Abramed contribui para discussões sobre Sandbox Regulatório na saúde durante Rio Health Forum

O instrumento permite a experimentação de novos modelos de negócios em condições regulatórias flexibilizadas, ajudando a modernizar a gestão pública e privada

20 de novembro de 2024 – Durante o Rio Health Forum (RHF), realizado nos dias 6 e 7 de novembro, no Rio de Janeiro, foi discutido o tema “Sandbox Regulatório na Saúde: Prioridades, Instrumentos e Medição de Resultados”, contando com participação de Milva Pagano, diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).

O presidente do RHF e ex-secretário de inovação do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, moderou o painel, que incluiu Bruno Sobral, diretor-executivo da Confederação Nacional da Saúde (CNSaúde); Bruno Portela, procurador federal da Advocacia-Geral da União (AGU); Daniel Meirelles, diretor da Terceira Diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa); Emmanuel Lacerda, superintendente de Saúde e Segurança na indústria no SESI; Fernando Silveira Filho, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Tecnologia para Saúde (Abimed); Maurício Nunes, diretor de Desenvolvimento Setorial na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS); e Paulo Jorge Cardoso, diretor-executivo da área técnica da Athena Saúde.

Vianna começou com uma apresentação conceitual, citando a definição do Tribunal de Contas da União (TCU). “O Sandbox é um ambiente regulatório experimental, criado com a finalidade de suspender temporariamente a obrigatoriedade de cumprimento de normas exigidas para atuação em determinados setores, permitindo que empresas possam usufruir de um regime diferenciado para lançar novos produtos e serviços inovadores no mercado, com menos burocracia e mais flexibilidade, mas com monitoramento e orientação de órgãos reguladores.”

Ele também destacou o Marco Legal das Startups e do Empreendedorismo Inovador, instituído pela Lei Complementar nº 182/2021 no Brasil, cujo objetivo é fomentar o ambiente de negócios para startups, promovendo inovação, simplificação e incentivos para o desenvolvimento desse ecossistema. Esse marco também estabelece diretrizes para o uso do Sandbox Regulatório.

“A tradução do termo é ‘caixa de areia’, lembrando uma criança brincando de forma livre, com criatividade. Esse é o pano de fundo para podermos modernizar a gestão pública e privada para entregar mais à sociedade”, ressaltou Vianna, abrindo espaço para as duas agências regulatórias em saúde no Brasil fazerem suas considerações.

Segundo Nunes, da ANS, a LC 182/2021 é uma das normativas mais modernas atualmente. “Ela traz a possibilidade de tentarmos resolver problemas de política pública por meio do ente regulado, permitindo que ele teste em um ambiente experimental uma solução que ainda não temos”, disse.

Nunes considera que o Marco das Startups, incluindo o Sandbox Regulatório, é um grande avanço para o país, inclusive olhando para o cenário de falta de recursos. “Não conseguimos avançar com vários projetos na ANS por conta disso. Foi muito importante o Congresso Nacional se aproximar do setor privado”, revelou.

A agência abriu, inclusive, a Consulta Pública nº 138 para receber contribuições relacionadas à proposta de Resolução Normativa que dispõe sobre as regras para constituição e funcionamento de ambiente regulatório experimental na ANS.

Já a Anvisa tem caminhado no tema com relação a produtos de menor risco, como cosméticos e saneantes, cuja flexibilização de regras pode ser trabalhada de forma mais segura, conforme explicou Meirelles. “Nossa missão é garantir o controle sanitário, assegurando que nenhum risco à saúde seja causado por produtos ou serviços registrados pela Anvisa. Por isso, atuamos de forma alinhada à gestão dos riscos associados a esses produtos”, disse.

Para Meirelles, o Sandbox Regulatório é muito bem-vindo como uma ferramenta que permite maior flexibilidade na adequação das regulações às inovações em desenvolvimento. “Ele possibilita testar melhorias de maneira controlada, respaldado por informações e aprendizados recebidos de agências internacionais. Em um ambiente controlado, podemos fazer alterações que tragam benefícios para o país.”

A Anvisa também lançou o Edital de Chamamento nº 11/ 2024 e a Tomada Pública de Subsídios (TPS) nº 9/2024 para coletar contribuições da sociedade acerca do Relatório Parcial de Análise de Impacto Regulatório (AIR) que trata da criação do seu modelo de Ambiente Regulatório Experimental.

Representando os contratantes, Lacerda, do SESI, abordou o impacto da saúde no mundo empresarial e como os serviços chegam à população, tanto pelo poder público quanto pelos planos privados. De acordo com ele, existem diversos aspectos que podem ser objeto de regulamentação nesse contexto, mas o SESI defende o fortalecimento da capacidade de gestão em saúde pelas empresas.

“Um elemento fundamental para essa melhoria é o acesso a dados de qualidade. A ausência de padronização, a má qualidade ou a indisponibilidade geram custos elevados e comprometem a capacidade de desenvolver boas práticas de gestão em saúde, como estruturação de programas e planejamento de linhas de cuidado. Com o modelo experimental do Sandbox Regulatório, será possível facilitar o processo, e esperamos contribuir para isso”, apontou.

Para Milva, da Abramed, ao analisar iniciativas de gestão em saúde, é preciso focar nos desfechos, garantindo que o paciente esteja sempre no centro do cuidado. “Nesse contexto, o conceito de Sandbox Regulatório é uma oportunidade para ampliar possibilidades, mantendo o controle e a segurança”, expôs.

Ela destacou que buscar alternativas inovadoras é uma necessidade para o sistema, que há muito tempo enfrenta desafios de sustentabilidade e eficiência. “Ao reduzir o peso regulatório de forma controlada, o Sandbox possibilita a criação de soluções e a exploração de modelos alternativos que podem oferecer caminhos diferentes para o setor”, disse.

Segundo a diretora-executiva, o incentivo a startups para desenvolver soluções tecnológicas tem o potencial de beneficiar o sistema como um todo. “Vejo a iniciativa com bons olhos e parabenizo a Anvisa, em nome da Abramed, pela possibilidade de abraçar essa abordagem mantendo a segurança do paciente como prioridade”, ressaltou.

Por sua vez, Silveira Filho, da Abimed, comentou que ainda há poucas aplicações na área de saúde, mas o potencial para transformações, especialmente no campo dos dispositivos médicos, é significativo. “A possibilidade de através de um Sandbox identificar a viabilidade futura de um registro é algo bastante interessante no nosso ambiente”, expôs.

No caso da Anvisa, citou alguns pontos importantes, como a questão relativa à velocidade com que as inovações incrementais ocorrem no setor, que geralmente leva de 18 a 24 meses. “Um ambiente controlado pode acelerar os testes e ajudar a dirimir algumas dúvidas”, disse.

Além disso, de acordo com Silveira Filho, um Sandbox Regulatório também pode contribuir para reduzir o custo de trade no Brasil, o que daria mais competitividade às empresas, permitindo-lhes expandir para novos territórios.

Em sua participação, Sobral, da CNSaúde, disse que o mecanismo é uma excelente ideia, representando um exercício de humildade e coragem por parte dos órgãos reguladores. “A humildade vem da necessidade de reconhecer que, como regulador, pode-se não estar cumprindo a missão da melhor maneira possível. E a coragem está em se abrir a algo que pode não gerar os resultados esperados”, comentou.

Ele apontou, ainda, desafios em relação à versão “light” dos produtos. “É importante questionar se eles podem causar a desintegração do cuidado e gerar mais judicialização, como foi a integração dos pacientes e até que ponto essa versão pode canibalizar o produto completo, que tem valor maior. São perguntas que valem ser feitas”, elencou.

Já Cardoso, da Athena, abordou como o Sandbox pode ajudar em novos modelos assistenciais, pois há uma demanda grande por tratamento médico. “Acho interessante criar um espaço dentro da agência reguladora, talvez com um tipo de registro específico para empresas em Sandbox, seja startups ou empresas já reguladas.”

Além disso, ele acha importante fazer um exercício profundo para que o beneficiário compreenda as características do produto ao qual tem acesso, especialmente no caso de planos ambulatoriais. “Precisamos ter coragem para testar novas soluções e trazer inovações ao setor, para aumentar o acesso à saúde”, disse.

