Abramed amplia participação da Medicina Diagnóstica no debate sobre mudanças climáticas

Dados, governança e cadeia produtiva entram no centro das discussões sobre o papel da saúde diante da crise climática.

O avanço das mudanças climáticas vem alterando o funcionamento dos sistemas de saúde em todo o mundo. Eventos extremos mais frequentes, ondas de calor prolongadas, alterações no regime de chuvas e impactos sobre a qualidade do ar e da água já se refletem no perfil epidemiológico da população e na operação de hospitais, laboratórios e serviços assistenciais. Ao mesmo tempo, estima-se que o setor responda por cerca de 4,4% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo estudo da Health Care Without Harm (HCWH).

Esse duplo papel – como setor impactado e emissor relevante – ganhou espaço na agenda internacional durante a COP30, realizada em Belém (PA). Pela primeira vez, a saúde deixou de ocupar uma posição periférica nas discussões climáticas e passou a ser tratada como parte estrutural das estratégias de adaptação. O movimento é fruto de uma trajetória iniciada na COP28, com a criação do Dia da Saúde, e fortalecida na COP29, quando o tema passou a integrar oficialmente a programação das conferências.

A Abramed também integra essa agenda. Durante a COP30, Cesar Nomura e Claudia Cohn, respectivamente presidente e membro do Conselho de Administração da entidade, participaram de um debate na EY House que reuniu lideranças do setor de saúde, especialistas em sustentabilidade e representantes do poder público. A discussão girou em torno da integração entre ciência, governança e políticas climáticas, com foco nos efeitos diretos do aquecimento global sobre as cidades e os sistemas de saúde.

“A presença da Abramed demonstrou o papel estratégico da medicina diagnóstica na sustentabilidade ambiental, contribuindo para debates sobre resiliência das cidades, clima, eventos extremos e o protagonismo do diagnóstico por um futuro mais seguro”, destacou Nomura. Segundo ele, a agenda climática passa necessariamente por ganhos de eficiência operacional, redução de desperdícios e revisão de práticas históricas.

A reflexão foi aprofundada posteriormente no painel da Câmara de Assuntos Políticos e Estratégicos (Cape), organizada pela Fesaúde, com apoio da Arca. No encontro, o debate se deslocou da operação individual das instituições para a dimensão sistêmica. Vital Ribeiro, presidente do Conselho do Projeto Hospitais Saudáveis, chamou atenção para o peso da cadeia produtiva nas emissões associadas à saúde. “Setenta por cento do impacto ambiental do setor está nos fornecedores — equipamentos, insumos, logística, energia. Quando se fala em emissões da saúde, é preciso olhar para essa cadeia de forma mais ampla”, observou.

Vital também destacou que, apesar do avanço do tema no ambiente internacional, a saúde ainda ocupa espaço limitado nas negociações climáticas. “Há uma tendência de tratar a mudança climática apenas como um problema operacional, ligado à continuidade do atendimento em situações extremas. Mas as decisões tomadas hoje em áreas como energia, uso do solo, mobilidade e sistemas alimentares terão efeitos diretos sobre a saúde da população nas próximas décadas”, afirmou.

Na avaliação de Claudia Cohn, também diretora de Relações Institucionais da Dasa, um dos principais desafios está na fragmentação das iniciativas. “A saúde não começa nem termina no hospital ou no laboratório. A jornada envolve indústria, logística, embalagens, fornecedores e o próprio comportamento do usuário. Quando cada parte atua de forma isolada, o impacto é limitado”, disse.

Claudia destacou que escolhas historicamente consideradas sustentáveis precisam ser revisitadas à luz de novas evidências. Para ela, decisões relacionadas a materiais, embalagens e consumo exigem uma análise mais cuidadosa dos efeitos ambientais ao longo de toda a cadeia, e não apenas na etapa final do descarte.

A agenda climática na saúde exige decisões coletivas, continuidade e engajamento institucional, acrescentou Nomura. Segundo ele, não é mais possível tratar a crise climática como um problema externo ao setor. “Há uma responsabilidade direta das lideranças e das instituições. Não adianta esperar que o outro faça: a mudança depende de escala, de conscientização e do compromisso das organizações de referência”, afirmou.

Da discussão à prática

As empresas associadas à Abramed têm se dedicado, continuamente, a ações que diminuem o impacto de suas atividades no meio ambiente. Segundo o Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico, houve redução de 25% no consumo de água, 23% no uso de energia elétrica e 29% na geração de resíduos nos últimos anos.

Além disso, 93% dos associados já adotaram coleta seletiva, acompanhada de campanhas de conscientização e treinamentos ambientais. Outro destaque foi o avanço digital, com um salto de 267% no acesso eletrônico a exames, diminuindo drasticamente o uso de filmes radiológicos e gerando impacto positivo no meio ambiente.

