Wilson Shcolnik modera debate sobre telemedicina em evento promovido pelo CFM

Presidente do Conselho de Administração da Abramed recebeu especialistas para falar dos avanços da telessaúde

23 de setembro de 2021

Muitos dos debates sobre a evolução da telessaúde no país envolvem as resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM). Para abordar essa temática, traçando todo o histórico desse desenvolvimento, a entidade realizou, dentro do III Fórum de Segurança do Paciente, uma palestra que, moderada por Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), recebeu especialistas para apresentar tanto a visão do médico quanto a visão do paciente no que tange à disponibilidade da telemedicina no Brasil.

Participaram do encontro virtual Donizetti Dimer Giamberardino Filho, vice-presidente e coordenador do Departamento de Comissões e Câmaras Técnicas do CFM; Maria Inês Dolci, presidente da Organização Internacional de Associações de Consumidores de Língua Portuguesa (CONSUMARE); e Chao Lung Wen, docente e chefe da disciplina de Telemedicina da Faculdade de Medicina da USP.

Abrindo a sessão, Giamberardino Filho apresentou o histórico da telemedicina no país, que se inicia com a Resolução CFM 1643/2002, que define e disciplina a prestação de serviços através da telemedicina; passa pela Resolução CFM 2227/2018, que declara a telemedicina como forma de prestação de serviços médicos mediados por tecnologia e foi revogada no ano seguinte; e chega no cenário da pandemia de covid-19, que por apresentar uma necessidade emergencial de ampliar a assistência à saúde ao mesmo tempo em que evitava a exposição tanto dos pacientes quanto dos profissionais à contaminação, culminou em novas legislações como o Ofício CFM 1756/2020, a Portaria MS 467/2020 e a Lei nº 13.989/2020, também chamada de Lei da Telemedicina.

O ponto de partida do debate, na opinião do executivo, é a necessidade de valorização da autonomia tanto do médico quanto do paciente. “Temos de deliberar essa busca de consenso das duas autonomias dentro da racionalidade, que leva à tomada de decisões razoáveis e prudentes. E isso vale tanto para o atendimento presencial quanto para o atendimento à distância”, declarou. Em resumo, na visão de Giamberardino Filho, a telemedicina só deve ocorrer quando for uma opção tanto do profissional de saúde quanto do cidadão.

Também nesse sentido, Maria Inês reforçou que cada consulta é única e que há diferenças, também, de acordo com as especialidades médicas, o que reforça a importância de o sistema garantir que o atendimento virtual seja uma escolha. “O que não pode ocorrer, principalmente no contexto dos planos de saúde, é engessar o tipo de atendimento dado ao paciente. As duas opções devem estar disponíveis”, completou.

Um dos temas amplamente debatidos e que, inclusive, foi motivo de questionamento por parte da audiência diz respeito ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), um documento que explica objetivamente e de forma clara quais os procedimentos, vantagens e desvantagens, daquele atendimento. “É altamente recomendado que médico e paciente tenham um documento que formalize as informações e o consentimento com relação à proposta de encaminhamento e de procedimentos. E isso deve estar anexado ao histórico do paciente”, comentou Maria Inês reforçando que é um documento que pode ser usado como medida preventiva.

Porém, em se tratando de um atendimento virtual, como deveria ser esse processo? Por parte da classe médica, Giamberardino Filho comentou que há um grande empenho do CFM para facilitar o acesso dos profissionais à assinatura eletrônica. Paralelamente, considerando que esse documento também precisa de um consentimento por parte do paciente e que nem todo cidadão brasileiro contará com esse tipo de assinatura, o especialista fez apontamentos interessantes: “temos que ter plataformas com segurança de concordância dos atos praticados, tal qual temos em aplicativos bancários”.

Trazendo uma visão mais conceitual ao debate, o professor Wen declarou que muitas vezes subestimamos a telemedicina, resumindo-a a uma consulta feita por vídeo. “Não se trata apenas de uma videochamada. Temos a telemedicina síncrona e a assíncrona”, disse ele que visualiza quatro telemedicinas em nosso cenário: acadêmica, governamental, comercial e empreendedora, e social. “Cada uma dessas quatro telemedicinas tem características especiais e muitas vezes a forma de coordenação é diferente a cada uma”, disse ele que acredita que nos últimos anos tivemos muitos avanços no âmbito da academia e que a telemedicina comercial, que começou a ganhar força em meados de 2015, deve se ampliar consideravelmente até 2025 graças à incorporação do 5G.

Reforçando que não há uma competição entre a medicina tradicional e a telemedicina, mas sim uma somatória de forças que levarão ao conceito de medicina conectada, Wen declarou que o objetivo deve ser uma medicina sem distância, pois independentemente de onde o paciente está, o médico conseguirá acompanhá-lo.

Porém, para que todo esse cenário positivo que está sendo desenhado de fato possa se concretizar, é indispensável investir em educação e formação da classe médica. “Ferramentas não têm ética e responsabilidade. Quem tem é o profissional. A telemedicina tem que capacitar os médicos que utilizarão essa metodologia”, afirmou.

Como forma de mostrar os excelentes avanços que a tecnologia vem proporcionando, Wen disse que há evidências de que o telemonitoramento de pacientes idosos com doenças crônicas reduziu em 15% as visitas desses pacientes à emergência, 20% a admissão em hospital e 45% a taxa de mortalidade.

Por fim, quando questionados se haveria uma tendência de queda da utilização do atendimento remoto após sanada a pandemia de covid-19, os palestrantes concordaram que não há como fugir dos avanços tecnológicos. Na visão de Maria Inês, mesmo não havendo a possibilidade de substituição do atendimento presencial pelo virtual, visto que a telessaúde surge mais como um complemento, esses atendimentos seguirão. “É algo que veio para ficar, claro que com os aperfeiçoamentos que se fazem necessários e sem haver rigidez no ato médico”, disse.

Também estiveram presentes no debate Florentino de Araújo Cardoso Filho, conselheiro federal do CFM e representante da Associação Médica Brasileira (AMB) e Natasha Slhessarenko Fraife Barreto, conselheira federal pelo estado do Mato Grosso.

Warm-Up do FILIS trata dos movimentos setoriais que estão transformando a medicina diagnóstica

Executivos debateram temas como fusões e aquisições, tecnologia e LGPD; Vice-presidente da Abramed apresentou dados atualizados sobre as movimentações

15 de setembro de 2021

A quinta edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS) está se aproximando e para aquecer o mercado com informações relevantes sobre o setor, a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) realizou, em 14 de setembro, o Warm-Up FILIS, encontro virtual com grandes líderes da saúde durante o qual foram apresentados dados sobre os principais movimentos setoriais que estão transformando o segmento.

Após abertura conduzida por Milva Pagano, diretora-executiva da entidade, Leandro Figueira, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed, fez uma rápida apresentação recheada de indicadores atualizados. Na sequência, convidou Fernando Torelly, CEO do HCor; Jeane Tsutsui, CEO do Fleury; e João Alceu, vice-presidente da NotreDame Intermédica para destrinchar esses dados e passar suas percepções empresariais quanto a esses movimentos consolidados.

Segundo Figueira, que apresentou dados computados pela KPMG, em 2020 o Brasil assistiu à concretização de 1.117 fusões e aquisições, sendo que o setor hospitalar e laboratorial foi responsável por quase 5% delas, uma tendência de crescimento notada a partir de 2015, ano em que houve mudanças regulatórias.

