Abramed debate IA, interoperabilidade e transformação digital no diagnóstico por imagem durante a JPR 2026

Especialistas abordaram desde os impactos da IA na rotina profissional até os desafios regulatórios, operacionais e de infraestrutura do setor..

A radiologia já convive com a Inteligência Artificial há anos. O desafio agora é discutir como ampliar o uso dessas ferramentas com segurança, qualidade, interoperabilidade e sustentabilidade operacional dentro das instituições de saúde.

Foi esse o tom do painel promovido pela Abramed durante a Jornada Paulista de Radiologia 2026 (JPR), um dos principais encontros de diagnóstico por imagem da América Latina. Com o tema “Como IA, Automatização e Fluxos Digitais estão Redesenhando o Trabalho Médico”, o debate reuniu especialistas da Medicina Diagnóstica, indústria e academia para discutir o que já mudou na prática médica e o que ainda trava a adoção dessas soluções em larga escala.

A abertura foi conduzida por Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, que reforçou o propósito da Abramed de ampliar o acesso aos serviços com qualidade e segurança.  O debate foi moderado por Marcos Queiroz, membro do Conselho de Administração da Abramed e líder do Comitê Técnico de Diagnóstico por Imagem da entidade. Os participantes foram Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed; Giovanni Guido Cerri, presidente dos Conselhos dos Institutos de Radiologia (InRad) e de Inovação (InovaHC) do Hospital das Clínicas; João Paulo Souza, chefe-executivo da GE HealthCare no Brasil; e Leonardo Vedolin, vice-presidente Médico e de Operações da Dasa.

Giovanni Cerri lembrou que boa parte da Inteligência Artificial já está incorporada aos equipamentos e aos fluxos da radiologia há anos, muitas vezes sem que os próprios profissionais percebam. Para ele, a grande mudança agora está na incorporação dos algoritmos ao raciocínio diagnóstico do radiologista.

Ao comparar o momento atual com a chegada do Picture Archiving and Communication System (PACS) — sistema desenvolvido para armazenar, gerenciar e distribuir imagens médicas de maneira digital nos anos 90 —, Cerri afirmou que toda transformação tecnológica enfrenta resistência inicial. “O grande desafio é a capacitação”, resumiu. 

Segundo ele, os médicos precisarão dominar não apenas conhecimento técnico, mas também tecnologia, gestão, telemedicina e Inteligência Artificial.

Leonardo Vedolin, por sua vez, trouxe a visão de quem tenta transformar inovação em operação real dentro de uma estrutura de grande escala. E foi direto ao ponto: testar Inteligência Artificial é muito mais simples do que fazê-la funcionar no dia a dia.

“Dez anos depois de ter iniciado isso na Dasa, testamos 595 algoritmos, dos quais 592 falharam. Só três funcionaram”, exemplificou.

Em sua visão, muitas soluções funcionam em ambientes controlados, mas perdem desempenho quando precisam operar em escala, com fluxos complexos, diferentes perfis populacionais e limitações de infraestrutura. Vedolin também chamou atenção para barreiras financeiras e culturais. Em muitos casos, a tecnologia resolve um problema técnico, mas não fecha a conta operacional.

Ele também abordou os impactos distintos da IA sobre remuneração e mercado de trabalho.  Na sua leitura, os profissionais que entenderem seu papel como supervisores de sistemas sairão na frente. 

Outros aspectos levantados por ele foram a regulação e a recente norma do Conselho Federal de Medicina sobre Inteligência Artificial aplicada à prática médica, incluindo temas como consentimento informado e responsabilidade profissional.

Do ponto de vista regulatório, Cesar Nomura reforçou que o setor de saúde precisa ocupar espaço nas discussões sobre o tema antes que decisões sejam tomadas sem conhecimento técnico da assistência.

Ele citou as discussões do projeto de lei sobre IA que começou a tramitar no Senado e criticou versões iniciais que classificavam qualquer uso da tecnologia em saúde como “alto risco”, o que poderia inviabilizar aplicações já incorporadas à rotina médica.

“Se não formos protagonistas para mostrarmos a importância da Medicina Diagnóstica e da Inteligência Artificial, muitas vezes são os políticos e advogados que decidem”, enfatizou.

Nomura também trouxe a discussão para interoperabilidade e compartilhamento seguro de dados. Segundo ele, a fragmentação das informações ainda gera desperdício, repetição desnecessária de exames e perda de eficiência para toda a cadeia.

“Teremos que mudar essa cultura para oferecer o melhor para quem precisa, no momento certo”, ressaltou.

Ao abordar os desafios de infraestrutura, o presidente do Conselho de Administração da Abramed chamou atenção para o envelhecimento do parque de imagem brasileiro. O Brasil possui cerca de 12 mil equipamentos de tomografia e ressonância magnética, dos quais aproximadamente 40% têm mais de 11 anos de uso. “A estimativa é que seriam necessários cerca de R$ 23 bilhões para renovar esse parque tecnológico nos próximos anos”.

João Paulo Souza apresentou a visão da indústria sobre o assunto e afirmou que o setor deixou de vender apenas equipamentos e passou a operar em uma lógica de plataformas, softwares e integração de ecossistemas digitais.

“A indústria por muito tempo vendeu ferro, vendeu caixas. As empresas agora estão vindo com uma gestão de solução”.

Souza comentou que o avanço da Inteligência Artificial acelerou uma mudança importante em relação aos equipamentos, que já não são apenas geradores de imagem, mas estruturas capazes de organizar dados, identificar padrões e apoiar decisões clínicas em tempo real.

Ele chamou atenção para um problema recorrente no setor: a distância entre a velocidade da inovação e a capacidade de as instituições de absorverem essas tecnologias. “Quando a infraestrutura não está preparada, a tecnologia frustra”, pontuou.

O chefe-executivo da GE HealthCare no Brasil fechou o debate com dados do mercado: dos 1.430 dispositivos registrados com uso ativo de IA, 76% estão na radiologia — e o mercado global de IA para saúde, hoje em 36 bilhões de dólares, deve crescer 40% ao ano até 2032.

