Reforma Tributária entra na fase de testes e já impõe desafios operacionais ao setor de saúde

Renato Nunes analisa os primeiros impactos da CBS e do IBS em 2026 e os pontos de atenção para empresas de Medicina Diagnóstica

O ano de 2026 marca o início da fase de transição da Reforma Tributária no Brasil. Embora ainda sem arrecadação efetiva da CBS e do IBS, empresas de todos os setores já passaram a emitir documentos fiscais com destaque dos novos tributos, testar sistemas e simular impactos financeiros para os próximos anos.

Na prática, o chamado “ano-teste” tem revelado que a transição é menos simples do que o discurso da simplificação sugere. Atualização de ERPs, revisão de contratos, parametrização de serviços, saneamento de cadastros e atenção redobrada à formação do histórico fiscal já se tornaram parte da rotina das áreas tributária, financeira e jurídica.

Para o setor de Medicina Diagnóstica, que opera com alto volume de operações, múltiplos municípios e estruturas logísticas complexas, os impactos podem ser ainda mais sensíveis — especialmente diante de temas como creditamento condicionado, split payment e definição do local de ocorrência do fato gerador do IBS.

Para analisar os primeiros efeitos práticos da transição e os riscos estratégicos que já se desenham para os próximos anos, a Abramed conversou com o advogado tributarista Renato Nunes, sócio do escritório Machado Nunes. Doutor e mestre pela PUC-SP, atua nas áreas consultiva e contenciosa e integra o Conselho Municipal de Tributos de São Paulo. Também leciona em cursos de pós-graduação e MBA, além de ser autor e coordenador de obras sobre tributação e Reforma Tributária (IBS e CBS). Confira a entrevista completa!

  1. O ano de 2026 foi desenhado como um período de “teste sem arrecadação”. Na prática, o que esse ano já revelou sobre a capacidade das empresas de se adaptarem ao novo modelo de CBS e IBS?

Renato Nunes: Em termos de adaptação de sistemas, com o objetivo de emitir documentos fiscais conforme os layouts dos novos tributos, a maioria das empresas está conseguindo vencer bem essa etapa. O que temos notado são problemas relacionados às administrações tributárias, sobretudo municipais. Em Guarulhos, por exemplo, segundo município em tamanho de população do Estado de São Paulo, os contribuintes vêm enfrentando muitos problemas para emitir documentos fiscais. 

Já quanto à simulação de impactos para o período de transição e, mais grave, revisão de precificação e contratos com fornecedores relevantes, diversas empresas ainda não começaram a atuar em tais frentes, as quais podem ser determinantes, senão, para aproveitar oportunidades da Reforma Tributária, ao menos para minimizar eventuais impactos negativos.

  1. Mesmo sem cobrança efetiva, muitas empresas já estão preocupadas com o “histórico fiscal” que está sendo formado agora. Que tipos de erros ou inconsistências você considera mais críticos nesse primeiro ano?

Renato Nunes: O que temos observado com maior recorrência é uma dificuldade de classificar corretamente as atividades segundo os novos padrões que vêm sendo divulgados pela Receita Federal e pelo Comitê Gestor. Cremos que até o final deste primeiro semestre as coisas estarão mais bem endereçadas nesse aspecto.

  1. A convivência entre os tributos antigos e o novo IVA dual tem sido apontada como um dos maiores desafios operacionais. Onde você vê os principais riscos de ruído ou retrabalho nesse modelo híbrido?

Renato Nunes: Isso deve começar a gerar mais dúvidas operacionais a partir de 2029, quando nós teremos o IBS sendo cobrado para valer, juntamente com o ISS e o ICMS. Contudo, um problema que já está constatado é a inclusão do IBS e da CBS nas bases de cálculo do ISS e do ICMS — posicionamento que as administrações tributárias têm sinalizado que adotarão. Há fortes argumentos de inconstitucionalidade e o tema deve ser judicializado.

  1. Do ponto de vista de sistemas e dados, 2026 parece menos sobre imposto e mais sobre qualidade da informação. Que fragilidades nos cadastros fiscais e operacionais mais têm aparecido nesse processo?

Renato Nunes e Gabriel Mota: Do que temos acompanhado, as principais falhas estão relacionadas a inconsistências cadastrais, classificação incorreta de produtos e atividades, falhas de integração entre ERP e ambientes fiscais, base de fornecedores desatualizada, entre outros.

