Diagnóstico 5.0 e o valor da medicina diagnóstica na transformação da saúde

Conceito que orienta a 10ª edição do FILIS traduz uma mudança que já alcança laboratórios e hospitais e reposiciona a medicina diagnóstica na jornada do cuidado

Depois de “indústria 4.0”, virou comum nomear qualquer salto tecnológico com uma numeração parecida. Na medicina diagnóstica, porém, mesmo que uma nova tecnologia entre em operação, o equipamento ganhe velocidade, o sistema processe mais informações e novas ferramentas ajudem a identificar padrões em grandes volumes de dados, nada disso, isoladamente, define o “Diagnóstico 5.0”.

O termo marca a passagem de uma fase em que digitalizar e automatizar eram os principais objetivos para outra em que a tecnologia só faz sentido quando gera resultados mais precisos e ágeis para o paciente. 

Exames de biologia molecular e testes genéticos já permitem identificar a causa de uma doença com mais precisão e ajustar o tratamento a cada paciente, em vez de repetir o mesmo protocolo para todo mundo. Segundo projeções do setor, exames de alta complexidade e medicina de precisão avançam de duas a três vezes mais rápido que o mercado como um todo, entre 15% e 25% ao ano, e devem chegar a R$ 70 bilhões até 2030.

Contudo, um levantamento do Comitê Gestor da Internet no Brasil mostra que, hoje, apenas 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros usam Inteligência Artificial. Esse percentual sobe para 29% nos serviços de apoio diagnóstico e terapêutico, mas o uso ainda é concentrado em tarefas operacionais, como organização de processos. O mercado de IA aplicada à saúde no Brasil deve crescer 38% ao ano até 2030, um ritmo alto exatamente porque a base de hoje ainda é pequena.

“O crescimento da medicina de precisão não é modismo, é continuidade de um movimento que já sustenta a medicina diagnóstica há 15 anos. A diferença é que, agora, cada ganho de tecnologia só se justifica se vier acompanhado da capacidade de transformar aquele resultado em decisão clínica ou de gestão”, avalia Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed. 

O ponto de transformação só acontecerá quando esses recursos passarem a conectar etapas que, por muito tempo, funcionaram de forma fragmentada: solicitação, realização do exame, análise, interpretação dos resultados, definição da conduta e acompanhamento do paciente. Nesse modelo, o diagnóstico deixará de ser compreendido como um momento pontual da jornada assistencial e ampliará sua participação nas decisões que orientam o cuidado.

“Diagnóstico 5.0 é sobre integrar todas essas informações com segurança e transformar isso em cuidado personalizado para quem está do outro lado do resultado”, diz Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

Para quem gerencia um laboratório ou uma rede hospitalar, isso deixou de ser uma discussão de médio prazo para se tornar uma decisão estratégica de agora: quanto investir em genômica, como preparar equipes para interpretar resultados mais complexos, como precificar um exame que entrega mais informação, mas também custa mais para ser feito.

São respostas que não podem ser dadas por uma única área. Elas são técnicas, financeiras, éticas e clínicas ao mesmo tempo. Respondê-las exige diálogo entre empresas, profissionais de saúde, reguladores, fontes pagadoras, desenvolvedores de tecnologia e representantes dos pacientes. Essa mistura é, talvez, a definição mais honesta de Diagnóstico 5.0, que não é uma tecnologia específica, mas o momento em que tecnologia, dado e decisão de negócio deixam de ser conversas separadas dentro de uma mesma organização.

Informação para cuidar e também para planejar

Os efeitos do Diagnóstico 5.0 ultrapassam a decisão sobre um caso individual. Quando analisados de forma agregada, segura e responsável, os dados produzidos pela medicina diagnóstica também podem revelar perfis de demanda, lacunas assistenciais, mudanças epidemiológicas e oportunidades de aprimoramento dos serviços.

Essas informações contribuem para dimensionar a capacidade de atendimento, planejar investimentos, organizar fluxos, reduzir repetições desnecessárias e direcionar recursos para onde podem gerar maior impacto. O diagnóstico passa, assim, a apoiar tanto as decisões clínicas quanto as organizacionais.

Uma mudança que fortalece o papel das empresas de medicina diagnóstica como parceiras na construção de modelos assistenciais mais eficientes, sustentáveis e orientados a melhores desfechos e aumenta ainda mais a necessidade de garantir a qualidade de todos os processos diagnósticos.

A precisão técnica do exame continua sendo indispensável e, cada vez mais, passará a integrar um conjunto mais amplo de responsabilidades, que inclui padronização das informações, rastreabilidade, proteção de dados, segurança dos sistemas e critérios transparentes para o uso de novas tecnologias.

“Estamos falando de uma transformação que atravessa toda a organização. Ela exige investimento em tecnologia, mas também em governança, qualificação das equipes, integração entre instituições e clareza sobre o valor que se pretende gerar. O Diagnóstico 5.0 só fará sentido se a inovação chegar à prática, fortalecer a sustentabilidade do sistema e produzir benefícios perceptíveis para pacientes e profissionais”, destaca Milva Pagano.

Uma transformação que depende de escolhas

Avançar não significa incorporar toda tecnologia disponível, mas saber escolher aquelas capazes de resolver problemas que há muito tempo fazem parte do setor. A tecnologia permite dar escala a essa capacidade de análise. O conhecimento médico, por sua vez, preserva o contexto necessário para definir qual investigação é necessária, em que momento deve ser realizada e como o resultado pode modificar uma conduta, evitando que os resultados sejam reduzidos a um conjunto de indicadores.

Essa discussão fará parte da 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), promovido pela Abramed em 26 de agosto, no Teatro Santander, em São Paulo. Sob o macrotema “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”, o encontro conectará Regulação, Valor da Medicina Diagnóstica, ESG e Inteligência Artificial.

Para participar do FILIS 2026, acesse o site do evento e adquira seu ingresso.

Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial avança no Congresso 

Construído coletivamente por entidades do setor, projeto propõe integrar a rede, assegurar padrões de qualidade e ampliar o acesso a exames na saúde pública 

O diagnóstico laboratorial orienta decisões que vão da prevenção ao acompanhamento dos tratamentos, mas o Brasil ainda não possui uma política nacional que organize a rede, articule padrões de qualidade e estabeleça bases sustentáveis de financiamento.

