha o indivíduo desde o pré-natal e ao longo de toda a vida. Por isso, o desafio não está apenas em ampliar o acesso aos exames, mas em garantir que sejam realizados quando necessários, com qualidade e inseridos em uma jornada capaz de orientar a decisão clínica.

Raquel destacou como a digitalização modificou essa relação. Segundo a 8ª edição do Painel Abramed — O DNA do Diagnóstico, foram registrados 90,4 milhões de acessos eletrônicos a resultados em 2025, e mais de 96% dos resultados foram acessados ou retirados. Os números mostram que os pacientes efetivamente buscam suas informações diagnósticas. Para ela, ampliar a integração dessas informações às linhas de cuidado pode favorecer a continuidade da assistência, evitar que dados já disponíveis sejam novamente produzidos e apoiar a definição da conduta terapêutica. 

O impacto clínico e econômico do diagnóstico oportuno foi abordado por Daniela Carlini. Ela citou um estudo publicado em 2025, realizado com 4.596 pacientes oncológicos no Reino Unido, no qual o uso de recursos por pacientes diagnosticados nos estágios 3 e 4 chegou a ser quase o dobro daquele observado nos estágios iniciais. O mesmo trabalho estimou que, se 75% daquela população fosse diagnosticada em estágios mais precoces, seria possível economizar 27 milhões de libras em quatro anos. 

Contudo, ela explicou que isso não significa necessariamente utilizar o exame mais novo ou a metodologia mais sofisticada. A incorporação de um teste precisa considerar sua validade analítica e clínica, sua utilidade e, principalmente, se aquela informação será capaz de modificar a conduta para aquele paciente.

A líder Médica da Área Terapêutica de Imunologia da Sanofi sintetizou essa avaliação em perguntas simples: por que o teste está sendo solicitado, para que, para quem e como seu impacto será medido depois. O raciocínio também vale para exames já incorporados à rotina. Um hemograma, exemplificou, pode responder melhor a determinada necessidade clínica do que uma tecnologia mais avançada quando a indicação é adequada.

Bruno Sobral levou a discussão para a organização das jornadas de cuidado. Em um sistema que precisa acompanhar uma população mais longeva e condições como câncer, autismo e doenças raras, a capacidade de compartilhar e utilizar informações passa a ser decisiva. “O diagnóstico é a lente que permite olhar para aquele paciente, para aquela jornada, e entender se aquilo faz sentido”, afirmou.

Na opinião dele, sem essa base, torna-se mais difícil acompanhar resultados, organizar linhas assistenciais e avaliar se determinado tratamento está funcionando ao longo do tempo.

A qualidade dos serviços como diferencial também foi pautada. Lídia defendeu que instituições que investem continuamente em acreditações, certificações e programas de qualidade tenham esse esforço reconhecido. Além de aumentar a segurança do paciente, processos mais robustos ajudam a reduzir falhas e a necessidade de repetição de exames, com impacto sobre a própria eficiência do sistema.

Raquel explicou que essa é uma das frentes de atuação da ANS. Por meio do Programa de Monitoramento da Qualidade dos Prestadores de Serviços na Saúde Suplementar (PM-QUALISS), a agência busca ampliar a avaliação da qualidade e tornar informações sobre acreditações, certificações e indicadores mais acessíveis aos beneficiários. A possibilidade de identificar prestadores qualificados pode apoiar a escolha dos pacientes e estimular outros serviços a avançar em seus padrões.

O monitoramento por indicadores também deverá avançar para além do ambiente hospitalar. Segundo Raquel, a medicina diagnóstica está entre os setores considerados para uma próxima etapa de divulgação desses dados, permitindo que a qualidade e os resultados sejam cada vez mais visíveis para quem utiliza os serviços.

O debate possibilitou ainda outro olhar sobre a saúde corporativa. Daniel Greca destacou que o aumento dos custos assistenciais colocou as empresas diante de uma responsabilidade para a qual muitas ainda estão se preparando: entender melhor a saúde de suas populações e participar de forma mais ativa da organização do cuidado.

Ele avalia que esse trabalho exige equilibrar três forças que nem sempre apontam na mesma direção: a evidência científica, as expectativas e necessidades do colaborador e a percepção de valor do empregador. É nesse ponto que a Medicina Diagnóstica pode contribuir tanto para a educação do paciente quanto para a construção de modelos assistenciais orientados por evidências.

Daniel chamou atenção especialmente para o letramento. A percepção de que “mais exames” significa necessariamente melhor cuidado ainda precisa ser superada. A incorporação de novas tecnologias deve acontecer quando elas efetivamente respondem a uma necessidade daquela população e acrescentam informação capaz de melhorar a decisão clínica.

No encerramento, Raquel Lisbôa apontou a direção que considera necessária para os próximos anos: avançar de um sistema baseado no volume de exames, procedimentos e terapias para outro capaz de medir os resultados entregues ao paciente.

Para que essa mudança avance, ela destacou a necessidade de maior interoperabilidade dos dados e de indicadores capazes de mostrar os desfechos que realmente importam para os pacientes. Um movimento que coloca a Medicina Diagnóstica não apenas como parte da assistência, mas como fonte de informação para decisões clínicas, acompanhamento de resultados e melhor utilização dos recursos disponíveis.