Ao reunir diferentes agentes do setor, a Abramed contribui para ampliar o debate sobre os caminhos da transformação digital na Medicina Diagnóstica brasileira. 

Abramed debaterá inovação, qualidade e inteligência de dados em programação especial na Hospitalar 2026

Com dois painéis que reúnem lideranças de referência na medicina diagnóstica, a entidade participa da maior feira de saúde da América Latina. Associados e parceiros têm 15% de desconto no ingresso.

A Hospitalar, principal evento de saúde da América Latina, reunirá entre os dias 19 e 22 de maio de 2026, no São Paulo Expo, lideranças, empresas e especialistas para debater os caminhos da transformação do setor. Em sua 31ª edição, a feira deve repetir o alto volume de negócios e a presença internacional, consolidando-se como um dos principais espaços de discussão técnica e estratégica do tema no país.

Na edição deste ano, o Summit Abramed será realizado no dia 19 de maio, das 14h30 às 17h40, e terá uma programação especial na Arena 3 da Plaza Hospitalar, sob o macrotema “Inovação, Qualidade e Inteligência de Dados: O Futuro da Medicina Diagnóstica”. 

A proposta reflete a atuação da entidade na articulação de temas centrais para o setor, ao conectar o avanço tecnológico — como inteligência artificial e soluções digitais — com a garantia de qualidade e segurança dos serviços e o uso estratégico de dados para apoiar decisões clínicas e de gestão, reforçando o papel da medicina diagnóstica como base para um cuidado mais integrado, eficiente e orientado a valor.

“Falar sobre inovação, qualidade e inteligência de dados é tratar dos elementos que, juntos, orientam a evolução do cuidado em saúde. Na medicina diagnóstica, essa integração permite transformar informação em decisão, com mais precisão, segurança e impacto real na jornada do paciente”, comenta Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, que fará a abertura do Summit.

Debates

O primeiro debate abordará “Tecnologia e Inovação na Medicina Diagnóstica: Tendências Estratégicas para Crescimento Sustentável”, sob moderação de Marcos Queiroz, líder do Comitê Técnico de Radiologia e Diagnóstico por Imagem da Abramed e diretor do Hospital Israelita Albert Einstein.

O painel reunirá Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês; Douglas Penha, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Soluções Digitais na Roche Diagnóstica; Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin; e Rodrigo Lorenzo, managing director de Imagem Diagnóstica para a América Latina da Siemens Healthcare.

A sessão abordará as principais tendências e inovações que estão redesenhando o setor e explorará como a tecnologia pode apoiar decisões mais precisas, ampliar a eficiência dos serviços e sustentar o crescimento das organizações. 

O segundo bloco será dedicado à “Qualidade e Segurança na Medicina Diagnóstica”, com moderação de Milva Pagano. A sessão começa com palestra de Luiza Bottino, gerente de P&D da Controllab, sobre o papel do controle externo da qualidade na segurança do paciente.

Ela também compõe a mesa de debate, com Carlos Eduardo Ferreira, líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed, e Guilherme Ferreira de Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML). O foco serão os desafios regulatórios, operacionais e tecnológicos envolvidos na garantia de processos seguros, resultados confiáveis e melhoria contínua dos serviços diagnósticos.

A edição 2026 da Hospitalar contará ainda com múltiplos espaços de conteúdo, incluindo arenas temáticas sobre Inteligência Artificial, gestão, regulação e experiência do paciente, ampliando o debate sobre os desafios e oportunidades do setor.

“Participar deste evento é uma oportunidade de contribuir com discussões que estão no centro das transformações da saúde, ao lado de lideranças que têm papel ativo na construção de soluções para o setor no Brasil”, afirma Milva.

Condições especiais para associados

A Abramed também terá um estande próprio no espaço B-137 — no mesmo local da edição anterior. Associados e parceiros da entidade poderão usar o cupom ABRAMED15 para obter 15% de desconto nos ingressos de visitante e congressista. O benefício não é válido para a categoria Visitante Lounge. Inscrições e programação completa em https://www.hospitalar.com.

Abramed na Hospitalar 2026

Influenza: circulação segue intensa no país com positividade três vezes maior que em 2025

Taxa chega a 27,3%, após pico recente de 31,2%, ante 8,09% no mesmo período de 2025; “vacinação, atenção aos sintomas e busca por avaliação médica nos casos indicados ganham ainda mais importância neste momento”, afirma especialista da Abramed

Dados da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), que reúne empresas responsáveis por mais de 85% dos exames realizados na saúde suplementar no país, mostram que a influenza (vírus causador da gripe) segue com circulação elevada no Brasil.  A taxa de positividade da influenza chegou a 27,3% no início de abril. Apesar do recuo em relação ao pico recente de 31,2%, o índice segue três vezes acima do que o registrado no mesmo período de 2025 (8,09%).

A média móvel das últimas cinco semanas subiu de 17,5% para 26,4%.

Segundo Carlos Eduardo Ferreira, médico patologista clínico e líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed, os dados indicam que a transmissão do vírus permanece intensa e maior do que o esperado para esta época do ano. Depois de semanas consecutivas de alta, os indicadores mostram acomodação em patamar elevado. 

“Ainda assim, a influenza pode manter a pressão sobre consultas e pronto-atendimentos por sintomas respiratórios.” Segundo ele, o cenário pode estar relacionado à circulação antecipada da Influenza A neste ano, ao avanço simultâneo em diferentes regiões do país e ao fato de a campanha de vacinação ainda estar em fase inicial.

Vacinação e diagnóstico ganham ainda mais relevância

O avanço dos casos coincide com a intensificação das campanhas de vacinação contra a gripe em diversas regiões do país, reforçando a necessidade de prevenção.

“Quando observamos esse cenário, ganham ainda mais relevância a imunização dos grupos prioritários, a atenção aos sintomas e a busca por avaliação médica nos casos indicados”.