Importante observar que a maior parte dos investimentos provém de capital estrangeiro: 68,8% dos Estados Unidos, Argentina, Reino Unido, Canadá, França e Alemanha. “Muitos disseram que o capital chinês entraria no país de forma vigorosa, mas não é isso que vemos refletido nos números. Aliás, a Argentina, nosso irmão latino-americano, foi o segundo principal investidor no mercado brasileiro de fusões e aquisições”, declarou Figueira.

Observando o comportamento dos estados brasileiros perante essa movimentação, mais da metade de todas as fusões e aquisições ocorreu em São Paulo, estado que detém o maior número de beneficiários dos planos de saúde, hospitais, consultórios e laboratórios clínicos e de imagem. “Temos cerca de 20 mil unidades de apoio diagnóstico no Brasil e 58% delas estão instaladas em municípios com mais de 100 mil habitantes”, disse o vice-presidente. Quanto à expansão do setor, enfatizou que há um ritmo mais intenso em números absolutos no Sudeste, porém, em termos relativos, nota-se avanço mais acelerado no Norte, Sul e Nordeste.

Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), nos últimos dez anos houve crescimento de mais de 60% no número de laboratórios clínicos e de 96% na quantidade de serviços de diagnóstico por imagem instalados no país. Em contrapartida, uma redução de 8,8% nos laboratórios de anatomia patológica, um mercado que, segundo Figueira, é de difícil escalabilidade.

Para a economia, esse crescimento reflete em ampliação de emprego, renda e concentração de capital. “Hoje 70% dos prestadores de serviços vinculados à medicina diagnóstica têm até 9 empregados. Menos de 1% dos laboratórios do país têm, em sua estrutura, mais do que 100 colaboradores. É um mercado ainda bastante pulverizado e descentralizado”, pontuou.

Ainda trazendo informações sobre as tendências do setor, Figueira comentou que o mercado de TI avaliado em US$ 61 bilhões em 2017 deve alcançar a marca de US$ 149,2 bilhões até 2025; que estima-se que o mercado global de Internet das Coisas movimente cerca de US$ 158,1 bilhões em 2022; que há entre 20 e 30 bilhões de dispositivos médicos conectados; e que a LGPD deverá proporcionar maior transparência, segurança e confiabilidade para todos os players e usuários dos serviços de saúde.

Debates empresariais

Na sequência da apresentação de Leandro Figueira, o Warm-Up do FILIS recebeu executivos de grandes empresas do setor de saúde para debater as percepções quanto aos movimentos setoriais. Foram tratados assuntos de extrema relevância para o posicionamento estratégico da medicina diagnóstica na cadeia de saúde. Confira alguns destaques:

Fusões, aquisições e IPOs

Corroborando com os números apresentados por Figueira que mostram crescimento das fusões e aquisições do setor de saúde nos últimos anos, Jeane Tsutsui, CEO do Fleury, mencionou que assim como no segundo semestre as empresas do setor começaram a notar uma recuperação no número de atendimentos realizados após forte queda em decorrência da pandemia de covid-19, as fusões e aquisições também voltaram a ser retomadas graças a melhorias na visibilidade econômica.

“Esses movimentos são atrativos para ganho de escala. Além disso, apesar de todo o cenário macroeconômico extremamente desafiador, existe liquidez no mercado de capitais onde vemos oportunidade de aportes estrangeiros”, declarou a executiva reforçando que todos conseguem enxergar a importância da saúde, um setor que está valorizado.

Segundo Jeane, o grupo Fleury está adquirindo empresas de outros segmentos, porém não deixa de estar focado no seu core, que é a medicina diagnóstica. “Nosso primeiro posicionamento sempre será continuar crescendo em medicina diagnóstica. Mas investiremos em outras áreas a fim de manter a conexão com o cuidado do paciente trazendo, para perto, cada vez mais o elemento digital”, explicou. Para ela, a saúde deve ser cada vez mais integrada.

João Alceu, vice-presidente da NotreDame Intermédica, lembrou que as fusões e aquisições são de fato extremamente relevantes, pontuando inclusive que ao grupo está atualmente vivenciando um processo de fusão com a Hapvida. Porém, fez questão de enfatizar também que em 2020 foram concretizados vários IPOs. “Foi um ano muito forte para a abertura de capital, além das fusões tanto entre empresas do mesmo segmento quanto as inorgânicas que agregam novos setores”, declarou.

Dando exemplos sobre como a NotreDame Intermédica vem se desenvolvendo, disse que somente em 2020 a marca anunciou 19 aquisições, concluindo 15 delas. “Todas elas financiadas com capital próprio. 2021 tem sido muito interessante e 2022 também será”, completou. O executivo indicou que entre os princípios que estão por trás dessas movimentações estão expansão geográfica, economia de escala, mutualismo, verticalização, concorrência e retorno de investimento. Aproveitou, também, para mencionar o boom de healthtechs que invadem o mercado trazendo soluções pontuais para necessidades dos pacientes e das corporações.

Mudanças, verticalização e descentralização

Para Torelly, CEO do HCor, durante 2020 a grande preocupação estava em conseguir atender toda a população diante da crise do novo coronavírus, mas o país acordará em 2022 com uma indústria da saúde completamente diferente da atual. “Vejo que o segmento de saúde vai ser reinaugurado a partir do ano que vem, com crescimento significativo e um novo conceito onde a população aprendeu a importância de cuidar de si ao longo da vida”.

Passando para a temática da verticalização, segundo Alceu, o grau de verticalização da NotreDame Intermédica é de cerca de 72% e o executivo reconhece que descentralizar é preciso. “Fazemos isso de forma verticalizada pela abertura de centros clínicos menores e mais ágeis”, pontuou. “A regra geral é sempre ir aonde nossos clientes estão. Queremos inclusive aumentar o índice de verticalização”, completou.

LGPD

Recentemente o Grupo Fleury vivenciou um ataque cibernético e durante o debate no Warm-Up FILIS, Jeane mencionou que por eles já estarem há um certo tempo investindo na adequação do grupo para atender às diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), os estragos foram mínimos. “Já vínhamos trabalhando a segurança da informação com investimentos significativos, o que trouxe proteção às nossas bases de dados e nos permitiu reestabelecer o atendimento de forma relativamente rápida”, comentou.

A executiva ainda listou os três pilares principais adotados pela companhia durante esse processo de adaptação: mapeamento rigoroso de todos os processos de coleta e tratamento de dados dos pacientes; elevação dos níveis de segurança da informação; e mudança cultural por meio de treinamento e políticas de privacidade de dados.

Um ponto relevante trazido por Torelly ao debate foi a necessidade de apoio ao Sistema Único de Saúde (SUS). “Me preocupa não falarmos do sistema público, onde muitos hospitais não têm as questões fundamentais para implementação da privacidade de dados”, disse ele que participa de um movimento onde profissionais da saúde estão doando tempo para auxiliar as instituições públicas a fim de reduzir a desigualdade.

5º FILIS

A 5ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS) será realizada de forma 100% digital nos dias 13 e 14 de outubro. A programação, que conta com palestrantes internacionais e grandes nomes do mercado brasileiro de saúde, está disponível bem como as inscrições, que são gratuitas. Clique AQUI para conferir.

Reforma Tributária – Atualização do cenário e impactos para a medicina diagnóstica

Segunda fase está totalmente voltada ao imposto de renda; impactos variam de acordo com o modelo de tributação das empresas

14 de setembro de 2021

Desde as primeiras movimentações pela Reforma Tributária no Brasil, a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), por meio do seu Comitê Jurídico, segue atenta avaliando os impactos das mudanças no setor de saúde e contribuindo para um debate mais claro e transparente tanto com os tomadores de decisão quanto com a sociedade.

