Do dado isolado ao cuidado integrado: os desafios técnicos, econômicos e culturais da interoperabilidade na saúde

Integração é um dos principais caminhos para a sustentabilidade do setor e a centralidade no paciente

O ecossistema de saúde global, incluindo o brasileiro, vive um cenário desafiador e paradoxal: ao mesmo tempo em que dados sobre pacientes e tratamentos são gerados em escala crescente, os sistemas ao redor do mundo enfrentam dificuldades críticas para transformar todo o volume de informações produzido em cuidado integrado.

Para termos uma ideia desse cenário, levantamentos recentes estimam que cerca de 30% de todos os dados gerados na internet provenham da área de saúde e, embora a vasta maioria dos gestores reconheça a importância e o valor clínico desse “big data informacional”, o setor ainda luta para utilizá-lo de maneira eficaz, integrando linguagens e fortalecendo, por exemplo, a conexão entre as redes pública e privada.

Em outras palavras: diariamente, diagnósticos, laudos e prontuários circulam em grandes volumes – segundo a 7ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico, os associados da entidade são responsáveis por mais de 85% dos exames realizados pela saúde suplementar no país – mas muitas das decisões clínicas continuam sendo tomadas, no país, a partir de bases de dados fragmentadas.

É o que explica Pedro Vieira, líder do Comitê de Interoperabilidade da Abramed: “Hoje, o maior obstáculo não é tecnológico, é estrutural. Convivemos com sistemas legados, baixa padronização, governança frágil e maturidade digital desigual. O dado existe, mas a organização não está pronta para usá-lo de forma integrada.”

Interoperabilidade e o dado que gera valor clínico

Para superar esse cenário, a resposta se encontra, justamente, no avanço da interoperabilidade na saúde, que deve ser compreendida como um mecanismo estratégico capaz de gerar mais contexto para escolhas clínicas embasadas e maior sustentabilidade para os sistemas de cuidado.

Afinal de contas, quando os dados fluem de forma integrada, desperdícios são reduzidos, evita-se a duplicidade de exames e um apoio real à decisão médica é sustentado para garantir que a jornada do paciente seja contínua, capaz de antecipar quadros mais graves que também aumentam o custo de tratamentos e internações nas redes pública e privada.

Não por acaso, o custo da baixa interoperabilidade nos sistemas de saúde é alarmante, sendo estimado em cerca R$ 30 bilhões. Esse cenário é agravado por um ciclo de investimento em infraestrutura tecnológica que pode e deve ser acelerado, visando não apenas prioridades de curto prazo.

Além disso, Pedro Vieira destaca os aspectos de governança – em linha com normas como a Lei Geral de Proteção de Dados – que devem conduzir os investimentos em interoperabilidade na área de saúde:

“Compartilhar dados de forma segura exige regras claras, papéis bem definidos, transparência sobre uso da informação e compromisso institucional com privacidade. A LGPD não é um impeditivo da interoperabilidade, mas um guia para fazê-la corretamente”, explica.

O aspecto da governança é especialmente relevante quando consideramos um cenário de aumento nos ataques cibernéticos no setor: um relatório recente apontou que, em 2024, quase metade das organizações de saúde sofreram pelo menos um incidente envolvendo segurança digital.

Assim, o equilíbrio entre compartilhar dados e garantir a privacidade passa pela construção de protocolos que garantam transparência e compromisso institucional com a privacidade do paciente.

Diagnóstico de maturidade e o compromisso da Abramed

Pedro Vieira destaca ainda a importância de o setor evoluir para um diagnóstico claro sobre seu nível de maturidade nesse tema. “Também é importante analisarmos, de forma conjunta e transparente, quais são os reais benefícios clínicos, operacionais e econômicos da interoperabilidade, considerando as diferentes realidades dos prestadores”. 

A Abramed tem atuado como articuladora central nessa jornada por meio de seu Comitê de Interoperabilidade, criado em 2023. Este espaço visa fomentar a troca de melhores práticas, validar padrões e fortalecer o diálogo com órgãos públicos, como a Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI), do Ministério da Saúde.

A Associação acredita, por fim, que a interoperabilidade não é apenas uma melhoria operacional, mas uma das principais agendas para a construção de um sistema de saúde mais sustentável e verdadeiramente centrado no paciente.

27 de fevereiro de 2026.

Como a nuvem está transformando o setor de Medicina Diagnóstica?

Com investimentos robustos em todo o mundo, tecnologia cloud fortalece a integração no setor de saúde

24 de março de 2025 – Quando pensamos no movimento de transformação digital que impulsiona a economia contemporânea, não há maiores dúvidas de que a computação na nuvem é um dos pilares dessa revolução que alcança também o setor de saúde e de medicina diagnóstica.

Para termos uma ideia desse cenário, só no ano passado, US$ 53,8 bilhões foram investidos globalmente em infraestrutura e soluções cloud para o segmento de healthcare global, segundo dados da consultoria Markets and Markets. E a expectativa é que a presença dessa tecnologia cresça 17,5% ao ano até 2029 no setor, gerando cerca de US$ 120,6 em direcionamento de recursos no mercado.     