Clique aqui e confira todas as publicações sobre a 10ª edição do FILIS!

FILIS 2026 debate caminhos para uma regulação alinhada à realidade, com foco em segurança e qualidade assistencial

Debate mostrou que o cumprimento de normas deve caminhar ao lado de cultura organizacional, governança, tecnologia, formação humana e diálogo com órgãos regulatórios

A discussão sobre regulação em saúde deve considerar os impactos das normas na relação com o paciente, nos processos das organizações e na qualidade dos serviços oferecidos. Esse foi um dos focos do segundo debate do FILIS 2026, que contou com mediação de Wilson Shcolnik, membro do Conselho de Administração da Abramed e gerente de Relações Institucionais do Grupo Fleury. Participaram Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury; Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin; Rafael Lucchesi, CEO da Dasa; e Thiago Lopes Cardoso Campos, diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Os executivos discutiram como os marcos regulatórios podem contribuir para serviços mais seguros e eficientes, relacionando a atuação das agências à incorporação desses princípios na gestão e na operação das instituições. 

Na abertura, Thiago Lopes Cardoso Campos destacou o esforço da Anvisa para ampliar o diálogo com o setor, enfrentar gargalos acumulados e fortalecer o acompanhamento dos serviços e produtos ao longo de todo o ciclo de vida. Segundo ele, a agenda de segurança e qualidade não nasceu apenas de uma determinação regulatória, mas das próprias necessidades identificadas nos serviços de saúde e posteriormente incorporadas às políticas públicas.

Nas experiências apresentadas pelo Grupo Sabin, Fleury e Dasa, qualidade e segurança apareceram diretamente relacionadas à cultura organizacional, à formação das pessoas e à capacidade de manter padrões comuns mesmo em operações de grande escala e com presença em diferentes regiões do país.

Lídia Abdalla lembrou que o Brasil reúne realidades muito distintas de infraestrutura, sistemas de saúde e qualificação profissional.Por isso, desde a escolha de novos mercados e parceiros, o processo de expansão do Sabin considera a afinidade cultural e a capacidade de incorporar os padrões da organização. “Nós não abrimos mão e não há flexibilidade em segurança do paciente e qualidade”, afirmou. A integração envolve desde requisitos sanitários e sistemas informatizados até a capacitação das equipes e valorização de lideranças locais.

No Fleury, segundo Jeane Tsutsui, a padronização precisa acompanhar toda a jornada diagnóstica, incluindo preparo do paciente, coleta, transporte e as etapas pré-analítica, analítica e pós-analítica. Para uma operação que reúne unidades próprias, atendimento móvel, hospitais e milhares de laboratórios parceiros, transformar o conhecimento dos especialistas em processos institucionalizados e replicáveis é parte essencial da manutenção da qualidade. “A governança técnica é fundamental”, resumiu.

Já Rafael Lucchesi trouxe a experiência da Dasa e reforçou que a escala só se transforma em vantagem quando vem acompanhada de integração, processos e indicadores capazes de mostrar rapidamente qualquer desvio. Segundo ele, indicadores financeiros e de experiência do paciente convivem hoje com painéis específicos de qualidade assistencial e segurança. Quando algum risco é identificado, a informação chega prioritariamente à alta gestão. 

Com a digitalização dos serviços e o avanço da Inteligência Artificial, a cibersegurança também entrou nessa rotina de acompanhamento. Lucchesi destacou que os riscos tecnológicos passaram a exigir atenção permanente das lideranças. Wilson Shcolnik reforçou que, para o setor de saúde, proteger sistemas e informações também significa proteger o próprio paciente.

A gestão do parque tecnológico dessas empresas mostrou outra dimensão da estrutura de qualidade. Os participantes relataram processos contínuos de acompanhamento de equipamentos, que envolvem engenharia clínica, manutenção, desempenho analítico, qualidade de imagem, produtividade, calibração e planejamento de substituições.

No Sabin, o monitoramento alcança todo o parque tecnológico e é acompanhado diariamente. No Fleury, Jeane ressaltou que “a qualidade começa na seleção dos equipamentos” e explicou que o acompanhamento se estende durante toda a vida útil da tecnologia. Em 2025, o grupo destinou R$ 98 milhões à renovação de equipamentos. Já na Dasa, a aprovação regulatória é seguida por uma validação técnica própria antes da incorporação: equipamentos que não atingem os parâmetros estabelecidos pela instituição podem retornar aos fornecedores para ajustes antes de entrar na operação.

Uma regulação mais integrada

Ao tratar do papel da Anvisa, Thiago apresentou a complexidade da atuação da agência, especialmente nas áreas de portos, aeroportos, fronteiras e importações. De acordo com ele, o desafio envolve não apenas a amplitude das atribuições, mas a necessidade de aperfeiçoar processos e integrar os diferentes órgãos envolvidos nas análises.