Ao final do ano passado, encerradas as atividades da Comissão Mista que avaliou a PEC 45/19 e a PEC 110/19, foi gerado um novo projeto de lei: o PL 3887/20. Esse projeto altera a legislação tributária federal e institui a Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços (CBS), que unifica PIS/Pasep e Cofins num único tributo com uma alíquota geral de 12%.

Ainda sem considerar que alguns setores da economia – como saúde e educação – são essenciais, o PL 3887/20 ameaça a funcionalidade e a sustentabilidade da medicina diagnóstica nacional e permanecem os problemas apontados previamente pelas instituições de saúde: a aprovação dessa reforma desencadeará o fechamento de muitas unidades que atuam com medicina diagnóstica, que não conseguirão arcar com o aumento expressivo de custos, e, como consequência, teremos uma nova leva de desempregados (já que o segmento é responsável pela manutenção de 264 mil postos de trabalho); ampliaremos a pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), já sobrecarregado e tentando se recuperar de uma pandemia; e teremos uma dificuldade ainda maior de garantir acesso a exames de qualidade a todos os cidadãos brasileiros.

“Seguimos dedicados à discussão da CBS. Semanalmente temos audiências com deputados e senadores, por meio da Aliança Saúde e Educação, e essa é uma frente que tem surtido bastante efeito. Tanto que agora estamos considerando uma perspectiva positiva de uma alíquota diferenciada para os setores da saúde, educação e também de transportes. A neutralidade fiscal é justamente o nosso pleito”, explica Fábio Cunha, diretor do Comitê Jurídico da Abramed.

Porém, paralelamente ao debate sobre o PL 3887/20, no início deste ano a Reforma Tributária entrou em uma segunda fase com a apresentação, pelo Ministro da Economia, Paulo Guedes, do projeto de lei 2337/21, que altera a legislação do Imposto sobre a Renda das Pessoas Físicas e das Pessoas Jurídicas e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido.

“Essa é uma fase totalmente voltada ao imposto de renda e temos que nos atentar a duas modificações principais: a reinstituição da tributação da distribuição de lucros e dividendos, que desde 1995 é isenta; e a redução da alíquota do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica”, explica Renato Nunes, sócio da área Tributária da Machado Nunes.

É preciso entender que essas mudanças propostas pelo PL 2337/21 afetam as empresas de forma diferente a depender do seu modelo de tributação.

Para as optantes pelo Simples Nacional (ou seja, pessoas jurídicas com faturamento máximo anual de R$ 4,8 milhões), se o projeto for aprovado não deve haver muito impacto. Isso porque na versão mais recente do texto essas empresas estarão dispensadas de promover a retenção de Imposto de Renda sobre as distribuições de lucros, independentemente de valor. Considerando que inicialmente a isenção seria apenas para a distribuição de até R$ 20 mil por sócio, podemos entender que houve um avanço.

A mesma previsão acima voltada ao Simples se aplicaria às empresas optantes pelo Lucro Presumido e que faturam até R$ 4,8 milhões ao ano. Para estas, os impactos devem ser indiretos, ou seja, podem surgir pelo aumento de preços de fornecedores e prestadores de serviço que sofrerão com uma possível ampliação da carga tributária.

Já para empresas que faturam mais de R$ 4,8 milhões ao ano e atuam sobre Lucro Real ou Lucro Presumido, os impactos precisam ser compreendidos e analisados, pois são bem significativos. As companhias mais penalizadas, em tese, serão aquelas que optam pelo lucro presumido.

“Isso acontece porque essas empresas trabalham com percentuais de presunção, e não com lucro efetivo. Assim, acabam sentindo menos o impacto positivo da redução do IRPJ, que é uma das principais contrapartidas ao retorno da tributação sobre a distribuição de lucros e dividendos”, explica Nunes reforçando que ao mesmo tempo em que se beneficiam pouco dessa redução, do outro lado estão sentindo totalmente o peso do aumento da carga tributária.

Outro ponto apresentado por Nunes e que deve ser percebido é que no setor de serviços da saúde, o lucro presumido conta com um regime especial apelidado de “lucro presumido saúde”. Enquanto no modelo tradicional, o percentual de presunção para se chegar à margem de cálculo é de 32%, nesse formato especial os percentuais de presunção do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro caem para, respectivamente, 8% e 12%. “Isso faz com que tenhamos o aproveitamento da redução da alíquota do IRPJ seja bastante limitado, e, por consequência, uma menor neutralização do Imposto sobre a distribuição de lucros”, declara Nunes.

“Tínhamos uma grande preocupação com o impacto dessas mudanças nos prestadores de serviço e no efeito em cascata que poderia ocorrer. Quando o texto foi alterado, mantendo a isenção para todas as empresas do Simples Nacional e para uma parcela das optantes pelo lucro presumido, a situação melhorou”, relata Cunha.

Monitorando a Reforma Tributária desde o início, o executivo acredita que nos últimos dias a aprovação da reforma foi dificultada. “Enquanto na primeira fase, de aprovação do CBS, tínhamos metade da sociedade contra e outra metade a favor, nessa segunda fase focada no imposto de renda temos 100% dos setores se posicionando contrários ao projeto de lei. Na nossa visão, isso faz com que a reforma enfrente muito mais dificuldades para ser tramitada e o fato de a aprovação ter sido recentemente postergada deixa claro o enfraquecimento do governo com relação a esse movimento”, finalizou.

A Abramed segue acompanhando todos os novos passos para esclarecer os impactos e as demandas do setor de medicina diagnóstica, evitando prejuízos para as empresas e para a população. Inclusive, participará de uma reunião com o deputado federal Luiz Carlos Mota (PL-SP), relator do PL 3887/20, intermediada pela Frente Parlamentar de Serviços.

Wilson Shcolnik coordena mesa redonda durante 2º Congresso Virtual da SBPC/ML

Foram realizadas quatro palestras com temas atuais e relevantes ao cenário da medicina diagnóstica

13 de setembro de 2021

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) marcou presença no 2º Congresso Virtual da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML). O encontro, que teve a transformação digital como tema principal, foi realizado entre os dias 7 e 11 de setembro. Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Abramed, foi o coordenador da mesa redonda “Desafios Laboratoriais do Século XXI”.

Foram, ao todo, quatro palestras com temas distintos, mas que contribuem de forma relevante com os principais debates conduzidos hoje no campo do diagnóstico. Confira, a seguir, os destaques de cada apresentação:

Burnout e inteligência emocional: os seus colaboradores vão bem?

A primeira palestra, comandada por Marina Reis, professora de gestão de pessoas e desenvolvimento humano, abordou burnout e inteligência emocional. Em sua apresentação, Marina enfatizou que para que a saúde esteja, de fato, no centro das empresas, é necessário aderir ao conceito de responsabilidade compartilhada. Segundo a especialista, o local de trabalho é um ambiente que ensina a cuidar da saúde. “O que temos visto nas grandes empresas são processos grandes de autogestão, autoconhecimento e principalmente autocuidado”, declarou.

Considerando que não há como falar em cuidado sem mencionar saúde mental, Marina comentou que antes mesmo da pandemia o Brasil já tinha altas taxas de ansiedade, e o novo coronavírus piorou esse cenário. Diante de tantas incertezas, o que a especialista incentiva é que todos tomem cuidado com o viés de negatividade. Para isso, levou ao congresso uma interessante frase de Rick Hanson, psicólogo norte-americano e autor de conteúdos sobre neurociência: “a nossa mente é velcro para coisas ruins e teflon para as coisas boas”.

