Como a medicina diagnóstica protege e recupera atletas da Seleção durante a Copa?

A estrutura de “SAMU ambulante” reflete a evolução da medicina do esporte, onde exames de imagem e diagnósticos precisos em tempo real definem o futuro de jogadores como Neymar e Raphinha

Enquanto milhões de torcedores acompanham o desempenho da Seleção dentro de campo, existe uma equipe que trabalha longe dos holofotes para que cada atleta esteja apto a competir. A delegação brasileira viajou para a Copa do Mundo 2026 com aproximadamente 10 toneladas de carga destinadas ao suporte médico, formando o que a imprensa rapidamente apelidou de “SAMU ambulante”.

Para alguns, pode parecer exagero, mas são equipamentos essenciais para monitorar a saúde dos jogadores antes, durante e após cada partida, avaliar alterações musculares e indicadores bioquímicos que podem comprometer a performance ou aumentar o risco de lesões, que representam entre 30% e 50% de todas as ocorrências relacionadas ao esporte. Sendo assim, a velocidade do diagnóstico é determinante para o desfecho clínico e para a continuidade do atleta na competição.

“No esporte de alto rendimento, cada decisão precisa ser baseada em evidências. Os exames laboratoriais não servem apenas para confirmar um diagnóstico, mas para acompanhar a evolução da recuperação e verificar se o organismo está preparado para suportar novamente o nível máximo de exigência física. O objetivo, mais do que acelerar o retorno do atleta, é garantir que essa volta aconteça com segurança e menor risco de lesões”, explica Alex Galoro, médico patologista clínico, líder do Comitê de Análises Clínicas da Abramed.

A rotina de exames antes de cada jogo

Ao contrário do que muitos imaginam, a medicina diagnóstica no esporte não atua apenas diante de uma contusão. Jogadores de alto rendimento passam por avaliações frequentes que incluem exames laboratoriais, testes cardiológicos, exames de imagem, monitoramento hormonal e marcadores inflamatórios.

Essas informações permitem ajustar cargas de treino, identificar sinais precoces de sobrecarga e tomar decisões baseadas em dados objetivos antes que uma lesão aconteça.

Se ainda assim ela ocorrer, o tempo se torna o principal adversário. Por isso, na medicina esportiva de alto rendimento, atletas passam por exames de imagem avançados — ultrassom point-of-care em campo ou vestiário, ressonância magnética e tomografia para lesões musculoesqueléticas — e por monitoramento em tempo real com sensores vestíveis, análise de biomarcadores e dados de carga de treinamento.

O acesso a diagnósticos instantâneos é imprescindível para determinar se um jogador continuará na partida ou precisa ser substituído para evitar danos maiores.

“A medicina esportiva é um excelente exemplo de como diferentes áreas da medicina diagnóstica atuam de forma complementar. Enquanto os exames de imagem identificam e caracterizam uma lesão, as análises clínicas mostram como o organismo está respondendo a esse processo. A integração dessas informações oferece mais segurança para que a equipe médica decida o momento ideal para manter um atleta em campo, afastá-lo ou autorizar seu retorno às competições”, avalia Galoro.

Raphinha, Neymar e o diagnóstico em tempo real

Casos recentes da própria Seleção ilustram essa realidade. Às vésperas da Copa, Neymar foi submetido a uma ressonância magnética que detectou lesão grau 2 na panturrilha direita. O diagnóstico preciso permitiu um plano de reabilitação milimétrico e exames subsequentes confirmaram a boa evolução da cicatrização, orientando o momento exato em que o atleta poderia intensificar os treinos sem risco de recidiva.

Já a situação de Raphinha revelou outra função do diagnóstico: o monitoramento de lesões recorrentes. Durante o segundo jogo da Seleção, exames de imagem confirmaram lesão muscular na região posterior da coxa direita – a quarta na região em doze meses.

Devido à recorrência, o caso exige investigação aprofundada: a ressonância magnética, muitas vezes potencializada por algoritmos de inteligência artificial para evidenciar alterações mínimas, permite avaliar não apenas a nova lesão, mas o tecido cicatrizado das anteriores. Esse nível de detalhamento é fundamental para definir o plano de reabilitação com segurança.

Para além dos gols e das escalações, a Copa do Mundo mostra que o desempenho em campo depende de uma estrutura diagnóstica invisível ao torcedor, mas absolutamente decisiva para o resultado.

E, embora a realidade da Seleção Brasileira envolva tecnologias altamente especializadas, muitos avanços desenvolvidos para o esporte acabam sendo incorporados à prática clínica.

Para o setor de saúde, a medicina esportiva de elite funciona como laboratório de inovação, testando tecnologias e protocolos que, em breve, estarão disponíveis para o público geral, democratizando o acesso a técnicas avançadas de diagnóstico.

Abramed debate implementação da NR-1 e riscos psicossociais em reunião do Comitê de RH

A adequação às novas exigências regulatórias, que entraram em vigor em maio, foi o tema do encontro, que reuniu especialistas e líderes do setor para discutir estratégias de implementação.

A reunião de junho do Comitê de Recursos Humanos da Abramed, realizada no Grupo Fleury, em São Paulo, foi marcada pelo lançamento da Cartilha Abramed NR-1 e Riscos Psicossociais no Trabalho: Guia Prático para Serviços de Medicina Diagnóstica, seguido de uma importante discussão sobre as novas exigências regulatórias e estratégias de implementação no setor.

Na abertura da reunião, Afranio Haag, diretor de Recursos Humanos do Grupo Fleury, destacou que as transformações sociais têm ampliado a atenção das organizações para a saúde dos trabalhadores e reforçado a importância de discutir os riscos psicossociais de forma estruturada.

Já Lucilene Costa, Head de Gestão de Saúde, Segurança e Bem-Estar no Grupo Fleury e líder do Comitê de Recursos Humanos da Abramed, destacou a importância do preparo das instituições de medicina diagnóstica diante do novo cenário regulatório.

Em vigor desde maio de 2026, a norma passou a ser fiscalizada em caráter orientativo, sem aplicação de penalidades. Pela primeira vez, os riscos psicossociais passaram a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), ao lado dos riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes.

“Essa cobrança já está acontecendo, seja via ações trabalhistas, seja via Ministério Público do Trabalho. Não dá para ficar inerte”, alertou Daniela de Andrade Bernardo, sócia e diretora jurídica da Andrade Mariano Advogados.