O Projeto de Lei 5.478/2025 busca preencher essa lacuna ao instituir a Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial (PNDL). De autoria do deputado federal Pedro Westphalen (PP-RS), a proposta foi construída ao longo de um ano e meio, em diálogo com entidades representativas de diferentes segmentos do diagnóstico laboratorial e da saúde. 

Além da Abramed, participam dessa construção a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), a Federação Brasileira de Laboratórios de Análises Clínicas (Febralac), a Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar), o Conselho Federal de Farmácia (CFF), a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), o Conselho Federal de Biomedicina (CFBM), a Federação das Associações de Biomedicina (Faebim) e a Associação Médica Brasileira (AMB). 

Westphalen afirma que sua experiência como médico motivou a atuação em torno da proposta. “Eu só consigo fazer um tratamento adequado com um diagnóstico bem-feito, com precisão, segurança e sustentabilidade”, diz. Para o parlamentar, a pandemia de Covid-19 também evidenciou a importância dos profissionais que atuaram nos bastidores da resposta sanitária, como farmacêuticos e bioquímicos. 

O diálogo técnico e institucional contribuiu para que o projeto chegasse à relatoria com uma base considerada consistente. Responsável pelo parecer na Comissão de Saúde, o deputado Dr. Ismael Alexandrino (PSD-GO) avalia: “Meu primeiro diagnóstico foi de que o projeto chegou às minhas mãos muito maduro.” 

Qualidade, financiamento e dados

Na relatoria, o texto foi aperfeiçoado em diálogo com o Ministério da Saúde e as entidades envolvidas na construção da proposta, consolidando três eixos centrais: qualidade e isonomia sanitária, sustentabilidade financeira e interoperabilidade.

O primeiro reúne qualidade e isonomia sanitária. Como o processo diagnóstico compreende as fases pré-analítica, analítica e pós-analítica, o texto determina que os exames sejam executados por laboratórios licenciados e que os estabelecimentos autorizados a realizar coletas ou testes cumpram requisitos técnico-sanitários e padrões de qualidade equivalentes.

O segundo eixo é a sustentabilidade financeira. A proposta prevê a atualização anual da remuneração dos exames realizados para o SUS, com metodologia baseada nos custos reais de produção, considerando insumos, tecnologia, logística e recursos humanos.

A interoperabilidade constitui o terceiro eixo. Os laboratórios que integram a rede do SUS deverão conectar seus sistemas à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). A integração pode reduzir a repetição de exames, favorecer a continuidade do cuidado e ampliar o uso dos dados na vigilância epidemiológica.

“Esses pilares procuram resolver, na prática, a fragmentação sistêmica da rede, a dependência externa crítica de insumos e a oneração do erário com repetições desnecessárias de exames”, explica Alexandrino.

Para que a PNDL não se limite a princípios, o texto reúne mecanismos de qualidade, financiamento e monitoramento, como controle de qualidade nos laboratórios, rastreabilidade das amostras, atualização anual da remuneração e financiamento interfederativo. Segundo o relator, a implementação também deverá promover a integração entre o Sistema Nacional de Laboratórios de Saúde Pública (Sislab) e a rede privada.

A proposta incentiva ainda a pesquisa, a inovação e a produção nacional, com o objetivo de reduzir a dependência externa de insumos e equipamentos. Caso o projeto seja aprovado pelo Congresso e sancionado, o Poder Executivo terá 180 dias para regulamentá-lo.

Sem a PNDL, alerta Alexandrino, o país corre o risco de perpetuar a fragmentação e a desigualdade no acesso, além de limitar sua capacidade de resposta a futuras emergências sanitárias.

Próximos passos no Congresso

Em 17 de agosto, Alexandrino apresentou novo parecer pela aprovação do projeto, com substitutivo, na Comissão de Saúde. A proposta também está pronta para ser incluída na pauta do Plenário da Câmara.

O regime de urgência para o PL 5.478/2025 foi aprovado por unanimidade pelo Plenário em 9 de junho. Com isso, a matéria pode ser votada diretamente em Plenário, sem depender da conclusão prévia de toda a tramitação nas comissões.

Westphalen afirma que a articulação está concentrada no diálogo com as entidades e com as lideranças partidárias para incluir o projeto na pauta. O parlamentar manifestou a expectativa de votação em setembro e de sanção ainda em 2026.

Para os pacientes do SUS, os primeiros efeitos esperados estão na organização e na qualificação da rede, com maior segurança e confiabilidade nos exames. No médio prazo, a política pode ampliar o acesso a procedimentos de média e alta complexidade, reduzir desigualdades regionais e fortalecer a resposta a emergências sanitárias.

“A PNDL muda a vida do paciente do SUS de forma progressiva, mas consistente: primeiro na qualidade e na segurança do exame; depois, no acesso e na capacidade do sistema de antecipar e responder aos problemas de saúde da população”, resume Alexandrino.

A construção coletiva que levou a proposta até esta etapa evidencia a convergência das entidades em torno de uma agenda comum. O desafio agora é transformar essa base técnica em uma política pública efetiva, capaz de integrar a rede, dar previsibilidade ao financiamento, ampliar o acesso e elevar a segurança do diagnóstico oferecido à população.

Saúde privada atualiza Código de Boas Práticas e amplia agenda de governança de dados 

Construído por nove entidades, documento amplia orientações para aplicação da LGPD e incorpora temas como inteligência artificial, interoperabilidade e segurança da informação

A segunda edição do Código de Boas Práticas do Setor da Saúde foi lançada em 5 de agosto, na sede da CNSaúde, em Brasília, durante evento promovido pelo Instituto Consenso. O documento estabelece referências para a aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) em uma cadeia da saúde cada vez mais conectada e dependente do compartilhamento de informações.

Resultado de dois anos de trabalho conjunto, o Código foi construído por nove entidades representativas dos principais elos da saúde privada: Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (Abraidi), Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas (CMB), Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), Federação Brasileira de Hospitais (FBH), Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) e Associação Brasileira de Planos Odontológicos (Sinog).

O lançamento reuniu parlamentares, representantes de agências reguladoras, autoridades do Ministério da Saúde e lideranças do setor para debater governança de dados, interoperabilidade e Inteligência Artificial aplicada à saúde.

Durante o evento, a deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP) apresentou o andamento do projeto de lei sobre interoperabilidade de dados em saúde e a Rede Nacional de Dados de Saúde. Também participou do encontro Ana Estela Haddad, que, na ocasião, ocupava o cargo de secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde.