O que Marina frisou foi que o medo é uma defesa, mas que não podemos viver o tempo inteiro com medo. “Precisamos ter esse cuidado para que nossa mente não permaneça sempre grudada a coisas negativas, senão teremos uma ansiedade exacerbada”, disse.

Depois de mencionar que estamos saindo do mundo VUCA (acrônimo em inglês para volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade) e entrando no mundo BANI (acrônimo em inglês para frágil, ambíguo, não-linear e incompreensível), a especialista encerrou sua apresentação com quatro focos para que consigamos prevenir o burnout: atenção plena, consciência emocional, conexão com o propósito e resiliência.

Medicina personalizada

Na sequência da palestra de Marina, a mesa redonda recebeu Armando Fonseca, médico especialista em pediatria e membro da SBPC/ML e de outras entidades do setor, para explicar a história e as vantagens da medicina personalizada, bem como a participação do diagnóstico nesse contexto.

Trazendo imagens históricas que demonstram que, a princípio, as doenças eram atribuídas a castigos divinos, Fonseca declarou que mesmo diante de cenários tão distintos da nossa atual realidade, é possível atribuir o conceito da medicina personalizada há Hipócrates, considerado o “pai da medicina” que viveu há mais de 2.300 anos. “Hipócrates já falava em personalização da medicina quando atrelava a alteração dos fluidos biológicos às doenças”, disse.

Enfatizando que não há uma competição entre a medicina tradicional e a medicina personalizada, Fonseca relembrou a importância do Projeto Genoma Humano para a evolução da ciência e mencionou um marco histórico para o Brasil. “No final de 2019, um projeto da USP sequenciou 15 mil genomas em uma plataforma de pacientes focada em relacionar manifestações clínicas e expressões da doença ao genoma. Isso nos inseriu no mundo da genômica definitivamente”, declarou.

O especialista também enfatizou o importante papel dos exames diagnósticos para a consolidação da medicina personalizada. Segundo ele, diagnosticar e tratar pacientes com base em suas características genéticas é o que prevê a medicina personalizada, além de acelerar a resolutividade para atenuar custos do sistema. Fonseca, inclusive, mencionou um dado do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico que reforça que até 70% das decisões clínicas são fundamentadas nos resultados de exames.

Ao longo de sua apresentação, Fonseca trouxe uma frase interessante atribuída ao médico Michael Yurkewics e que diz respeito ao diagnóstico individualizado: é mais importante saber que tipo de pessoa tem aquela doença, do que saber que tipo de doença tem aquela pessoa.

Telemedicina no laboratório clínico

Com a pandemia de COVID-19, a telemedicina cresceu de forma exponencial não só no Brasil, mas no mundo. Para tratar desse tema, a mesa redonda recebeu Eduardo Cordiolli, gerente médico de telemedicina do Hospital Israelita Albert Einstein e presidente da Saúde Digital Brasil.

Segundo Cordiolli, a mídia vem destacando os avanços da telemedicina, porém enquanto algumas reportagens declaram que as teleconsultas podem crescer até 15% ao ano, ele acredita que o desenvolvimento é muito mais agressivo. “Em 2021 falavam em 7,5 milhões de consultas virtuais e já passamos de 10 milhões. Acredito que o crescimento pode chegar a 80% ao ano”, disse. Para complementar essa percepção, o especialista declarou que em 2015 atendia um caso virtualmente por dia, em 2020 passou a atender 60 casos diários por meios digitais.

Há uma percepção de que esse crescimento não está atrelado apenas à necessidade de distanciamento gerada pelo novo coronavírus, os pacientes parecem aprovar a ideia de serem atendidos de forma remota. Trazendo dados europeus, Cordiolli mencionou o caso de um ambulatório espanhol que foi fechado durante a primeira onda de surtos, realizando apenas atendimentos remotos, e quando, posteriormente, foi reaberto, notou que 91% dos pacientes gostariam de continuar os atendimentos pela telemedicina. “A ideia de melhorar a experiência é tão forte que os pacientes querem a telessaúde”, disse.

Porém, como essa digitalização pode chegar à medicina diagnóstica? Segundo o especialista, os laboratórios clínicos, por exemplo, estão seguindo caminhos baseados em coleta domiciliar, testes point-of-care e aquisição de equipamentos portáteis de ultrassonografia. Isso, claro, do ponto de vista do contato entre profissional de saúde e paciente.

Paralelamente há toda uma atividade fundamental depois que os exames são coletados, e nesse momento a telessaúde pode se fazer ainda mais presente para atingirmos a quádrupla meta: acesso, equidade, qualidade e eficiência. “Se temos uma tecnologia possível, é desejável do ponto de vista humano, sustentável e viável, conseguimos produzir algo que mudará a saúde para melhor”, pontuou.

Para finalizar, reforçou que a telepatologia é muito importante, visto que há uma carência de médicos patologistas em determinadas regiões do país, e mencionou as quatro formas com que ela pode ser aplicada:

  • Estática – Quando a amostra é fotografada e a imagem enviada para análise em outro local
  • Dinâmica – Quando um técnico manipula a lâmina sob orientação de um médico à distância
  • Robótica – Quando o médico manipula, à distância, o microscópio
  • WSI – Quando toda a lâmina é fotografada em alta resolução e encaminhada para o médico, que consegue manipular a imagem para a análise
  • Híbrida – Mescla outras formas e permite a análise tanto da imagem quanto do microscópio se necessário for

Aquisição, associação ou terceirização: tendências do mercado

A última palestra da mesa redonda comandada por Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Abramed, foi conduzida por Fabio Sodre, médico patologista clínico, e trouxe, de forma didática, conceitos, vantagens e desafios de três processos que vem sendo muito vivenciados pelas empresas do setor de diagnóstico: aquisições, associações e terceirizações.

Em sua apresentação, Sodre falou sobre as tendências relacionadas a cada um desses formatos. “Nunca tivemos tantas aquisições no mercado de saúde brasileiro. As taxas de juros, apesar de crescentes, estão em níveis mínimos; há muito capital parado no mercado privado e os bancos estão retomando a confiança”, disse. Sobre associações, mencionou que diante desse cenário de múltiplas fusões, aqueles laboratórios que não querem ser adquiridos podem optar por se associarem e, quanto à terceirização, mencionou que a Lei nº 13.249 trouxe segurança jurídica fazendo com que as empresas pudessem terceirizar e, assim, focar nas vantagens competitivas e na busca por crescimento significativo.

O especialista também explicou um pouco mais detalhadamente cada processo.

O primeiro tópico abordado foram as fusões e aquisições e Sodre enfatizou que esse é um processo que sempre visa a geração de valor para o acionista, buscando sinergias entre as empresas. “A proposta é que as duas companhias juntas obtenham resultado melhor do que a somatória dos resultados individuais de ambas”, explicou.

Entre as armadilhas que precisam ser superadas, enfatizou que não basta apenas avaliar o balanço da empresa que vai ser adquirida, é preciso checar se aquela é a empresa “certa”. “Temos que observar a complementaridade, as sinergias e como está a cultura de cada empresa para que seja feito um processo suave de integração”, disse.

Ao falar sobre as associações, quando há união de empresas com o objetivo de conquistarem, juntas, benefícios e desenvolvimento mútuo, Sodre apontou como benefícios o fortalecimento da capacidade de ação, a criação de soluções efetivas, e a possível redução de custos junto a fornecedores. “Há, também, a criação de confiança entre os associados para uma livre troca de ideias”, pontuou. Entre as dificuldades, destacou o processo mais lento de tomada de decisão, a presença de interesses divergentes, a possibilidade de uma gestão tendenciosa e a necessidade de tempo para interação entre os associados.