Para a Abramed, a medicina diagnóstica tem papel essencial na resposta assistencial, ao permitir identificar casos com mais rapidez, orientar condutas médicas e apoiar o planejamento dos serviços de saúde.

“O diagnóstico no momento adequado contribui para decisões mais assertivas e ajuda o sistema de saúde a responder com mais eficiência.”

Monitoramento

Os dados são compilados pela plataforma de inteligência METRICARE, desenvolvida e gerenciada pela Controllab, parceira da Abramed. A ferramenta permite acompanhar tendências de forma estratégica e apoiar a tomada de decisões em saúde populacional.

As associadas da Abramed também enviam resultados diretamente à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS/DATASUS), contribuindo com o monitoramento epidemiológico conduzido pelo Ministério da Saúde. Essas informações são essenciais para compreender a progressão das doenças respiratórias no Brasil e embasar medidas de saúde pública.

CID-11: impactos operacionais, tecnológicos e regulatórios para a Medicina Diagnóstica

A nova classificação exige adaptação de sistemas, capacitação e revisão de processos, com impacto direto na prática clínica e na gestão.

A Classificação Internacional de Doenças (CID) é o sistema utilizado globalmente para padronizar o registro de diagnósticos e condições de saúde. Presente em prontuários, exames, autorizações e bases de dados, ela organiza a informação clínica e permite que profissionais, instituições e gestores falem a mesma “linguagem” ao descrever doenças e procedimentos.

A transição da CID-10 para a CID-11 marca uma mudança relevante na forma como essa informação é estruturada e utilizada no dia a dia. Mais do que uma atualização de códigos, trata-se de uma nova lógica de registro clínico, alinhada a um ambiente cada vez mais digital, interoperável e orientado por dados.

Nesse novo cenário, a classificação deixa de ser apenas um instrumento de catalogação e passa a influenciar diretamente a prática clínica, os modelos de remuneração, a regulação e a análise epidemiológica.

A lógica que sustenta a CID-11

Desenvolvida e atualizada anualmente pela Organização Mundial da Saúde, a CID sempre foi a principal referência global para padronização de diagnósticos e sustenta diversas dimensões do sistema de saúde, incluindo estatísticas oficiais, vigilância epidemiológica, regulação sanitária, modelos de financiamento e integração entre sistemas de informação.

A décima primeira revisão passa a organizar os dados de forma diferente, permitindo combinar informações clínicas e detalhar melhor cada diagnóstico. Esse modelo, pensado para uso digital, com atualização contínua e integração entre sistemas, viabiliza aplicações como auditorias automatizadas, análises preditivas, avaliação de risco e avanços em medicina de precisão. Ao mesmo tempo, exige maior maturidade na governança e no uso responsável dessas informações.

Isso porque um único diagnóstico pode gerar um código composto por múltiplos elementos encadeados — como anatomia, lateralidade, histopatologia, severidade, etiologia e confirmação genômica. Um código como 2C6Z&XK9K&XH7KH3&XS7Z, por exemplo, deixa de ser exceção e passa a representar a lógica da classificação.

Os serviços de Medicina Diagnóstica terão grande impacto resultante dessas mudanças. Pedidos de exames, autorizações, laudos, documentação, armazenamento e pagamentos passam a exigir uma lógica de processamento mais complexa, dentro de uma plataforma digital. 

“Em muitos casos, será necessário demonstrar, de forma estruturada, a justificativa clínica para exames mais complexos, com base na evolução do caso e nos testes já realizados. O que irá requerer maior coerência entre a indicação clínica, a execução do exame e o registro das informações ao longo da jornada do paciente”, explica Nelson Akamine, membro do comitê de Recursos Humanos da Abramed.

Para Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, essa é uma transformação que amplia a relevância da Medicina Diagnóstica ao reforçar seu papel na produção, qualificação e integração das informações que sustentam a tomada de decisão ao longo da jornada do paciente.

Cronograma e implementação no Brasil

A adoção da CID-11 no Brasil segue as diretrizes da Nota Técnica nº 91/2024 do Ministério da Saúde. Atualmente, o país permanece utilizando a CID-10 (versão 2019), enquanto se prepara para a implementação completa prevista para janeiro de 2027. 

Este intervalo é um período crítico para testes de campo, tradução do sistema para o português (finalizada em 2024 pela UFMG em parceria com a OPAS), ajustes tecnológicos e operacionais do ambiente de saúde nacional.

Para laboratórios e serviços de diagnóstico por imagem, os impactos são amplos e se concentram em três frentes principais:

  • Sistemas de TI e Interoperabilidade: a transição exige que sistemas como LIS, RIS, PACS, ERPs e prontuários eletrônicos sejam atualizados. A CID-11 requer também a integração com a API oficial da OMS e deve interoperar com padrões como FHIR, SNOMED e LOINC. 
  • Planos de saúde e remuneração: haverá mudanças diretas na codificação para planos de saúde e nos padrões TISS/TUSS. Novos modelos de remuneração e auditorias automatizadas baseadas em IA poderão ser viabilizados visando maior qualidade dos dados gerados.
  • Saúde do Trabalho e Previdência: a CID-11 traz uma camada inédita de registro formal de nexo ocupacional que influenciará na responsabilização trabalhista, concessão de benefícios previdenciários e na vigilância epidemiológica.

Para que a implementação seja bem-sucedida, o setor precisará avançar na capacitação contínua de médicos, codificadores e gestores para o uso da nova lógica semântica na classificação de doenças, além da adaptação tecnológica das infraestruturas de dados.

A Abramed acompanha essa evolução por meio de três Comitês: Padrão TISS, RH e Interoperabilidade, compartilhando informações e apoiando seus associados na preparação para essa nova etapa.

Doenças raras: sem diagnóstico, não há cuidado adequado

Ampliação do acesso a exames no SUS acelera a identificação dos casos e reduz o tempo para o início do tratamento.

Hoje, estima-se que 13 milhões de pessoas convivam no país com alguma das cerca de 7 mil doenças raras catalogadas. A jornada desses pacientes costuma ser marcada por anos de incerteza, fragmentação de informações clínicas e acesso desigual a tecnologias especializadas. Um cenário que aumenta o risco de diagnósticos tardios ou inexistentes e limita a possibilidade de tratamento com terapias já disponíveis.