Entre as experiências exitosas estão as do Hospital Sírio-Libanês, o primeiro da América Latina a se tornar carbono neutro, combinando mecanismos de compensação de emissões com mudanças estruturais em processos internos e na relação com fornecedores.

A instituição também está substituindo gradualmente a logística tradicional por entregas realizadas com caminhão elétrico, além de avançar na eliminação do uso de filmes radiológicos, com incentivo ao acesso digital aos exames e à devolução de chapas antigas mantidas pelos pacientes. Já foram recolhidas mais de duas toneladas e meia do material, que não se decompõe e gera grande impacto ambiental quando descartado de forma inadequada. 

Outros investimentos envolvem novas tecnologias de imagem, como equipamentos de ressonância magnética que operam com volumes menores de hélio, reduzindo riscos ambientais associados ao insumo. O uso de algoritmos de inteligência artificial também tem permitido encurtar o tempo de realização de exames, com reflexos diretos no consumo de energia e na eficiência da operação. 

Já o Einstein Hospital Israelita aproveitou a COP30 para apresentar sua plataforma MAIS (Meio Ambiente e Impacto na Saúde), que cruza informações ambientais — como temperatura, poluição do ar e ondas de calor — com registros de doenças, internações e mortalidade. O objetivo é ampliar a capacidade de análise sobre como as mudanças climáticas já se refletem nos indicadores de saúde.

A relevância do tema tem levado a Abramed a incluí-lo nos debates do FILIS, o Fórum Internacional de Lideranças da Saúde, realizado anualmente pela entidade. Como sintetiza Nomura, quando a saúde mede o impacto climático, cria-se a base para o cuidado. E, no enfrentamento da crise climática, o diagnóstico é, mais do que nunca, o primeiro passo.

Encontro entre Abramed e ITpS marca nova fase de cooperação entre as entidades

Parceria pode avançar em agenda conjunta na defesa de uma arquitetura nacional de dados em Saúde

A Reunião do Comitê de Interoperabilidade da Abramed, realizada na sede do Instituto Todos pela Saúde (ITpS), se colocou como um marco para a colaboração técnica entre as entidades, que irá ganhar novos desdobramentos ao longo de 2026 e tem como norte a defesa comum de uma arquitetura nacional de dados capaz de sustentar o avanço da saúde digital.

Em um contexto de crescente digitalização da saúde e pressão por maior integração dos sistemas, o encontro reforçou a interoperabilidade como condição estruturante para a evolução do setor.

Iniciada no biênio de 2023-2024 como uma parceria voltada ao monitoramento epidemiológico, a convergência entre a Abramed e o ITpS agora abarca a busca pela interoperabilidade dentro do contexto de um Sistema de Saúde ainda marcado por fragmentação, redundâncias e baixa capacidade de troca qualificada de informações. Nesse sentido, a padronização de dados surge como condição estruturante para melhorar desfechos clínicos, reduzir ineficiências e apoiar decisões.

Com abertura de Milva Pagano, Diretora Executiva da Abramed, e Vanderson Sampaio, Diretor de Operações do ITpS, a reunião contou com palestras e um debate técnico entre associados e representantes das entidades, além de hospitais e especialistas.

Na primeira apresentação do encontro, o pesquisador científico do ITpS, Juan Carlo Santos e Silva, trouxe uma leitura sobre os desafios da interoperabilidade de dados no Brasil. Um dos pontos centrais foi a distinção entre integrar e interoperar informações. “Integrar é armazenar dentro de um data lake; interoperar é conseguir trocar informações e fazer com que elas tenham valor para a tomada de decisões. Isso sim gera um impacto positivo enorme para toda a cadeia”, disse.

A apresentação destacou o papel da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), mas também suas limitações atuais, especialmente no consumo efetivo das informações por estados e municípios. Entre os principais gargalos apontados estão a baixa padronização semântica, o uso restrito de terminologias como LOINC e SNOMED, a pouca capacidade de integração dos sistemas legados do SUS e a desigualdade de capacidade técnica entre grandes grupos e pequenos laboratórios.

O pesquisador também apresentou iniciativas do ITpS voltadas à padronização e à governança de dados, com apoio, por exemplo, de automação e inteligência artificial para tradução de códigos com curadoria humana. A proposta é viabilizar caminhos escaláveis e factíveis para a interoperabilidade no Sistema de Saúde brasileiro.

Coordenação do cuidado

A segunda palestra, conduzida por Sabrina Dalbosco, gerente de projetos do Hospital Sírio Libanês, trouxe a interoperabilidade como uma das bases para a sustentabilidade do Sistema de Saúde. Ao abordar o custo da ineficiência, ela ressaltou que falhas na circulação da informação geram desperdício financeiro, retrabalho e riscos clínicos. “Interoperabilidade não é apenas tecnologia; ela está no coração da coordenação do cuidado e da segurança do paciente”, destacou.

