ESG além do meio ambiente: qual é o papel da governança na Medicina Diagnóstica?

O avanço do ESG no setor depende da capacidade de estruturar decisões clínicas seguras, orientadas por dados e sustentadas por governança.

Apesar da consolidação do ESG no discurso da saúde, a governança — que define como decisões clínicas são tomadas, como dados são utilizados e quais limites são respeitados — ainda ocupa um lugar secundário na prática.

Projeções indicam que os investimentos em ESG podem ultrapassar US$ 79 trilhões até 2030 na economia global, consolidando o conceito como um vetor de transformação corporativa.

Esse movimento já começa a se materializar no setor. Na Medicina Diagnóstica, dados da 7ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico mostram que 50% das empresas associadas à entidade já divulgam relatórios de práticas ambientais, sociais e de governança, indicando avanços em transparência e na estruturação de práticas corporativas. O próprio Painel destaca que ações de conformidade e responsabilização da liderança são fundamentais para fortalecer a confiança no setor.

Ainda assim, na saúde, ESG ainda avança mais no discurso do que na estrutura. O desafio agora é consolidar mecanismos de governança que orientem decisões e garantam integridade nos processos assistenciais.

Em um ambiente cada vez mais orientado por dados, a forma como os diagnósticos são produzidos, interpretados e incorporados à prática assistencial passou a impactar diretamente a qualidade do cuidado e a sustentabilidade das organizações.

Quando não há governança estruturada, o risco se torna rotina: exames solicitados sem necessidade, interpretações fora de contexto, e decisões que se afastam do melhor interesse do paciente.

Nesse sentido, Daniel Perigo, líder do Comitê de ESG da Abramed, chama a atenção para um ponto que costuma ser subestimado: não basta confiar na boa intenção dos profissionais — é preciso estruturar o ambiente.

“Não é possível depender exclusivamente do bom senso. É preciso criar um ambiente com diretrizes claras, políticas estruturadas e mecanismos de monitoramento que orientem a tomada de decisão e evitem riscos que possam afetar a saúde dos pacientes e a reputação das organizações”, afirma.

Para isso, é necessário definir responsabilidades, alinhar interesses entre as partes envolvidas, estabelecer políticas e garantir transparência e conformidade com a legislação — especialmente quando se trata de dados sensíveis.

Digitalização, dados e limites éticos

Interoperabilidade, inteligência artificial e uso intensivo de dados ampliaram a capacidade diagnóstica e a eficiência do setor — mas também elevaram a exposição a riscos.

A transformação digital ampliou a capacidade de diagnóstico e trouxe ganhos evidentes de eficiência, mas também elevou o grau de exposição a riscos.

Como resume Daniel Perigo, a digitalização é bem-vinda, desde que não opere sem diretrizes pré-estabelecidas. “Novas tecnologias precisam estar inseridas em um contexto de regras e princípios definidos a partir das boas práticas de governança e da legislação aplicável”, explica.

Isso implica estruturar mecanismos formais de governança de dados e de IA, capazes de garantir segurança técnica, coerência ética, respeito à privacidade, clareza sobre a finalidade do uso das informações e proteção dos direitos dos pacientes.

O desafio não está apenas em ampliar o acesso à informação, mas também em garantir responsabilidade no seu uso. Existe um limite — e ele não é teórico. Segundo o líder do Comitê de ESG da Abramed, a partir do momento em que o benefício para um dos atores envolvidos pode causar prejuízos aos direitos dos demais, atinge-se um limiar que não deve ser ultrapassado.

Governança clínica como estratégia institucional

O amadurecimento do debate sobre governança clínica coloca o tema em posição estratégica dentro das organizações. A governança está diretamente ligada ao cuidado assistencial e aos desfechos clínicos, mas também influencia algo menos tangível e igualmente relevante: a reputação institucional, a confiança dos médicos e a percepção de qualidade por parte dos pacientes.

Na prática, manter uma boa reputação exige garantir o procedimento correto, para o paciente correto, no momento adequado e da forma adequada.