A recente decisão do Ministério da Saúde de ampliar a cobertura de diagnóstico e tratamento de doenças raras no SUS é um passo importante no enfrentamento desse problema. Com investimento de R$ 26 milhões anuais para viabilizar até 20 mil diagnósticos por ano quando a rede operar em plena capacidade, o Governo busca reduzir o tempo de espera das famílias, que hoje pode chegar a sete anos, para cerca de seis meses. 

O diagnóstico como base da decisão clínica 

Este movimento reforça o papel do ecossistema de Medicina Diagnóstica como um todo – incluindo a rede privada, responsável pelo processamento de 95% dos exames laboratoriais realizados no SUS – como o principal aliado para garantir a precisão e a agilidade dos resultados a milhões de brasileiros.

Não à toa: os diagnósticos fundamentam até 70% das decisões clínicas de acordo com a literatura médica consolidada. Um dado que ganha ainda mais relevância no caso das doenças raras, em que o uso de tecnologias de ponta, como a genômica e os testes moleculares, permitem identificar a causa da patologia com assertividade e rapidez, viabilizando a personalização do tratamento e evitando desperdícios com exames e intervenções ineficazes.

Apesar dos avanços, o desafio diagnóstico no campo das doenças raras é complexo e multifacetado.

“São doenças que simulam as comuns e que muitas vezes demoram anos para que alguém desconfie que se trata de um caso diferente do habitual — que não resolve com medicações e terapias convencionais. Esse é um dos grandes gargalos: o conhecimento”, afirma Armando Fonseca, coordenador médico de Triagem Neonatal e Doenças Metabólicas Hereditárias do Grupo Fleury e diretor da Dvyce Consultoria em Saúde.

A identificação dessas doenças também envolve fatores como:

  • Barreiras de acesso: existe ainda uma disparidade no acesso a exames de imagem avançada e biologia molecular em diferentes regiões do país;
  • Integração de dados: a falta de um histórico clínico unificado e a fragmentação da jornada do paciente comprometem a continuidade do cuidado.

“Esses pacientes passam por verdadeiras odisseias diagnósticas, que podem levar de cinco a oito anos até a confirmação da doença e, muitas vezes, recebem diagnósticos incorretos ao longo do caminho. Mesmo quando não há tratamento específico, identificar a doença já permite orientar o cuidado, melhorar a qualidade de vida e oferecer aconselhamento genético para as famílias”, reforça Fonseca.

A importância da integração no ecossistema de Medicina Diagnóstica 

Enquanto o SUS atua como o grande estruturador do acesso universal, a rede suplementar funciona como um vetor essencial de inovação, escala e rápida incorporação tecnológica. 

De acordo com Armando, 25% da população brasileira é assistida pela saúde suplementar, ou seja, ao menos 50 milhões de pessoas — um dos maiores contingentes de medicina privada do mundo. Por isso, a parceria público-privada é estrutural para garantir que todos os pacientes, independentemente de classe social, tenham acesso mais rápido à inovação e a possíveis tratamentos que ainda não estejam disponíveis no serviço público.

Outros exemplos positivos já podem ser observados a partir dessa sinergia, como a interoperabilidade crescente de dados por meio do SUS Digital (que conta com apoio da Abramed em parceria com o Ministério da Saúde) e a capilaridade dos laboratórios privados que apoiam a rede pública na descentralização de exames.

Para que as melhorias continuem e a experiência do paciente se torne cada vez mais completa e eficiente, é fundamental compreender o diagnóstico como um investimento estratégico, que gera impacto em diversas frentes:

  1. Clínica:  melhora o prognóstico e a qualidade de vida do paciente;
  2. Econômica: reduz custos ao evitar complicações decorrentes da progressão de doenças;
  3. Sistêmica: promove maior eficiência no uso dos recursos públicos e privados.

“No centro de tudo está o paciente. Cada diagnóstico preciso e oportuno representa anos de vida recuperados, tratamentos mais eficazes e famílias que finalmente têm uma resposta. A Medicina Diagnóstica tem um papel insubstituível para ampliar esse acesso com tecnologia e integração de dados. E é nisso que a Abramed segue atuando, em parceria com o setor público e com a sociedade”, afirma Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

Dia Mundial da Saúde 2026: juntos pela ciência e pelo desafio de transformá-la em cuidado

Em um cenário marcado pela rápida circulação de informações que nem sempre são confiáveis, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) colocaram a ciência no centro do debate global. 

Com o tema “Juntos pela ciência”, a campanha do Dia Mundial da Saúde de 2026 reforça a importância da cooperação entre setores, países e áreas do conhecimento e da adoção de decisões baseadas em evidências, além de chamar atenção para algo essencial: conhecimento só gera impacto quando é compreendido, confiável e aplicado.

Políticas baseadas em evidências e a lógica de Uma Só Saúde

A proposta incorpora a abordagem de Uma Só Saúde (One Health), que conecta saúde humana, animal e ambiental. Esse olhar amplia a discussão e exige respostas coordenadas para problemas que já não acontecem de forma isolada, como pandemias, mudanças climáticas e segurança alimentar.

Esse é um ponto que mostra a relevância do diagnóstico. Exames confirmam condições clínicas, orientam decisões e reduzem o tempo até o tratamento correto, evitando tentativas equivocadas que custam tempo e recursos.

Um papel que se estende para além do atendimento individual. Vigilância epidemiológica, identificação e monitoramento de surtos também dependem de dados gerados por estruturas diagnósticas para sustentar respostas coordenadas em saúde pública.

Explicar, comunicar e liderar: o papel do diagnóstico frente à desinformação

Outro ponto central desse movimento é tornar a ciência mais acessível e confiável. Hoje, a dificuldade é gerar informação e garantir que ela seja interpretada corretamente. Mas há uma dimensão que ainda fica em segundo plano: garantir que o conhecimento chegue ao momento da decisão clínica com clareza e sem distorções — um desafio que o avanço da desinformação torna cada vez mais urgente.