Por fim, o especialista falou sobre a terceirização, processo muito utilizado por grande parte dos laboratórios clínicos nacionais que comumente contratam empresas para realização de serviços tanto atrelados à sua atividade fim, porém mais complexos, quanto complementares à sua atividade como limpeza, segurança e portaria. “A terceirização permite a rápida tomada de decisão sem custos adicionais relativos à demissão e a transformação de um custo que antes era fixo, em variável”, explicou.

Laboratório Clínico: A chave para o melhor cuidado, com segurança

A capacitação tecnológica, a digitalização e a automação estão afetando profundamente a indústria da saúde

13 de setembro de 2021

Hoje, a capacitação tecnológica, a digitalização e a automação estão afetando profundamente a indústria da saúde como um todo. A prestação de assistência médica adquiriu uma nova forma e um aprimoramento das funções. Do lado da oferta, uma série de novas tecnologias pode, agora, ser integrada à prestação de cuidados: inteligência artificial (IA), robótica, medicina de precisão, impressão 3D, realidade aumentada/realidade virtual, genômica, telemedicina e quantas mais. 1

Segundo a McKinsey em uma publicação recente, na maioria dos países da OCDE, a implementação de tecnologias digitais na prestação de serviços de saúde poderia ajudar a reduzir os custos em mais de 10% do total das despesas nacionais anuais nesta área. Os investidores reconheceram a oportunidade, e o financiamento de capital de risco para soluções digitais de saúde aumentou exponencialmente, de cerca de US$ 1 bilhão em 2011 para mais de US$ 8 bilhões em 2018. 1

Uma grande alteração que tem sido observada nos últimos anos é a troca do foco do serviço, anteriormente baseado no tratamento de doenças, para o gerenciamento da saúde, um termo que engloba bem-estar, vida saudável, prevenção de doenças e reabilitação. A mudança está sendo conduzida por várias frentes: tanto pelos pacientes, que desejam uma vida mais longa e saudável, quanto pelos contribuintes, que enfrentam pressões orçamentárias (e, em alguns casos, perdas financeiras).

De fato, se a dificuldade cria a oportunidade, pudemos vivenciar, nos últimos meses, os laboratórios clínicos expandindo sua participação, levando o valor de uma informação objetiva de diagnóstico para toda a cadeia de saúde e participando de cada protocolo de atendimento criado durante a evolução da pandemia. A tecnologia só fez catalisar essa expansão, criando um novo patamar de cooperação entre os atores. 

Referência
Bo Chen, Axel Baur, Marek Stepniak, and Jin Wang. “Finding the future of care provision: The role of smart hospitals.” Article. McKinsey & Company. May 31, 2019.

A saúde tem voz junto à ANPD – Seremos ouvidos e trabalharemos pela adequação

Assinado por Marcos Ottoni, da CNSaúde, artigo detalha cenário da aplicação da LGPD no Brasil

9 de setembro de 2021

Com o início da vigência da Lei nº 13.709/2018 (LGPD), ocorrido em setembro de 2020, bem como de suas sanções a partir de agosto de 2021, uma das principais preocupações do setor de saúde é assegurar que seus anseios e preocupações sejam ouvidos pelas autoridades reguladoras.

A boa notícia é que conseguimos uma das 23 cadeiras no Conselho Nacional de Proteção de Dados – CNPD, o qual auxiliará a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) no processo de regulamentação da LGPD. Agora, será possível ao setor apresentar suas peculiaridades e complexidades, bem como propor sugestões de como realizar uma eficiente gestão de nosso principal insumo (dados pessoais), sem deixar de lado a privacidade e o devido cuidado com as informações de nossos pacientes.

Além disso, poderemos participar, de forma ativa, do processo de regulamentação da norma junto à ANPD, órgão que também possui a atribuição de normatizar, educar e conduzir o processo de aplicação de sanções.

Um ponto importante, e que precisa ser destacado, é que não devemos encarar a vigência da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) como uma ameaça ao dia a dia do setor. Sabemos que a norma busca trazer uma profunda mudança de cultura organizacional no que tange ao tratamento de dados pessoais, e que esse é um processo que requer investimento e atenção. Porém, esse movimento em prol de uma eficiente governança de dados, além de caminhar no mesmo sentido de diversos países, especialmente europeus, permite ganhos de eficiência através da revisão de diversos processos internos e aprimoramento de práticas de compliance.

A Cisco divulgou um estudo que inclui empresas brasileiras e revela retornos positivos das organizações que investem nessa adequação. Segundo o relatório, para cada US$ 1 aplicado, o retorno é de US$ 2,70. Entre os reflexos, surgem melhorias de eficiência e de governança. Essa é uma boa oportunidade, e não uma amarra.

O importante, agora, é nos atentarmos à essa adequação lembrando, sempre, que a LGPD é uma lei principiológica com foco na regulação responsiva. Ou seja, ao contrário das legislações em que o binômio “comando e controle” eram a regra, a norma permite que as empresas e instituições se adequem à lei mediante a definição de suas próprias condutas de governança, lastreadas em análises de risco próprias e nos princípios legais existentes.

Enquanto isso, a ANPD pretende executar suas atribuições em três momentos bem definidos. O primeiro é o processo de regulamentação da Lei, mediante a realização de debates e consultas públicas, de forma bastante transparente. O segundo será promover o processo de conscientização e educação da sociedade quanto à importância das regras de privacidade e proteção de dados para os setores púbico e privado. E, em um terceiro momento, após a efetiva definição das regras, a Autoridade irá exercer o seu papel sancionador em sua plenitude. Assim, ao contrário do que muito se apregoa, o que vemos é que a Autoridade não está focada, neste momento, em punir, mas sim em normatizar e educar.

E quais devem ser os pontos de atenção iniciais do setor de saúde e, principalmente, das empresas de medicina diagnóstica? Primeiramente podemos pensar em quatro linhas principais:

  • Coleta de dados e a observância dos princípios da Lei – A empresa precisa avaliar o processo de coleta de dados para que seja possível verificar se as informações tratadas são necessárias, adequadas, e que tenham uma finalidade clara e amparada em uma base legal legítima, sempre buscando a coleta do mínimo necessário. Neste ponto, temos de rever o nosso dia a dia, a forma como trabalhamos, identificar o ciclo de vida desses dados e não enquadrar o tratamento em apenas uma base legal, como o consentimento, por exemplo.
  • Compartilhamento – Hoje o compartilhamento de dados é um dos grandes desafios do setor, já que os prestadores precisam compartilhar dados com o Governo Federal, Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, Agências Reguladoras, e eventualmente com Operadoras de Planos de Saúde e outros players. Para a medicina diagnóstica o desafio é enorme, já que o segmento gera um grande volume de informações sensíveis e de extrema importância, cujo compartilhamento deve estar rigorosamente embasado em uma base legal clara.

  • Treinamento – Precisamos mudar a cultura das empresas e treinar nossas equipes para a importância da privacidade e proteção dos dados de nossos pacientes e colaboradores. Inicialmente, esse é o foco mais importante para uma empresa, ao invés de investirmos em projetos complexos e caros. Se conseguirmos o apoio dos nossos colaboradores para que todos entendam a necessidade de uma eficaz governança de dados, o sucesso do respectivo projeto de adequação será inevitável.
  • Segurança da informação – Recentemente o Valor Econômico publicou uma matéria que relata que, entre 2019 e 2020, as tentativas de invasão subiram 715%, sendo o setor de saúde um dos mais visados. De fato, o número de ataques contra o setor aumentou exponencialmente, seja em razão de uma atuação cada vez mais elaborada e arrojada de grupos de hackers, mas também diante de diversas vulnerabilidades estruturais existentes, seja do setor público ou privado, em decorrência da falta de investimentos em tecnologias de segurança da informação bem como em treinamento de funcionários. A segurança da informação passou a ser item obrigatório e prioritário para todas as empresas e em especial as do segmento de saúde.