Contribuindo para o tema, Portela, da AGU, lembrou que o fracasso é parte do processo de inovação. “Também faz parte do aperfeiçoamento estatal buscar o setor privado. A interação entre entidade reguladas e órgãos reguladores é muito saudável”, expôs.

Ele anunciou que, em novembro, será lançado o Guia de Segurança Jurídica no Ambiente de Negócios, que abordará o Marco das Startups. “O guia será uma ferramenta prática para gestores que desejam inovar com segurança jurídica, incluindo cases nacionais, e ajudará a trilhar uma jornada de boas práticas regulatórias, com foco no Sandbox Regulatório.”

Durante o painel, os participantes concordaram que a flexibilização regulatória pode acelerar inovações no setor. Todos destacaram a importância de manter a segurança do paciente e a qualidade dos serviços. A redução de burocracia, a promoção de modelos alternativos de gestão e a melhora na eficiência dos processos também foram apontadas como benefícios significativos. Além disso, a colaboração entre setor público e privado foi considerada essencial para o sucesso do modelo.

Com ajuda da IA, radiologia do futuro será mais precisa e mais atuante no tratamento de doenças

* Giovanni Cerri

A inteligência artificial (IA) está mudando o dia a dia dos radiologistas mundo afora. A possibilidade que ela oferece de melhorar a precisão diagnóstica, prevenir erros médicos ou formular laudos com mais agilidade tem criado uma “cultura” na área.

Programas e equipamentos antes exclusivos dos centros de pesquisa experimentais estão sendo integrados ao cotidiano de qualquer hospital. Logo, longe de substituir o radiologista, a inteligência artificial está, na verdade, criando demanda por novo perfil de profissional, capaz de compreender e operar com desenvoltura novas ferramentas digitais.

O mesmo vale para os dispositivos de realidade aumentada, que permitem modelar em 3D o que antes seria uma imagem bidimensional, como uma radiografia. Com isso, melhora muito a comunicação entre radiologistas e cirurgiões, por exemplo, já que os primeiros podem indicar com maior acurácia onde exatamente deve ocorrer a intervenção cirúrgica.

Mesmo as atividades mais tradicionais da área estão ganhando sofisticação. Hoje contamos, por exemplo, com métodos híbridos para o diagnóstico do câncer e outras doenças, como a PET-CT e a PET/RM (ou PET-Ressonância), ambas combinações de duas modalidades distintas de tomografias em um único exame de imagem.

O armazenamento em nuvem também está tornando mais fácil levantar o histórico de um paciente. Com a digitalização e integração dos acervos de diferentes instituições de saúde, os médicos dependerão cada vez menos daquela famosa “pastinha” com exames que o paciente leva embaixo do braço para sua consulta.

Todos esses movimentos têm um ponto em comum: o radiologista do futuro precisará de um grau maior de domínio da tecnologia.

No entanto, as mudanças da área não dizem respeito só a quesitos como precisão ou agilidade, mas também à função da radiologia no sistema de saúde. Cresce a noção de que ela não deve se restringir à etapa do diagnóstico, servindo, portanto, de “apoio” às demais especialidades. O radiologista vem ganhando espaço também no âmbito do tratamento.

O conceito de teranóstico (combinação de diagnóstico e tratamento numa única prática terapêutica) descreve essa nova e crescente realidade. É o caso da medicina nuclear, em que o radioisótopo injetado no paciente para identificar um tumor pode, simultaneamente, dar início ao tratamento desse câncer.

Como o Brasil pode se preparar para esse futuro? Em primeiro lugar, é preciso investir em infraestrutura hospitalar e digital, garantindo a disponibilidade dessas tecnologias modernas para o maior número possível de pessoas.

Mas há um desafio ainda maior. O Brasil precisa mudar a formação de seus radiologistas, preparando esses profissionais não para a rotina que encontrarão hoje em um hospital, mas para a medicina dos próximos 30 ou 40 anos. Isso exigirá um grande esforço por parte das faculdades de medicina, públicas ou privadas.

Essa é uma tarefa fundamental para assegurar a sustentabilidade da saúde brasileira. Nossa população está ficando mais velha. O último Censo apontou que mais de 15% da população brasileira já é formada por pessoas com mais de 65 anos, índice que era de apenas 10% uma década atrás. Mantido o ritmo atual de envelhecimento, os idosos serão quase 40% da população brasileira em 2070.

Isso significa, dentre outras coisas, que precisamos de medicina preventiva eficiente, capaz de evitar doenças crônicas associadas ao envelhecimento e de prevenir doenças. Isso depende de uma radiologia moderna, precisa e ágil.

Investir em uma radiologia mais tecnológica e, sobretudo, num profissional preparado para essa nova realidade da profissão é investir no futuro da saúde no Brasil.

*Giovanni Cerri

Presidente do Conselho Diretor do Instituto de Radiologia (InRad) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina e do Conselho de Administração do Instituto Coalizão Saúde (ICOS).

19/11/2024

Anvisa apresentou atualização da Agenda Regulatória e Estratégica 2024-2025 aos associados da Abramed

Destaque para a revisão da RDC 786/2023, que exige celeridade, e para o projeto “Com a Visa no Peito”, apoiado pela entidade

18 de novembro de 2024 – A Anvisa apresentou aos associados da Abramed, durante a Reunião Mensal de Associados (RMA) de outubro, a atualização tanto da Agenda Regulatória para serviços de saúde 2024-2025 quanto da Agenda Estratégica, com destaque para o projeto “Com a Visa no Peito”, apoiado pela entidade.

O encontro aconteceu no Grupo Sabin, associada da Abramed, marcando a primeira edição de uma RMA fora de São Paulo. Pela Anvisa, participaram Daniel Meirelles, diretor da Terceira Diretoria, e Marcia Gonçalves de Oliveira, gerente-geral da Gerência Geral de Tecnologia em Serviços de Saúde (GGTES).

As boas-vindas ficaram a cargo da anfitriã, Lídia Abdalla, CEO do Grupo Sabin e vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed. “É um privilégio receber a Anvisa para uma reunião transparente e produtiva, discutindo o que é relevante para o avanço e fortalecimento do setor de medicina diagnóstica”, disse.

As fundadoras do Grupo Sabin, Sandra Soares Costa e Janete Vaz, respectivamente presidente e vice-presidente do Conselho de Administração, também participaram da abertura. “Reconhecemos a importância da Abramed e valorizamos seu papel essencial em levar as demandas regulatórias do setor de saúde diretamente à Anvisa”, disse Sandra.

Janete fez uma breve retrospectiva da história do Sabin, que hoje tem 353 unidades no Brasil, em 16 estados, com mais de 7 mil colaboradores. “É preciso ter coragem para tirar o pé da zona de conforto, acreditando em nosso propósito e caminhando para que ele aconteça. Todos aqui nesta reunião estão em prol de um propósito que faz toda a diferença”, ressaltou.

Para Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed, uma RMA fora de São Paulo é a forma de estar mais próximo dos associados de outros estados. “Queremos mostrar que todas as empresas são importantes e colaboram para o desenvolvimento do setor, das pequenas às maiores. É fundamental esse momento de união”, disse. Sobre a presença de Anvisa, salientou a relevância do diálogo para a melhoria do setor através do trabalho em conjunto.

Complementando, Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, lembrou que todas as pautas discutidas na reunião estão sendo trabalhadas conjuntamente com a agência, inclusive o projeto “Com a Visa no Peito”. “Ele é um exemplo de trabalho colaborativo e da importância de realizar ações em prol de toda a sociedade. Não adianta apenas demandarmos e exigirmos da instituição reguladora sem fazermos nossa parte para contribuir com o desenvolvimento do setor. Gostaria de agradecer pela parceria, pela abertura e pela troca constante”, expôs.

Pautas estratégicas

Em sua apresentação, Marcia ressaltou que a Terceira Diretoria da Anvisa tem se dedicado a avaliar os impactos econômicos dos regulamentos. “Nos preocupamos em mitigar ou eliminar riscos sem causar prejuízos, sempre em alinhamento com o SUS, para que sejamos uma agência confiável para toda a população”, afirmou.