Enfrentar esse problema envolve qualificar o acesso à informação, aprimorar a comunicação com a sociedade e evitar distorções terminológicas para garantir que resultados de exames sejam compreendidos por médicos e pacientes. 

Ser embaixador da ciência na jornada do paciente

Para a maioria das pessoas, a ciência não está em artigos ou pesquisas. Ela aparece no momento em que um exame é solicitado, realizado e interpretado. É ali que o conhecimento ganha forma prática.

Quando o paciente entende o que está sendo investigado e como aquele resultado orienta sua condução, a ciência deixa de ser abstrata e passa a fazer parte da sua decisão.

Assim, o movimento lançado pela OMS também convoca profissionais e instituições a atuarem como embaixadores, aproximando o conhecimento da realidade das pessoas e fortalecendo o entendimento da população sobre como as evidências orientam o cuidado.

Do conhecimento à ação

Como fonte e elo técnico na interpretação das evidências, os serviços diagnósticos assumem protagonismo nesse processo, contribuindo para um ambiente de maior confiança na ciência e agindo em linha com o papel de liderança que a campanha da OMS propõe.

A Medicina Diagnóstica se posiciona não como etapa isolada, mas como parte do que permite que a ciência, de fato, chegue ao paciente no momento certo, transformando evidência em decisão e decisão em cuidado.

“A Abramed atua no ponto de conexão entre evidência e prática. Nosso papel é contribuir para que o setor opere com qualidade, segurança e base técnica sólida, fortalecendo a confiança na ciência ao longo de toda a jornada do paciente.”, ressalta Milva Pagano, diretora-executiva da entidade.

O Imposto de Importação não pode virar custo assistencial: Resolução GECEX nº 852 é debatida entre associados da Abramed

Alta da alíquota do imposto pressiona custos, expõe fragilidades do setor e evidencia a necessidade de equilíbrio entre desenvolvimento industrial, inovação e acesso à saúde.

A recente movimentação do Governo Federal em torno da recomposição tarifária de itens importados colocou a saúde em um estado de alerta. A Resolução GECEX nº 852/2026, que elevou o Imposto de Importação (II) para mais de mil itens – muitos dos quais utilizados pela cadeia do setor – pode também atingir o núcleo da infraestrutura tecnológica da Medicina Diagnóstica no Brasil.

Embora o Governo busque estimular a indústria nacional por meio da norma, a medida não considera toda a complexidade de uma cadeia altamente dependente de tecnologias sem equivalentes produzidos no país, gerando um efeito cascata que ameaça a sustentabilidade assistencial e o acesso dos pacientes.

Esse tema foi o centro do debate da última Reunião Mensal de Associados (RMA) da Abramed, que contou com a participação de Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed; Milva Pagano, diretora-executiva da entidade; Julio Aderne, gerente geral de diagnósticos laboratoriais e líder da Abbott Brasil; e Lucas Barducco, sócio do escritório Machado Nunes, especialista em Direito Tributário. O encontro aconteceu na Abbott, em São Paulo, parceira da entidade.

A saúde como cadeia dependente do fluxo de importações

Diferente de outros setores, a saúde opera como uma infraestrutura tecnológica integrada globalmente que depende, em grande parte, de itens importados. A Resolução GECEX nº 852 impactou 31 NCMs (Nomenclatura Comum do Mercosul) da Medicina Diagnóstica e pode afetar um volume de importações que soma cerca de US$ 1,2 bilhão anuais.

Isso inclui itens como aparelhos de ressonância magnética, PET scans, tomógrafos e equipamentos laboratoriais avançados, que saíram de uma alíquota zero para patamares de 7,2% a 20%.

Como destacado no debate, tudo que não tem similar nacional não pode ser tratado como algo passível de ser taxado, sem que sejam avaliados impactos sistêmicos.

Porém, essa definição é complexa e arriscada, visto que a interpretação adotada hoje gera distorções e amplia a insegurança regulatória ao desconsiderar diferenças técnicas, de aplicação e de desempenho entre equipamentos que, na prática, não são substituíveis.

Um exemplo emblemático é o magneto de ressonância magnética. Apesar de partes do equipamento poderem ser produzidas no Brasil, o seu principal e mais caro componente não possui fabricação local. Por isso, há consenso entre os players do mercado de que taxar itens sem substitutos nacionais não é algo que incentiva a indústria local; apenas encarece o diagnóstico.

O efeito multiplicador e os riscos

Além disso, o impacto financeiro para os laboratórios vai muito além do aumento nominal do imposto. A elevação no custo direto de importação atua como um gatilho inflacionário em toda a cadeia. A tarifa entra na base de cálculo de outros tributos e pode levar à perda de benefícios fiscais importantes, como isenções de ICMS.

O aumento da alíquota do Imposto de Importação se insere em um contexto de pressões tributárias de múltiplas frentes: a própria Reforma Tributária, que entrou em sua fase oficial de testes; a instituição da tributação sobre lucros e dividendos; e agora a Resolução GECEX. “É um cenário que demanda um olhar técnico e a busca por caminhos estratégicos”, explica Lucas Barducco, do Machado Nunes.

Outro aspecto desafiador da medida é a exigência de um projeto de investimento para que o importador acesse benefícios tarifários que diminuam seus impactos. Grande parte dos equipamentos médicos no Brasil é importada por revendedores e distribuidores que não possuem uma linha de produção industrial para apresentar como contrapartida de investimento.

Essa distorção cria um gargalo: mesmo que o produto não tenha similar nacional, se ele for trazido por um distribuidor, entra tributado, afetando instituições de saúde que dependem desses parceiros logísticos para acessar tecnologia de ponta.

O assunto resultou em uma importante troca de experiência entre os associados e convidados presentes na RMA.