Ele defendeu que a modernização precisa simplificar a relação com o poder público sem comprometer a avaliação sanitária. “Um processo na administração pública não pode ser tratado como uma gincana”, afirmou, ao defender sistemas em que diferentes órgãos possam analisar simultaneamente um mesmo processo, em vez de impor sucessivas etapas ao setor regulado.

Thiago também apontou a convergência internacional como um caminho importante para o aperfeiçoamento regulatório. A Anvisa já participa de fóruns globais e trabalha para aproximar suas regras das referências adotadas em outros mercados, embora algumas áreas ainda tenham espaço para ampliar esse intercâmbio. Para o diretor da Agência, a discussão precisa partir sempre da avaliação do risco sanitário que o país está disposto a aceitar e das melhores práticas disponíveis para gerenciá-lo.

A discussão mostrou que a regulação estabelece uma base indispensável, mas a qualidade se sustenta no dia a dia, por meio da formação das equipes, da governança técnica, do acompanhamento de indicadores e da atualização de processos e equipamentos. O desafio é construir normas capazes de responder às diferentes realidades dos serviços sem perder de vista o princípio que orientou todo o debate: a segurança do paciente. 

Clique aqui e confira todas as publicações sobre a 10ª edição do FILIS!

Construção de ambiente regulatório capaz de promover a inovação na saúde é pauta do primeiro debate do FILIS 2026

Representantes da Anvisa, da Abramed e do setor hospitalar analisaram alternativas para garantir previsibilidade e fortalecer a sustentabilidade dos serviços

A inovação em saúde avança em um ambiente que exige segurança regulatória e qualidade dos processos, ao mesmo tempo em que novas tecnologias precisam encontrar condições para serem desenvolvidas e incorporadas à rotina assistencial. 

A pauta fez parte do debate “Regulação, inovação e os impactos para a Medicina Diagnóstica”, que abriu a programação do FILIS 2026 e contou com mediação de Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed, diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Participaram da discussão Diogo Penha Soares, diretor-adjunto da Presidência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa); Fernando Ganem, CEO do Hospital Sírio-Libanês; Henrique Neves, diretor-geral do Einstein Hospital Israelita; e Julio Vieira, membro do Conselho Fiscal da Abramed e CEO do Hcor.

Ao longo do painel, Cesar Nomura chamou atenção para o envelhecimento do parque de equipamentos de radiologia no país. Segundo pesquisa citada por ele, entre 30% e 40% das máquinas pesadas poderão chegar ao fim de sua vida útil nos próximos dois anos.

Diante desse cenário, Fernando Ganem abordou o desafio de avaliar quais inovações devem receber investimento e ganhar escala dentro de uma instituição de alta complexidade. Para ele, a capacidade de oferecer os recursos necessários ao diagnóstico e ao tratamento também está ligada à sustentabilidade e ao posicionamento estratégico do hospital.

O executivo trouxe a perspectiva de quem recebe, todos os dias, propostas de novas tecnologias e modelos de negócio e comentou que o desafio do gestor é ter informações técnicas consistentes para tomar decisões. “Se algum paciente ou profissional escolher não estar na nossa instituição porque nós não temos o recurso para fazer o diagnóstico ou o tratamento dele, temos um problema de sustentabilidade”, afirmou. 

Ganem defendeu ainda que a ciência e os dados orientem essa incorporação: “Trazer a ciência, trazer o dado, junto com as instituições sérias, para influenciar as políticas de saúde e a relação com as operadoras, e questionar aquilo que realmente gera valor para os pacientes que precisam do acesso”. 

Ao apresentar as experiências do Einstein em terapia celular, saúde digital e startups, Henrique Neves, por sua vez, mostrou que foi necessário desenvolver soluções ao mesmo tempo em que se construíam os caminhos regulatórios para viabilizá-las.

“Quando começamos a desenvolver projetos e a lidar com os desafios trazidos pelas novas tecnologias, isso despertou um interesse cada vez maior dentro da organização. E fomos aprendendo à medida que ampliávamos essas experiências”, afirmou. A partir desse processo, o hospital passou a estruturar uma governança específica, com um comitê de empreendedorismo e inovação que acompanha investimentos, resultados e novas colaborações.

Os dados da 8ª edição do Painel Abramed — O DNA do Diagnóstico mostram que esse movimento também ocorre entre as associadas: 52,9% investem em novos modelos de negócio e 35,3% mantêm parcerias ou investimentos em startups. 

Representando a Anvisa, Diogo Penha Soares destacou que o diálogo com quem desenvolve e utiliza novas tecnologias é parte importante da construção de respostas regulatórias.

“Queremos discutir a inovação com quem está desenvolvendo inovação. Aprendemos como regular junto ao regulado, que é quem está inovando”, ressaltou. Entre as iniciativas apresentadas, Diogo mencionou a proposta de criação de um sandbox regulatório — ambiente de experimentação que permitirá à agência avaliar novas soluções e aperfeiçoar a regulação a partir de dados e da interação com quem desenvolve as tecnologias.