Representantes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) discutiram os impactos regulatórios da Inteligência Artificial e os caminhos para maior diálogo entre reguladores e setor. A apresentação do Código ficou a cargo das coordenadoras acadêmicas Laura Schertel Mendes e Mônica Fujimoto, do IDP/CEDIS, ao lado de Lorena Giuberti, diretora da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

O que muda na nova edição?

A primeira edição, lançada em 2021, ofereceu ao setor um parâmetro próprio de conformidade voltado especificamente aos prestadores privados de serviços de saúde.

Já a segunda versão amplia esse escopo ao incorporar também operadoras de planos de saúde e fornecedores e distribuidores de produtos para saúde, refletindo a própria dinâmica do setor.

Dados clínicos e administrativos percorrem diferentes organizações ao longo da jornada do paciente — do agendamento e realização de exames à emissão de laudos, autorização de procedimentos, faturamento, auditoria, assistência, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias. O Código reconhece a interdependência desses fluxos e propõe uma abordagem de proteção de dados que considere toda a cadeia.

Organizado em duas partes, o documento apresenta inicialmente conceitos, princípios e bases legais da LGPD aplicados à saúde e, em seguida, reúne orientações sobre temas como prontuário eletrônico, telessaúde, relação com terceiros, auditorias, direitos dos titulares, Relatórios de Impacto à Proteção de Dados Pessoais e segurança da informação.

Um dos principais avanços está no conteúdo dedicado à inovação, com orientações sobre privacy by design, pesquisa em saúde, biometria e utilização de Inteligência Artificial, associando a adoção de novas tecnologias a critérios como transparência, governança, avaliação de riscos e supervisão humana.

O conteúdo parte da premissa de que proteção de dados e inovação não são agendas opostas. Regras claras de governança podem favorecer o compartilhamento responsável de informações, a segurança jurídica e a confiança entre pacientes, profissionais e instituições.

O olhar da medicina diagnóstica

A medicina diagnóstica ocupa uma posição importante nessa discussão. Laboratórios, clínicas e serviços de diagnóstico por imagem produzem, processam, armazenam e compartilham informações clínicas sensíveis em atividades como realização de exames, emissão de laudos e intercâmbio de informações com médicos, hospitais e operadoras.

Por isso, desde o início da construção do Código, a Abramed atuou para incorporar ao documento a realidade da medicina diagnóstica e sua conexão com os demais elos da saúde.

Para Lucas Bonafé, advogado do escritório Machado Nunes e sócio da área de Direito Digital e Propriedade Intelectual, que acompanhou a elaboração do material, essa participação ajudou a conferir ao Código uma abordagem realista.

“A importância do Código de Boas Práticas de LGPD é conseguir demonstrar a capilaridade da medicina diagnóstica na área da saúde como um todo e explicar como os dados de saúde são utilizados hoje em toda a cadeia”, afirma.

Segundo o advogado, a Abramed levou ao debate as particularidades da medicina diagnóstica e contribuiu para a articulação das perspectivas de prestadores, operadoras e indústria. Esse diálogo ajudou a conferir ao documento uma abordagem prática, apoiada em exemplos reais de compartilhamento de informações.

Confiança como ativo da saúde

Para Rogéria Leoni Cruz, líder dos Comitês Jurídico e de Proteção de Dados da Abramed, a discussão ganha importância adicional na saúde por envolver informações produzidas em momentos de vulnerabilidade das pessoas.

“A saúde é construída sobre a confiança. Confiamos no médico que nos acolhe, nos hospitais que cuidam de nossas famílias e que informações profundamente pessoais serão tratadas com respeito, responsabilidade e segurança”, afirma.

Na avaliação de Rogéria, o avanço da Inteligência Artificial, da medicina personalizada, da interoperabilidade e de outras ferramentas digitais reforça a necessidade de incorporar a proteção de dados à estratégia das organizações.

“Proteger dados não significa limitar o avanço da ciência, da tecnologia ou da assistência. Significa garantir que esse avanço aconteça da forma correta”, ressalta.

A efetividade do Código dependerá agora de sua incorporação ao cotidiano de organizações de diferentes portes e segmentos. Ao transformar os princípios da LGPD em referências práticas para processos, contratos, tecnologias e relações entre os agentes da cadeia, o documento oferece uma base comum para que a inovação e o compartilhamento de dados avancem com segurança, responsabilidade e confiança.

Acesse a íntegra do Código de Boas Práticas do Setor da Saúde

Relembre o lançamento da primeira edição do Código, em 2021

Biomarcadores no sangue ampliam caminhos para o diagnóstico do Alzheimer

Reunião do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed debateu o avanço dos testes plasmáticos e os desafios de qualidade, interpretação e incorporação à prática assistencial 

Durante muito tempo, a investigação da doença de Alzheimer se apoiou na avaliação clínica, em exames de imagem e, em casos específicos, na análise de biomarcadores no líquor. A chegada de testes capazes de detectar no sangue alterações biológicas associadas à doença amplia as possibilidades diagnósticas. Para a assistência, a gestão e a medicina diagnóstica, surge uma questão central: como incorporar essa tecnologia de forma segura, clinicamente útil e operacionalmente viável? 

Foi esse o tema da reunião do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed, realizada em 13 de agosto, na sede da Roche, em São Paulo, que reuniu especialistas para discutir a evolução do diagnóstico da doença, as evidências para os novos biomarcadores e os desafios de levar essa tecnologia da pesquisa para a rotina assistencial.

Guilherme Lemos, coordenador de Valor Médico da Roche Diagnóstica Brasil, abriu a apresentação perguntando: quem nunca saiu de casa e voltou para conferir se tinha trancado a porta? A provocação chegou ao ponto principal da palestra: esquecimentos acontecem. O problema é quando passam a ser tratados automaticamente como consequência da idade e deixam de ser investigados.

O diagnóstico ainda costuma chegar tarde 

Estima-se que 2,71 milhões de pessoas com 60 anos ou mais vivam com demência no Brasil, número que pode chegar a 5,6 milhões em 2050. A doença de Alzheimer é a causa mais frequente, representando de 60% a 70% dos casos. Outro dado chama atenção: aproximadamente quatro em cada cinco idosos que apresentam critérios para demência não receberam diagnóstico formal. 

A ciência, porém, mostra sinais prévios: a patologia amiloide pode surgir cerca de 20 a 30 anos antes das primeiras manifestações clínicas. Identificar a doença mais cedo muda a conversa sobre diagnóstico, acompanhamento e, principalmente, elegibilidade para novas terapias.