Esse tipo de resultado não depende de uma única área. Ele é construído na operação, a partir de processos bem definidos, comunicação eficiente, treinamento contínuo, monitoramento de indicadores e gestão ativa de riscos.

Como reforça Daniel Perigo: “Trata-se de uma responsabilidade distribuída. A qualidade do sistema como um todo depende da qualidade das suas conexões internas”.

A Abramed tem atuado na estruturação desse debate na Medicina Diagnóstica, conectando aspectos técnicos, regulatórios e operacionais da governança clínica. Além do Comitê de ESG, a entidade promove discussões técnicas no Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS) — que conta com bloco dedicado ao tema —, e no Summit ESG, ambos realizados anualmente.

A evolução do próprio Painel Abramed, que passou a incorporar capítulos específicos sobre ESG e agora avança para uma publicação dedicada exclusivamente ao tema, reflete a maturidade dessa agenda no setor e o esforço em consolidar métricas, práticas e diretrizes mais estruturadas.

Quando esses elementos estão presentes, ESG deixa de ser uma agenda paralela e passa a fazer parte do funcionamento do sistema, influenciando diretamente a qualidade do cuidado, a segurança do paciente e a sustentabilidade das organizações.

Câncer colorretal avança no Brasil e reforça papel do diagnóstico precoce

Alta incidência e impacto crescente no país tornam a prevenção e o acesso a exames cada vez mais estratégicos para a saúde pública.

O câncer colorretal está entre os tumores mais incidentes e segue em ascensão no Brasil. Atualmente, ocupa a segunda posição em frequência entre homens e mulheres, desconsiderando os tumores de pele não melanoma.

Para dimensionar esse cenário, dados recentes do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam que o Brasil deve registrar, em média, 53.810 novos casos de câncer de cólon e reto por ano no triênio 2026–2028. A incidência é semelhante entre os sexos, com maior concentração nas regiões Sul e Sudeste.

Esse avanço está associado a múltiplos fatores, que vão desde alterações genéticas até hábitos de vida da população, como explica Carlos Eduardo Ferreira, líder do Comitê de Análises Clínicas da Abramed.

“São vários os fatores que contribuíram para o aumento na incidência de câncer colorretal no país e no mundo, incluindo o consumo de alimentos ultraprocessados e com maior índice glicêmico e menor consumo de fibras, além de tabagismo, obesidade, sedentarismo e o próprio envelhecimento da população. Esses aspectos favorecem alterações na flora intestinal, somadas a fatores genéticos que também contribuem para a elevação dos casos”, detalha. 

O especialista destaca ainda que a ampliação do acesso ao rastreamento também contribui para o aumento no número de diagnósticos, ao identificar casos que antes permaneciam não detectados.

No Brasil, a mortalidade pela doença cresceu 120% nos últimos 20 anos, e as projeções indicam aumento adicional de 21% entre 2030 e 2040. Trata-se de um cenário que exige atuação coordenada de todo o ecossistema de saúde.

Além dos impactos assistenciais, o avanço do câncer colorretal também gera efeitos econômicos relevantes. Um estudo publicado no periódico científico The Lancet indica impacto de cerca de US$ 22,6 bilhões na produtividade nacional associado ao aumento da doença.

Diagnóstico precoce é determinante

Apesar da gravidade dos números, o câncer colorretal apresenta uma característica decisiva: é altamente prevenível e, quando identificado em estágio inicial, pode alcançar taxas de cura de até 95%.

Nesse contexto, a Medicina Diagnóstica ganha relevância decisiva tanto no suporte à jornada clínica quanto na identificação precoce de casos, ampliando as chances de cura, aumentando a sobrevida dos pacientes e contribuindo para a sustentabilidade do sistema de saúde.

“Existem alguns exames que contribuem para o rastreamento do câncer colorretal. O mais comum deles é a pesquisa de sangue oculto nas fezes, por método químico ou imunológico. Outros testes, baseados em técnicas multiômicas, vêm sendo incorporados ao rastreamento por meio de amostras de fezes e sangue. A colonoscopia também deve ser usada, a depender da faixa etária e dos fatores de risco”, aponta Ferreira.