Verifica-se que tais preocupações iniciais buscam assegurar o uso transparente e eficiente dos dados pelo setor, diminuindo-se os riscos de ferir ou afrontar direitos dos titulares.

Essa mudança de postura diante do tema é fundamental, pois sabemos que nosso segmento utiliza dados pessoais para as atividades mais básicas, seja para uma anamnese, para uma prescrição médica, realização de exames, identificação de doenças e prescrição de um tratamento.

Além disso, o advento das novas tecnologias, o uso da internet das coisas, a inteligência artificial, e o big data, associados à telemedicina e a um modelo de gestão da saúde trazem novos desafios envolvendo a privacidade e proteção de dados. E em um contexto de pandemia como o presente momento, ficou evidente, também, a importância do uso dos dados para a realização de pesquisas clínicas e científicas para o bem de toda a humanidade.

Neste contexto, compreender os princípios da LGPD, investir na mudança de cultura e garantir que os dados possam ser tratados em prol do desenvolvimento da saúde e da segurança dos pacientes é mandatório para os prestadores de serviços de saúde, e em especial para o setor de medicina diagnóstica.

* Marcos Ottoni é conselheiro do Conselho Nacional de Proteção de Dados e Coordenador Geral Jurídico da Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde)

Abramed leva importantes debates sobre medicina diagnóstica à Digital Journey by Hospitalar

Apresentações da entidade abordaram LGPD, Medicina Diagnóstica Hospitalar e Inteligência Artificial

9 de setembro de 2021

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) teve uma participação bastante forte na segunda edição da Digital Journey, programação virtual promovida pela Feira Hospitalar. O evento, que teve início em 16 de agosto, contou com três encontros conduzidos pela Associação no dia 30 abordando temas extremamente relevantes para a comunidade de medicina diagnóstica nacional: Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), Limites da Medicina Diagnóstica Hospitalar e Inteligência Artificial.

“Para aproveitarmos a oportunidade de mostrar um pouco mais do setor de medicina diagnóstica para o público da Digital Journey, trouxemos alguns temas muito relevantes. Tenho certeza de que esses debates blindaram o público com informações importantes sobre o segmento”, mencionou Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Abramed, na abertura das sessões.

Confira, abaixo, os links para as coberturas completas de cada uma das apresentações:

Proteção de dados em Medicina Diagnóstica
Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed
Rogéria Leoni Cruz, diretora Jurídica e Data Protection Officer do Hospital Israelita Albert Einstein
COBERTURA COMPLETA

Medicina Diagnóstica Hospitalar – Quais são os Limites?
Leandro Figueira, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed
Marcos Paulo Novais Silva, superintendente executivo da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge)
Alessandro Ferreira, vice-presidente Comercial e Marketing do Grupo Hermes Pardini
COBERTURA COMPLETA

Inteligência Artificial como facilitadora do acesso ao diagnóstico e redutora das disparidades sociais
Cesar Higa Nomura, superintendente de medicina diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês e membro do Conselho de Administração da Abramed
COBERTURA COMPLETA

PL 7.419/2006 – Abramed apresenta cinco pontos de atenção para o setor de medicina diagnóstica

Em audiência pública, Wilson Shcolnik representou o segmento no debate sobre alterações nos planos e seguros privados de assistência à saúde

9 de setembro de 2021

A 7ª Reunião Extraordinária da Comissão Especial destinada a proferir pareceres quanto ao Projeto de Lei 7.419/2006, realizou, no dia 1º de setembro, uma audiência pública para que diversos setores da saúde pudessem debater as questões relativas aos prestadores de serviço atuantes no sistema de saúde suplementar do país. Presidida pela deputada Soraya Manato (PSL-ES), a comissão tem, como relator, o deputado Hiran Golçalves (PP-RR).

Na ocasião, Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), apresentou cinco pontos de atenção na visão dos laboratórios e clínicas de diagnóstico por imagem.

“A Abramed é formada por empresas de diferentes naturezas que, juntas, realizam mais de 50% de todos os exames do sistema suplementar, sendo que muitas delas também atendem o Sistema Único de Saúde (SUS). Na pandemia de COVID-19, que estimamos terem sido realizados 35 milhões de exames, nossas associadas foram as responsáveis por efetuar cerca de 70% deles. Temos associados em todo o país e entendemos ser necessário dar ênfase a cinco pontos nessa discussão”, disse Shcolnik ao iniciar sua apresentação.

Confira, abaixo, os cinco tópicos apresentados pelo executivo:

Regras de contratualização – Apesar da Lei nº 13.003, o setor de medicina diagnóstica não tem recebido o repasse dos reajustes autorizados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Além disso, há a existência das glosas, ou seja, serviços que foram prestados e faturados, mas foram contestados sem razão clara. “Sem a remuneração justa, corremos o risco de termos redução da qualidade dos serviços, prejudicando todos os beneficiários da saúde suplementar”, pontuou Shcolnik.

Desperdícios em saúde – Problema que deve ser visto com seriedade por afetar a sustentabilidade do sistema, os desperdícios existem e precisam ser combatidos. Porém, é preciso compreender que há uma inversão na pirâmide etária, ou seja, há o envelhecimento populacional somado a um aumento no número de doentes crônicos. Para essa população, os exames complementares são essenciais, pois as doenças precisam ser gerenciadas e o tratamentos controlados.

“Há uma tendência global de aumento no número de exames complementares e precisamos mudar a ótica de atenção à saúde, incentivando a promoção e a prevenção. Para isso, os exames complementares são indispensáveis”, esclareceu. O presidente também mencionou a relevância da medicina personalizada que, baseada em resultados de exames laboratoriais, é uma ferramenta que traz economia ao indicar a direção exata de tratamentos efetivos.

Substituição de prestadores de serviços não hospitalares – A substituição de hospitais nas redes credenciadas é feita com tratamento apropriado que protege o beneficiário ou a empresa contratante, mas não há essa mesma atenção na substituição de prestadores não hospitalares, como laboratórios e clínicas de diagnóstico por imagem. Ainda dentro desse contexto, há uma necessidade de envolver critérios de qualificação para evitar que o beneficiário perca prestadores ou os veja sendo trocados por outros que não são equivalentes. Segundo Shcolnik, o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde ainda não oferece um campo referente a qualificação para inserção de dados como certificados de acreditação.

Regulação de Prestadores de Serviços de Saúde pela ANS – “Nosso setor, por meio da Abramed, é contra a regulação de prestadores por considerar que ao longo de 20 anos de existência da ANS temos coexistido de forma pacífica e harmoniosa”, pontuou o executivo lembrando que os prestadores de serviço já são rigidamente regulados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) que exige o seguimento de diversos critérios para minimizar ou eliminar os riscos sanitários.

Respostas aos novos desafios da saúde suplementar – O setor de medicina diagnóstica vem se adaptando a novos formatos de ofertas de serviços. Durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, fortaleceu os atendimentos domiciliares e otimizou as informações em saúde para que esses dados pudessem balizar a tomada de decisão em benefício dos pacientes. “Ao mesmo tempo, temos adotado, em contratos com operadoras de planos de saúde, novas formas de remuneração a fim de atender às demandas do mercado”, complementou.