Júlio Vieira trouxe a discussão para a capacidade das instituições de gerar resultados suficientes para sustentar a atualização tecnológica. Os dados do Painel Abramed ajudam a dimensionar esse esforço: em 2025, as associadas somaram R$ 933,4 milhões em CAPEX, mesmo diante das pressões sobre custos e margens. 

“Quando se fala de investimento em equipamentos, pensa-se muito na compra de um aparelho de ressonância, de tomografia ou de ultrassom. Só que esse investimento não vem sozinho. Ele vem também com investimento em infraestrutura e com um custeio adicional de manutenção, reposição de peças, trocas e substituições”, explicou.

Ele também lembrou que os hospitais trabalham com margens apertadas e precisam gerar resultados para cobrir a própria depreciação antes de investir em novos projetos. Para Vieira, a Medicina Diagnóstica vai ocupar uma parte cada vez maior dessa agenda, visto que mais de 70% das decisões clínicas já se apoiam no diagnóstico.

Ainda no âmbito financeiro e da governança do ecossistema de saúde, o CEO do Hcor comentou a relação entre prestadores e fontes pagadoras. A 8ª edição do Painel Abramed — O DNA do Diagnóstico mostra que o prazo médio de recebimento pode chegar a 71 dias. As glosas iniciais representam 4,6% do faturamento das associadas, enquanto 1,2% permanece não pago mesmo após a contestação, processo que pode superar 85 dias. 

“Na Medicina Diagnóstica, conseguimos melhorar esse processo, inclusive com informatização, automação e Inteligência Artificial. Mas a questão da glosa ainda é pouco técnica e muito administrativa, o que acaba gerando instabilidade para o setor”, comentou. Para ele, o tema deixou de ser apenas operacional e exige uma discussão mais ampla sobre regras e relações entre os diferentes agentes do setor.

Ao encerrar o debate, Cesar Nomura reforçou a necessidade de criar condições para que o setor incorpore novas soluções com segurança e gere valor para o sistema. “Vemos que a inovação precisa de sustentabilidade para fazer tudo isso”, afirmou.

Clique aqui e confira todas as publicações sobre a 10ª edição do FILIS!

Diagnóstico 5.0 e o valor da medicina diagnóstica na transformação da saúde

Conceito que orienta a 10ª edição do FILIS traduz uma mudança que já alcança laboratórios e hospitais e reposiciona a medicina diagnóstica na jornada do cuidado

Depois de “indústria 4.0”, virou comum nomear qualquer salto tecnológico com uma numeração parecida. Na medicina diagnóstica, porém, mesmo que uma nova tecnologia entre em operação, o equipamento ganhe velocidade, o sistema processe mais informações e novas ferramentas ajudem a identificar padrões em grandes volumes de dados, nada disso, isoladamente, define o “Diagnóstico 5.0”.

O termo marca a passagem de uma fase em que digitalizar e automatizar eram os principais objetivos para outra em que a tecnologia só faz sentido quando gera resultados mais precisos e ágeis para o paciente. 

Exames de biologia molecular e testes genéticos já permitem identificar a causa de uma doença com mais precisão e ajustar o tratamento a cada paciente, em vez de repetir o mesmo protocolo para todo mundo. Segundo projeções do setor, exames de alta complexidade e medicina de precisão avançam de duas a três vezes mais rápido que o mercado como um todo, entre 15% e 25% ao ano, e devem chegar a R$ 70 bilhões até 2030.

Contudo, um levantamento do Comitê Gestor da Internet no Brasil mostra que, hoje, apenas 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros usam Inteligência Artificial. Esse percentual sobe para 29% nos serviços de apoio diagnóstico e terapêutico, mas o uso ainda é concentrado em tarefas operacionais, como organização de processos. O mercado de IA aplicada à saúde no Brasil deve crescer 38% ao ano até 2030, um ritmo alto exatamente porque a base de hoje ainda é pequena.

“O crescimento da medicina de precisão não é modismo, é continuidade de um movimento que já sustenta a medicina diagnóstica há 15 anos. A diferença é que, agora, cada ganho de tecnologia só se justifica se vier acompanhado da capacidade de transformar aquele resultado em decisão clínica ou de gestão”, avalia Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed. 

O ponto de transformação só acontecerá quando esses recursos passarem a conectar etapas que, por muito tempo, funcionaram de forma fragmentada: solicitação, realização do exame, análise, interpretação dos resultados, definição da conduta e acompanhamento do paciente. Nesse modelo, o diagnóstico deixará de ser compreendido como um momento pontual da jornada assistencial e ampliará sua participação nas decisões que orientam o cuidado.

“Diagnóstico 5.0 é sobre integrar todas essas informações com segurança e transformar isso em cuidado personalizado para quem está do outro lado do resultado”, diz Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

Para quem gerencia um laboratório ou uma rede hospitalar, isso deixou de ser uma discussão de médio prazo para se tornar uma decisão estratégica de agora: quanto investir em genômica, como preparar equipes para interpretar resultados mais complexos, como precificar um exame que entrega mais informação, mas também custa mais para ser feito.