Contexto e urgência: dados que reforçam a necessidade de ação

Flávia Vianna, gerente de Saúde e Trabalho do Pacto Global da ONU Rede Brasil, apresentou o Guia Prático de NR-1 elaborado no âmbito do Movimento Mente em Foco — iniciativa lançada em 2020, no auge da pandemia, e que integra a estratégia Ambição 2030 do Pacto Global.

Ela trouxe números que reforçam a urgência do tema: mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais foram registrados no Brasil em 2024, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. No setor de saúde, entre 2012 e 2024, o salto foi de 750% na participação proporcional dos afastamentos por transtornos mentais: o maior crescimento relativo entre todos os setores analisados.

O Movimento Mente em Foco propõe seis compromissos públicos que as empresas signatárias assumem perante a ONU: ter um profissional de referência para escuta e encaminhamento; oferecer orientação e manejo de crises; garantir avaliação permanente dos fatores de risco; manter lideranças engajadas e treinadas; criar um programa antiestigma; e promover ações de incentivo à saúde mental baseadas nas demandas reais dos colaboradores.

A discussão avançou para a aplicação prática da norma com a participação de Paulo Leal, consultor médico em saúde ocupacional do Grupo Fleury, que compartilhou como a organização atua na gestão dos fatores psicossociais.

Com metodologia baseada na identificação de áreas críticas a partir de indicadores como afastamentos, atestados, banco de horas e passivos trabalhistas, seguida da aplicação de instrumentos validados para avaliação dos fatores de risco, o programa utiliza inteligência artificial para o processamento de dados e mapeamento das dimensões de risco em três categorias: condições favoráveis, intermediárias e desfavoráveis. 

A experiência mostra que a IA ajuda a organizar grandes volumes de dados, mas a análise humana continua insubstituível para captar as nuances de cada contexto e construir planos de ação efetivos, com participação ativa das lideranças e acompanhamento contínuo dos resultados.

Segurança jurídica, cultura organizacional e o papel da liderança

O debate final foi mediado por Lucilene Costa e reuniu Daniela Bernardo, Flávia Vianna, Paulo Leal, Leandro Romani, diretor médico da Lockton, e Luiz Massad, médico do trabalho e diretor da Massad Perícias Judiciais e Consultoria.

Ao abrir o debate, Lucilene destacou que um dos principais desafios das organizações é avançar de um modelo reativo para uma gestão preventiva dos fatores psicossociais, reforçando a importância da troca de experiências para apoiar as empresas nessa transição. 

Os números trazidos por Romani revelaram o tamanho do desafio: uma pesquisa da Lockton com 174 empresas mostrou que apenas 3% a 5% já mapearam os riscos psicossociais com programas consolidados, enquanto 40% sequer iniciaram.

Na dimensão jurídica, Massad alertou que questionários assinados pelos trabalhadores são documentos que podem ser utilizados em processos judiciais, e a ausência deles pode gerar prova contra a empresa. Ao abordar a prevenção, reforçou: “é preciso ir ao local de trabalho, ver o que o trabalhador faz, como faz e em que condições faz”, destacando que esse acompanhamento é essencial para identificar riscos e preservar a saúde dos profissionais.

Sobre a principal barreira para a implementação da NR-1, Flávia apontou a mudança de mindset. “Enquanto não colocarmos as pessoas trabalhadoras na centralidade da tomada de decisão, vamos continuar gerindo de forma inadequada”, afirmou. No papel da liderança, os especialistas convergiram que gestores precisam aprender a diferenciar limitação de adoecimento.

Um aspecto crítico enfatizado pelos participantes foi que a avaliação de riscos psicossociais incide sobre as condições e a organização do trabalho, não sobre o diagnóstico individual de saúde mental dos trabalhadores. Essa distinção é necessária para evitar que os programas se tornem apenas ferramentas de triagem individual, sem endereçar as causas estruturais do adoecimento.

Conforme destacado, a gestão desses riscos exige o envolvimento de diferentes áreas da empresa, combinando aspectos jurídicos, assistenciais e de gestão de pessoas. Não é uma responsabilidade isolada de um departamento, mas um esforço integrado e multidisciplinar. Nesse contexto, Leal destacou que “conhecer o trabalho, conhecer o trabalhador e ouvi-lo” é o caminho para compreender a realidade das equipes e construir intervenções efetivas.

Romani ressaltou que sensibilizar a alta gestão com argumentos como penalidades jurídicas, custos dos afastamentos, perda de produtividade e impactos financeiros é fundamental para viabilizar o avanço das ações de gestão da saúde corporativa. Já Daniela salientou que as empresas precisam demonstrar, por meio de ações concretas e registros consistentes, que atuaram para promover um ambiente de trabalho saudável. 

Encerrando o debate, Flávia propôs uma reflexão: “Como esperamos que uma pessoa entregue algo que ela não está sendo capaz, porque o trabalho está distorcendo a sua identidade por fatores que podem ser identificados, mapeados, controlados, tratados e monitorados?”.

Ao final, Lucilene reforçou que, mesmo em um cenário de crescente automação e transformação tecnológica, as organizações continuam sendo formadas por pessoas. “Lidamos com a saúde. Então, não podemos deixar de olhar que, como estamos entre seres humanos, precisamos ter cuidado uns com os outros”, afirmou. 

Manter a saúde e o bem-estar dos profissionais de saúde é fundamental não apenas para a qualidade de vida desses trabalhadores, mas também para garantir a excelência na prestação de serviços e a segurança do paciente — aspectos indissociáveis da medicina diagnóstica.

Com essa visão, a Abramed reforça seu compromisso em apoiar o setor nessa transição, promovendo a troca de conhecimentos para o desenvolvimento de ambientes de trabalho cada vez mais seguros e saudáveis.

Diagnóstico 5.0: líderes discutem os desafios da medicina diagnóstica em uma era de mudanças exponenciais

Debate organizado pela Abramed promoveu reflexões sobre inovação, inteligência artificial e os desafios de adaptar as organizações a um cenário de transformações rápidas. 