Após elencar os pontos de atenção quanto as mudanças ensaiadas pelo PL 7.419/2006, Shcolnik agradeceu a oportunidade dada à Abramed para expor as particularidades da medicina diagnóstica e agradeceu à ANS. “Reconhecemos o esforço da Agência que, enquanto não temos um marco regulatório, reativou a Câmara Técnica e agradecemos a incorporação ao Rol de novos procedimentos em caráter excepcional durante a crise de COVID-19, visto que esses exames têm sido essenciais para diagnosticar e gerenciar a gravidade da doença, principalmente nos pacientes hospitalizados”, disse.

Em sua declaração final, o relator Gonçalves enfatizou que a comissão visa ouvir todos os componentes do setor. “Essas audiências têm sido muito explicativas, auxiliando no meu convencimento e na ideia do que devemos construir em nosso relatório”, disse.

Além de Wilson Shcolnik, que representou a Abramed, também participaram da 7ª Reunião Extraordinária da Comissão Especial, Gustavo de Barros Macieira, gerente de análise setorial e contratualização com prestadores da Diretoria de Desenvolvimento Setorial da ANS; José Fernando Macedo, diretor de Defesa Profissional da Associação Médica Brasileira (AMB); Salomão Rodrigues Filho, segundo tesoureiro do Conselho Federal de Medicina (CFM); e Carlos Fernando da Silva, representante da Federação Nacional dos Médicos (Fenam).

É possível assistir à reunião na íntegra AQUI.

Indispensáveis à segurança materna e neonatal, exames estão presentes em todas as fases da gestação

Do pré-natal ao nascimento, exames laboratoriais e de imagem contribuem com o cuidado; Abramed participa da Aliança para o Parto Seguro e Respeitoso

8 de setembro de 2021

Em 17 de setembro comemora-se o Dia Mundial da Segurança do Paciente e, a cada ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) define um tema focal para a construção de ações que visam a melhoria contínua da assistência. Diante de um cenário em que cerca de 810 mulheres e 6.700 recém-nascidos (1) morrem todos os dias ao redor do globo, muitas vezes por causas evitáveis, o assunto escolhido para 2021 foi Cuidado Materno e Neonatal Seguro.

Considerando que a medicina diagnóstica tem papel extremamente relevante na segurança da gestação e do nascimento, integrando muitas das etapas do pré-natal, a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) participa da Aliança Nacional para o Parto Seguro e Respeitoso colocando todo o setor de diagnóstico à disposição das ações que promovem a melhor qualidade da assistência.

Os exames, tanto laboratoriais quanto de imagem, integram os cuidados obstétricos ao longo de todas as fases da gestação e permanecem presentes nas primeiras horas de vida dos bebês. “Durante a gravidez, a mulher faz uma série de exames para detectar doenças e mesmo os testes mais simples e rotineiros, como hemogramas e exames de urina, são fundamentais nesse momento”, comenta Alex Galoro, diretor do Comitê de Análises Clínicas da Abramed e gestor médico no Grupo Sabin.

Segundo o especialista, os exames de sangue auxiliam na detecção de anemias e diabetes que podem evoluir com a gestação e por meio da análise laboratorial da urina pode-se detectar infecções e perdas de proteína capazes de contribuir para o parto prematuro. “Exames laboratoriais também checam incompatibilidades entre os tipos sanguíneos da gestante e do bebê; detectam sorologias diversas como hepatite, HIV e sífilis; infecções por citomegalovírus, toxoplasmose e rubéola, doenças que podem acarretar má formação fetal; e existem marcadores bioquímicos para pré-eclâmpsia”, complementa Galoro. Importante lembrar que, no Brasil, a hipertensão arterial é a causa de morte materna mais frequente, responsável por 23% dos óbitos maternos diretos (2).

A gestante também passa por exames de imagem, um momento que costuma vir repleto de ansiedade. “Além dos ultrassons obstétricos normais, existe o ultrassom morfológico, que avalia o feto em detalhes, podendo detectar má formações cardíacas, pulmonares e esqueléticas”, relata Gustavo Meirelles, vice-presidente médico da Alliar e diretor do Comitê Técnico de Radiologia e Diagnóstico por Imagem da Abramed.

O médico também recorda que pela ultrassonografia é possível identificar as circulares de cordão – principalmente em torno do pescoço, presentes de 20 a 37% dos bebês ao nascimento (3) –, e algumas outras condições do feto que podem ser tratadas antes mesmo do parto, com intervenções intraútero.

Chegado o momento de dar luz a uma nova vida, os exames seguem presentes. Logo ao nascer, há um acompanhamento do bebê, principalmente nos casos em que a mãe desenvolveu alguma condição clínica ao longo da gestação. “Caso ela tenha tido diabetes, por exemplo, há risco de o recém-nascido desenvolver hipoglicemia e para isso são feitos exames de monitoramento”, pontua Galoro. Outro teste extremamente importante é o de bilirrubina: “a icterícia pode desencadear problema neurológico grave”, complementa o especialista.

Há, também, os testes de triagem como o teste do pezinho. Realizado nos cinco primeiros dias de vida, vem em contínua evolução e, hoje, consegue detectar 53 patologias, todas raras. “Agora temos, também, um outro teste que é chamado de ‘teste da bochechinha’. Com um cotonete, é feita uma raspagem das células da mucosa oral do bebê de onde é possível extrair o DNA. Com essa amostra, fazemos uma triagem para várias doenças genéticas que possam trazer implicações para o desenvolvimento da criança”, comenta Galoro.

Aliança para o Parto Seguro e Respeitoso

Promovida pela Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente (Sobrasp), a Aliança para o Parto Seguro e Respeitoso – que conta com participação ativa da Abramed – é uma iniciativa que busca o comprometimento de todo o setor de saúde com a assistência materna e neonatal. Alinhada com a campanha proposta pela OMS, reúne cerca de 40 entidades que buscam a redução da mortalidade materna, um dos problemas de saúde pública mais graves do país.

“Muitas das causas de morte materna e neonatal são evitáveis. Precisamos da mobilização de toda a sociedade para conscientização sobre esse problema e a criação de medidas que consagrem os direitos ao parto seguro e respeitoso. Assim, unindo agências governamentais, empresas privadas, institutos, associações e profissionais de saúde, ampliamos a discussão”, comenta Victor Grabois, presidente da Sobrasp.

Representando o setor de medicina diagnóstica nessa coalizão de áreas, a Abramed reconhece a necessidade de amplificar esse tema junto a seus associados. “Nos colocarmos à disposição de todo o ciclo de cuidado para a redução das altíssimas taxas de mortalidade materna e neonatal. Os exames têm um peso enorme na construção de uma gestação segura e seguem nos acompanhando ao longo de toda a vida”, diz Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Abramed.

Na visão de Grabois, o setor de diagnóstico é fundamental durante todo o pré-natal, mas ainda mais importante para aquela parcela de mulheres com comorbidades e risco aumentado de complicações. “Gestantes e recém-nascidos com quadros clínicos mais graves e complexos precisam da medicina diagnóstica. Não é possível pensar em segurança do paciente sem todo o aporte laboratorial e de imagem”, diz.

O tema tornou-se ainda mais emergencial agora. Segundo divulgado pela Sobrasp, em 2021, dados do Observatório Obstétrico Brasileiro mostram que 38 gestantes morrem por semana no Brasil em decorrência da COVID-19. “Quando somamos as taxas já altas de mortalidade materna com a crise do novo coronavírus, temos uma situação trágica. Ano passado tínhamos 10 mortes maternas por semana e esse ano estamos beirando 40 mortes semanais”, finaliza Grabois.