A análise de biomarcadores no líquor e o PET amiloide são métodos consolidados, mas envolvem custos, infraestrutura e, no caso do líquor, uma coleta invasiva. Os biomarcadores plasmáticos entram nesse cenário com uma vantagem que interessa a qualquer gestor: escala. Uma coleta de sangue é mais simples, mais fácil de incorporar à rotina de um laboratório e mais acessível a um número maior de pacientes.

Nos dados apresentados, a p-tau217 se destacou pela sensibilidade e especificidade e pela capacidade de diferenciar pacientes com e sem patologia amiloide; a p-tau181 foi apresentada como alternativa relevante, sobretudo para triagem.

Gustavo Bruniera, coordenador médico do serviço de Líquido Cefalorraquidiano (LCR) do Einstein Hospital Israelita, reconstruiu essa evolução: dos critérios clínicos da década de 1980, passando pela sistema biológico AT(N) a partir de 2018, até a reclassificação mais recente, que ampliou a presença dos biomarcadores plasmáticos.

“Ninguém tem dúvida de que o plasma vai chegar, na verdade já chegou. Mas a grande dúvida é como isso vai ser utilizado”, afirmou.

Segundo ele, a Academia Brasileira de Neurologia segue uma linha próxima à do grupo europeu associado a Dubois, que exige a combinação entre manifestação clínica e biomarcador positivo. Já a linha americana, associada a Jack, trabalha com uma definição biológica da doença, em que o biomarcador tem papel central.

“O guideline não é uma reserva de mercado. É uma padronização de como todos nós temos que agir”, concluiu.

O laboratório passa a ter uma responsabilidade ainda maior

O debate mostrou que, além do desempenho clínico, existe uma segunda camada igualmente importante: a qualidade do processo laboratorial. Os novos testes trabalham com concentrações muito baixas, o que aumenta a importância do controle pré-analítico, da padronização e da automação, pontos que Guilherme destacou ao falar dos ganhos da automação no desempenho dos exames.

Carlos Eduardo Ferreira, um dos líderes do Comitê Técnico da Abramed e gerente médico do Laboratório Clínico do Einstein Hospital Israelita, levou essa discussão para a prática laboratorial. “Estamos discutindo um, dois, três, quatro marcadores soltos. Daqui a pouco, teremos a opção de mensurar um número maior de marcadores”, ponderou. “Se já está complexo com um ou dois marcadores, na hora que você colocar uma quantidade grande chegando ao mercado, isso pode gerar confusão”, completou. Ele vê na inteligência artificial uma ferramenta possível para organizar esse cenário, mas alerta para um problema anterior: entender o que significa um resultado alterado em quem ainda não tem comprometimento cognitivo.

A expansão dos biomarcadores aumenta a importância dos laboratórios. Os médicos, porém, também precisarão interpretá-los melhor dentro da história do paciente, dos sintomas e da avaliação cognitiva.

Foi nessa fronteira que Márcio Vega, coordenador médico do Senne Líquor Diagnóstico, trouxe a experiência de quem acompanha a utilização desses exames pelas equipes médicas. Segundo ele, na casuística acompanhada pelo serviço, a proporção de resultados positivos nas assinaturas clássicas de biomarcadores em líquor passou de cerca de 30%, anos atrás, para mais de 60% atualmente. Ainda assim, defendeu cautela em pacientes assintomáticos, lembrando que detectar uma alteração antes dos sintomas nem sempre muda a conduta clínica.

Alex Galoro, um dos líderes do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed e gerente médico da DB Diagnósticos, ampliou a discussão, relacionando o avanço das doenças neurodegenerativas à própria transformação do perfil epidemiológico mundial: à medida que a medicina controla melhor doenças infecciosas e cardiovasculares e as pessoas vivem mais, as enfermidades neurodegenerativas ganham espaço e passam a demandar mais biomarcadores e tratamentos capazes de alterar sua evolução. Segundo ele, é para organizar esse volume crescente de variáveis, e não para substituir o raciocínio clínico, que a inteligência artificial deve ganhar espaço.

Uma agenda que vai crescer

As demências também têm uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. Segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, o custo total anual foi estimado em R$ 96,7 bilhões em 2022 e pode chegar a R$ 199,4 bilhões em 2050. Na estimativa referente a 2019, os custos indiretos representavam 78% do total. O estudo mostrou ainda que 83,6% dos cuidadores exerciam essa atividade de maneira informal e sem remuneração. 

Os participantes convergiram no ponto de que os biomarcadores já estão mudando o diagnóstico do Alzheimer, mas o setor ainda está aprendendo a organizar o uso dessa informação. A indústria desenvolve novos marcadores e a literatura cresce em velocidade; diretrizes, modelos assistenciais e critérios de incorporação ainda precisam acompanhar esse movimento.

Esse debate ultrapassa o território da neurologia e envolve laboratórios, hospitais, médicos, gestores, indústria diagnóstica e regulação. Também amplia o papel da medicina diagnóstica diante de um desafio crescente: transformar dados biológicos em informação clínica útil, capaz de produzir valor real para o paciente e para o sistema de saúde.

Abramed fortalece articulação internacional da medicina diagnóstica no ADLM 2026

Como uma das entidades organizadoras da 3ª Missão Brasileira, a entidade participou de uma agenda de conteúdo científico, articulação internacional e visitas técnicas nos Estados Unidos

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) integrou a organização da 3ª Missão Brasileira no ADLM 2026, realizada entre 27 e 30 de julho, na Califórnia, nos Estados Unidos. Representada por Lidia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração, a entidade participou da iniciativa liderada pela Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), voltada a ampliar a presença institucional do setor brasileiro e o intercâmbio com referências internacionais da medicina laboratorial.

A Missão ocorreu durante o ADLM, o maior congresso mundial do segmento laboratorial, promovido pela Association for Diagnostics & Laboratory Medicine, em Anaheim. Com mais de 250 atividades educacionais e a participação de mais de 700 empresas, a edição reuniu especialistas de diferentes países para debater inovações em exames laboratoriais e diagnóstico clínico. 

Na abertura, representantes de entidades brasileiras e internacionais dividiram o palco. Paul Jannetto, presidente da ADLM 2026, e Stan Lo, presidente eleito da organização, deram as boas-vindas aos participantes, ao lado de Carlos Gouvêa, presidente executivo da CBDL. Fúlvio Facco, presidente do Conselho de Administração da entidade, destacou a união dos stakeholders brasileiros naquele momento.