A Abramed reuniu líderes de grandes instituições da saúde para debater os desafios e as oportunidades da transformação tecnológica no setor. O debate “Diagnóstico 5.0: inovação, inteligência artificial e os novos rumos da medicina diagnóstica” foi realizado em 19 de junho durante a Reunião Mensal de Associados (RMA), na sede administrativa da Dasa, em São Paulo.

Ao longo do encontro, ficou evidente que o principal desafio das organizações deixou de ser apenas adotar novas tecnologias e passou a ser desenvolver modelos de gestão capazes de acompanhar a velocidade das transformações. 

A abertura foi conduzida pelo CEO da Dasa, Rafael Lucchesi, que enfatizou que as lideranças enfrentam um momento sem precedentes. “Vocês lideram empresas no momento mais volátil e desafiador da história da humanidade. Não só pela questão de países e de geopolítica, mas também pela questão tecnológica”, afirmou. 

Lucchesi ressaltou que, nesse cenário, a Abramed tem um papel estratégico. “A entidade precisa estar no centro da discussão sobre regulação, tecnologia, dados e interoperabilidade, e como isso será feito com responsabilidade.” Segundo ele, o modelo de inovação em saúde deve sempre equilibrar velocidade e segurança do paciente. 

“Nem sempre é possível aplicar o modelo de startup no mercado de saúde, pois, para não levar risco ao paciente, o setor tem uma velocidade diferente de aceite e de teste para inovar”, explicou.

Na sequência, Claudia Cohn, membro do Conselho de Administração da Abramed e diretora-executiva da Dasa, moderou o debate. Participaram Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da entidade e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês; Leonardo Vedolin, diretor vice-presidente médico e de produção da Dasa; e Marcos Queiroz, membro do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Einstein Hospital Israelita.

O desafio da inovação organizacional

Marcos Queiroz iniciou sua participação defendendo que as organizações precisam evoluir. O grande desafio atual é que as inovações deixem de ser pontuais e passem a ser organizacionais. “Dentro das  empresas existem muitas iniciativas de inteligência artificial, algoritmos e até de agentes. Só que, muitas vezes, são ações desconectadas”, pontuou.

Para ele, a transformação exige investimentos robustos em infraestrutura de dados, pessoas e tecnologia. Como exemplo, comentou sua experiência no Einstein: “Se no passado não tivéssemos constituído um banco de dados muito bom, nada do que a gente faz hoje seria possível”. A instituição utiliza modelos de linguagem para integrar dados de pacientes e fornecer resumos automáticos aos médicos.

Além da integração de ações, um ponto recorrente no debate foi a importância da educação e da mudança cultural.  Segundo Queiroz, o desafio agora é preparar as pessoas para acompanhar o crescimento. 

“Precisamos capacitar as pessoas em IA, em agentes, em inovação como um todo, para conseguir suportar o crescimento que está por vir. Profissionais têm que estudar para construir uma organização melhor. No final, nós somos a instituição, cada um de nós a representa”, afirmou.

Ao abordar o papel da cultura organizacional, Cesar Nomura apontou que enquanto a China e o Japão têm culturas fortemente focadas em trabalho e produção, o Brasil caminha em direção contrária e sem uma educação que ajude as pessoas a evoluírem.

A tensão entre tradição e agilidade

Nomura também refletiu sobre o desafio de inovar em uma instituição centenária em um momento de transformação acelerada. Em sua análise, a chave para a sobrevivência é manter um olhar de startup mesmo dentro de uma grande organização tradicional. “Se nós não conseguirmos implementar algumas iniciativas com agilidade, creio que vai ser difícil sobreviver.”

Como referência, comentou a decisão do Sírio-Libanês de montar seu próprio laboratório de análises clínicas, contrariando a prática comum do mercado. O resultado foi revolucionário: hemogramas que saem em até 10 minutos, eliminando erros humanos. Essa transformação só foi possível porque a instituição conseguiu olhar para o problema com outra mentalidade.

A lição da China: velocidade e escala

Recém-chegado de uma viagem ao gigante asiático, Leonardo Vedolin compartilhou impressões sobre o país que, em sua visão, está cerca de um século à frente do Brasil em transformação tecnológica. 

Ele destacou a alta interoperabilidade que a China tem entre seus sistemas, a quantidade de empresas locais que oferecem energia limpa e a disciplina de planejamento e execução, que permite implementar mudanças em velocidade incomparável. 

Apesar das diferenças entre os países, Vedolin demonstrou otimismo em relação ao potencial de transformação da saúde. “A setor tem um ambiente de transformação muito propício para que as tecnologias de verdade causem impacto”, afirmou. Dados mostram que a produtividade da área pouco evoluiu nos últimos 40 anos, o que revela um amplo espaço para avanços impulsionados pela inovação. 

Na visão de Nomura, dois fatores travam esse desenvolvimento no Brasil: custo-efetividade de incorporação tecnológica ainda desfavorável em comparação com os EUA e China e uma cultura de busca por consenso antes de experimentar, oposto do modelo asiático, que experimenta primeiro e debate depois. “Enquanto o uso das novas tecnologias não for simples e o custo não for barato, isso irá nos limitar”, constatou, com exemplos de hospitais digitais chineses que, apesar de tecnologicamente avançados, apresentam processos mais lentos do que os analógicos.

O debate deixou claro que a medicina diagnóstica brasileira está em um momento de mudanças. As organizações que conseguirem equilibrar inovação com responsabilidade, agilidade com governança, e visão de futuro com execução presente estarão melhor posicionadas para avançar na era do Diagnóstico 5.0.

Participe da 10ª edição do FILIS

Neste ano, o FILIS 2026 – Fórum Internacional de Lideranças da Saúde terá como macrotema “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”. O fórum será realizado em 26 de agosto, no Teatro Santander, em São Paulo. As inscrições estão abertas em https://www.abramed.org.br/filis/.

FILIS 2026 celebra 10 anos de diálogo estratégico para o futuro da saúde

Fórum da Abramed reunirá lideranças para discutir como regulação, valor, governança e inteligência artificial se conectam na construção do Diagnóstico 5.0. 

Estão abertas as inscrições para a 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), que será realizada em 26 de agosto de 2026. Desta vez, o evento acontecerá no Teatro Santander, em São Paulo, ampliando a capacidade de receber participantes e acompanhando o crescimento que o Fórum registrou nos últimos anos.