Ele diz que, a partir daí, exames de imagem podem contribuir na avaliação do paciente e, como em grande parte dos cânceres, a anemia (hemoglobina/hematócrito) pode ser um sinal de alerta, ainda que tardio. “Marcadores tumorais, como CEA, CA 19-9 e CA 72-4, também têm utilidade no monitoramento da resposta ao tratamento”, acrescenta.

Reduzir o diagnóstico tardio é uma etapa fundamental para alterar a trajetória do câncer colorretal no país. Esse movimento passa, necessariamente, pela ampliação do acesso a exames e pelo fortalecimento de uma cultura de prevenção em todo o território nacional.

A Abramed atua diretamente nesse contexto, promovendo informação, iniciativas voltadas à ampliação do acesso à Medicina Diagnóstica e ao fortalecimento da governança clínica, contribuindo para uma jornada de cuidado mais eficaz, segura e orientada à prevenção.

Campanha Alerta Lilás mobiliza serviços de saúde para identificar sinais de violência e prevenir feminicídios

Abramed apoia iniciativa que posiciona hospitais e laboratórios como agentes-chave na identificação precoce de sinais de violência em mulheres em situação de risco.

A violência contra a mulher segue como um dos desafios mais urgentes da sociedade brasileira e exige uma resposta articulada entre diferentes setores. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do Instituto de Pesquisa DataSenado, revelou que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar no Brasil em 2025.

Nesse contexto, a campanha Alerta Lilás, iniciativa do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), destaca o papel do setor da saúde na identificação precoce de situações de violência e na prevenção do feminicídio.

Como parceira da iniciativa, a Abramed reforça a importância de mobilizar hospitais, clínicas e laboratórios como pontos de atenção, acolhimento e encaminhamento. Apenas 28% das vítimas registram denúncia em Delegacias da Mulher; contudo, elas passam com mais frequência pela rede assistencial, onde sinais físicos e emocionais podem indicar situações de risco.

Estudos e experiências no setor mostram que mudanças no comportamento, queixas recorrentes e demandas relacionadas à saúde mental podem anteceder episódios mais graves de violência. Nesse cenário, o silêncio ainda é um fator que pode dificultar o enfrentamento dessas situações. Superá-lo é essencial para avançar na prevenção.

A campanha está estruturada em duas frentes complementares. As empresas que aderirem passam a ter à disposição materiais informativos desenvolvidos pelo MPMG, como cartilhas, cartões de visita, cartazes e vídeos. Eles podem ser utilizados tanto nas unidades de atendimento quanto nos canais institucionais e redes sociais.

Esses conteúdos abordam, de forma acessível, a Lei Maria da Penha, os diferentes tipos de violência — física, psicológica, sexual, moral e patrimonial —, além de orientações sobre como buscar ajuda e acessar medidas protetivas.

Além disso, os profissionais de saúde das instituições participantes recebem capacitação remota, conduzida pelo MPMG, com foco na qualificação da escuta e no fortalecimento da capacidade de identificar sinais de violência no atendimento cotidiano. A proposta é ampliar o olhar das equipes para além da queixa clínica, contribuindo para o acolhimento e encaminhamento adequado das vítimas.

A iniciativa também contempla o público interno das instituições. Como o setor de saúde conta com forte presença feminina, a campanha se estende às próprias colaboradoras, ampliando o alcance das ações de informação, acolhimento e orientação.

Ao reconhecer a saúde como um espaço de escuta e intervenção, o Alerta Lilás amplia o alcance das políticas de enfrentamento à violência de gênero e contribui para uma atuação mais integrada entre assistência, proteção e justiça.

“A Medicina Diagnóstica e a rede de saúde têm um papel que vai além do cuidado clínico. Estamos em uma posição estratégica para identificar sinais de vulnerabilidade e acolher essas mulheres de forma segura e responsável”, afirma Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed. “Integrar informação, capacitação e atuação coordenada é fundamental para que o sistema de saúde contribua efetivamente na prevenção da violência e na construção de um cuidado mais humano e resolutivo”.

A adesão à campanha pode ser feita por meio do preenchimento de um formulário exclusivo para os parceiros e associados da Abramed. Clique aqui e participe!