Entre os objetivos estratégicos da Anvisa, destacou a promoção do uso intensivo de dados. “Essa é a nossa visão de futuro: todos precisamos tomar decisões baseadas em dados e informações. Estamos alinhando nossos processos de trabalho com esse propósito, para realmente entregar valor à sociedade.”

Entrando no tema da Agenda Regulatória 2024-2025, Marcia abordou, entre outras normas, o processo de revisão da RDC 50/2002. O Projeto Regulatório 15.3, voltado à infraestrutura dos Estabelecimentos Assistenciais de Saúde, está em fase de ajustes finais pela Gerência de Regulamentação e Controle Sanitário em Serviços de Saúde (Grecs), após receber contribuições significativas em uma consulta dirigida. A proposta, que teve 1.296 sugestões de alterações, incluiu contribuições de nove estados, onze municípios e cinco entidades do setor de saúde, como Abramed, Anahp e CNSaúde, além do Ministério da Saúde e especialistas. O processo está com o diretor relator Romison Mota, aguardando deliberação final pela DICOL. “Falta análise e tabulação de 67% das contribuições de propostas de ajuste, segundo dados de outubro de 2024”, revelou Marcia.

Ligada à RDC 786/2023, está previsto o Projeto Regulatório 15.6, que estabelece um Regulamento Técnico para o Funcionamento de Provedores de Ensaios de Proficiência para Serviços que realizam Exames de Análises Clínicas. O processo administrativo regulatório já foi aberto, e as atividades regulatórias estão previstas para começar em 2025, com a realização da Avaliação de Impacto Regulatório (AIR).

Ainda sobre a RDC, há o Projeto Regulatório 15.7, referente aos Requisitos Sanitários para o funcionamento de Laboratórios Clínicos e postos de coleta laboratorial. A revisão começou em julho de 2024, focando em ajustes pontuais discutidos em dois grupos: um com representantes do setor regulado e outro com membros do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), Conass, Conasems e Ministério da Saúde. A Análise de Resultado Regulatório (ARR) da RDC 786/2023 identificou dispositivos que dificultam a implementação da norma, incluindo artigos conflitantes, erros conceituais e de forma.

Os principais temas em discussão do Projeto Regulatório 15.7 incluem contratualização das atividades, comparação entre central de distribuição e entrepostos, informações contidas nos laudos, separação dos requisitos dos serviços tipo I, que abrangem farmácias e consultórios isolados, além de controle de qualidade.

Marcia alertou sobre a necessidade de cautela. “Se buscarmos implementar mudanças profundas na RDC, não conseguiremos aprová-la em 2024, sendo que é uma agenda prioritária. Temos um limite de atuação e contamos com a parceria de todos para viabilizar sua aprovação ainda este ano. Não podemos perder essa janela de oportunidade, pois, do contrário, corremos o risco de comprometer todo o trabalho realizado.”

Ela também abordou o processo regulatório relativo aos requisitos técnico-sanitários específicos para os Laboratórios de Anatomia Patológica, que já são contemplados na RDC 786/2023. Embora as diretrizes se apliquem aos dispositivos de laboratórios de análises clínicas, especialmente no que tange aos requisitos de Gestão da Qualidade e diretrizes operacionais, identificou-se que as particularidades da fase analítica exigem detalhamento em um regulamento complementar. As atividades regulatórias estão previstas para iniciar em 2025, e em outubro deste ano, foi realizada uma reunião com a Abramed para discutir o tema.

Roteiros de Inspeção

Entrando na Agenda Estratégica de Serviços de Saúde, Marcia disse que, para o período de 2024 a 2027, a ênfase estará no monitoramento e na intervenção em riscos potenciais identificados. As ações incluirão a sequência e ampliação das frentes estruturantes, harmonização de novos instrumentos e sua incorporação na rotina das Visas, além de uma ampliação na oferta de capacitação. A GGTES, juntamente com estados e municípios, direcionará suas ações para este mesmo foco.

Dentro deste contexto, ela destacou a harmonização de Roteiros de Inspeção (ROI), que objetiva padronizar e qualificar as ações de inspeção em todo o país, permitindo a obtenção de dados reais e atualizados sobre a situação dos serviços de saúde. Há 19 Roteiros de Inspeção, com destaque para os de Mamografia e Controle de Qualidade em Mamografia, que fazem parte do Projeto Com a Visa no Peito.

A metodologia utilizada é a de Monitoramento de Análise de Risco e Roteiro de Inspeção (MARP/ROI), direcionada à avaliação do serviço de mamografia e ao controle de qualidade do mamógrafo. O projeto também incentiva o preenchimento da Planilha Síntese, promovendo a transparência e a melhoria contínua.

Segundo Marcia, a questão é de grande importância, pois equipamentos mal calibrados geram imagens de baixa qualidade, o que pode resultar em erros de diagnóstico, aumentando a exposição à radiação e levando à necessidade de exames adicionais. Isso atrasa o tratamento e diminui as chances de cura. Além disso, esses problemas geram ineficiências nos serviços e elevam os custos para o SUS.

“Em 2024, o número de mamógrafos avaliados cresceu de 35 no início do ano para 208 até 24 de outubro. A meta é alcançar 300 até o final de dezembro”, disse Marcia, de acordo com o plano de gestão anual. Para facilitar a implementação das diretrizes, foi elaborada uma cartilha em colaboração com a Abramed, disponível neste link.

Sustentabilidade e inovação

Na sequência, Daniel Meirelles, diretor da Terceira Diretoria da Anvisa, reforçou que a agência possui grande maturidade, mas precisa avançar ainda mais, especialmente considerando a sustentabilidade econômica do setor. “Cada RDC emitida impacta financeiramente todos os agentes de saúde, com a vigilância sanitária sendo uma das áreas que mais gera externalidades econômicas negativas, muitas vezes não percebidas diretamente. As medidas afetam o setor, que já enfrenta dificuldades e é subfinanciado, embora realizemos muito com os recursos limitados do Brasil”, afirmou.

Ele também comentou que cada vez mais, novas tecnologias vêm transformando a área de saúde, substituindo serviços por produtos, como as tecnologias point of care e a inteligência artificial. “A agência reguladora não pode ser um obstáculo ao avanço do setor; ao contrário, ela deve atuar como um guia, estabelecendo limites claros para garantir a segurança. É um grande desafio, pois envolve múltiplos interesses. Diariamente, a Anvisa trabalha para manter essa régua sempre precisa, calibrada e presente, acompanhando inovações e participando ativamente das discussões sobre serviços e da articulação com todo o sistema”, expôs.

Daniel destacou a importância de se preparar para integrar a inovação de maneira segura, enfatizando que a melhor abordagem é por meio de uma parceria entre a agência reguladora, a indústria, as empresas de serviços e a academia, unindo conhecimentos para encontrar soluções eficazes. Ele citou como exemplo a RDC 786/2023, que moderniza o marco regulatório dos exames de análises clínicas no Brasil. “A regulamentação nunca pode ser um obstáculo; ela deve funcionar como uma ponte, um veículo, um farol”, ressaltou.

Debate

Logo após, foi realizado um debate sobre os Temas da Agenda Regulatória da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, com Marcia e Meirelles, sob moderação de Nomura. Segundo o moderador, é fundamental que entidades como a Abramed apoiem projetos que aprimorem todo o ecossistema de saúde. “A medicina nuclear, por exemplo, é de extrema importância, e nosso objetivo é colaborar para ampliar o acesso a ela. Para isso, precisamos trabalhar em conjunto, compreendendo tanto a relevância das RDCs quanto os impactos que elas geram”, destacou Nomura.

Em relação à RDC 786/2023 e os locais para realização de exames, Meirelles fez questão de dizer que no caso de permitir que alguns procedimentos sejam realizados fora do laboratório, a agência analisa até onde isso é aceitável com o propósito de aumentar o acesso, e até onde devem ser impostos limites devido a critérios sanitários. “Há diferenças de estrutura e acesso no Brasil que precisam ser consideradas. Não há preferência por um caminho específico; vamos sempre nos guiar pelas melhores evidências e práticas. O processo regulatório na Anvisa preconiza essa abordagem. Vale lembrar que a regulação é feita para ser dinâmica, o que é absolutamente normal”, expôs.