Ao longo de uma década, o FILIS consolidou-se como um importante espaço gerador de pautas propositivas para o setor de saúde, reunindo gestores, executivos e representantes de diferentes segmentos para discutir os desafios e as transformações que impactam o sistema de saúde.

Com o macrotema “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”, a edição de 2026 propõe uma reflexão integrada sobre os fatores que vêm redefinindo a medicina diagnóstica e seu papel na sustentabilidade, na eficiência e na qualidade da assistência. 

“O FILIS é, acima de tudo, um espaço de diálogo e construção conjunta. A cada edição, reforçamos nosso compromisso em fomentar discussões e ações que impulsionam a medicina diagnóstica a um patamar cada vez mais estratégico. O Diagnóstico 5.0 não é apenas uma visão, mas um caminho que estamos trilhando coletivamente para um sistema de saúde mais robusto e centrado no paciente”, afirma Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed. 

A estrutura do evento foi cuidadosamente planejada com eixos temáticos sequenciais e complementares, que guiam os participantes por uma compreensão abrangente dos desafios e oportunidades do setor.

Os eixos que orientam a edição de 2026 

O Fórum começa com o eixo Regulatório, que terá como tema “Segurança regulatória, inovação e sustentabilidade na saúde”. O debate abordará os fundamentos necessários para o desenvolvimento sustentável do setor em um cenário marcado pela inovação tecnológica, pela transformação digital e pela crescente complexidade assistencial.

Entre os assuntos em destaque estarão a modernização regulatória, a integração entre os setores público e privado e os desafios para a construção de um ambiente capaz de acompanhar a velocidade das mudanças sem comprometer a segurança e a qualidade dos serviços.

Na sequência, o eixo Valor discutirá o tema “Dados, precisão e valor: os novos desafios do diagnóstico”. O foco estará na contribuição da medicina diagnóstica para a melhoria dos desfechos clínicos, o apoio à tomada de decisão médica e o uso mais eficiente dos recursos.

O debate destacará como a utilização estratégica de dados e a precisão diagnóstica podem ampliar a eficiência assistencial e reforçar o papel do diagnóstico ao longo da jornada do paciente.

O terceiro eixo será sobre ESG, focando em “Governança, ética e compliance: os pilares da sustentabilidade institucional”. Em pauta, estarão os mecanismos que contribuem para a solidez das organizações, como integridade, transparência e fortalecimento da cultura organizacional.

A discussão evidenciará como esses elementos apoiam a sustentabilidade institucional e fortalecem a capacidade das organizações de responder aos desafios de um ambiente em constante transformação.

Encerrando a programação, o eixo Inteligência Artificial abordará o tema “IA como estratégia para eficiência e qualidade na saúde”. O debate discutirá como a IA, a interoperabilidade e a inteligência de dados estão ampliando as possibilidades de integração de informações, apoio à decisão e geração de conhecimento para profissionais e organizações.

O eixo também mostrará como essas tecnologias estão transformando processos, redefinindo modelos de trabalho e criando oportunidades para uma saúde mais conectada, eficiente e orientada por dados.

“Os desafios da saúde não podem mais ser analisados de forma isolada. Regulação, valor, governança e inteligência artificial são temas interdependentes e fundamentais para a evolução da medicina diagnóstica e do sistema de saúde. O FILIS foi concebido justamente para promover essa visão integrada entre os diferentes atores do setor e direcionar iniciativas concretas”, destaca Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

Reconhecimento e conexão entre lideranças

Além dos quatro eixos temáticos, a edição de 2026 contará com a entrega da 8ª edição do Prêmio Dr. Luiz Gastão Rosenfeld, que reconhece contribuições relevantes para a medicina diagnóstica. O evento também promoverá os tradicionais momentos de Leaders Connection, voltados à troca de experiências e ao relacionamento entre lideranças do setor. 

A expectativa é que ao final do encontro fique reforçado o conceito de Diagnóstico 5.0, que representa a convergência entre todos os eixos para construir um sistema de saúde mais integrado, sustentável, inteligente e centrado no paciente — uma síntese que traduz também os dez anos de trajetória do FILIS.

Participe da 10ª edição do FILIS

As inscrições para o FILIS 2026 estão abertas. Garanta sua participação neste marco de uma década de discussões estratégicas para o futuro da saúde: https://www.abramed.org.br/filis.

* Programação preliminar sujeita a alterações.

INFLUENZA: positividade atinge novo pico no ano e chega a 31,4% no país 

Após semanas de queda, índice salta de 22,9% para 31,4% e atinge o maior patamar de 2026; taxa é quase o dobro da registrada no mesmo período de 2025 

Dados da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), que reúne empresas responsáveis por mais de 85% dos exames realizados na saúde suplementar no país, mostram que a influenza voltou a avançar no Brasil e atingiu o maior nível do ano em maio.

Após queda entre as semanas epidemiológicas 13 e 19, a taxa de positividade para influenza voltou a crescer no intervalo de 17 a 23 de maio de 2026 (SE 20), saltando de 22,9% para 31,4%. O percentual segue muito acima do observado no mesmo intervalo de 2025, quando a positividade era de 17,0%. 

Embora a média móvel das últimas cinco semanas tenha fechado em 24,2%, refletindo o recuo observado nas semanas anteriores, a alta recente interrompe a trajetória de redução e acende o alerta para uma possível inversão na curva de contágio. 

Segundo Carlos Eduardo Ferreira, médico patologista clínico e líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed, os números mostram que a circulação do vírus permanece intensa e exige vigilância contínua. “A retomada de crescimento e o novo pico observado agora quebram o ritmo de desaceleração que vinha sendo registrado. É um cenário que demanda atenção das autoridades e da população”, afirma. 

Vacinação e diagnóstico seguem fundamentais

A proximidade do encerramento das campanhas contra a gripe em diversas regiões do país reforça a importância da imunização, especialmente entre os grupos prioritários.

“Quando observamos níveis tão elevados de circulação viral, ganham ainda mais relevância a vacinação, a atenção aos sintomas e a busca por avaliação médica nos casos indicados”, destaca Carlos Eduardo Ferreira.

Para o especialista, a medicina diagnóstica tem papel essencial na resposta assistencial, ao permitir identificar casos com mais rapidez, orientar condutas médicas e apoiar o planejamento dos serviços de saúde. “O diagnóstico no momento adequado contribui para decisões mais assertivas e ajuda o sistema de saúde a responder com mais eficiência”, completa.