Para João Paulo Souza, CEO da GE Healthcare, a discussão sobre investimento também precisa evoluir: “Investimento não é apenas ter uma planta no Brasil”, afirmou, trazendo a necessidade de explorar outras formas de enquadramento como, por exemplo, atividades de manutenção, logística e estrutura de suporte, e apontando que há resistência da equipe técnica do Governo em ampliar essa leitura.

Há ainda uma questão adicional que amplia a complexidade do cenário: a imprevisibilidade. Em um setor de capital intensivo e dependente de planejamento de longo prazo, mudanças abruptas e pouco calibradas dificultam decisões de investimento, atrasam a incorporação tecnológica e ampliam a heterogeneidade entre os prestadores.

Na visão dos participantes, o desafio não está em apoiar a indústria nacional, mas em calibrar a medida para separar o que, de fato, pode ser substituído daquilo que impacta diretamente a operação, a oferta de serviços e o acesso à tecnologia. Quando essa distinção não é feita, o efeito não se restringe aos custos, mas se estende à cadeia logística, à previsibilidade de fornecimento e à capacidade de atendimento.

Apesar das dificuldades, Rafael Arantes, que atua nas relações institucionais governamentais da Dasa, destacou a importância do apelo à essencialidade e alertou que o principal risco é o repasse desses impactos ao paciente. “É preciso demonstrar ao Governo que a elevação de despesas não necessariamente se traduz em maior arrecadação, já que os efeitos podem chegar ao consumidor final”, afirmou.

O posicionamento da Abramed: diálogo e cooperação

A Abramed tem participado de um movimento de interlocução proativa e técnica. Em reuniões realizadas com o vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin e a equipe técnica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a entidade reforçou a urgência de calibrar a medida.

“Listamos item a item os insumos que impactam diretamente o paciente e o consumidor final para embasar a revisão da norma. A entidade atua também na criação de um Grupo de Trabalho (GT) junto ao Governo para discutir tecnicamente o conceito de ‘similar nacional’ e buscar a dispensa da exigência de projeto de investimento para distribuidores da saúde”, explicou Cesar Nomura.

Claudia Cohn, membro do Conselho de Administração da Abramed, destacou a importância de manter o senso de urgência e a união do setor, especialmente em um momento em que há oportunidade de avançar em pautas que impactam toda a cadeia de saúde.

“A discussão proposta pela Abramed é um chamado à razoabilidade. Se a calibragem da medida não considerar a lógica da cadeia e a essencialidade dos insumos envolvidos, o impacto não se limita à indústria: ele chega ao diagnóstico, ao tratamento e, no limite, ao paciente”, finalizou Milva Pagano.

Nova resolução do CFM define limites e responsabilidades para uso de IA na medicina

Diretrizes atualizam o uso da Inteligência Artificial na Saúde, com foco em segurança, transparência e autonomia profissional.

O avanço acelerado da inteligência artificial na saúde começa a deslocar o debate do potencial tecnológico para os limites de uso. Com cerca de US$ 36 bilhões investidos globalmente em 2025 e crescimento projetado de quase 40% ao ano, a consolidação dessas ferramentas torna inevitável a definição de responsabilidades clínicas, éticas e regulatórias. Nesse contexto, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução nº 2.454/2026, estabelecendo diretrizes para a aplicação da IA na prática médica no Brasil.

O texto define parâmetros para uso seguro da tecnologia, delimita responsabilidades e estabelece critérios para sua incorporação no cuidado em saúde. A seguir, os principais pontos da norma.

Objetivos da norma e autonomia médica

A resolução estabelece que a inteligência artificial deve atuar exclusivamente como ferramenta de apoio à decisão clínica, sem autonomia para definir diagnósticos ou prognósticos. A responsabilidade final permanece com o médico, que mantém plena autonomia para aceitar, interpretar ou rejeitar recomendações geradas por sistemas automatizados.

Esse direcionamento também impede que sistemas de IA substituam o julgamento clínico ou realizem, de forma independente, a comunicação de diagnósticos ao paciente. A tecnologia passa a ser compreendida como suporte qualificado, e não como agente decisório.

Outro ponto relevante é a proteção ao profissional: o médico pode optar por não utilizar sistemas que não apresentem validação científica ou respaldo regulatório, desde que sua decisão esteja fundamentada em critérios técnicos e éticos.

Transparência e direitos do paciente

A norma reforça que o uso da IA não pode comprometer a relação médico-paciente nem reduzir a dimensão humana do cuidado. Sempre que houver utilização dessas ferramentas, o paciente deve ser informado de forma clara, com registro no prontuário.

Além disso, são consolidados direitos específicos, como o consentimento informado para uso de IA, a possibilidade de recusa da tecnologia no atendimento, o acesso a informações compreensíveis sobre sua condição de saúde e a garantia de proteção de dados pessoais, em conformidade com a LGPD.

Ao estruturar esses princípios, a resolução aproxima o Brasil de modelos internacionais que colocam o paciente no centro das decisões envolvendo tecnologias emergentes.

Governança e classificação de risco

No âmbito institucional, a resolução estabelece obrigações mais estruturadas para hospitais e clínicas. Instituições que utilizam sistemas próprios de IA devem implementar mecanismos de governança, incluindo a criação de comissões internas responsáveis por monitoramento, auditoria e avaliação contínua dessas ferramentas.

A norma também introduz uma classificação dos sistemas conforme o nível de risco:

  • Baixo risco: aplicações administrativas e operacionais, sem impacto clínico direto;
  • Médio risco: sistemas de apoio à decisão com supervisão humana;
  • Alto risco: tecnologias que influenciam decisões clínicas relevantes;
  • Risco inaceitável: usos proibidos.

Esse enquadramento orienta o nível de controle e supervisão exigido, de acordo com o potencial impacto sobre o cuidado.

Outro ponto central é a exigência de conformidade regulatória: softwares com função clínica devem atender às normas da Anvisa aplicáveis a dispositivos médicos. A fiscalização do uso da IA caberá aos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), que poderão realizar auditorias e aplicar medidas disciplinares quando necessário.