Ainda a respeito da RDC 786/2023, Marcia aproveitou para explicar os três tipos de serviços: o tipo 1, que abrange exames realizados em farmácias e consultórios isolados; o tipo 2, referente aos postos de coleta; e o tipo 3, para laboratórios clínicos. “Temos instrumentos padronizados para cada um, disponíveis para uso pelas vigilâncias sanitárias, mas, até o momento, não houve a aplicação de nenhum formulário do ROI tipo 1. Sabemos que é necessário investir na divulgação desses instrumentos, pois pode haver certa insegurança devido ao processo de revisão da norma, mas o documento existe e está acessível, embora ainda sem uso”, disse.

Segundo ela, é preciso respeitar a descentralização, reconhecendo que existem ações e instrumentos locais. “Estamos trabalhando para padronizar e fortalecer o sistema, mas ainda enfrentamos desafios. O instrumento já está disponível para uso, então é essencial que promovamos essa cultura de adesão”, acrescentou.

Ao término do encontro, Lidia agradeceu mais uma vez e reforçou que a Abramed está à disposição para abraçar novos projetos. “A principal mensagem é de colaboração. E seguimos trabalhando por uma medicina diagnóstica mais segura e acessível para a população”, concluiu. A RMA finalizou com uma visita guiada ao Núcleo Técnico Operacional do Grupo Sabin.

Novembro Azul: a importância do cuidado integral com a saúde masculina

Segundo a Abramed, em 2023, as mulheres realizaram mais exames de imagem e de análises clínicas que os homens

Novembro de 2024 – O Novembro Azul é mais do que uma campanha focada no câncer de próstata; ele reforça a importância de cuidar da saúde masculina como um todo. Em 2023, a Abramed constatou que as mulheres realizaram mais exames de imagem e de análises clínicas do que os homens, refletindo um comportamento recorrente de menor atenção à própria saúde. Os dados são da sexta edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico.

Esse descuido tem consequências significativas. Globalmente, os homens apresentam expectativa de vida menor do que as mulheres e possuem maior probabilidade de falecer antes dos 70 anos. Segundo dados de 2019 do Ministério da Saúde, aproximadamente 56% das mortes por Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs) ocorrem entre homens, evidenciando sua maior vulnerabilidade a essas condições.

Entre as principais causas de morte estão infarto agudo do miocárdio, doenças cerebrovasculares – como Acidente Vascular Cerebral (AVC) e hemorragia subaracnóidea – câncer de próstata, câncer de brônquios, traqueia e pulmões, além de cirrose hepática. Esses dados reforçam a necessidade de atenção e conscientização constantes sobre a saúde masculina.

A Abramed destaca a importância do diagnóstico precoce na identificação e no tratamento de condições graves. Alex Galoro, Líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da entidade, alerta que muitas doenças poderiam ser mais bem tratadas se houvesse uma cultura mais forte de autocuidado e prevenção entre os homens. “O estigma de que procurar o médico é sinal de fraqueza ou algo desnecessário ainda persiste, e isso afeta a detecção precoce de doenças como hipertensão, diabetes e câncer de próstata, cujo tratamento é mais eficaz quando iniciado logo no início dos primeiros sintomas”, explica.

Para uma saúde plena, também é preciso adotar hábitos saudáveis, como a prática regular de atividades físicas, ter uma alimentação equilibrada e evitar o consumo excessivo de álcool e tabaco. “O autocuidado deve ser estimulado por meio de políticas públicas e campanhas, como o Novembro Azul, que incentivam os homens a priorizar sua saúde”, acrescenta Galoro.

Fatores emocionais, como o estresse e a ansiedade, que frequentemente são negligenciados, também afetam a qualidade de vida e o bem-estar dos homens. Estudos indicam que uma rotina que inclua momentos de descanso, atividades de lazer, apoio social e acompanhamento psicológico, quando necessário, pode auxiliar na prevenção de doenças e no controle de condições crônicas.

“É fundamental que os homens adotem uma visão mais ampla sobre seu bem-estar, buscando não apenas o tratamento de doenças, mas também a prevenção por meio de hábitos saudáveis. Superar a resistência cultural à busca por cuidados médicos é essencial para garantir uma vida mais longa e saudável”, conclui Galoro.

Câncer

No Brasil, o INCA projeta que, entre 2023 e 2025, cerca de 239 mil homens serão diagnosticados com câncer a cada ano. Excluindo-se o câncer de pele não melanoma, o tipo mais comum entre os homens é o câncer de próstata, responsável por aproximadamente 30% dos casos, seguido pelos de cólon e reto (9,2%), pulmão (7,5%), estômago (5,6%) e cavidade oral (4,6%).

No caso do câncer de próstata, a investigação inicial da doença geralmente é feita por meio de dois exames principais, segundo o Ministério da Saúde. O primeiro é o toque retal, que permite verificar o tamanho, a forma e a textura da próstata, além de avaliar possíveis alterações nas partes posterior e lateral do órgão. O segundo exame é o PSA, realizado a partir de uma amostra de sangue. O teste mede a quantidade do Antígeno Prostático Específico, uma proteína produzida pela próstata. Níveis elevados dessa proteína podem indicar câncer, embora também possam ser causados por condições benignas da próstata.

Para confirmar a presença de câncer de próstata, é necessário realizar uma biópsia, que consiste na retirada de pequenas amostras da próstata para análise laboratorial. Esse exame é recomendado quando há alterações suspeitas no toque retal ou nos níveis de PSA. O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomendam o rastreamento do câncer de próstata sem a orientação médica e antes dos 45 anos.

Abramed assina atualização do acordo setorial pela ética em saúde, liderado por IES e ANS

Foram incorporadas diretrizes específicas relacionadas ao uso de algoritmos de inteligência artificial, considerando suas vantagens e riscos

13 de novembro de 2024 – No dia 7 de novembro de 2024, durante o Rio Health Fórum, Milva Pagano, diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), assinou a atualização do Marco de Consenso para a Colaboração Ética Multissetorial na Área de Saúde, liderado no Brasil pelo Instituto Ética Saúde (IES) e pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Esse marco, lançado em 17 de agosto de 2021 no país, foi firmado por mais de 35 entidades, além de instituições governamentais e reguladoras. Em 2023, o Vaticano chamou atenção para o tema “Ética dos Algoritmos” para garantir que o uso da inteligência artificial seja de fato para o bem da humanidade. Por isso, vai promover, de 25 a 29 de novembro de 2024, o VIII Seminário de Ética no Gerenciamento da Saúde, na Itália.

Com base nisso, a atualização de 2024 incorporou diretrizes específicas relacionadas à ética no uso de algoritmos de inteligência artificial, reconhecendo tanto as vantagens quanto os riscos e vieses que essas ferramentas podem apresentar.

Os novos itens introduzidos no documento destacam a necessidade de programas de educação e treinamento que assegurem a confidencialidade e o uso responsável da IA. As partes signatárias também se comprometem com o cumprimento do dever de informar sobre o uso dessas tecnologias, a não substituição completa da decisão humana e a responsabilização dos envolvidos.

“A assinatura do Marco de Consenso reforça o compromisso da Abramed em manter os mais altos padrões no setor de medicina diagnóstica. Para nós, a responsabilidade ética é fundamental em todas as fases do diagnóstico, principalmente ao adotar novas tecnologias, como a inteligência artificial. Esta atualização é essencial para garantir que essas inovações sejam utilizadas de forma segura e responsável, priorizando a precisão e a confidencialidade dos dados dos pacientes”, disse Milva.

O acordo setorial, considerado um dos maiores do mundo na área da saúde, foi assinado por representantes de entidades como Abimed, Abiis, Abimo, Interfarma, entre outras, além de empresas e figuras públicas, com o apoio de instituições como Opas, Fiocruz e o Ministério da Saúde. O objetivo é fortalecer a confiança e colaboração em questões éticas, promovendo um ambiente de integridade e transparência na saúde brasileira.