Monitoramento

Os dados são compilados pela plataforma de inteligência METRICARE, desenvolvida e gerenciada pela Controllab, parceira da Abramed. A ferramenta permite acompanhar tendências de forma estratégica e apoiar a tomada de decisões em saúde populacional.

As associadas da Abramed também enviam resultados diretamente à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS/DATASUS), contribuindo com o monitoramento epidemiológico conduzido pelo Ministério da Saúde. Essas informações são essenciais para compreender a progressão das doenças respiratórias no Brasil e embasar medidas de saúde pública.

PEC que reduz jornada de trabalho avança ao Senado e acende alerta para reflexos na assistência à saúde

Abramed reforça apoio à qualidade de vida dos trabalhadores, mas alerta para a necessidade de considerar as particularidades do setor

A Câmara dos Deputados aprovou, no dia 27 de maio, a PEC nº 221/2019, que reduz a jornada máxima de trabalho e altera o modelo atual da escala 6×1. Pela proposta, a carga semanal passaria de 44 para 42 horas em até 60 dias após a promulgação da medida, chegando posteriormente a 40 horas semanais em até 14 meses. O texto também mantém o descanso semanal preferencialmente aos domingos e prevê flexibilizações para acordos coletivos e micro e pequenas empresas.

Para a Abramed, a defesa da qualidade de vida e da sustentabilidade das relações de trabalho é legítima e acompanha uma transformação já observada em diferentes setores da economia. Na saúde, porém, a implementação de mudanças relacionadas à jornada exige atenção às especificidades da assistência, à continuidade do cuidado e à segurança do paciente, especialmente diante do curto prazo previsto para adequação inicial das operações.

Na medicina diagnóstica, por exemplo, a operação funciona de forma ininterrupta e envolve atividades altamente especializadas, suporte à tomada de decisão clínica e atendimento a demandas de urgência e emergência. Nesse cenário, mudanças nas relações trabalhistas precisam avaliar, além dos aspectos operacionais, as particularidades do sistema de saúde e a qualidade dos serviços prestados à população.

“Estamos falando de um segmento que participa de forma decisiva na vida do paciente, com operações que funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana. É uma atividade que exige precisão, integração entre equipes, capacidade técnica e responsabilidade contínua com a assistência”, afirma Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

“Todos somos pacientes em algum momento da vida. Ao decidirmos como as atividades no setor devem ser organizadas, estamos decidindo como nós mesmos e nossas famílias seremos atendidos nos momentos de maior vulnerabilidade”, complementa.

A entidade ressalta ainda que a implementação de novos modelos de jornada deve considerar os desafios já enfrentados pelo setor, como a escassez de profissionais especializados, especialmente fora dos grandes centros urbanos.

O Brasil é um país continental, com realidades muito distintas entre regiões, municípios e tipos de serviço. Modelos rígidos de jornadas, aplicados de forma uniforme, tendem a desconsiderar essas diferenças e os efeitos podem ser sentidos justamente onde a oferta de saúde já é mais frágil.

Uma restrição de jornada sem planejamento pode reduzir ainda mais essa cobertura, criando lacunas assistenciais difíceis de suprir no curto prazo. Andrea Pinheiro, líder do Comitê de Comunicação da Abramed, destaca que os desafios relacionados a esse aspecto já fazem parte da rotina de empresas que atuam em diferentes regiões do país.

“Hoje, a saúde já enfrenta uma assimetria estrutural entre oferta e demanda de profissionais, com grandes desafios na contratação em diversas regiões, especialmente no interior. Em muitas localidades, outros setores econômicos disputam, inclusive, os mesmos talentos. Por isso, é importante que qualquer mudança relacionada à carga horária seja debatida levando em conta também os impactos sobre a sustentabilidade da assistência”, avalia.

Outro ponto que integra esse cenário é o papel da tecnologia e da Inteligência Artificial na reorganização das atividades da saúde. Para a Abramed, inovação e digitalização são aliadas fundamentais, mas não substituem o cuidado humano, que exige julgamento clínico, responsabilidade e contato direto com o paciente.

Esses são aspectos que seguem sendo valorizados pelas pessoas e essenciais para a qualidade da assistência. Diante de uma população que envelhece e demanda cada vez mais atenção, substituir pessoas qualificadas por soluções tecnológicas sem a devida avaliação representa um risco à qualidade dos serviços.

“A segurança do paciente está intrinsecamente ligada à qualificação dos profissionais e à capacidade de manter equipes preparadas para atender uma demanda crescente e cada vez mais complexa”, reforça William Malfatti, também líder do Comitê de Comunicação da Abramed.

Diante desse cenário, a entidade vem acompanhando os desdobramentos da proposta e seus possíveis impactos sobre a operação da saúde e da medicina diagnóstica, mantendo interlocução com entidades do setor, especialistas e representantes do ambiente regulatório e legislativo.

O tema tem mobilizado representantes dos comitês internos da associação e lideranças da saúde, com foco em continuidade assistencial, disponibilidade de profissionais, sustentabilidade operacional e qualidade do atendimento. “É fundamental que a implementação de mudanças considere a realidade dos serviços assistenciais no Brasil. O desafio é promover ambientes de trabalho mais saudáveis sem comprometer a capacidade de atendimento e a eficiência do setor”, conclui Milva Pagano.

Abramed amplia diálogo com ANS e Anvisa sobre soluções regulatórias para a medicina diagnóstica

Aproximação institucional reforça construção conjunta de agendas voltadas à qualidade dos serviços de saúde, segurança do paciente, excelência assistencial e sustentabilidade do setor

Reforçando seu papel na interlocução qualificada entre os prestadores de serviços de saúde e as principais autoridades regulatórias do país, a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) reuniu, em Brasília, lideranças do setor e representantes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para debater caminhos que garantam a sustentabilidade, a segurança jurídica e, acima de tudo, a qualidade da assistência prestada ao paciente.

Os debates ocorreram durante a Reunião Mensal de Associados, no dia 27 de maio, e foram pautados em torno da cooperação mútua e do compartilhamento de conhecimento técnico com o poder público. O primeiro painel abordou os desafios regulatórios do ecossistema de serviços de saúde, com participação de Thiago Campos, diretor da 5ª Diretoria da Anvisa, e de Edmilson Diniz Filho, gerente-geral de Tecnologia em Serviços de Saúde (GGTES) da Agência. A mesa foi moderada pela diretora-executiva da Abramed, Milva Pagano, e contou com a participação do presidente do Conselho de Administração da entidade, Cesar Nomura.