Sabrina também alertou para o risco do chamado “falso digital”, quando processos analógicos são simplesmente replicados em sistemas eletrônicos, sem ganhos reais de eficiência ou qualidade. Para ela, padronização, governança de dados e formação de profissionais em saúde digital são condições indispensáveis para que a transformação digital produza, de fato, valor concreto.

Entre os exemplos apresentados, ganhou relevância o Sumário Internacional do Paciente (IPS), iniciativa interoperável entre países que reúne informações clínicas essenciais — como alergias, medicamentos e diagnósticos —, que foi iniciada na pandemia e avança junto ao Ministério da Saúde.

Próximos passos

O debate que se seguiu aprofundou desafios vividos pelos laboratórios diante de questões como as notificações compulsórias e a multiplicidade de exigências de vigilâncias municipais com formatos distintos para os mesmos dados, o que gera retrabalho e insegurança operacional. A centralização das notificações via RNDS, com integração padronizada, foi apontada como caminho prioritário.

Também houve consenso sobre a necessidade de envolver fornecedores de sistemas laboratoriais, mapear a maturidade digital dos associados da Abramed e documentar casos de uso que demonstrem retorno clínico e operacional. Do ponto de vista regulatório, o grupo discutiu a importância de transformar a interoperabilidade em política de Estado, com padrões claros e previsibilidade para o setor.

A reunião sinalizou a possibilidade da ampliação do escopo da parceria entre Abramed e ITpS — antes concentrada em monitoramento epidemiológico — para incorporar a interoperabilidade como agenda estruturante, com encaminhamentos técnicos e perspectiva de continuidade.

Com representantes de laboratórios responsáveis por 85% do volume de exames realizados no país, a Abramed reafirma seu papel estratégico na indução de padrões de interoperabilidade e na construção de uma agenda conjunta capaz de sustentar a qualidade, a segurança e a sustentabilidade do Sistema de Saúde brasileiro. 

Abramed e ITpS se unem para fortalecer a vigilância no Brasil

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) e o Instituto Todos pela Saúde (ITpS) acabam de celebrar  uma parceria estratégica para ampliar e fortalecer  a capacidade de vigilância epidemiológica no Brasil.

O acordo prevê o compartilhamento de dados laboratoriais e a produção conjunta de estudos, análises e boletins técnicos sobre a circulação de arboviroses e patógenos respiratórios — como dengue, chikungunya, influenza e Covid-19. O ITpS realiza o monitoramento de patógenos respiratórios desde 2021 e de arbovírus há um ano e meio, em colaboração com laboratórios parceiros, e já emitiu 54 relatórios. A parceria com a Abramed irá ampliar de forma expressiva o número de dados analisados, com ampliação dos municípios cobertos.

A iniciativa integra a ampla base de dados clínicos das associadas da Abramed — responsáveis por mais de 80% dos exames realizados na saúde suplementar — com a expertise do ITpS em ciência de dados, bioinformática, epidemiologia, genômica e formação de profissionais de saúde pública, além de políticas públicas. Para a Abramed, o objetivo é antecipar riscos, detectar padrões de transmissão e fornecer inteligência analítica para apoiar a tomada de decisão de gestores públicos, operadoras de saúde, laboratórios e instituições de saúde em todo o país.

Criado em 2021, o Instituto Todos pela Saúde é uma organização sem fins lucrativos criada para contribuir com a organização, a melhoria e a manutenção de redes e o desenvolvimento de competências que ajudem o Brasil na preparação para epidemias e pandemias e na resposta em tempo oportuno. São três os pilares de atuação: fortalecimento de redes de vigilância, análise oportuna de dados e formação de profissionais em áreas estratégicas para preparação e resposta a emergências sanitárias.

“Ampliar o acesso a dados laboratoriais em tempo real é um passo fundamental para ajudar o Brasil a fortalecer sua vigilância”, afirma Gerson Penna, diretor-presidente do ITpS. “Com essa parceria, teremos uma visão mais abrangente da circulação de patógenos em diferentes regiões do país, fornecendo informações para que o poder público possa tomar a melhor decisão possível.”

Para Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, a colaboração reforça o papel estratégico da medicina diagnóstica no planejamento e na prevenção em saúde pública. “Nosso setor é uma fonte robusta de dados clínicos. Integrar essa base ao trabalho altamente qualificado do ITpS contribui para antecipar riscos, identificar tendências e apoiar decisões baseadas em evidências”, afirma.

A expectativa da Abramed é que a parceria resulte na entrega periódica de painéis analíticos, com recortes geográficos, temporais e clínicos, voltados a gestores públicos, operadoras, laboratórios e instituições de saúde.