Câncer de Mama: a importância da qualidade na mamografia para um diagnóstico preciso

* João Henrique Campos de Souza

No contexto do Outubro Rosa, é essencial ressaltar como a qualidade dos serviços de mamografia impacta diretamente o diagnóstico precoce do câncer de mama. Mamografias que atendem a padrões rigorosos de precisão, segurança e eficácia são fundamentais para identificar alterações sutis nos tecidos mamários, como pequenos nódulos ou microcalcificações, que podem indicar câncer em estágio inicial. A detecção precoce aumenta significativamente as chances de sucesso no tratamento.

Imagens de alta qualidade são essenciais para avaliar a extensão do tumor e auxiliar na escolha do tratamento mais adequado, seja cirúrgico, radioterápico ou medicamentoso. Elas também são importantes no monitoramento da resposta do tumor às terapias, permitindo a detecção precisa de mudanças no tamanho ou na forma do tumor e a realização de ajustes no tratamento. Assim, a qualidade da mamografia não apenas acelera o diagnóstico, mas também melhora o tratamento, aumentando as chances de cura e sobrevida para pacientes com câncer de mama.

Além disso, impacta diretamente na experiência do paciente e na confiança no exame, influenciando tanto o conforto físico quanto a confiança nos resultados. Em contraste, exames feitos com equipamentos inadequados podem resultar em diagnósticos imprecisos, aumentar a exposição à radiação e exigir procedimentos adicionais.

Vale lembrar que problemas técnicos que levam à repetição de mamografias não apenas afetam a saúde das pacientes, mas também sobrecarregam o sistema de saúde com custos adicionais, gerando ineficiência e ansiedade. Cada repetição envolve gastos com equipamentos, tempo de profissionais e insumos, acumulando custos ao longo do tempo e interferindo na sustentabilidade de todo o ecossistema.

A literatura científica sobre os riscos dos exames de mamografia é muito extensa, o que traz segurança jurídica para estabelecer em norma os padrões de qualidade e de desempenho para os equipamentos, de modo a assegurar imagens cujos critérios físicos permitam identificar as alterações de maneira precisa.

Assim sendo, o serviço de mamografia que cumpre integralmente a legislação sanitária vigente (RDC/Anvisa nº 611/2022, a IN/Anvisa nº 92/2021, entre outras) tem a garantia de que o seu equipamento opera conforme os padrões internacionalmente harmonizados para a segurança, qualidade e desempenho.

E justamente para reduzir riscos nos serviços de saúde e fortalecer a qualidade dos equipamentos de mamografia no Brasil, em 8 de março de 2024, a Anvisa lançou o Projeto Com a Visa no Peito, uma iniciativa da Gerência Geral de Tecnologia em Serviços de Saúde (GGTES).

O projeto busca promover o uso de dois roteiros: ROI Mamografia, que é aplicado nos serviços de mamografia, e ROI Controle de Qualidade, destinado à avaliação dos equipamentos. Ambos foram elaborados com a participação ativa do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS).

Esses roteiros permitem obter um panorama dos serviços de mamografia no país, identificando riscos potenciais para intervenções da vigilância sanitária. A implementação dos ROI também traz ganhos perceptíveis aos serviços inspecionados, pois agrega transparência, clareza, objetividade e previsibilidade.

Para divulgar essa iniciativa, a Anvisa fechou parceria com a Abramed, lançando uma cartilha para gestores de saúde que facilita o monitoramento de conformidade e a detecção de não conformidades, incentivando a melhoria contínua. A publicação está disponível aqui.

Acredito que o sucesso de qualquer ação de governo na área da saúde depende do envolvimento do setor regulado. A parceria com a Abramed, uma entidade de referência no setor de diagnóstico, é estratégica para melhorar a qualidade da medicina diagnóstica no Brasil. A expertise da entidade permitirá otimizar os resultados do projeto.

Ao priorizar a qualidade, não apenas estamos contribuindo para a saúde individual, mas também para a saúde coletiva, promovendo melhores desfechos. Empresas e gestores de saúde devem priorizar a excelência dos equipamentos, afinal, esse compromisso resulta em tratamentos mais eficazes e um sistema de saúde mais regulado, seguro, confiável, sustentável e eficiente.

*João Henrique Campos de Souza

Gerente de regulamentação e controle sanitário em serviços de saúde (Grecs/GGTES) da Anvisa. Bacharel, Mestre e Doutor em física pela Universidade de Brasília, com Pós-doutorado em física pela Université de Montréal, Canadá. É especialista em vigilância sanitária pela Fiocruz e especialista em regulação e vigilância sanitária da GGTES/Anvisa desde 2005.

28/10/2024

Empresas de medicina diagnóstica ampliam inclusão de profissionais experientes em alinhamento a práticas de ESG

Segundo a Abramed, as políticas formais de diversidade e inclusão nas associadas cresceram de 17%, em 2022, para 50%, em 2023.

18 de outubro de 2024 – O envelhecimento populacional no Brasil é uma realidade incontestável, com a projeção de que, até 2060, 33% da população será composta por idosos (60+), conforme dados do Censo 2022 e projeções do IBGE. Esse cenário traz desafios e oportunidades, principalmente para o mercado de trabalho. A inclusão de profissionais acima de 60 anos está se tornando uma questão central no âmbito de ESG, considerando os impactos sociais e a sustentabilidade das empresas.

De olho nessa realidade, as empresas de medicina diagnóstica estão cada vez mais focadas em promover diversidade e inclusão, como revela a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed). Segundo a sexta edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico, as políticas formais de diversidade e inclusão nas associadas cresceram de 17%, em 2022, para 50%, em 2023.

Em outra comparação, 75% das empresas relataram que até 10% de seus colaboradores tinham mais de 50 anos, em 2022. Já em 2023, a situação melhorou levemente, com 50% indicando que entre 11% e 20% de seus colaboradores estão nessa faixa etária. Mesmo que ainda haja espaço para melhorias, o resultado sugere um movimento em direção à inclusão de profissionais mais experientes.

Segundo Regiane Saladino, presidente do laboratório Biofast, associada da Abramed, os profissionais 60+ agregam uma riqueza de conhecimento prático, indispensável para decisões críticas e complexas que envolvem precisão e responsabilidade, como na medicina diagnóstica. “Sua presença pode criar uma cultura de respeito e aprendizado mútuo, o que é especialmente valioso em um campo onde a qualidade do atendimento e a precisão na interpretação diagnóstica são fundamentais”, diz.

Para ela, a inclusão desses profissionais nas empresas de saúde não é apenas uma questão de justiça social, mas também um importante indicador social que promove a diversidade geracional. Essa diversidade é essencial para uma gestão mais abrangente e sensível, especialmente no contexto das práticas de Governança Corporativa.

“Com a inclusão de colaboradores mais experientes no processo de tomada de decisões, as empresas podem garantir que suas ações estejam alinhadas com os princípios de sustentabilidade e responsabilidade social, criando um ambiente de trabalho mais respeitoso e conectado com os valores da comunidade”, declara Regiane.

Iniciativas e integração com tecnologias

Para promover a inclusão de profissionais 60+, as empresas do setor de medicina diagnóstica têm adotado algumas medidas, como a flexibilização de horários e melhorias na acessibilidade física e tecnológica. “Além disso, a implementação de programas de treinamento e requalificação ajudam a garantir que esses colaboradores se sintam valorizados e aptos a lidar com as inovações tecnológicas, assegurando que suas contribuições sejam plenamente aproveitadas”, expõe.

Na questão de tecnologia, Regiane defende uma abordagem cooperativa e sensível. Segundo ela, é fundamental criar um ambiente de aprendizado contínuo, onde esses colaboradores possam não apenas ser treinados, mas também compartilhar suas valiosas experiências.

“A inclusão deles nas equipes de inovação pode enriquecer o processo, garantindo que decisões e soluções levem em conta a sabedoria acumulada ao longo de suas carreiras, especialmente em um setor que lida com questões críticas de saúde e precisão”, complementa.