São respostas que não podem ser dadas por uma única área. Elas são técnicas, financeiras, éticas e clínicas ao mesmo tempo. Respondê-las exige diálogo entre empresas, profissionais de saúde, reguladores, fontes pagadoras, desenvolvedores de tecnologia e representantes dos pacientes. Essa mistura é, talvez, a definição mais honesta de Diagnóstico 5.0, que não é uma tecnologia específica, mas o momento em que tecnologia, dado e decisão de negócio deixam de ser conversas separadas dentro de uma mesma organização.

Informação para cuidar e também para planejar

Os efeitos do Diagnóstico 5.0 ultrapassam a decisão sobre um caso individual. Quando analisados de forma agregada, segura e responsável, os dados produzidos pela medicina diagnóstica também podem revelar perfis de demanda, lacunas assistenciais, mudanças epidemiológicas e oportunidades de aprimoramento dos serviços.

Essas informações contribuem para dimensionar a capacidade de atendimento, planejar investimentos, organizar fluxos, reduzir repetições desnecessárias e direcionar recursos para onde podem gerar maior impacto. O diagnóstico passa, assim, a apoiar tanto as decisões clínicas quanto as organizacionais.

Uma mudança que fortalece o papel das empresas de medicina diagnóstica como parceiras na construção de modelos assistenciais mais eficientes, sustentáveis e orientados a melhores desfechos e aumenta ainda mais a necessidade de garantir a qualidade de todos os processos diagnósticos.

A precisão técnica do exame continua sendo indispensável e, cada vez mais, passará a integrar um conjunto mais amplo de responsabilidades, que inclui padronização das informações, rastreabilidade, proteção de dados, segurança dos sistemas e critérios transparentes para o uso de novas tecnologias.

“Estamos falando de uma transformação que atravessa toda a organização. Ela exige investimento em tecnologia, mas também em governança, qualificação das equipes, integração entre instituições e clareza sobre o valor que se pretende gerar. O Diagnóstico 5.0 só fará sentido se a inovação chegar à prática, fortalecer a sustentabilidade do sistema e produzir benefícios perceptíveis para pacientes e profissionais”, destaca Milva Pagano.

Uma transformação que depende de escolhas

Avançar não significa incorporar toda tecnologia disponível, mas saber escolher aquelas capazes de resolver problemas que há muito tempo fazem parte do setor. A tecnologia permite dar escala a essa capacidade de análise. O conhecimento médico, por sua vez, preserva o contexto necessário para definir qual investigação é necessária, em que momento deve ser realizada e como o resultado pode modificar uma conduta, evitando que os resultados sejam reduzidos a um conjunto de indicadores.

Essa discussão fará parte da 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), promovido pela Abramed em 26 de agosto, no Teatro Santander, em São Paulo. Sob o macrotema “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”, o encontro conectará Regulação, Valor da Medicina Diagnóstica, ESG e Inteligência Artificial.

Para participar do FILIS 2026, acesse o site do evento e adquira seu ingresso.

Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial avança no Congresso 

Construído coletivamente por entidades do setor, projeto propõe integrar a rede, assegurar padrões de qualidade e ampliar o acesso a exames na saúde pública 

O diagnóstico laboratorial orienta decisões que vão da prevenção ao acompanhamento dos tratamentos, mas o Brasil ainda não possui uma política nacional que organize a rede, articule padrões de qualidade e estabeleça bases sustentáveis de financiamento.

O Projeto de Lei 5.478/2025 busca preencher essa lacuna ao instituir a Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial (PNDL). De autoria do deputado federal Pedro Westphalen (PP-RS), a proposta foi construída ao longo de um ano e meio, em diálogo com entidades representativas de diferentes segmentos do diagnóstico laboratorial e da saúde. 

Além da Abramed, participam dessa construção a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), a Federação Brasileira de Laboratórios de Análises Clínicas (Febralac), a Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar), o Conselho Federal de Farmácia (CFF), a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), o Conselho Federal de Biomedicina (CFBM), a Federação das Associações de Biomedicina (Faebim) e a Associação Médica Brasileira (AMB). 

Westphalen afirma que sua experiência como médico motivou a atuação em torno da proposta. “Eu só consigo fazer um tratamento adequado com um diagnóstico bem-feito, com precisão, segurança e sustentabilidade”, diz. Para o parlamentar, a pandemia de Covid-19 também evidenciou a importância dos profissionais que atuaram nos bastidores da resposta sanitária, como farmacêuticos e bioquímicos. 

O diálogo técnico e institucional contribuiu para que o projeto chegasse à relatoria com uma base considerada consistente. Responsável pelo parecer na Comissão de Saúde, o deputado Dr. Ismael Alexandrino (PSD-GO) avalia: “Meu primeiro diagnóstico foi de que o projeto chegou às minhas mãos muito maduro.” 

Qualidade, financiamento e dados

Na relatoria, o texto foi aperfeiçoado em diálogo com o Ministério da Saúde e as entidades envolvidas na construção da proposta, consolidando três eixos centrais: qualidade e isonomia sanitária, sustentabilidade financeira e interoperabilidade.