Deveres do médico e proteção profissional

A norma também explicita responsabilidades do médico no uso dessas ferramentas, incluindo a necessidade de avaliação crítica das recomendações geradas, atualização contínua sobre capacidades e limitações dos sistemas e registro do uso (ou não uso) da IA no prontuário.

Ao mesmo tempo, estabelece uma salvaguarda importante: o profissional não será penalizado por optar por não seguir recomendações da IA, desde que sua decisão esteja tecnicamente fundamentada.

Impactos na formação médica

A resolução reconhece que a incorporação da inteligência artificial exige mudanças estruturais na formação dos profissionais. Entre os temas que passam a ganhar relevância nos currículos estão ética aplicada à IA, segurança da informação, cibersegurança e letramento em inteligência artificial.

A diretriz aponta para a necessidade de preparar médicos capazes de interpretar criticamente essas ferramentas e utilizá-las de forma responsável na prática clínica.

Proteção de dados e LGPD

A norma determina que todo o ciclo de uso da IA — desde o desenvolvimento até a aplicação clínica — deve observar rigorosamente a Lei Geral de Proteção de Dados. Isso inclui a adoção de princípios como privacidade desde a concepção, além de garantir confidencialidade, integridade e segurança das informações de saúde.

Entre o toque humano e a tecnologia: por que é preciso redesenhar a experiência do paciente

A crescente adoção de ferramentas digitais na saúde evidencia a necessidade de repensar a experiência do paciente, equilibrando eficiência, empatia e responsabilidade clínica.

A saúde vive um momento de intensa transformação. Nunca se investiu tanto em tecnologia, dados e Inteligência Artificial e, ao mesmo tempo, nunca as pessoas estiveram tão ativas na busca por informação e na tomada de decisão sobre o próprio cuidado. Esse movimento, por si só, não é um problema. Ele revela um avanço importante em relação à autonomia de cada pessoa. O que chama atenção é o contexto em que ele ocorre.

Há uma percepção crescente sobre desafios na experiência do atendimento em saúde, especialmente relacionados à comunicação, ao acolhimento e à resolutividade. Um estudo da América do Sul, ao longo de quase duas décadas, apontou que 64% dos entrevistados relataram insatisfação em consultas médicas, especialmente pela falta de esclarecimento e pela sensação de não serem plenamente ouvidos.

Ao mesmo tempo, cresce a confiança em ferramentas digitais. Hoje, 7 em cada 10 pessoas já recorreram à IA para buscar informações sobre sintomas ou possíveis doenças. Plataformas digitais passaram a ocupar um espaço que antes era exclusivo da relação médico-paciente, muitas vezes funcionando como a primeira etapa da jornada assistencial.

Seria precipitado interpretar esse movimento como uma substituição da medicina pela tecnologia. O que ele revela, na verdade, é uma transformação na forma como o valor é percebido. Fatores como tempo de espera, dificuldade de acesso e baixa responsividade contribuem para que muitos busquem alternativas mais ágeis, ainda que nem sempre mais seguras.

A confiança nas plataformas digitais está associada à velocidade, à disponibilidade contínua, à clareza da linguagem e à experiência do usuário — atributos que o sistema de saúde, muitas vezes, ainda não consegue oferecer plenamente.

Esse cenário traz um ponto de atenção importante. A mesma agilidade que aproxima da informação pode afastar da qualidade. Pesquisa da Abramed sobre o uso da Inteligência Artificial na Medicina Diagnóstica Brasileira aponta que essa confiança só é positiva quando sustentada por conteúdo científico qualificado e transparente. Fora disso, é importante não confundir velocidade com precisão.

A qualidade de uma resposta depende da forma como a pergunta é construída e da confiabilidade da fonte — algo ainda mais sensível em um país onde cerca de 70% da população enfrenta algum grau de limitação em letramento digital.

A questão, portanto, não é tecnologia versus medicina. É como integrar essas duas dimensões sem perder o que sustenta o cuidado: a confiança.

Parte dessa percepção tem sido atribuída à falta de empatia, mas o cenário é mais complexo. O que está em curso é uma mudança nas expectativas: hoje, a empatia também se expressa na capacidade de oferecer acesso, agilidade, clareza e previsibilidade. As pessoas querem ser ouvidas, mas também esperam respostas no tempo e na forma que consideram adequados.

Esse movimento impulsiona a evolução dos modelos de atendimento. A excelência técnica segue como base do cuidado e ganha ainda mais valor quando integrada à experiência do paciente.

Nesse contexto, a tecnologia deve ser compreendida como aliada. Quando bem aplicada, amplia a capacidade de análise e apoia a prática clínica do profissional de saúde, especialmente na organização de dados e no suporte à tomada de decisão.

Ao ser utilizada como sistema de suporte à decisão clínica (Clinical Decision Support System – CDSS), a tecnologia pode assumir tarefas operacionais, como triagem, análise de padrões e organização de dados, liberando tempo para aquilo que nenhuma ferramenta é capaz de reproduzir: a escuta qualificada, o raciocínio clínico e a decisão compartilhada.

Quando não integrada ao contexto assistencial, tende a reduzir a singularidade a padrões estatísticos, com impactos potenciais na qualidade do cuidado.

Compreender essa diferença é fundamental para fortalecer a confiança do paciente. Nesse cenário, as pessoas chegam mais informadas — ou, ao menos, mais expostas à informação — o que amplia o papel das instituições e dos profissionais de saúde como curadores e tradutores do conhecimento.

Laboratórios e serviços diagnósticos têm papel central em assegurar que a informação seja acessível, compreensível e cientificamente embasada, independentemente da jornada — presencial, digital ou híbrida.

Esse movimento também amplia a responsabilidade dessas instituições na qualificação da informação, com foco em esclarecer o significado dos resultados, seus limites e os fatores que influenciam os prazos dos processos. Tornar compreensível a diferença entre o tempo digital e o tempo clínico é parte essencial da atuação em saúde.

Essa perspectiva demanda investimento contínuo em formação e cultura organizacional. Não basta incorporar tecnologia; é necessário preparar os profissionais para utilizá-la com responsabilidade, fortalecendo a comunicação científica, adotando protocolos baseados em evidências e promovendo uma cultura orientada por transparência e ética.

O protagonismo do profissional de saúde será cada vez mais associado à capacidade de fortalecer e sustentar relações de confiança. A discussão, portanto, não se resume a escolher entre o toque humano e a tecnologia. Trata-se de integrar essas dimensões de forma complementar e inteligente.

A tecnologia pode ampliar o acesso, acelerar processos e qualificar decisões. Mas é o elemento humano que dá sentido ao cuidado, sustenta o vínculo e fortalece a confiança na prática assistencial.

Redesenhar a experiência do paciente não é apenas uma necessidade operacional, mas um passo essencial na evolução de um sistema de saúde cada vez mais orientado por dados, sem perder sua dimensão humana.

Lidia Abdalla

Vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin

ESG além do meio ambiente: qual é o papel da governança na Medicina Diagnóstica?

O avanço do ESG no setor depende da capacidade de estruturar decisões clínicas seguras, orientadas por dados e sustentadas por governança.

Apesar da consolidação do ESG no discurso da saúde, a governança — que define como decisões clínicas são tomadas, como dados são utilizados e quais limites são respeitados — ainda ocupa um lugar secundário na prática.

Projeções indicam que os investimentos em ESG podem ultrapassar US$ 79 trilhões até 2030 na economia global, consolidando o conceito como um vetor de transformação corporativa.

Esse movimento já começa a se materializar no setor. Na Medicina Diagnóstica, dados da 7ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico mostram que 50% das empresas associadas à entidade já divulgam relatórios de práticas ambientais, sociais e de governança, indicando avanços em transparência e na estruturação de práticas corporativas. O próprio Painel destaca que ações de conformidade e responsabilização da liderança são fundamentais para fortalecer a confiança no setor.

Ainda assim, na saúde, ESG ainda avança mais no discurso do que na estrutura. O desafio agora é consolidar mecanismos de governança que orientem decisões e garantam integridade nos processos assistenciais.

Em um ambiente cada vez mais orientado por dados, a forma como os diagnósticos são produzidos, interpretados e incorporados à prática assistencial passou a impactar diretamente a qualidade do cuidado e a sustentabilidade das organizações.

Quando não há governança estruturada, o risco se torna rotina: exames solicitados sem necessidade, interpretações fora de contexto, e decisões que se afastam do melhor interesse do paciente.

Nesse sentido, Daniel Perigo, líder do Comitê de ESG da Abramed, chama a atenção para um ponto que costuma ser subestimado: não basta confiar na boa intenção dos profissionais — é preciso estruturar o ambiente.

“Não é possível depender exclusivamente do bom senso. É preciso criar um ambiente com diretrizes claras, políticas estruturadas e mecanismos de monitoramento que orientem a tomada de decisão e evitem riscos que possam afetar a saúde dos pacientes e a reputação das organizações”, afirma.

Para isso, é necessário definir responsabilidades, alinhar interesses entre as partes envolvidas, estabelecer políticas e garantir transparência e conformidade com a legislação — especialmente quando se trata de dados sensíveis.

Digitalização, dados e limites éticos

Interoperabilidade, inteligência artificial e uso intensivo de dados ampliaram a capacidade diagnóstica e a eficiência do setor — mas também elevaram a exposição a riscos.

A transformação digital ampliou a capacidade de diagnóstico e trouxe ganhos evidentes de eficiência, mas também elevou o grau de exposição a riscos.

Como resume Daniel Perigo, a digitalização é bem-vinda, desde que não opere sem diretrizes pré-estabelecidas. “Novas tecnologias precisam estar inseridas em um contexto de regras e princípios definidos a partir das boas práticas de governança e da legislação aplicável”, explica.

Isso implica estruturar mecanismos formais de governança de dados e de IA, capazes de garantir segurança técnica, coerência ética, respeito à privacidade, clareza sobre a finalidade do uso das informações e proteção dos direitos dos pacientes.

O desafio não está apenas em ampliar o acesso à informação, mas também em garantir responsabilidade no seu uso. Existe um limite — e ele não é teórico. Segundo o líder do Comitê de ESG da Abramed, a partir do momento em que o benefício para um dos atores envolvidos pode causar prejuízos aos direitos dos demais, atinge-se um limiar que não deve ser ultrapassado.

Governança clínica como estratégia institucional

O amadurecimento do debate sobre governança clínica coloca o tema em posição estratégica dentro das organizações. A governança está diretamente ligada ao cuidado assistencial e aos desfechos clínicos, mas também influencia algo menos tangível e igualmente relevante: a reputação institucional, a confiança dos médicos e a percepção de qualidade por parte dos pacientes.

Na prática, manter uma boa reputação exige garantir o procedimento correto, para o paciente correto, no momento adequado e da forma adequada.

Esse tipo de resultado não depende de uma única área. Ele é construído na operação, a partir de processos bem definidos, comunicação eficiente, treinamento contínuo, monitoramento de indicadores e gestão ativa de riscos.

Como reforça Daniel Perigo: “Trata-se de uma responsabilidade distribuída. A qualidade do sistema como um todo depende da qualidade das suas conexões internas”.

A Abramed tem atuado na estruturação desse debate na Medicina Diagnóstica, conectando aspectos técnicos, regulatórios e operacionais da governança clínica. Além do Comitê de ESG, a entidade promove discussões técnicas no Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS) — que conta com bloco dedicado ao tema —, e no Summit ESG, ambos realizados anualmente.

A evolução do próprio Painel Abramed, que passou a incorporar capítulos específicos sobre ESG e agora avança para uma publicação dedicada exclusivamente ao tema, reflete a maturidade dessa agenda no setor e o esforço em consolidar métricas, práticas e diretrizes mais estruturadas.

Quando esses elementos estão presentes, ESG deixa de ser uma agenda paralela e passa a fazer parte do funcionamento do sistema, influenciando diretamente a qualidade do cuidado, a segurança do paciente e a sustentabilidade das organizações.