Regiane lembra que o idoso atual é cada vez mais ativo fisicamente e apresenta alto grau de funcionalidade e independência. Profissionais com mais de 60 anos, oriundos da geração baby boomer, são conhecidos pela busca de relações profissionais mais estáveis e pela sua tendência a permanecer por longos períodos no mesmo emprego.

“A inclusão dessa geração no mercado de trabalho não apenas traz experiência e comprometimento, mas também é vital para a formação de uma força de trabalho mais diversificada, refletindo as necessidades de uma sociedade em rápida transformação”, ressalta.

A Abramed, ao incluir em sua publicação anual os dados de diversidade e inclusão de suas associadas, demonstra preocupação com temas relacionados a ESG, reconhecendo que esses pilares são fundamentais para o desenvolvimento sustentável e ético do setor. “No longo prazo, a adoção dessas práticas fortalece a resiliência do setor de medicina diagnóstica, ao alinhar-se às exigências da sociedade, dos investidores e de um mercado cada vez mais consciente sobre seu impacto social e ambiental”, complementa Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed

Abramed participou de painel sobre inovação em saúde e inteligência artificial, durante o Conahp 2024

Foram discutidos o uso e os desafios da GenAI na medicina, além do desenvolvimento de algoritmos para diagnósticos mais eficientes

18 de outubro de 2024 – Contribuindo ativamente para o debate sobre inovação em saúde, a Abramed participou do Congresso Nacional de Hospitais Privados (Conahp), evento anual promovido pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), em São Paulo. O presidente do Conselho de Administração da Abramed, César Nomura, além de marcar presença na cerimônia de abertura, teve um papel central ao moderar o painel “Inovação em Saúde: Medicina Baseada em Inteligência Artificial”, realizado no dia 16 de outubro, trazendo discussões relevantes sobre o impacto da IA no setor.

Os debatedores foram Chao Lung Wen, professor e chefe da Disciplina de Telemedicina da FMUSP; Marco Bego, diretor-executivo do Instituto de Radiologia (InRad) do HCFMUSP e Chief Innovation Officer do InovaHC; e Victor Gadelha, head de Educação, Pesquisa e Inovação da Dasa e TEDx Speaker.

Entre os principais assuntos discutidos estiveram a transformação da saúde com novas plataformas de inteligência artificial baseadas em Grandes Modelos de Linguagem (LLMs), o uso e os desafios da inteligência artificial generativa (GenAI) na medicina, além do desenvolvimento de algoritmos para diagnósticos mais eficientes e suas aplicações em telessaúde, radiologia e monitoramento de pacientes.

Compartilhando sua experiência, Bego contou que o InRad começou a trabalhar com IA antes da pandemia. “Fechamos uma parceria com a Siemens para desenvolver algoritmos e criamos um laboratório para estudar o assunto, pois recebíamos muitas startups e pesquisadores interessados em trabalhar com IA, mas enfrentávamos dificuldades para acessar dados e treinar os algoritmos.”

Quando estavam no início dessa estruturação, a pandemia de Covid-19 começou. O InRad, então, iniciou parceria com uma empresa chinesa e outra americana, com o objetivo de usar algoritmos para acelerar o processo de diagnóstico da doença. “Auxiliamos 50 hospitais de campanha em todo o país, realizando mais de 35 mil diagnósticos de Covid-19 naquela época”, contou.

Com essa experiência, a equipe aprendeu que apesar do potencial de impacto da IA, ela precisa ser introduzida com um propósito claro e no momento adequado na cadeia de cuidado. “Após essa fase inicial, passamos a focar mais em pesquisa, com o laboratório funcionando plenamente. Agora, estamos na fase de aplicação prática”, disse.

Para citar soluções de sucesso aplicadas no Dasa usando IA, Gadelha contou que dos exemplos mais bem-sucedidos é o acelerador de ressonância magnética, que permitiu aumentar a velocidade dos exames em cerca de 30% a 40%. Isso não só reduz o tempo que o paciente permanece no equipamento, como também possibilita maior rentabilidade ao otimizar o uso das máquinas.

Outra aplicação é o uso de IA para leitura de laudos, implementado principalmente no eixo Rio-São Paulo. Todas as noites, por volta das 2h, mais de 50 algoritmos analisam automaticamente os laudos em busca de achados clínicos relevantes, como nódulos pulmonares e alterações renais. Ao todo, são 55 tipos de lesões identificadas, e essas informações são encaminhadas ao núcleo de assessoria médica, com uma priorização baseada na relevância clínica.

“Isso tem um impacto direto na jornada dos pacientes, permitindo que casos críticos sejam atendidos com maior rapidez. Como resultado, conseguimos melhorar em 18 pontos percentuais a taxa de retorno desses pacientes à linha de cuidado e reduzimos em 10 a 12 dias o tempo total da jornada de atendimento. Essas iniciativas geraram muito valor ao cuidado”, ressaltou.

Alertando para a importância da qualidade da base de dados, Chao apontou que a IA generativa genérica não possui precisão adequada e comete erros. “As IAs disponíveis no mercado não são as mais adequadas para a área médica. Se o objetivo é utilizá-las para evidências científicas, é necessário treiná-las com bases de dados de revistas científicas, o que muitos fornecedores já oferecem. Além disso, a IA é eficaz para emular raciocínios a partir de perguntas feitas, criando um encadeamento lógico. Isso caracteriza uma IA orientada para a construção de raciocínio”, explicou.

O professor também ressaltou que, na telemedicina, a IA generativa pode ser útil em entrevistas pré-atendimento, pois permite levantar, em cerca de 30 segundos, os pontos principais que o profissional deve explorar, considerando as queixas e o histórico do paciente. “Isso facilita a orientação do médico durante a entrevista estruturada, acelerando o processo. Outro uso importante é o acompanhamento por telemonitoramento de pessoas com doenças crônicas ou câncer”, acrescentou.

Chao lembrou que empresas como OpenAI e Google estão licenciando algoritmos para empresas. Assim, as instituições podem treinar a IA com suas próprias bases de dados, criando um sistema de orientação específico e personalizado.

Como começar?

Como os hospitais, principalmente os filantrópicos, podem começar a usar IA, considerando que precisam fazer escolhas criteriosas? Para Bego, o uso da IA é transformador e necessário. No entanto, seu uso deve ser focado na resolução de um problema específico. Ele citou um dos trabalhos do InRad, que consistiu em um sistema para sumarizar as informações do prontuário do paciente em três linhas. Se houvesse algo relevante, a informação deveria ser aberta para o radiologista.

“Após o teste, 87% dos sumários receberam classificações entre 4 e 5, sendo 5 a nota máxima. Além disso, 98% não apresentaram qualquer tipo de alucinação, um desempenho que superou as expectativas”, contou. Dessa forma, foi possível sumarizar 20 mil laudos ao mês por 500 reais, o que é uma solução ideal para hospitais com menos recursos.

Bego lembrou, no entanto, que a estruturação inicial não é barata, pois envolve o custo do conhecimento. “Quem quer entrar nessa área, precisa investir recursos para entender como a IA funciona e como ela pode resolver uma necessidade específica. A partir desse ponto, o processo começa a ganhar forma, permitindo a escolha dos próximos passos”, explicou.

Para iniciar a implementação de IA na saúde, Gadelha acredita que é melhor começar com aplicações simples, por exemplo, é possível utilizar modelos generativos, como o LLaMA da Meta (antigo Facebook), para classificar dados com qualidade e segurança. Assim, se for necessário identificar quantas pneumonias evoluíram de X para Y em um determinado período na UTI, o modelo pode gerar os indicadores em minutos.

“É impressionante o quanto avançamos na Dasa. Uma pesquisa endoscópica que, há alguns anos, envolvia 6 mil casos, agora, com IA generativa, abrange 120 mil casos. Nos últimos dois anos, saímos do impossível para o possível em muitas áreas de pesquisa”, explicou. Em resumo, a IA pode ser muito útil na classificação de dados e em indicadores de negócios, agradando inclusive o CEO da empresa.