O primeiro reúne qualidade e isonomia sanitária. Como o processo diagnóstico compreende as fases pré-analítica, analítica e pós-analítica, o texto determina que os exames sejam executados por laboratórios licenciados e que os estabelecimentos autorizados a realizar coletas ou testes cumpram requisitos técnico-sanitários e padrões de qualidade equivalentes.

O segundo eixo é a sustentabilidade financeira. A proposta prevê a atualização anual da remuneração dos exames realizados para o SUS, com metodologia baseada nos custos reais de produção, considerando insumos, tecnologia, logística e recursos humanos.

A interoperabilidade constitui o terceiro eixo. Os laboratórios que integram a rede do SUS deverão conectar seus sistemas à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). A integração pode reduzir a repetição de exames, favorecer a continuidade do cuidado e ampliar o uso dos dados na vigilância epidemiológica.

“Esses pilares procuram resolver, na prática, a fragmentação sistêmica da rede, a dependência externa crítica de insumos e a oneração do erário com repetições desnecessárias de exames”, explica Alexandrino.

Para que a PNDL não se limite a princípios, o texto reúne mecanismos de qualidade, financiamento e monitoramento, como controle de qualidade nos laboratórios, rastreabilidade das amostras, atualização anual da remuneração e financiamento interfederativo. Segundo o relator, a implementação também deverá promover a integração entre o Sistema Nacional de Laboratórios de Saúde Pública (Sislab) e a rede privada.

A proposta incentiva ainda a pesquisa, a inovação e a produção nacional, com o objetivo de reduzir a dependência externa de insumos e equipamentos. Caso o projeto seja aprovado pelo Congresso e sancionado, o Poder Executivo terá 180 dias para regulamentá-lo.

Sem a PNDL, alerta Alexandrino, o país corre o risco de perpetuar a fragmentação e a desigualdade no acesso, além de limitar sua capacidade de resposta a futuras emergências sanitárias.

Próximos passos no Congresso

Em 17 de agosto, Alexandrino apresentou novo parecer pela aprovação do projeto, com substitutivo, na Comissão de Saúde. A proposta também está pronta para ser incluída na pauta do Plenário da Câmara.

O regime de urgência para o PL 5.478/2025 foi aprovado por unanimidade pelo Plenário em 9 de junho. Com isso, a matéria pode ser votada diretamente em Plenário, sem depender da conclusão prévia de toda a tramitação nas comissões.

Westphalen afirma que a articulação está concentrada no diálogo com as entidades e com as lideranças partidárias para incluir o projeto na pauta. O parlamentar manifestou a expectativa de votação em setembro e de sanção ainda em 2026.

Para os pacientes do SUS, os primeiros efeitos esperados estão na organização e na qualificação da rede, com maior segurança e confiabilidade nos exames. No médio prazo, a política pode ampliar o acesso a procedimentos de média e alta complexidade, reduzir desigualdades regionais e fortalecer a resposta a emergências sanitárias.

“A PNDL muda a vida do paciente do SUS de forma progressiva, mas consistente: primeiro na qualidade e na segurança do exame; depois, no acesso e na capacidade do sistema de antecipar e responder aos problemas de saúde da população”, resume Alexandrino.

A construção coletiva que levou a proposta até esta etapa evidencia a convergência das entidades em torno de uma agenda comum. O desafio agora é transformar essa base técnica em uma política pública efetiva, capaz de integrar a rede, dar previsibilidade ao financiamento, ampliar o acesso e elevar a segurança do diagnóstico oferecido à população.

Saúde privada atualiza Código de Boas Práticas e amplia agenda de governança de dados 

Construído por nove entidades, documento amplia orientações para aplicação da LGPD e incorpora temas como inteligência artificial, interoperabilidade e segurança da informação

A segunda edição do Código de Boas Práticas do Setor da Saúde foi lançada em 5 de agosto, na sede da CNSaúde, em Brasília, durante evento promovido pelo Instituto Consenso. O documento estabelece referências para a aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) em uma cadeia da saúde cada vez mais conectada e dependente do compartilhamento de informações.

Resultado de dois anos de trabalho conjunto, o Código foi construído por nove entidades representativas dos principais elos da saúde privada: Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (Abraidi), Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas (CMB), Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), Federação Brasileira de Hospitais (FBH), Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) e Associação Brasileira de Planos Odontológicos (Sinog).

O lançamento reuniu parlamentares, representantes de agências reguladoras, autoridades do Ministério da Saúde e lideranças do setor para debater governança de dados, interoperabilidade e Inteligência Artificial aplicada à saúde.

Durante o evento, a deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP) apresentou o andamento do projeto de lei sobre interoperabilidade de dados em saúde e a Rede Nacional de Dados de Saúde. Também participou do encontro Ana Estela Haddad, que, na ocasião, ocupava o cargo de secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde.

Representantes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) discutiram os impactos regulatórios da Inteligência Artificial e os caminhos para maior diálogo entre reguladores e setor. A apresentação do Código ficou a cargo das coordenadoras acadêmicas Laura Schertel Mendes e Mônica Fujimoto, do IDP/CEDIS, ao lado de Lorena Giuberti, diretora da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

O que muda na nova edição?