Referências:
(1) Dia Mundial da Segurança do Paciente 2021
(2) Fatores de risco relacionados à pré-eclâmpsia
(3) Qual a melhor orientação para gestantes com 38 semanas, com circular de cordão?

Racionalizar – e não racionar – é o caminho para a sustentabilidade da medicina diagnóstica

Debate sobre os limites do setor de diagnóstico hospitalar foi conduzido pela Abramed na Digital Journey

01 de setembro de 2021

O setor de saúde como um todo segue debatendo de forma consistente tanto o underuse quanto o overuse, ou seja, a não realização de exames mesmo quando necessário e a realização excessiva ou desnecessária de procedimentos diagnósticos. Reconhecer essa realidade é fundamental para que o segmento possa atuar na busca pela segurança do paciente e sustentabilidade dos sistemas. Para tratar desse assunto principalmente no ambiente hospitalar, a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) conduziu um painel com especialistas durante a segunda edição da Digital Journey, evento digital promovido pelo time da Feira Hospitalar.

Na noite de 30 de agosto, Leandro Figueira, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed, recebeu Alessandro Ferreira, vice-presidente comercial e de marketing do Grupo Hermes Pardini, e Marcos Paulo Novais Silva, superintendente executivo da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), para tratar desses questionamentos.

Um dos primeiros pontos – e talvez um dos mais relevantes do debate – se prendeu à diferenciação de termos com grafias muito parecidas, mas conceitos totalmente diferentes: racionar x racionalizar. No âmbito da medicina diagnóstica, entender que a racionalização é importante para todos os atores da cadeia, mas que o racionamento tende a ferir alguns princípios fundamentais, é imprescindível.

O assunto foi iniciado por Silva. “Somos favoráveis à racionalização no sentido de buscar o melhor uso, de forma consciente, evitando tanto o overuse quanto o underuse. Mas somos contra racionar no intuito de reduzir a assistência, entregando menos do que seria necessário”, destacou.

Na visão de Ferreira, a racionalização é, inclusive, um objetivo global. Segundo o executivo, a proposta universal é sermos cada vez mais assertivos na prescrição e na realização dos exames diagnósticos. E isso extrapola o ambiente hospitalar. “Na prática, os dois extremos seguem acontecendo, tanto o excesso quanto a ausência. E isso pode acontecer pela falta de esclarecimento da equipe médica quanto a maneira mais adequada de conduzir aquela situação ou pela falta de conhecimento sobre as possiblidades diagnósticas que estão disponíveis naquele serviço laboratorial do hospital”, disse.

O executivo exemplificou como a falta de esclarecimento e de conhecimento impactam na prescrição com um cenário visto durante a pandemia de COVID-19. “Observamos, de modo geral, um uso acima do necessário de exames como a procalcitonina, que só apresenta alteração depois de 48 ou 72 horas da infecção, e de testes de dímero D. Tudo isso em decorrência da insegurança causada pela novidade do novo coronavírus no ambiente hospitalar”. Segundo Ferreira, com o melhor entendimento sobre o curso da doença, essas solicitações também diminuíram.

Na outra ponta o especialista mencionou uma baixa utilização de exames ligados à medicina personalizada e à genômica que mesmo não sendo aplicados à urgência e à emergência, tem um papel essencial em especialidades mais avançadas e hospitais que são centros de referência em algumas especialidades. “A falta de conhecimento dos benefícios que esses exames podem trazer para o hospital, os médicos, as operadoras e os pacientes leva a baixa utilização. Cabe a nós, que entendemos as duas vertentes, termos uma conversa transparente e auxiliar na construção de protocolos que conversem com todos os players da cadeia de saúde”, disse.

Medicina defensiva

A judicialização da saúde também foi tema de debate nesse painel sobre os limites da medicina diagnóstica no ambiente hospitalar. “Hoje existe uma prática defensiva da solicitação de exames para embasamento clínico e para a tomada de decisão. Qual o limite da solicitação de exames dentro de um ambiente hospitalar”, questionou Figueira.

Reconhecendo que a medicina defensiva é uma calamidade não só no Brasil, mas no mundo, Ferreira apontou que o limite está no bem-estar do paciente, e isso não envolve apenas ele estar fisicamente saudável, mas ele estar confortável e consciente de tudo o que está incluso no seu ciclo de cuidados.

“Devemos levar em consideração também o conforto psicossocial dos pacientes. Como balancear tudo isso? Com argumentação clínica”, declarou. Para o executivo, uma das maneiras de garantir esse bem-estar está em ser transparente com esse paciente assim que ele chega para o atendimento.

“Sabemos que a jornada pode depender da evolução da doença, mas existem processos definidos e o paciente pode ter acesso ao desenho dessa jornada. Porém, em muitos casos, ele fica sem a informação e acaba acordado no meio da noite para uma coleta de exames que nem sabia que ocorreriam. Demonstrar quais serão as etapas diminui a ansiedade e deixa menos abertura para a busca desenfreada de informações na internet”, detalhou. Essa falta de previsibilidade de sua própria jornada vai contra o cuidado centrado no paciente e atrapalha a segurança psicológica.

Além disso, Ferreira pontuou ser preciso uma observação de potenciais pressões externas, inclusive de familiares, que possam indicar um risco de judicialização. Nesses casos, com embasamento clínico e científico para qualquer decisão tomada, mesmo que seja a negativa para a realização de determinado procedimento, há tranquilidade por parte do corpo clínico.

Na visão de Silva, que complementa o apresentado pelo executivo do Hermes Pardini, dois pontos estão em jogo. O primeiro é o conhecimento técnico e a formação do profissional de saúde, que tem que estar sempre muito bem atualizado para agir com confiança. O segundo é que esse profissional atende uma grande quantidade de pacientes diferentes, com necessidades diferentes, todos os dias. Então ele precisa de protocolos e guidelines que o auxiliem nessa tomada de decisão.

“Além da educação continuada, eu aponto como fundamental a formatação de bons protocolos que deem amparo maior para que os profissionais de saúde possam tomar boas decisões de forma rápida”, declarou.

Dificuldades, métricas e educação continuada

Avaliando como a medicina diagnóstica funciona nos diferentes formatos de assistência, Silva pontuou que a assimetria de informações é um fator complicador. “Nas redes verticalizadas, temos operadoras e hospitais olhando de forma única e isso pode levar a um resultado menor do que o desejável por conta de um alinhamento grande demais entre as duas pontas. Por outro lado, fora da verticalização, o grande dificultador é a assimetria pois há dois grupos independentes que se baseiam no fee-for-service, e podem levar a uma busca pelo aumento da remuneração.

Na visão de Ferreira, talvez o modelo mais transparente possível seja a inclusão de terceiros na estrutura dos hospitais e operadoras. “Pois o serviço terceirizado não vai trabalhar custo como o laboratório verticalizado do próprio hospital e o hospital não olhará seu laboratório como uma central de custos. Quando há outros prestadores de serviço lá dentro, eles emergem como moderadores dessa relação”, explicou.

Na sequência, o time de especialistas mencionou a importância da educação continuada para que haja, de fato, essa racionalização da medicina diagnóstica. “As grandes empresas do setor têm a obrigação de investir em programas de educação médica continuada a fim de prover atualização para os profissionais”, disse. Segundo ele, essa ação também contribui com o acesso à saúde.

Outro ponto que merece investimento, na opinião de Silva, é a construção de dados e indicadores mais ricos e confiáveis para o setor. “Precisamos de informações sobre a efetividade de protocolos, sobre resultados clínicos para levar para as universidades e auxiliar na formação médica”, finalizou.