Olhar para o futuro

Nomura questionou os participantes sobre os pontos principais de impacto da IA no futuro, em nível Brasil. Segundo ele, é preciso que estejamos sentados no cockpit do avião para dirigi-lo, não apenas sermos passageiros. “Não precisamos saber programar, mas, como líderes de instituições de saúde, precisamos promptar, ou seja, fazer perguntas e comandos adequados para extrair o máximo da IA”, disse.

Em sua resposta, Bego destacou áreas onde já é possível ver avanços. Ele acredita que a IA generativa terá um grande impacto na relação com os consumidores, especialmente em serviços como chatbots, onde a empatia e o tempo dedicado ao usuário podem ser maiores do que no atendimento humano. “Cito também os ganhos impressionantes no uso da IA para busca de informações e sumarização de dados, áreas que já mostram resultados claros”, expôs.

Na visão de Gadelha, o futuro da IA na saúde está profundamente ligado ao diagnóstico precoce e ao tratamento personalizado. E então explicou dois conceitos de fenótipo. O digital é a coleta contínua de dados sobre o comportamento e interações de uma pessoa com dispositivos digitais. O fenótipo profundo integra esses dados com informações biomédicas, como genética, exames laboratoriais e históricos médicos. “Isso permitirá a criação de gêmeos digitais, ou seja, modelos virtuais dos pacientes, que poderão ser comparados com grandes bancos de dados para identificar o melhor tratamento personalizado”, disse.

Com essa tecnologia, será possível aumentar o valor terapêutico, especialmente em áreas como a terapia gênica, que é extremamente custosa. “A IA está nos guiando para a próxima etapa da medicina: uma transição da medicina baseada em evidências para uma medicina baseada em precisão”, destacou.

Chao compartilhou uma visão futurista sobre o impacto da IA generativa, especialmente no contexto de robótica e monitoramento de saúde. Ele ressaltou o avanço dos robôs hiper-realísticos, capazes de responder em várias línguas, exemplificando o potencial da IA generativa tanto em forma física quanto em software.

O professor acredita que a IA generativa vocal, similar à Alexa, crescerá significativamente, e não se limitará a interações via chat. “Essa tecnologia terá um papel central dentro das casas, expandindo a atuação dos profissionais de saúde e possibilitando um monitoramento mais adequado. Até 2030, com o aumento da população idosa, o telehomecare e o telemonitoramento de qualidade de vida em domicílio se tornarão comuns”, acrescentou.

Embora os especialistas reconheçam que prever o futuro com exatidão é um desafio, todos concordaram que a IA generativa já está moldando o presente e abrirá novas fronteiras na saúde. Seja na otimização de processos, no diagnóstico precoce ou no monitoramento de pacientes, essa tecnologia promete transformar a forma como médicos e pacientes interagem, promovendo uma medicina mais personalizada, eficiente e acessível.

Por fim, Nomura comentou que existe uma revista dedicada exclusivamente à inteligência artificial aplicada à radiologia, que agora está expandindo seu foco para a medicina como um todo. Dentro dessa área, há uma seção específica voltada para a IA generativa, com centenas de algoritmos e inúmeras possibilidades de aplicação. “Para aproveitá-las ao máximo, é preciso fazer as perguntas certas. Como eu gosto de dizer, precisamos ter humildade para aceitar e utilizar essas ferramentas, reconhecendo que elas são uma tendência que, sem dúvida, irá permear a medicina de precisão”, finalizou.

Outubro Rosa: A Inteligência Artificial e a luta contra o câncer de mama

O uso da IA permite cuidados mais proativos e personalizados, aumentando as chances de detecção precoce e, consequentemente, melhorando os desfechos clínicos.

18 de outubro de 2024 – A Inteligência Artificial tem o enorme potencial de se tornar uma ferramenta auxiliar para o rastreamento do câncer de mama, o tipo da doença que mais acomete as mulheres no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). 

Entre suas funcionalidades está a capacidade de prever o risco de uma paciente desenvolver câncer de mama no futuro. Isso se dá por meio da análise de uma variedade de dados, incluindo históricos médicos, características genéticas, estilo de vida e resultados de exames anteriores.

Ao utilizar algoritmos avançados de aprendizado de máquina, a IA pode identificar padrões sutis que podem não ser facilmente perceptíveis a olho nu, permitindo uma avaliação mais precisa do risco individual.

“Essa previsão permite a implementação de protocolos de rastreamento personalizados e mais eficazes, que podem incluir exames de imagem mais frequentes, aconselhamento genético e intervenções preventivas direcionadas”, explica Marcos Queiroz, Membro do Conselho de Administração e Líder do Comitê Técnico de Radiologia e Diagnóstico por Imagem da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Israelita Albert Einstein.

Como resultado, as pacientes podem receber cuidados mais proativos e personalizados, aumentando as chances de detecção precoce e, consequentemente, melhorando os desfechos clínicos.

“Além disso, a IA auxilia tanto na detecção de lesões em exames mamográficos quanto na organização do fluxo de trabalho dos radiologistas. Ao classificar os exames entre ‘alto risco’ e ‘baixo risco’, a ferramenta permite priorizar aqueles que demandam maior atenção, diminuindo a carga de trabalho dos médicos diante do grande volume de exames realizados em programas de rastreamento populacional”, acrescenta Queiroz.

Integração de dados

O câncer de mama está sendo abordado de forma cada vez mais individualizada, e a integração de dados, aliada à gestão inteligente por meio de soluções de IA, permitirá uma personalização ainda maior. “A inteligência artificial ajudará não apenas a definir o tipo de rastreamento mais adequado para cada mulher, visando a detecção precoce, mas também a identificar o tratamento mais eficaz para o seu caso específico. Isso evitará exames desnecessários e tratamentos ineficazes”, salienta Queiroz.

Segundo ele, o futuro do rastreamento e do tratamento do câncer de mama envolve não apenas o avanço de novas tecnologias e equipamentos, mas também uma profunda integração de diferentes tipos de dados, como demográficos, clínicos, de imagem e genéticos. “Portanto o desenvolvimento simultâneo destas várias frentes certamente vai contribuir na abordagem do câncer de mama, desde a sua detecção até o tratamento”, diz.

Desafios

Quanto aos maiores desafios na aplicação da IA, Queiroz cita a dificuldade em replicar os resultados obtidos em populações controladas para a população geral, especialmente em diferentes países. Estudos de IA conduzidos em uma região ou país específico muitas vezes não podem ser generalizados para outras áreas, devido às particularidades de cada população, como variações genéticas, ambientais e de acesso aos serviços de saúde. “Por isso, investimentos na construção de bancos de dados locais são cada vez mais importantes”, acrescenta.

Outro grande desafio é a gestão do vasto volume de dados confidenciais gerados no setor de saúde, especialmente diante das rigorosas legislações de proteção de dados, como a LGPD no Brasil.

Veja mais: Número de mamografias realizadas na rede privada cresce 20%, segundo Abramed.

A inovação na construção de soluções eficientes para o futuro da saúde foi tema de debate promovido pela Abramed

Foram discutidos como equilibrar orçamento e inovação, além de formas de ampliar o acesso às novas tecnologias

17 de outubro de 2024 – A Reunião Mensal de Associados da Abramed (RMA) de setembro foi realizada no dia 27, no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. A programação contou com um debate sobre “O papel da inovação na construção de soluções eficientes para o futuro”, moderado por Marcos Queiroz, diretor de Medicina Diagnóstica no Hospital Israelita Albert Einstein e Líder do Comitê de Radiologia e Diagnóstico por Imagem da Abramed.

Cesar Nomura, diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês e presidente do Conselho de Administração da Abramed, auxiliou na condução dos temas junto aos participantes. Os debatedores foram Denise Santos, CEO da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo; Edgar Rizzatti, presidente da Unidade de Negócios Médico, Técnico, de Hospitais e Novos Elos do Grupo Fleury; e Sidney Klajner, presidente do Hospital Israelita Albert Einstein.

Para começar, Queiroz questionou os participantes sobre um ponto fundamental: como equilibrar, no mesmo orçamento, as demandas atuais dos hospitais com a implementação de inovações. Denise contou, então, a experiência da BP, que passou por três reformulações na área, tentando integrar o conceito à cultura organizacional. Além do orçamento destinado à tecnologia, havia também a necessidade de investimento específico para inovação. “Por isso, fizemos um redesenho e vinculamos a inovação à diretoria de estratégia, criando um braço focado na área de pessoas”, contou.

Para ela, o equilíbrio entre os orçamentos sempre é um desafio, mas a BP fez escolhas importantes. Neste ano, por exemplo, decidiu focar em projetos que se autofinanciam e que estão voltados para a produtividade, e essa estratégia começou a gerar resultados positivos. “O pensamento disruptivo precisa estar presente no dia a dia”, destacou.

Para o Grupo Fleury, este tema é de muita relevância, não em termos financeiros, mas pela importância estratégica, como expôs Rizzatti. “Hoje, enfrentamos um enorme desafio: vivemos uma dupla revolução, tanto na área digital quanto na biotecnologia, com inovações surgindo praticamente todas as semanas e a tarefa de compatibilizá-las”, disse.

É preciso, por um lado, construir o futuro e avançar sobre a base que já foi estabelecida e, por outro lado, também resolver os desafios do dia a dia, incorporando as tecnologias digitais, que costumam ter alto custo e, se não forem geridas com cuidado, podem consumir grande parte do orçamento. “Isso poderia deixar poucos recursos disponíveis para a inovação, que é tão importante para melhorar a qualidade, reduzir custos e otimizar prazos na área de medicina diagnóstica”, explicou.

Para Rizzatti, o grande desafio está em saber fazer escolhas estratégicas. Um olhar atento para a área de pesquisa e desenvolvimento é fundamental, pois ajuda a definir o pipeline tecnológico para resolver os problemas dos pacientes. “Ao mesmo tempo, precisamos incorporar inovações no atendimento, como a inteligência artificial, que está cada vez mais presente e essencial. Conciliar tudo isso com as restrições orçamentárias é o grande desafio que vivemos diariamente”, comentou.

Por sua vez, Klajner destacou a importância de discutir a inovação sob uma perspectiva cultural. Nesse contexto, declarou que a forma com que a instituição se organiza e permite que as pessoas se engajem tem a ver com o conhecimento de cada profissional. “Aqui no Einstein, o envolvimento da alta liderança é fundamental para que a inovação se torne um tema estratégico, com disseminação da cultura para toda a organização”, disse.

O ponto central, segundo ele, é que a inovação não avança sem uma abordagem colaborativa, afinal, nenhuma organização consegue fazer tudo sozinha de forma excepcional. Portanto, é importante observar o que outros setores estão desenvolvendo para adaptar esses avanços à saúde, o que já ocorre, por exemplo, com a medicina genômica.

“Uma organização que tem um propósito claro e utiliza a inovação para atingi-lo está, naturalmente, seguindo seu planejamento estratégico. Não importa se a inovação é tecnológica, processual, digital ou baseada em inteligência artificial; o importante é que, se existe uma maneira de entregar esse propósito de forma mais eficiente, ela não vai competir com o orçamento, mas sim contribuir para uma entrega de valor com o menor custo possível”, ressaltou.

Sobre comparação do Brasil com outros países, Klajner disse que aqui temos um verdadeiro celeiro de boas ideias, mas os desenvolvedores buscam atuar no exterior por conta da insegurança jurídica e tributária. “O ambiente para investidores aqui é pouco atrativo, ao contrário do que acontece em outros países, onde o estímulo é muito maior. Por isso, a maioria das startups brasileiras aspira expandir-se para fora. Ao mesmo tempo, curiosamente, o Brasil tem se tornado um destino para startups estrangeiras que veem no nosso ecossistema uma oportunidade para validar suas ideias”, explicou.

Além disso, no exterior, há um forte investimento em conhecimento e um ambiente estruturado para conectar pesquisadores com empresas capazes de escalar suas inovações. Isso é feito por meio de organizações especializadas em transferência de tecnologia, chamadas de TechTransfer, que transformam descobertas científicas em patentes e produtos. “No Brasil, não há empresas com know how em transferência de tecnologia”, disse.

Acesso a inovações

Conduzindo o debate, Queiroz comentou sobre a dificuldade em conectar as inovações que se observa em eventos e fóruns com a prática real. “Também enfrentamos o desafio de disseminar essas inovações por todos os níveis da organização. Uma terceira dificuldade diz respeito ao acesso”, comentou, fazendo uma pergunta sobre como garantir que o setor público tenha acesso às inovações, de forma a melhorar o atendimento.

Denise apontou que, mesmo fazendo parte do PROADI-SUS, a BP considera que há muito espaço para ampliar o acesso à saúde, e falou sobre colaboração. “Palavra bonita, mas extremamente desafiadora, especialmente entre nós, os hospitais, e entre os setores público e privado. Portanto, estamos buscando ampliar o ecossistema, trazendo novos atores. Um exemplo é nosso projeto com o InovaHC, que usa a rede 5G para diagnóstico e suporte remoto em áreas isoladas”, contou.

Para ela, quando se fala em inovação, é preciso ir além dos projetos já incentivados através do PROADI-SUS e entender como ampliar a visão trazendo outros parceiros para levar saúde de qualidade a mais pessoas. “É fundamental discutir formas de financiamento com novas parcerias, indo além dos modelos contratuais tradicionais”. Ela também citou o trabalho da BP com o SUS para melhorar a interoperabilidade.

No ponto sobre o acesso, Klajner voltou a falar de propósito, reforçando que o objetivo é atender a população. E questionou: precisamos realmente do 5G? “Não necessariamente; o 3G também é suficiente. Embora se discuta a possibilidade de cirurgias remotas, devemos lembrar que monitoramento remoto via 5G não é, por si só, superior ao 4G. O foco deve ser o atendimento, independentemente da tecnologia utilizada”, disse.

De acordo com ele, é preciso ter cautela ao estabelecer parcerias com instituições com fins lucrativos, pois pode haver viés. “A inovação deve sempre ter um propósito claro: se o objetivo é ampliar o acesso a populações carentes, precisamos garantir que isso realmente aconteça. A interoperabilidade é importante, mas precisamos desenvolver soluções que também gerem dados relevantes”, acrescentou.

Genômica

Levando a discussão para o tema de genômica, Nomura comentou que ela é fundamental na área de diagnóstico. “Embora o sequenciamento ainda seja caro devido ao investimento em máquinas, seus preços estão em queda, indicando um avanço promissor nesse campo”. Ele, então, pediu a Rizzatti que falasse sobre as tendências na área.

A genômica tem ganhado destaque na mídia de forma ampla, mas é essencial focar nos problemas que ela pode resolver, como a detecção precoce de doenças raras em recém-nascidos, apontou Rizzatti. “A combinação da genômica com métodos bioquímicos e espectrometria de massa tem demonstrado ser uma solução poderosa. Ao identificar precocemente a necessidade de restrições dietéticas ou a suplementação de vitaminas, podemos transformar a vida de uma criança e sua família”, disse.

Ele considera que com os avanços em sequenciamento de DNA e a redução de custos, o acesso a essas tecnologias está se ampliando. Isso abre novas possibilidades, como os testes farmacogenéticos. “Se esses testes forem mais utilizados, os dados poderão ser integrados ao prontuário do paciente, permitindo que antes de qualquer prescrição sejam identificados possíveis incompatibilidades. Áreas como neurologia e psiquiatria já adotam essa prática”, comentou Rizzatti.

Além disso, a identificação precoce de câncer através de painéis multicâncer, como estudado no Reino Unido, envolvendo centenas de participantes, pode se tornar parte da nossa realidade. “Poderemos incorporar essas ferramentas às nossas estratégias de prevenção de doenças, tornando a genômica cada vez mais relevante no cuidado à saúde”, expôs.

De forma geral, o debate destacou a importância de abordagens colaborativas e escolhas estratégicas que conciliem tecnologia e orçamento, além de tendências. O evento se encerrou com uma visita técnica guiada ao Centro Diagnóstico do Hospital Israelita Albert Einstein.