Diante de tais indicadores, é possível afirmar que a Medicina Diagnóstica já está vivenciando uma mudança de paradigmas na forma como os dados médicos são armazenados, compartilhados e analisados, trazendo consigo uma série de benefícios que impactam diretamente a eficiência, a segurança e a qualidade dos serviços de saúde. 

As possibilidades abertas em termos de escalabilidade e acessibilidade são  ganhos primordiais dessa tecnologia para o setor, conforme explica Rafael Jácomo, membro do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) e Diretor Técnico do Grupo Sabin. 

“A principal vantagem da nuvem para os serviços de saúde é a alta disponibilidade que os sistemas em nuvem disponibilizam e seu consequente acesso independente da estrutura física. Juntos, estes dois benefícios se traduzem em facilidade para médicos e pacientes em conseguir as informações necessárias para tomada de decisões”, afirma. 

Rogéria Cruz, Líder do Comitê de Proteção de Dados da Abramed e Diretora-Executiva Jurídica da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, complementa essa visão, “Os profissionais de saúde podem acessar prontuários, laudos e exames de qualquer lugar, o que facilita o atendimento e a tomada de decisão. Além disso, a nuvem permite um compartilhamento seguro entre instituições”.

Redução de riscos e sustentabilidade

A transição para esse novo ecossistema tem como trunfo outro pilar decisivo na gestão de informações clínicas: a segurança de dados.

Um primeiro ponto mais evidente diz respeito à redução dos riscos associados à gestão de mídias físicas, como danos causados por incêndios, inundações ou mesmo a perda de documentos. A nuvem oferece ainda recursos avançados de segurança, como criptografia de ponta a ponta, monitoramento contínuo contra ataques cibernéticos e backups automáticos, dentro de um panorama em que os provedores investem de modo robusto em medidas de proteção e atualizações constantes para mitigar riscos.

Nesse mesmo sentido, a nuvem é um vetor de maior desempenho que aumenta a eficiência, precisão e produtividade nas rotinas de diagnóstico e na oferta de serviços de saúde de modo geral.

A capacidade de processar e compartilhar exames e laudos em tempo real, por exemplo, acelera o encaminhamento de diagnósticos e tratamentos, ao passo que a integração de sistemas na nuvem contribui para uma maior colaboração entre diferentes profissionais de saúde, tornando a distância física um fator irrelevante. 

Rogéria Cruz exemplifica esse contexto ao mencionar que “um paciente que realiza um exame de imagem pode ter seus resultados acessados instantaneamente por médicos de diferentes especialidades, possibilitando um diagnóstico mais rápido e preciso. Além disso, sistemas de telemedicina integrados à nuvem estão revolucionando o atendimento, permitindo consultas e laudos à distância sem comprometer a segurança dos dados”.

Finalmente, do ponto de vista financeiro e ambiental, a migração para a nuvem pode gerar tanto economia – ao reduzir a necessidade de investimento em data centers e aumentar o acesso a soluções que poderiam ser inviáveis por meio de aquisição direta – quanto uma maior eficiência energética por parte das empresas, que não dependem mais de infraestruturas físicas para o compartilhamento de arquivos.   

Um olhar para o futuro da Medicina Diagnóstica

Para que as empresas do setor de Medicina Diagnóstica acelerem a implementação da nuvem e absorvam tantos benefícios, é fundamental superar um desafio cultural importante de confiança por parte das equipes, promovendo uma mudança de mentalidade acerca da segurança dos dados na nuvem. 

A escolha de fornecedores cloud que atendam a altos padrões de cibersegurança e a consequente implementação de políticas internas e rigorosas de governança de dados, são passos essenciais para garantir a proteção de informações clínicas sensíveis e o entendimento dos colaboradores sobre as vantagens da nuvem.

Vantagens essas que incluem, por fim, a base para tecnologias mais integradas e um uso ampliado da inteligência artificial na saúde. 

Rafael Jácomo vislumbra um futuro em que “a Medicina Diagnóstica será moldada por tecnologias mais integradas, com uso ampliado da inteligência artificial e acesso mais abrangente. A análise de grandes volumes de dados será facilitada, permitindo a personalização do diagnóstico com um protagonismo sem precedentes”. 

Para que tudo isso seja possível, a ampla adoção da nuvem na Medicina Diagnóstica exige que as instituições do país avancem em sua maturidade digital e dependerá de fatores como regulamentação, custos e adesão das instituições de saúde.

Nesse contexto, a Abramed tem reafirmado seu compromisso em impulsionar um ecossistema mais inovador, alinhado às tendências, que permita a interoperabilidade entre sistemas de saúde para que hospitais, laboratórios e clínicas compartilhem informações de forma mais eficiente e segura e aprimorem a qualidade dos serviços de Medicina Diagnóstica no Brasil.