Thiago Campos apresentou um panorama estrutural da agência e reafirmou o compromisso com uma atuação orientada pela responsabilidade regulatória e pela busca de soluções que equilibrem acesso, sustentabilidade e segurança assistencial, destacando a diretriz da atual gestão de manter canais abertos e transparentes para a escuta ativa do setor produtivo.

Também foi abordado o desenvolvimento dos Roteiros Objetivos de Inspeção (ROIs), ferramentas metodológicas que buscam modernizar e uniformizar a linguagem entre quem produz e quem fiscaliza no território nacional, aproximando o setor produtivo das vigilâncias locais com critérios claros e baseados em evidências.

A Abramed reforçou ainda sua atuação próxima no processo de implementação da RDC 978 e reafirmou ainda sua disponibilidade para colaborar tecnicamente com a Anvisa, contribuindo com a experiência acumulada pelos associados na construção de ferramentas regulatórias e processos que fortaleçam o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária.

Diálogo com a ANS: regulação responsiva e equilíbrio na cadeia da saúde suplementar

O segundo bloco foi dedicado à agenda regulatória da saúde suplementar, com participação de Carla Soares, diretora de Gestão Interina da ANS. A mesa foi moderada por Cesar Nomura e contou com a presença de Milva Pagano e da vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed, Lídia Abdalla.

A diretora da ANS trouxe uma visão integrada do modelo atual, enfatizando o conceito de regulação responsiva e que a maturidade alcançada pela saúde suplementar permite uma atuação mais próxima das práticas do setor, promovendo boas práticas de governança e ampliando o diálogo entre operadoras e prestadores.

Ela também reconheceu a assimetria histórica nessa relação e sinalizou que a ANS tem trabalhado para ampliar sua capacidade de monitoramento e presença ao longo de toda a cadeia assistencial.

Foi consenso entre as lideranças da Abramed e a Agência que a medicina diagnóstica — eixo central da prevenção, do diagnóstico correto e da recuperação do paciente — precisa de previsibilidade, transparência e equilíbrio contratual para continuar investindo em inovação e evolução tecnológica.

Cesar Nomura alertou que cerca de 40% do parque tecnológico de alta complexidade do setor, incluindo tomógrafos, equipamentos de ressonância magnética e PET, entrará em fase de obsolescência nos próximos quatro anos.

Segundo ele, a renovação desse parque depende diretamente de um ambiente de maior previsibilidade e sustentabilidade financeira para o setor, tornando ainda mais relevante o avanço das discussões regulatórias em curso.

Carla Soares afirmou que o espaço de diálogo com as lideranças setoriais permanece aberto, reforçando que o aprimoramento contínuo da regulação é desejável e faz parte do papel institucional das agências reguladoras.

Ao final dos painéis, os participantes ressaltaram uma mensagem convergente entre reguladores, operadoras e prestadores: quando o paciente é colocado no centro das decisões, o diálogo técnico e institucional se fortalece.

Novo modelo de fiscalização da ANS: o que muda para operadoras e prestadores

A regulação responsiva já está em vigor e seus efeitos chegam até laboratórios e serviços de diagnóstico.

Neste mês, entrou em vigor o novo modelo de fiscalização da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que tem potencial para alterar a forma como operadoras, hospitais, clínicas e laboratórios se relacionarão daqui para frente.

O modelo aprovado abandona parte da lógica tradicional baseada apenas em punição e amplia a chamada regulação responsiva. Com isso, a ANS prioriza mecanismos de prevenção de conflitos, monitoramento de condutas e estímulo à autorregulação antes da aplicação direta de sanções.

A mudança também atualiza e reorganiza os tipos infracionais e estabelece reajustes escalonados das multas. Dependendo da infração, os valores podem se tornar significativamente mais altos, sobretudo em situações de reincidência ou falhas consideradas sistêmicas.

Assim, a ANS passa a ter quatro modalidades de ação escalonadas:

  • A Ação Planejada Preventiva de Fiscalização (APP) é a mais leve e tem caráter orientador, sem previsão de sanção, voltada para situações de menor complexidade;
  • Para situações de risco moderado, será adotada a Ação Planejada Focal (APF), ainda sem aplicação de punição, mas com acompanhamento mais próximo; 
  • Em casos mais graves ou em que as duas medidas anteriores não surtirem efeito, a agência entrará com a Ação Planejada Estruturada (APE) e a multa poderá chegar a R$ 1 milhão por determinação descumprida, além da possibilidade de restrição do exercício do cargo para o administrador da operadora;
  • Por fim, a Ação Coercitiva Incidental (ACI) é reservada para casos de descumprimento relevante ou aumento expressivo de reclamações, com multa diária entre R$ 5 mil e R$ 12,5 mil, conforme o porte da operadora.

Em relação aos valores das penalidades, que terão reajuste escalonado em três etapas até 2028, a elevação total chegará a 170% sobre os valores vigentes atualmente. Por exemplo: uma multa que era fixada em R$ 80 mil, hoje passou a ser de R$ 108 mil e chegará a R$ 162 mil em janeiro de 2027 e a R$ 216 mil em janeiro de 2028.

Isso deve aumentar a pressão sobre toda a cadeia. Rastreabilidade, governança, transparência de processos, capacidade de resposta e redução de falhas evitáveis se tornam ainda mais necessárias.

Se antes muitos conflitos acabavam concentrados em glosas, negativas, prazos ou disputas operacionais pontuais, agora cresce a expectativa de que as empresas consigam demonstrar controles internos, fluxos assistenciais organizados, critérios técnicos documentados e mecanismos efetivos de prevenção de inconformidades.

O impacto para laboratórios e hospitais

Na medicina diagnóstica, os efeitos tendem a ser mais complexos. O setor opera com alto volume assistencial, múltiplas integrações tecnológicas, diferentes regras contratuais e crescente digitalização da jornada do paciente. Pequenas inconsistências cadastrais, falhas de autorização, problemas de comunicação entre sistemas ou ausência de rastreabilidade documental podem deixar de ser apenas gargalos administrativos e representar risco regulatório.