A primeira edição, lançada em 2021, ofereceu ao setor um parâmetro próprio de conformidade voltado especificamente aos prestadores privados de serviços de saúde.

Já a segunda versão amplia esse escopo ao incorporar também operadoras de planos de saúde e fornecedores e distribuidores de produtos para saúde, refletindo a própria dinâmica do setor.

Dados clínicos e administrativos percorrem diferentes organizações ao longo da jornada do paciente — do agendamento e realização de exames à emissão de laudos, autorização de procedimentos, faturamento, auditoria, assistência, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias. O Código reconhece a interdependência desses fluxos e propõe uma abordagem de proteção de dados que considere toda a cadeia.

Organizado em duas partes, o documento apresenta inicialmente conceitos, princípios e bases legais da LGPD aplicados à saúde e, em seguida, reúne orientações sobre temas como prontuário eletrônico, telessaúde, relação com terceiros, auditorias, direitos dos titulares, Relatórios de Impacto à Proteção de Dados Pessoais e segurança da informação.

Um dos principais avanços está no conteúdo dedicado à inovação, com orientações sobre privacy by design, pesquisa em saúde, biometria e utilização de Inteligência Artificial, associando a adoção de novas tecnologias a critérios como transparência, governança, avaliação de riscos e supervisão humana.

O conteúdo parte da premissa de que proteção de dados e inovação não são agendas opostas. Regras claras de governança podem favorecer o compartilhamento responsável de informações, a segurança jurídica e a confiança entre pacientes, profissionais e instituições.

O olhar da medicina diagnóstica

A medicina diagnóstica ocupa uma posição importante nessa discussão. Laboratórios, clínicas e serviços de diagnóstico por imagem produzem, processam, armazenam e compartilham informações clínicas sensíveis em atividades como realização de exames, emissão de laudos e intercâmbio de informações com médicos, hospitais e operadoras.

Por isso, desde o início da construção do Código, a Abramed atuou para incorporar ao documento a realidade da medicina diagnóstica e sua conexão com os demais elos da saúde.

Para Lucas Bonafé, advogado do escritório Machado Nunes e sócio da área de Direito Digital e Propriedade Intelectual, que acompanhou a elaboração do material, essa participação ajudou a conferir ao Código uma abordagem realista.

“A importância do Código de Boas Práticas de LGPD é conseguir demonstrar a capilaridade da medicina diagnóstica na área da saúde como um todo e explicar como os dados de saúde são utilizados hoje em toda a cadeia”, afirma.

Segundo o advogado, a Abramed levou ao debate as particularidades da medicina diagnóstica e contribuiu para a articulação das perspectivas de prestadores, operadoras e indústria. Esse diálogo ajudou a conferir ao documento uma abordagem prática, apoiada em exemplos reais de compartilhamento de informações.

Confiança como ativo da saúde

Para Rogéria Leoni Cruz, líder dos Comitês Jurídico e de Proteção de Dados da Abramed, a discussão ganha importância adicional na saúde por envolver informações produzidas em momentos de vulnerabilidade das pessoas.

“A saúde é construída sobre a confiança. Confiamos no médico que nos acolhe, nos hospitais que cuidam de nossas famílias e que informações profundamente pessoais serão tratadas com respeito, responsabilidade e segurança”, afirma.

Na avaliação de Rogéria, o avanço da Inteligência Artificial, da medicina personalizada, da interoperabilidade e de outras ferramentas digitais reforça a necessidade de incorporar a proteção de dados à estratégia das organizações.

“Proteger dados não significa limitar o avanço da ciência, da tecnologia ou da assistência. Significa garantir que esse avanço aconteça da forma correta”, ressalta.

A efetividade do Código dependerá agora de sua incorporação ao cotidiano de organizações de diferentes portes e segmentos. Ao transformar os princípios da LGPD em referências práticas para processos, contratos, tecnologias e relações entre os agentes da cadeia, o documento oferece uma base comum para que a inovação e o compartilhamento de dados avancem com segurança, responsabilidade e confiança.

Acesse a íntegra do Código de Boas Práticas do Setor da Saúde

Relembre o lançamento da primeira edição do Código, em 2021

Radiologia, radiômica e o desafio da sustentabilidade em saúde 

Imagens com maior resolução e Inteligência Artificial ampliam a capacidade diagnóstica e apoiam decisões clínicas mais precisas, contribuindo para o direcionamento adequado de tratamentos e procedimentos.  

Em 2016, o cientista Geoffrey Hinton, vencedor do Prêmio Nobel de Física de 2024, afirmou publicamente que em poucos anos não seria mais necessário formar radiologistas. A previsão não se confirmou e a demanda pela especialidade só cresceu desde então. A necessidade do radiologista não desapareceu; pelo contrário, aumentou. 

A radiômica vem apresentando publicações cada vez mais robustas e, apesar de ainda ser experimental, o horizonte a médio e longo prazo é promissor. Estamos em uma etapa em que melhorar a imagem significa também extrair mais informação e compreender aquilo que o olho humano não consegue perceber sozinho.  