Lidia Abdalla defendeu uma agenda consistente junto às agências reguladoras, voltada às políticas públicas e ao fortalecimento da medicina laboratorial. “Estamos aqui buscando, cada vez mais, qualidade, melhor assistência, segurança do paciente em um setor que passa por grandes transformações”, afirmou durante a abertura.

Representantes de outras entidades também subiram ao palco. Leonardo Vasconcellos, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), associou o laboratório atual à gestão de big data e citou a Inteligência Artificial como tema central do congresso da própria sociedade neste ano.

Maria Elizabeth Menezes, da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), tratou da regulação do setor e do papel dos pequenos e médios laboratórios no acesso da população ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Ainda na noite de abertura, a sessão científica seguiu com dois painéis dedicados a mostrar como o diagnóstico avança do exame à inteligência integrada em saúde e a debater a interoperabilidade e a necessidade de padrões comuns para o uso de IA na rotina laboratorial. 

A contribuição institucional da Abramed para essas agendas foi ressaltada durante os debates. Rafael Jácomo, do Grupo Sabin, citou uma colaboração da Associação com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), do Ministério da Saúde, entre as iniciativas em curso no país para ampliar a integração das informações em saúde. Linaldo Vilar, da Dasa, também destacou o papel da entidade no avanço de iniciativas de interoperabilidade. 

Imersão em operações de referência

Nos demais dias, a Missão seguiu para San Juan Capistrano, na Califórnia, para uma visita técnica exclusiva ao campus da Quest Diagnostics, associada da Abramed no Brasil. A delegação brasileira acompanhou uma operação que funciona 24 horas por dia, recebe mais de 100 mil requisições diárias e processa hoje mais de 80% dos exames de apoio enviados do Brasil para a Quest Diagnostics.

Os participantes tiveram contato com áreas como biologia e genética molecular, doenças infecciosas, espectrometria de massas, hematologia, oncologia, química clínica e sorologia. A experiência mostrou como automação, gestão da informação e diferentes competências laboratoriais podem ser articuladas em uma operação de grande escala.

O encerramento ocorreu em 30 de julho, com uma visita técnica à Hologic, em San Diego, um dos principais centros mundiais de inovação voltados à saúde da mulher e ao diagnóstico molecular. A delegação conheceu suas plataformas, a linha de manufatura da empresa e o Centro de Inovação, que reúne tecnologias de citologia digital e inteligência artificial aplicada ao rastreamento do câncer.

Cooperação que ultrapassa o congresso

Além da agenda científica e técnica, a Missão também aproximou o Brasil de outras entidades internacionais. Tomris Özben, presidente da International Federation of Clinical Chemistry and Laboratory Medicine (IFCC), esteve presente, reforçando a conexão global da medicina laboratorial. A agenda internacional também incluiu a discussão de uma possível cooperação com Debi Boeras para cursos sobre resistência aos antimicrobianos (RAM), envolvendo CBDL, SBAC, SBPC/ML, Abramed e outras entidades.

Para as próximas edições, a organização já projeta um modelo permanente de relacionamento entre entidades brasileiras e ADLM.

A experiência reforça uma agenda que seguirá além do congresso: criar condições para que inovação e novas tecnologias possam ser incorporadas à medicina diagnóstica com qualidade, segurança e previsibilidade, conectadas às necessidades do cuidado e aos desafios do sistema de saúde brasileiro.

Diálogo e decisões estratégicas orientam a agenda da saúde no segundo semestre 

Definições regulatórias e a aproximação das eleições exigirão  articulação entre entidades, reguladores e formuladores de políticas públicas para manter o avanço de pautas estruturantes. 

Com a aproximação das eleições, a agenda pública tende a ser marcada por pautas de maior apelo eleitoral, enquanto discussões técnicas e estruturantes podem perder espaço no debate legislativo.

Para a saúde, esse cenário representa um desafio. Temas como regulação, sustentabilidade, transformação do modelo assistencial e governança continuam essenciais e exigirão articulação entre entidades representativas, reguladores e poder público para avançar.

Um tema que deve permanecer na pauta é o Projeto de Lei nº 2.338/2023, que propõe o marco regulatório da inteligência artificial no Brasil. A regulamentação precisa garantir transparência, segurança, supervisão humana e responsabilização, sem impedir o desenvolvimento de ferramentas capazes de apoiar profissionais, qualificar processos e ampliar a capacidade assistencial.

Aprovada pelo Senado e em análise na Câmara dos Deputados, a proposta aguarda parecer na comissão especial e seguirá demandando atenção do setor.

Outro ponto relevante é a Agenda Regulatória 2026–2028 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O planejamento estabelece 14 pautas prioritárias, organizadas em três eixos: proteção dos beneficiários; qualidade do cuidado e transformação assistencial; e sustentabilidade, dados e governança da informação. Entre os assuntos previstos estão o aprimoramento das regras para reajustes coletivos, portabilidade e reembolsos.

Embora muitas dessas iniciativas não sejam direcionadas especificamente à medicina diagnóstica, elas influenciam o ambiente regulatório da saúde suplementar e ajudam a definir as condições para o desenvolvimento do setor nos próximos anos.

“Acompanhar e influenciar esse processo é essencial. Projetos estruturantes não podem depender apenas de questões circunstanciais, e o papel do setor é garantir que o debate técnico aconteça no momento certo e com a profundidade necessária”, avalia Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed.

A saúde no debate eleitoral

Ao longo do semestre, propostas relacionadas ao financiamento do sistema, à transformação do modelo assistencial, ao acesso e à integração entre os sistemas público e privado devem ganhar espaço nas conversas com candidatos, partidos e formuladores de políticas públicas.

Por estar presente em diversas etapas da jornada do paciente e por conectar o Sistema Único de Saúde (SUS) e a saúde suplementar, a medicina diagnóstica contribui para aproximar diferentes players em torno de desafios que ultrapassam as fronteiras de cada segmento.

Esse período também amplia a responsabilidade das entidades representativas de levar dados, evidências e conhecimento técnico ao debate público, contribuindo para que a saúde seja tratada como uma política estratégica para o desenvolvimento social e econômico do país, e não apenas sob a perspectiva das demandas imediatas.

A Abramed amplia o diálogo e a produção de conhecimento

Os próximos meses reúnem algumas das principais iniciativas da Abramed. Entre elas está a 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), marcada para 26 de agosto.

O encontro reunirá reguladores, gestores e lideranças empresariais para debater temas estratégicos e transformar as discussões em propostas para os desafios e as oportunidades dos próximos anos da saúde brasileira.

“Como costumo dizer, somos vasos comunicantes. Saúde pública, saúde suplementar, reguladores e setor produtivo precisam caminhar de forma integrada. É essa habilidade de construir soluções em conjunto que permitirá à medicina diagnóstica manter sua capacidade de adaptação”, pontua Cesar Nomura.

O FILIS também será o principal momento de divulgação dos dados da 8ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico. A publicação será lançada na noite anterior, durante um jantar exclusivo para convidados, e reunirá os indicadores mais recentes das empresas associadas, acompanhados de análises sobre os resultados apurados.

A agenda do segundo semestre contará ainda com o Simpósio ESG Abramed, que aprofundará temas como responsabilidade ambiental, sustentabilidade econômica, governança e qualidade assistencial, cada vez mais relevantes para a gestão das organizações de saúde.

Na ocasião, a associação lançará, pela primeira vez em edição independente, o Caderno ESG Abramed. Até então, os indicadores e as iniciativas de sustentabilidade integravam o Painel Abramed. A realização de um simpósio e a criação de uma publicação dedicados ao tema refletem o amadurecimento dessa agenda na associação e no setor.

Essas iniciativas reforçam a relevância da medicina diagnóstica nos debates que influenciam a saúde brasileira. Diante das definições regulatórias e das articulações que antecedem um novo ciclo político, o setor precisará levar dados, conhecimento técnico e propostas aos espaços em que as decisões são construídas.

A transformação da saúde será tão sólida quanto suas instituições 

Quando o futuro da saúde entra em debate, as atenções se voltam rapidamente para novas tecnologias, Inteligência Artificial, uso de dados e modelos assistenciais. São mudanças relevantes, mas a transformação do setor depende das organizações responsáveis por incorporá-las à prática e convertê-las em benefícios para pacientes e para o sistema de saúde. 

Essa capacidade está relacionada à qualidade da gestão, à clareza das decisões e à forma como cada instituição se prepara para responder a riscos, pressões e mudanças. Uma organização pode apresentar bons resultados em determinado período e, ainda assim, não estar preparada para atravessar transformações regulatórias, econômicas, tecnológicas ou sociais. 

Na saúde, a sustentabilidade institucional envolve uma responsabilidade adicional. As decisões tomadas pelas organizações repercutem no cuidado das pessoas, na proteção de dados sensíveis, nas condições de trabalho, na relação com profissionais, fornecedores, fontes pagadoras, órgãos reguladores e toda a sociedade. Por isso, a perenidade dos negócios não pode ser separada da ética, da integridade e da confiança. 

É nesse campo que governança, compliance e liderança se encontram. A governança estabelece como as decisões serão tomadas, quais informações deverão fundamentá-las, quem acompanhará seus resultados e quem responderá por suas consequências. O compliance ajuda a identificar riscos, cumprir obrigações e prevenir condutas capazes de comprometer a organização. A ética orienta escolhas diante de interesses distintos e de situações para as quais a norma nem sempre oferece uma resposta completa. 

Esses elementos precisam estar presentes nas decisões reais da organização. Eles influenciam a definição de metas, a aprovação de investimentos, a contratação de parceiros, a condução das relações institucionais, o tratamento de conflitos de interesses e a resposta a falhas ou desvios. 

A gestão de riscos também ganha relevância nesse processo. Identificar ameaças com antecedência permite que a organização se prepare para mudanças regulatórias, incidentes de segurança, crises reputacionais, descontinuidades operacionais e outros acontecimentos que podem afetar sua capacidade de prestar serviços. O risco precisa fazer parte das discussões estratégicas e das decisões de investimento, expansão e inovação. 

A liderança tem uma responsabilidade direta na construção desse ambiente. A cultura de uma organização é formada pelos comportamentos que suas lideranças estimulam, reconhecem, toleram ou corrigem. Códigos de conduta, políticas internas, treinamentos e canais de denúncia são indispensáveis, mas sua credibilidade depende da coerência entre as orientações formais e as atitudes observadas no cotidiano. 

Quando profissionais encontram segurança para comunicar dúvidas e inadequações, os problemas podem ser identificados antes de ganhar proporções maiores. Quando as respostas são consistentes e os critérios são conhecidos, a integridade deixa de ficar restrita aos documentos e passa a orientar a rotina. 

Essa coerência também influencia a reputação. Na medicina diagnóstica, a confiança é construída na qualidade dos resultados, na confidencialidade das informações, na segurança dos processos e na transparência das relações. Ela pode levar anos para se consolidar e ser comprometida por uma única decisão conduzida sem os cuidados necessários. 

A reputação, portanto, deve ser compreendida como um ativo estratégico. Ela interfere na relação com pacientes, profissionais, parceiros, órgãos públicos e reguladores. Também influencia a capacidade de atrair talentos, estabelecer parcerias, incorporar inovações e manter relações duradouras. 

No debate sobre o Diagnóstico 5.0, essas dimensões estão conectadas. A regulação estabelece limites e responsabilidades para a atuação do setor. A sustentabilidade econômica oferece condições para que as organizações continuem investindo, gerando empregos e prestando serviços. A governança orienta como os recursos serão utilizados e como as decisões serão conduzidas. Ética e compliance preservam a integridade desse percurso. 

Nenhuma organização consegue antecipar todas as mudanças que alcançarão a saúde nos próximos anos. É possível, contudo, preparar estruturas de decisão, formar lideranças, fortalecer a cultura interna e desenvolver capacidade para identificar riscos e responder a eles. 

Essa reflexão fará parte do 10º FILIS – Fórum Internacional de Lideranças da Saúde, promovido pela Abramed no dia 26 de agosto, em São Paulo, sob o tema “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”. Ao discutir os caminhos do setor, o fórum propõe uma questão necessária: que organizações estamos construindo para conduzir essa transformação? 

O futuro da medicina diagnóstica não será definido somente pelos avanços que o setor conseguir incorporar. Também dependerá da solidez, da integridade e da confiança das instituições responsáveis por transformá-los em cuidado. 

Milva Pagano 

Diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed)

O novo profissional de saúde: entre a prática clínica, os dados e a Inteligência Artificial 

A incorporação da Inteligência Artificial amplia as competências que são exigidas dos profissionais de saúde e reforça a importância de uma cultura orientada por inovação e integração. 

Por muito tempo, a régua que media a excelência de um profissional de saúde foi quase inteiramente clínica: raciocínio diagnóstico apurado, precisão técnica e boa relação com o paciente. Essa base permanece essencial, mas passou a ser complementada por novas competências.

Médicos, gestores e equipes multiprofissionais também precisam compreender dados, interpretar sistemas e incorporar ferramentas de inteligência artificial à rotina assistencial, integrando esses recursos ao cuidado, e não como uma atividade paralela.

“O profissional de saúde não precisa se tornar um cientista de dados, mas precisa compreender como essas informações são produzidas, quais são seus limites e de que forma podem apoiar a decisão clínica. A inteligência artificial amplia a capacidade de análise, mas não substitui o raciocínio clínico, o olhar sobre o paciente nem a responsabilidade pela conduta”, afirma Marcos Queiroz, membro do Conselho de Administração da Abramed e líder do Comitê Técnico de Radiologia e Diagnóstico por Imagem da entidade.

Quando bem integrada aos processos, a inteligência artificial pode assumir tarefas repetitivas e de organização da informação, liberando tempo para atividades que dependem do julgamento humano, como a interpretação dos casos, a comunicação com os pacientes e a tomada de decisões fundamentadas no contexto clínico de cada pessoa.

Esse avanço, porém, não depende apenas da adoção de novas ferramentas. Exige revisão de processos, integração entre equipes e qualificação contínua dos profissionais

Da adoção pontual à estratégia institucional

Um dos principais desafios do setor é transformar iniciativas pontuais de inteligência artificial em uma estratégia institucional. Muitas organizações incorporam ferramentas capazes de ampliar a produtividade sem revisar processos, integrar sistemas ou preparar as equipes. Esse descompasso limita os resultados e transfere novos problemas para a rotina assistencial.

Na prática, os profissionais convivem com processos em mudança e com um número crescente de sistemas, ferramentas e soluções de inteligência artificial que nem sempre fazem parte de uma estratégia comum. Sem integração, recursos criados para simplificar o trabalho podem aumentar a carga operacional e fragmentar a assistência.

Integração é condição para gerar valor

Essa fragmentação torna-se evidente quando múltiplas iniciativas de inteligência artificial são implementadas simultaneamente no diagnóstico, na triagem ou na automação de laudos. Os profissionais passam a consultar sistemas paralelos, confrontar resultados de diferentes fontes e identificar quando a falta de integração compromete o fluxo de cuidado.

Para o gestor, o desafio é articular essas iniciativas em uma estratégia única, garantir que diferentes sistemas e soluções adotados pela instituição conversem entre si e assumir a responsabilidade de formar equipes capazes de operar nesse ambiente.

Por isso, o investimento em tecnologia precisa ser acompanhado pela qualificação de médicos, gestores e equipes multiprofissionais. A inteligência artificial pode ampliar a capacidade de análise e apoiar decisões, mas a responsabilidade pelas decisões clínicas continua sendo dos profissionais.

Sem coordenação institucional, iniciativas isoladas geram retrabalho, dificultam a interoperabilidade e reduzem os benefícios para profissionais, instituições e pacientes.

“A adoção da inteligência artificial precisa ser uma decisão institucional, com governança, integração e acompanhamento de resultados. Não faz sentido ganhar eficiência em uma etapa e criar retrabalho em outra. O valor aparece quando tecnologia, processos e equipes avançam na mesma direção”, acrescenta Marcos Queiroz.

O tema integra a agenda do FILIS 2026

Os impactos da inteligência artificial sobre a atuação dos profissionais e a organização dos serviços estarão no eixo de Inteligência Artificial do FILIS 2026, promovido pela Abramed no dia 26 de agosto, no Teatro Santander, em São Paulo.

Marcos Queiroz irá moderar o debate “IA como vetor estratégico para a transformação da saúde, com foco em qualidade, inovação e novos modelos de cuidado”. Participam Priscila Cruzatti, especialista em Inovação e Saúde Digital para o Brasil no Google Cloud; Giovanni Guido Cerri, presidente do Conselho Diretor do InRad-HCFMUSP e coordenador da Comissão de Inovação do HCFMUSP (InovaHC); e Moritz Hartmann, diretor global da Roche Information Solutions.

Mais do que apresentar tendências, o FILIS reunirá diferentes perspectivas para transformar desafios já presentes na rotina assistencial em pautas propositivas para o setor.

Mais informações e inscrições em www.abramed.org.br/filis.

A inovação em saúde começa pelo diagnóstico: o papel dos exames na pesquisa clínica 

Da geração de evidências ao desenvolvimento de novas soluções, a medicina diagnóstica é essencial para que a inovação chegue ao paciente.  

Toda inovação em saúde depende de evidências. Elas são construídas muito antes de um medicamento chegar ao mercado. Por trás de cada nova terapia existe uma etapa indispensável para transformar conhecimento científico em cuidado: a medicina diagnóstica.  

Por meio dos exames laboratoriais, genéticos e de imagem, pesquisadores identificam biomarcadores, selecionam pacientes para estudos clínicos, acompanham a resposta aos tratamentos e produzem evidências que sustentam a incorporação de novas tecnologias à prática médica. 

Esse papel ganha ainda mais relevância diante do envelhecimento populacional, do aumento das doenças crônicas e do avanço da medicina de precisão. Hoje, terapias personalizadas dependem da capacidade de identificar características específicas de cada paciente, permitindo indicar o tratamento mais adequado e evitar intervenções desnecessárias. 

Fortalecer essa capacidade também é estratégico para ampliar a competitividade do Brasil na pesquisa clínica. Atualmente o país ocupa a 12ª posição no ranking mundial e tem potencial para figurar entre os dez principais nesse segmento. Para que isso aconteça, o setor de diagnóstico brasileiro precisa estar à altura em tecnologia, em padronização e em capacidade de integração de dados. 

“O laboratório deixou de ser apenas o lugar onde se processa uma amostra. Hoje, ele também é um gerador de conhecimento. Cada exame produz um dado que pode alimentar pesquisas, ampliar o entendimento sobre as doenças e acelerar o desenvolvimento de novas terapias”, explica Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed. 

Mais do que apoiar a pesquisa clínica, a medicina diagnóstica produz conhecimento capaz de acelerar a inovação em saúde.  

O diagnóstico como infraestrutura da pesquisa 

A participação da medicina diagnóstica começa antes mesmo do primeiro paciente ser incluído em um estudo clínico. O desenvolvimento de novas tecnologias e novos indicadores permite identificar quais pessoas apresentam determinadas características biológicas, aumentando a precisão das pesquisas e tornando possível avaliar, com maior confiabilidade, a eficácia e a segurança de novas terapias.  

Exames laboratoriais, testes moleculares e métodos de imagem acompanham continuamente a evolução dos participantes, monitorando respostas ao tratamento, possíveis eventos adversos e indicadores clínicos que servirão de base para a geração de evidências científicas. Sem essa infraestrutura funcionando com qualidade, agilidade e rastreabilidade, os estudos podem perder precisão e credibilidade científica. 

Os biomarcadores têm papel duplo nesse processo: funcionam como critérios de seleção de pacientes, identificando quem tem maior probabilidade de responder a um tratamento, e como endpoints dos ensaios, facilitando a avaliação dos resultados. 

Tecnologias voltadas à medicina de precisão já crescem a dois dígitos no Brasil, impulsionadas pelo aumento da incidência de doenças complexas, especialmente em oncologia, neurologia e doenças autoimunes. 

Com os avanços da biologia molecular e do sequenciamento de nova geração, o mapeamento genético tende a ocupar espaço cada vez maior na prática clínica, ampliando a capacidade de identificar riscos, apoiar diagnósticos mais precisos e orientar terapias personalizadas.  

“A incorporação da genômica mostrou que a inovação não acontece apenas quando uma nova terapia é desenvolvida, mas também quando ampliamos nossa capacidade de compreender a biologia das doenças. Quanto melhor entendermos cada paciente, maiores são as possibilidades de oferecer tratamentos mais assertivos e acelerar a produção de conhecimento científico”, afirma Lídia. 

Dados que alimentam a inovação 

Os dados gerados pelos exames ajudam a compreender a evolução das doenças, identificar tendências epidemiológicas, desenvolver novos indicadores e apoiar pesquisas capazes de acelerar a chegada de novas soluções diagnósticas e terapêuticas.  

Para que esse potencial se concretize, é fundamental que essas informações possam ser compartilhadas de forma padronizada e segura. É a interoperabilidade que permite a circulação desses dados entre laboratórios, prontuários e sistemas de saúde, fortalecendo a integração entre pesquisa, assistência e inovação em saúde.  

Além de reduzir tentativas sucessivas de tratamento e favorecer melhores desfechos clínicos, esse processo contribui para o uso mais racional dos recursos disponíveis e acelera o desenvolvimento de novas soluções diagnósticas e terapêuticas.  

Na visão de Lídia Abdalla, os dados gerados pela medicina diagnóstica representam um patrimônio científico para o país. “Transformar esse volume de informações em conhecimento exige interoperabilidade, qualidade e responsabilidade no uso dos dados. É isso que fortalece a pesquisa clínica, amplia nossa capacidade de inovação e gera valor para o paciente e para  todo o sistema de saúde”, analisa. 

Essa transformação, que consolida a medicina diagnóstica como elemento essencial da inovação em saúde, será um dos fios condutores do FILIS 2026, que reunirá líderes do setor para discutir como a inteligência artificial, a medicina de precisão e a transformação digital estão redesenhando o futuro da saúde. 

A discussão reforça um princípio cada vez mais evidente: toda inovação começa com conhecimento e, na saúde, esse conhecimento frequentemente nasce a partir do diagnóstico. 

Para participar do FILIS 2026, acesse o site oficial do evento e adquira o seu ingresso: https://www.abramed.org.br/filis. 

Regulação, jornada de trabalho e agenda econômica marcam reunião da Abramed com associados

Encontro reuniu lideranças para alinhar posicionamentos e avançar em temas que impactam diretamente a operação e a sustentabilidade do setor.

A Reunião Mensal de Associados (RMA) da Abramed de abril evidenciou o papel ativo da entidade na condução das principais agendas que impactam o setor. Realizado em São Paulo, na sede da Roche, o encontro reuniu lideranças para alinhamento de temas regulatórios, econômicos e institucionais, com foco na construção de um ambiente mais previsível e sustentável para a medicina diagnóstica e toda a cadeia de saúde no país.

Entre os destaques, esteve a Consulta Pública nº 170/2026 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que propõe avanços na relação entre prestadores e operadoras. O tema foi apresentado sob a perspectiva de fortalecimento de um marco regulatório mais equilibrado e transparente, com incentivo à participação ativa dos associados e à construção de uma contribuição técnica qualificada em conjunto à agência.

A reunião também abordou a proposta de redução da jornada de trabalho, tema que vem ganhando espaço no debate público e exige atenção do setor. A discussão reforçou a necessidade de uma análise cuidadosa dos reflexos operacionais e assistenciais, diante de um segmento intensivo em mão de obra qualificada e essencial à continuidade do cuidado em saúde.

Os associados destacaram os desafios já existentes na reposição de profissionais especializados, o que limita a capacidade de substituição. Nesse contexto, foi enfatizada a preocupação com a segurança do paciente, considerando que a eventual recomposição de equipes com mão de obra não qualificada pode comprometer a qualidade dos serviços e das decisões clínicas. Também foram apontadas as diferenças regionais, especialmente em pequenas cidades, onde a escassez desses profissionais é ainda mais acentuada e demanda uma abordagem compatível com as realidades locais.

Na agenda econômica, a reunião trouxe atualizações sobre o imposto de importação, com destaque para a inclusão de parte relevante de itens médicos na lista de ex-tarifários. A medida contribui para preservar o acesso a insumos e tecnologias estratégicas, enquanto a entidade segue acompanhando a evolução do tema junto às autoridades.

Outro ponto de atenção foi a interlocução com a Anvisa em torno da RDC nº 978/2025. A Abramed mantém diálogo contínuo com o regulador, buscando aprimoramentos que considerem as particularidades operacionais do setor e promovam maior segurança jurídica e regulatória, ao mesmo tempo em que consolida e representa tecnicamente as contribuições das associadas nesse processo.

“Esse conjunto de agendas mostra que estamos diante de decisões que impactam diretamente a forma como o setor opera e entrega cuidado. O papel da Abramed é organizar tecnicamente essas pautas, consolidar a visão do setor e qualificar o diálogo com os tomadores de decisão. Estamos falando de um segmento essencial, que sustenta decisões clínicas e precisa de condições adequadas para continuar operando com qualidade, segurança e previsibilidade, sempre em prol do paciente”, declara Milva Pagano, diretora-executiva da entidade.