Ao mesmo tempo, o novo modelo cria um ambiente que tende a valorizar estruturas mais maduras de compliance, interoperabilidade e governança de dados.

Laboratórios e hospitais precisarão olhar com mais atenção para alguns pontos sensíveis, como documentação assistencial, padronização de fluxos, rastreabilidade de autorizações, registro adequado das interações com operadoras, governança de dados e gestão de indicadores de qualidade.

“O novo modelo da ANS surge em um momento em que o setor já convive com pressão de custos, judicialização crescente, necessidade de ganho de eficiência e incorporação acelerada de tecnologia. A fiscalização, portanto, deixa de ser apenas um tema jurídico ou regulatório e passa a fazer parte da estratégia operacional das instituições de saúde”, avalia Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

Inteligência artificial, interoperabilidade e valor em saúde pautam debate da Abramed na Hospitalar 2026

Entre equipamentos em fim de vida útil, excesso de informação e modelos de remuneração, lideranças discutiram os desafios de sustentar a evolução da medicina diagnóstica no Brasil. 

Temas como inteligência artificial, interoperabilidade de dados, sustentabilidade financeira e a relação entre inovação e acesso à saúde conduziram o primeiro debate promovido pela Abramed durante a 31ª edição da Hospitalar. A discussão mostrou como a medicina diagnóstica vem passando por uma transformação acelerada, ao mesmo tempo em que precisa enfrentar desafios relacionados à eficiência operacional, integração de informações e sustentabilidade do sistema de saúde.

Com esse foco, a entidade reuniu lideranças do setor no painel “Tecnologia e Inovação na Medicina Diagnóstica: Tendências Estratégicas para Crescimento Sustentável”, moderado por Marcos Queiroz, líder do Comitê Técnico de Radiologia e Diagnóstico por Imagem da Abramed e diretor do Hospital Israelita Albert Einstein.

Participaram Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês; Douglas Penha, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Soluções Digitais na Roche Diagnóstica; Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin; e Rodrigo Lorenzo, diretor de diagnóstico por imagem da Siemens Healthineers para a América Latina.

Marcos Queiroz iniciou o debate chamando atenção para a pressão crescente sobre a medicina diagnóstica, impulsionada pelo envelhecimento populacional, pelo aumento do volume e da complexidade dos exames e pela incorporação de tecnologias voltadas à medicina preditiva e personalizada.

A trajetória do Grupo Sabin foi um dos pontos de partida desse debate. Lídia Abdalla compartilhou como a empresa conseguiu crescer de forma expressiva, mantendo seus padrões de excelência e qual o papel da tecnologia nesse processo. 

“Integramos todos os nossos sistemas para ter uma visão única do paciente. O cliente valoriza muito o histórico dos exames e hoje conseguimos entregar um diferencial enorme para médicos e pacientes”, afirmou. Para ela, no entanto, ferramentas são meio, não fim: “Nossos pilares são tecnologia, qualidade e gente. Gente é sempre o principal”.

Um dos principais paradoxos atuais da medicina diagnóstica também foi debatido: a abundância de dados que ainda não se traduz em inteligência aplicada. “Geramos muitos dados, mas ainda não usamos todos eles. O desafio é ter dados mais estruturados para trazer insights e tomar decisões, rumo a uma medicina de precisão cada vez mais personalizada”, destacou Douglas Penha. 

Ele também apontou a patologia digital e o conceito de analisador digital como as próximas fronteiras de inovação, além da inteligência artificial como ferramenta para democratizar o acesso a especialistas em regiões de escassez de profissionais. 

Essa visão foi endossada por Cesar Nomura, que ressaltou que o setor ainda utiliza pouco o potencial da jornada integrada do paciente: “As informações ainda estão muito segmentadas. Enquanto não integrarmos tudo isso com custo adequado, não conseguiremos entregar valor”.

Lídia Abdalla complementou com um questionamento que resume bem o desafio coletivo: “Temos ilhas de excelência no Brasil. Como conectá-las para que isso vire valor para o sistema como um todo? Como propor melhorias sem dados e sem informação?”.

A fragilidade econômica do setor, a relação com operadoras e os modelos de remuneração também foram discutidos. Com cerca de 35% dos equipamentos no Brasil em fim de vida útil e ausência de remuneração por qualidade, o risco de sucateamento é real. “Você usa um tomógrafo que projeta menos radiação no paciente e não será melhor remunerado por isso”, alertou Cesar Nomura. 

Para Douglas Penha, a saída rumo ao próximo estágio passa por mostrar números que comprovem que as novas tecnologias reduzem custos no longo prazo — uma mudança que, conforme adiantou a CEO do Grupo Sabin, exigirá coragem e disposição de ambos os lados para manter o equilíbrio e o benefício para todos.

Na plateia, Claudia Cohn, membro do Conselho de Administração da Abramed, levantou a questão da confiança e do prazo necessário para que investimentos em saúde gerem retorno, especialmente diante da rotatividade dos beneficiários nos planos. Rodrigo Lorenzo destacou o papel das empresas contratantes na valorização da qualidade assistencial durante as negociações com operadoras, para ajudar a minimizar as perdas.

Ele também trouxe a perspectiva da indústria e explicou o desafio de incorporar tecnologia em um setor de alto custo, especialmente na área de imagem. Em sua opinião, a solução passa por parcerias de valor, que considerem a venda de equipamentos e todo o ciclo de vida da tecnologia. A visão de um hub integrado de soluções diagnósticas, inspirado em modelos como o do Salesforce, foi apresentada como caminho para reduzir custos e ampliar o acesso à inovação.

Ao final, Cesar Nomura reforçou que a interoperabilidade pode ajudar o setor a operar com mais eficiência e gerar valor real ao paciente. “Ninguém quer ganhar em cima de algo que não é necessário. A interoperabilidade nos permite olhar para o setor com mais eficiência e levar valor ao paciente: fazer o que precisa ser feito”, concluiu.

O debate deixou evidente que a transformação da medicina diagnóstica não depende apenas da incorporação de novas tecnologias, mas da capacidade do setor de reorganizar relações, integrar informações e construir modelos sustentáveis de financiamento e remuneração.