Essa transformação pode modificar de forma significativa o papel do diagnóstico por imagem. Em vez de apenas responder o que está presente em determinado momento, caminhamos para uma radiologia capaz de estimar o que determinado achado pode representar e como poderá se comportar. 

Na tomografia computadorizada, uma das tecnologias que apontam nessa direção é a contagem de fótons, ou photon counting. O ganho de resolução espacial permite caracterizar melhor pequenas estruturas e alterações cuja caracterização, com tecnologias anteriores, seria menos precisa. Na avaliação das artérias coronárias, por exemplo, pode significar maior precisão na caracterização das placas e do grau de obstrução. O mesmo princípio ajuda, em outros órgãos, a compreender lesões pequenas ou inicialmente indeterminadas. 

Produzir imagens melhores, porém, é apenas uma parte dessa evolução. A Inteligência Artificial, o aprendizado de máquina e o deep learning dependem essencialmente da qualidade da informação que recebem. É o velho garbage in, garbage out: não existe algoritmo capaz de compensar indefinidamente uma base de má qualidade. Quanto melhores a imagem e os dados, maior a possibilidade de extrair informações clinicamente úteis. 

É nesse aspecto que a radiômica, método que transforma exames de imagem em dados numéricos detalhados, ganha importância. A partir dos pixels e de diferentes atributos quantitativos da imagem, ela permite analisar características não necessariamente identificáveis pela observação humana convencional e buscar correlações com achados, comportamentos ou desfechos. 

Isso abre uma perspectiva particularmente relevante diante dos achados indeterminados. Depois dos 50 anos, até 15% das pessoas apresentam algum nódulo pulmonar identificado num exame de tomografia. Isso não é sinônimo de câncer, pois a imensa maioria dessas alterações é benigna. Dependendo das características da lesão e do perfil do paciente, porém, novas imagens podem ser necessárias alguns meses depois para verificar se houve crescimento e, em determinadas situações, chega-se à necessidade de uma biópsia. 

Esse acompanhamento é indispensável quando bem indicado. O desafio é saber se novas tecnologias poderão nos ajudar a distinguir, com maior segurança, quem realmente precisa avançar para uma investigação invasiva e quem poderia ser acompanhado de outra maneira. 

A possibilidade de combinar características quantitativas da imagem com genética, genômica, histórico familiar, fatores de risco e outros dados clínicos poderá permitir calcular com maior precisão a probabilidade de uma lesão apresentar risco de malignidade. 

Vejo nessa integração uma das principais transformações dos próximos anos. A tecnologia amplia a quantidade de informação disponível e, com isso, aumenta a responsabilidade de quem precisa interpretá-la e integrá-la ao contexto clínico. O radiologista terá de compreender a imagem, os algoritmos, suas limitações e sua relação com outras informações do paciente. 

É nesse sentido que vejo esse profissional se tornando cada vez mais um gatekeeper: alguém que tem a imagem em mãos e está bem posicionado para integrar essas informações e discuti-las com o médico responsável pela conduta. Quanto mais complexa a medicina se torna, menos sentido faz trabalhar com informações fragmentadas. 

Há ainda uma dimensão importante de eficiência. Já existem algoritmos capazes de acelerar exames de ressonância magnética, como os musculoesqueléticos, reduzindo o tempo necessário para a captação das imagens. Isso permite utilizar melhor um equipamento de alto custo, ampliar sua capacidade de atendimento e melhorar a experiência do paciente. Para quem sente dor, ansiedade ou claustrofobia, permanecer menos tempo dentro do aparelho também faz parte da qualidade do cuidado.  

Por isso, a discussão econômica sobre inovação em saúde não pode se limitar ao preço de compra de uma tecnologia ou à remuneração de determinado exame. Quando incorporamos um equipamento mais avançado, o retorno não aparece necessariamente como receita maior naquele procedimento. O valor pode estar em um exame mais rápido e confortável, em menos repetições, em um diagnóstico mais preciso, em uma intervenção evitada ou no início mais adequado de um tratamento. 

Tecnologia também pode ser instrumento de sustentabilidade. Uma inovação mais cara pode reduzir custos globais se eliminar etapas desnecessárias da jornada assistencial. Da mesma forma, uma solução aparentemente mais barata pode gerar desperdício quando produz informação insuficiente, exige repetição ou leva a decisões menos precisas. 

A lógica precisa ser de custo-efetividade e geração de valor. Esse talvez seja um dos debates mais importantes para o futuro da medicina diagnóstica. 

Não basta saber quantos exames conseguimos realizar ou quantas novas tecnologias conseguimos incorporar. Precisamos avaliar quanto conhecimento extraímos de cada exame, quanto essa informação melhora a decisão médica e quais etapas da jornada do paciente podem ser evitadas ou qualificadas. 

Radiômica, Inteligência Artificial, novas gerações de equipamentos e integração de dados são ferramentas. O verdadeiro valor delas estará na capacidade de diminuir incertezas para o médico e para o paciente, permitindo melhor utilização dos recursos do sistema de saúde. Esse é o valor que a inovação diagnóstica precisa entregar. 

Cesar Higa Nomura – Presidente do Conselho de Administração da Abramed e Diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês