O papel do diagnóstico precoce no enfrentamento de doenças silenciosas

*Por Paula Campoy

Que o diagnóstico precoce é uma ferramenta essencial para reduzir despesas com tratamentos, potencializar uma cultura de medicina preventiva no país e melhorar a jornada de cuidados junto aos pacientes, não deveria haver dúvidas.

Estudos do setor indicam que mais de 20 mil internações por ano poderiam ser evitadas com um olhar mais estruturado sobre a atenção primária, especialmente com o uso sistemático de exames laboratoriais e de imagem que, graças à evolução tecnológica, tornam-se cada vez mais precisos, acessíveis e eficientes.

Em termos financeiros, essa redução de internações representa um potencial de economia de até R$ 400 milhões por ano para o sistema de saúde brasileiro — recursos que poderiam ser redirecionados para ampliar o acesso, fortalecer redes de atenção primária e reduzir desigualdades estruturais.

Ainda assim, há um olhar de curto prazo que alcança também o setor de Saúde Suplementar para o qual, a priorização dos investimentos em Medicina Diagnóstica – que, como vimos, podem gerar sustentabilidade financeira, impacto em desfechos e eficiência operacional — ainda é vista, muitas vezes, como custo. A pergunta certa, nesse cenário, não é ‘quanto custa diagnosticar?’ — e sim ‘quanto custa não diagnosticar?’

Além disso, é importante salientar que, do ponto de vista estritamente econômico, os exames laboratoriais representam hoje cerca de 17% do custo assistencial das operadoras, proporção que se manteve estável ou mesmo se reduziu nas últimas décadas, a despeito do aumento expressivo da complexidade diagnóstica e da alta na demanda por exames.

Ainda assim, tanto na prática assistencial quanto na formulação das políticas de Saúde, a negligência diante das doenças assintomáticas ainda é estrutural. Diabetes, hipertensão e doença renal crônica avançam de modo insidioso em milhões de brasileiros, transformando o tempo, que poderia ser um ativo estratégico da medicina, em vetor de dano cumulativo. Para elucidar esse cenário, segundo o IBGE, mais de 20 milhões de brasileiros já convivem com a diabetes, necessitando de um acompanhamento contínuo de exames laboratoriais para um cuidado mais eficiente de seus quadros clínicos.  

Nesse cenário, o diagnóstico precoce não é um recurso adicional, mas sim condição elementar de sustentabilidade para o ecossistema de Saúde nacional. É preciso reforçar também que não estamos falando apenas de diagnósticos complexos: exames laboratoriais simples, como hemogramas, são determinantes para a identificação de uma série de doenças silenciosas, incluindo casos de leucemia.

E o desafio aqui, não é de capacidade técnica, operacional ou tecnológica: na verdade, é animador observar que a inovação tem avançado de modo expressivo e contínuo no campo da Medicina Diagnóstica.

Segundo dados do Painel Abramed 2024, por exemplo, cerca de 27% dos investimentos realizados pelas principais empresas do setor em 2023 foram direcionados à inovação. Além disso, a Associação indica que, também em 2023, houve um aumento de 54% no número de exames ou laudos acessados digitalmente em relação a 2022. Na comparação com 2021, o volume dobrou. Em outras palavras: estamos falando de um contexto que favorece a integração de um ambiente que, conforme supracitado, segue muito fragmentado no Brasil.

Ainda em relação aos avanços tecnológicos, mais de 50% dos algoritmos de IA na Saúde foram desenvolvidos a partir de dados do campo da Medicina Diagnóstica. Trata-se, portanto, de uma área com processos estabilizados, resultados objetivos e forte capacidade de entrega.

No entanto, essa capacidade precisa estar vinculada à interoperabilidade e ao compartilhamento de dados entre os agentes da Saúde Suplementar, muitos dos quais já possuem bases de big data valiosas, mas precisam avançar na integração de data lakers modernos, capazes de revolucionar o cuidado com os pacientes e a prevenção de doenças silenciosas no Brasil.

Nesse mesmo sentido, é urgente o desenvolvimento de políticas públicas que favoreçam o uso inteligente e precoce dos exames; a conexão real entre os sistemas público e privado; e a valorização da Medicina Diagnóstica como eixo estruturante do cuidado — e não apenas como ferramenta de confirmação clínica.

Finalmente, associações e entidades do setor devem assumir um papel decisivo para fomentar a colaboração e o fortalecimento de um modelo de Saúde mais integrado e sustentável no Brasil. O diagnóstico precoce, afinal de contas, é não só um instrumento essencial para o enfrentamento de doenças silenciosas, mas também a porta de entrada para o cuidado e promoção da saúde populacional.

Maio Amarelo: exame toxicológico é pilar essencial para a redução dos acidentes de trânsito, aponta Abramed

Mais de 188 mil motoristas testaram positivo para substâncias psicoativas em exames realizados entre janeiro de 2016 e setembro de 2023, evidenciando a importância dos testes para uma cultura de segurança nas estradas

O Maio Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre segurança no trânsito, reforça a importância de refletirmos sobre ações efetivas para a redução de acidentes nas estradas e rodovias do país. E o exame toxicológico tem se confirmado uma base indispensável nesse sentido: de acordo com números da Polícia Federal, por exemplo, quando a Lei 13.103/2015 passou a exigir o teste para a habilitação das categorias C, D e E, o Brasil teve uma redução de 45% no número de acidentes de ônibus e 37% em caminhões, entre 2015 e 2017.

Além disso, desde janeiro de 2016 até setembro de 2023, mais de 188 mil condutores testaram positivo para substâncias psicoativas, segundo dados da Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito). Tais números evidenciam a relevância da triagem toxicológica na queda dos índices de acidentes nas estradas e a consequente necessidade de ampliar o alcance de uma política pública que pode ser decisiva para a construção de uma cultura de trânsito mais segura. 

Essa discussão torna-se ainda mais indispensável diante do cenário atual brasileiro: em 2024, mais de 6,1 mil pessoas morreram em acidentes nas rodovias federais brasileiras, conforme levantamento divulgado pela PRF. Também foram registrados mais de 73 mil sinistros de trânsito entre janeiro e dezembro do ano passado, com um total de 84,5 mil feridos; números estes que jogam luz para uma verdadeira crise de segurança viária e a urgência de iniciativas consistentes de prevenção, como a fiscalização efetiva e a ampliação dos testes toxicológicos.

“Os dados demonstram que o exame toxicológico é um dos pilares para a prevenção de acidentes de trânsito. Ampliar sua adoção em todo o ecossistema de mobilidade, nesse sentido, é uma medida que pode salvar milhares de vida”, explica Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed (Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica).

Apesar dos ganhos evidentes que o exame toxicológico traz para a segurança no trânsito, ainda há gargalos que precisam ser superados na aplicação de sua obrigatoriedade – fato que volta à tona dentro do contexto do Maio Amarelo. 

Nesse sentido, também segundo a Senatran, mais de 1,5 milhão de condutores encerraram o ano passado com o exame vencido, contrariando a legislação atual, estando sujeitos a multas e autuações, além de colocar em risco a própria vida e a de outros motoristas. 

É importante frisar que a realização do exame é simples e rápida, sendo feito em laboratórios credenciados no Detran por meio da análise da análise de fios de cabelo, pelos corporais ou unhas dos motoristas e com janela de detecção de até 90 dias.

“O Brasil conta com características logísticas que tem na malha rodoviária sua principal rota de distribuição. Isso torna ainda mais urgente que os motoristas – sobretudo condutores profissionais – estejam em plenas condições de saúde física e mental para exercer sua atividade. O exame toxicológico é um instrumento técnico que contribui para esse monitoramento contínuo”, acrescenta a diretora-executiva da Abramed, Milva Pagano. 

A relevância dos testes toxicológicos também se reflete na opinião da população. Dados do Ipec (Instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica) divulgados no início deste ano indicam que 79% dos brasileiros apoiam a exigência do exame para obtenção ou renovação da CNH em todas as categorias – conforme supracitado, hoje a obrigatoriedade é restrita às categorias C, D e E. 

O dado revela um avanço significativo na conscientização da sociedade sobre a necessidade de reduzir o número de acidentes nas vias urbanas e nas rodovias, ao passo que a Abramed reforça que, além da fiscalização, é fundamental que haja políticas públicas articuladas, com campanhas educativas permanentes e ampliação do acesso aos exames em todas as regiões do país. O fortalecimento da rede laboratorial e o investimento em tecnologia e qualificação de profissionais são pontos centrais para abrir caminho para um trânsito mais seguro. 

“Tudo isso só demonstra como a relação entre exames toxicológicos e segurança viária se consolida como um dos pontos centrais do Maio Amarelo, fortalecendo também o papel da medicina diagnóstica como aliada na preservação de vidas”, conclui a diretora-executiva da Abramed, Milva Pagano. 

Sobre a Abramed

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) foi fundada em 2010 como resultado da junção de esforços de empresas de Medicina Diagnóstica do país. Em um momento em que o sistema de saúde brasileiro passava por transformações, tais como a consolidação de um novo perfil empresarial e regulamentações necessárias para o futuro da Medicina Diagnóstica, essas empresas de atuação de ponta no mercado perceberam os benefícios que uma ação integrada poderia trazer para a defesa de suas causas comuns.

Assim, a Abramed tornou-se a voz de seus associados nos diálogos com instituições públicas, governamentais e regulatórias, expressando a visão e os anseios do setor sobre assuntos relacionados à saúde e a adoção de políticas e medidas que considerem a importância da Medicina Diagnóstica para os cuidados da população brasileira.

Ainda traduz sua representatividade através da parceria com a comunidade científica e demais entidades envolvidas com o setor e no diálogo com a sociedade civil.

Seus associados, juntos, respondem por mais de 80% de todos os exames realizados pela saúde suplementar no país. Empresas essas, reconhecidas por sua qualidade na prestação de serviços, excelência tecnológica, práticas avançadas de gestão, inovação, governança e responsabilidade corporativa.

22 de maio de 2025