Em um ambiente cada vez mais pressionado por eficiência, envelhecimento populacional e expansão da demanda, inovação isolada já não basta. O desafio agora é fazer com que avanço tecnológico, qualidade assistencial e viabilidade econômica consigam evoluir no mesmo ritmo.

Confira aqui o painel “Qualidade e Segurança na Medicina Diagnóstica”, que também foi realizado pela Abramed durante a Hospitalar 2026.

Qualidade e segurança na medicina diagnóstica: cultura, dados e o desafio da melhoria contínua

Da acreditação à interoperabilidade, debate da Abramed na Hospitalar mostrou os desafios de sustentar a excelência laboratorial em um cenário de maior complexidade diagnóstica e pressão financeira.

A qualidade e a segurança vêm ganhando centralidade nas discussões sobre o futuro da medicina diagnóstica, especialmente diante do avanço tecnológico, das novas exigências regulatórias e da crescente complexidade da assistência à saúde. Garantir processos seguros, rastreáveis e resultados confiáveis tornou-se um desafio estratégico para o setor.

Com esse foco, a Abramed promoveu, durante a Hospitalar, o painel “Qualidade e Segurança na Medicina Diagnóstica”, moderado por Milva Pagano, diretora-executiva da entidade. A sessão reuniu Luiza Bottino, gerente de P&D da Controllab; Carlos Eduardo Ferreira, líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed e gerente médico do Laboratório Clínico do Einstein Hospital Israelita; e Guilherme Ferreira de Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), para debater os desafios regulatórios, operacionais e tecnológicos envolvidos na melhoria contínua dos serviços diagnósticos e na segurança do paciente.

O encontro se iniciou com a palestra de Luiza Bottino, que apresentou o papel do controle externo da qualidade na segurança do paciente e mostrou como o erro laboratorial pode impactar diretamente a vida do paciente, a reputação do laboratório e a cadeia de fornecedores. 

Conforme explicou, o controle externo funciona como antídoto para a miopia da gestão: ao comparar o desempenho com outros players do mercado, o laboratório consegue monitorar tendências, imprecisões e falhas antes que elas cheguem à rotina clínica.

Luiza também ressaltou que, além da função regulatória, os dados gerados por esses programas apoiam decisões estratégicas das instituições, incluindo avaliação de metodologias, desempenho de equipamentos e identificação de oportunidades de melhoria.

“O controle externo entrega dados de forma rápida para a sociedade”, reforçou, apontando que laboratórios com participação contínua em programas de controle externo apresentam melhoria de 8% no desempenho.

De acordo com sua apresentação, o futuro passa pela automação, para que a ferramenta seja incorporada à rotina sem impactar o fluxo operacional, e por um ecossistema integrado de qualidade, com painéis que reúnam desempenho de controle interno, externo e comparativo entre unidades de uma mesma rede.

No debate, realizado durante a segunda parte do encontro, Guilherme Ferreira de Oliveira lembrou que 70% das decisões médicas são baseadas em resultados laboratoriais e que a medicina diagnóstica brasileira não deve nada a nenhuma outra no mundo. Apesar disso, provar esse valor com dados objetivos ainda é um desafio. 

“O laboratório provoca desfechos intermediários, o que dificulta a medição. Depositamos na interoperabilidade a esperança de medir isso de forma mais sólida”, afirmou.

Carlos Eduardo Ferreira complementou, destacando a crescente complexidade do cenário: a medicina caminha para painéis com 50 a 100 indicadores integrados, e o desafio de garantir qualidade se amplifica nessa escala. “Estamos saindo da era do achismo para uma era em que implementamos a cultura de dados. É importante ter informação, mas também conduta e tomada de ação diante de resultados inadequados”, pontuou.

Qualidade como cultura, não como obrigação

Um dos momentos mais ricos do debate foi a discussão sobre o que sustenta a qualidade no longo prazo. Para Guilherme, qualidade, resultados confiáveis e segurança do paciente não podem ser tratados como caixas separadas. Além disso, tudo começa no topo. “Se a alta direção não estiver comprometida, haverá muitas barreiras. As pessoas precisam comprar esse discurso e entender que o problema não é errar, mas não descobrir a não conformidade”. 

Luiza acrescentou que um dos maiores desafios para sustentar programas de qualidade está na gestão de pessoas e na disseminação da cultura organizacional. “Se a qualidade não estiver incorporada na cultura da empresa, ela não ganha tração”.

Entre os temas abordados, os participantes comentaram as contradições do setor. As certificações ainda se concentram nos grandes laboratórios, em um percentual considerado baixo diante do universo total do setor. O presidente da SBPC/ML apontou o fator financeiro como determinante: enquanto a inflação acumulou 154% em determinado período, a remuneração dos laboratórios cresceu apenas 10%.

“A remuneração não acompanhou a escala de realização de exames. Precisamos dar condições para que todos os laboratórios invistam em qualidade. A qualidade tem preço, mas ela é um investimento”, alertou.

Carlos Eduardo apontou outra distorção que afeta diretamente o acesso: um laboratório pode realizar o mesmo exame com tecnologias completamente diferentes e receber a mesma remuneração.

Na etapa final, os debatedores falaram sobre soluções diagnósticas mais avançadas, como testes moleculares e tecnologias ômicas. O líder do Comitê de Análises Clínicas da Abramed destacou que boa parte dessas soluções ainda permanece restrita a poucos centros no Brasil e que o setor precisa avançar também em técnicas essenciais que ainda não chegam de forma adequada a toda a população.

Outra provocação trazida por Milva para a mesa foi que, embora a qualidade esteja no centro da operação laboratorial, grande parte desse trabalho permanece invisível para o paciente, que percebe o atendimento e a experiência final, enquanto boa parte da construção da qualidade acontece nos bastidores. 

A discussão terminou com uma reflexão sobre o próprio modelo da saúde suplementar. Muitas vezes, o paciente sequer consegue escolher o laboratório que deseja utilizar, já que essa decisão costuma estar vinculada às operadoras e aos contratos corporativos. Para Guilherme, essa desconexão entre paciente, assistência e decisão sobre o cuidado também é um dos desafios que o setor precisará enfrentar.

Confira aqui o debate “Tecnologia e Inovação na Medicina Diagnóstica: Tendências Estratégicas para Crescimento Sustentável”, também promovido durante a Hospitalar 2026 pela Abramed.