Além disso, temos verificado que muitas companhias ainda não realizaram o adequado saneamento de suas bases de produtos, serviços e fornecedores. Esse procedimento é fundamental para a identificação de fragilidades e para a devida regularização das inconsistências.

Neste momento, é fundamental que os sistemas internos estejam corretamente parametrizados e integrados aos ambientes fiscais, a fim de que a transição ocorra sem intercorrências relevantes.

No caso dos prestadores de serviços, inclusive no setor da saúde, é imprescindível que os sistemas internos estejam parametrizados em conformidade com o Anexo VIII da Nota Técnica 004/2025 e com os anexos da Lei Complementar nº 214/2025, que estabelecem o enquadramento e a forma de tributação aplicável a cada tipo de serviço. No âmbito específico dos serviços de saúde, devem ser observados, especialmente, os itens constantes dos Anexos III, IV, V e XII.

  1. Para setores intensivos em tecnologia e investimento, como a medicina diagnóstica, o discurso da simplificação futura convive com um custo relevante no presente. Esse custo é apenas transitório ou tende a se estruturar?

Renato Nunes: As empresas do setor de serviços de saúde, de uma maneira geral, deverão ter um aumento do custo de conformidade quando comparamos com o que atualmente verificam em matéria de PIS/COFINS e ISS — tributos que serão substituídos pela CBS e pelo IBS, respectivamente. Isso porque o PIS/COFINS no setor de serviços de saúde tem um regime de apuração muito simples (cumulativo) e o ISS é simples por natureza. 

Nos novos tributos, teremos a não cumulatividade, então, passará a ser importante que os departamentos de suprimentos trabalhem com a ideia de compras e contratações por preços líquidos de tributação. É uma mudança de mindset mesmo. 

Também é importante falar do split payment, que poderá impactar severamente o fluxo de caixa das empresas que tenham prazos curtos de recebimentos de clientes. Com essa “ferramenta”, os tributos serão segregados automaticamente no momento do pagamento, reduzindo o capital de giro disponível.

  1. A promessa de crédito amplo é um dos pilares da reforma. Já é possível, a partir das simulações de 2026, identificar mudanças relevantes na lógica de recuperação de créditos para prestadores de serviços de saúde?

Renato Nunes: Ainda não é possível, mas a expectativa é grande. Tanto a Emenda Constitucional n.º 132/23 quanto a Lei Complementar n.º 214/25 possuem dispositivos que deveriam assegurar a apropriação, o aproveitamento e o ressarcimento dos créditos sem grande burocracia e com prazos exíguos. A experiência dirá se essas determinações serão realidade ou mais uma fonte de frustrações.

Um ponto ao qual as empresas de Medicina Diagnóstica devem ficar atentas é o fato de que o creditamento somente será autorizado se os débitos de IBS e CBS incidentes nas compras e contratações tiverem sido adimplidos. Esse é um tema que merece ser previsto nas compras e contratações e, eventualmente, até objeto de checagem pelos contratantes. Eventual inadimplência dos fornecedores em relação ao IBS e à CBS impedirá que os clientes tomem os créditos correspondentes, prejudicando os seus fluxos de caixa.

  1. Muitas empresas estão usando 2026 para revisar contratos, preços e cadeias logísticas. Na sua avaliação, o que não pode mais ser tratado como “ajuste fino” e exige decisões estratégicas agora?

Renato Nunes: Levantar os contratos e itens de maior peso em termos de custos e despesas, verificar os impactos da Reforma sobre estes e desenvolver o quanto antes uma estratégia de negociação são tarefas mandatórias para as empresas não perderem oportunidades ou, ao menos, evitarem ou reduzirem impactos negativos em seus fluxos de caixa.

Cláusulas de repasse tributário poderão ter que ser renegociadas e modelos de precificação “com imposto embutido” poderão gerar distorções. Estes e tantos outros temas devem ser objeto de atenção.

  1. A fiscalização eletrônica mais integrada é vista, ao mesmo tempo, como ganho de transparência e como risco futuro. Como as empresas devem se preparar para evitar passivos que só apareçam a partir de 2027?

Renato Nunes: Será de fundamental importância que as empresas mantenham um controle espelho da apuração, especialmente em relação aos créditos reconhecidos pelos sistemas da Receita Federal e do Comitê, bem como dos débitos lá indicados, com vistas a sanar o mais rápido possível eventuais inconsistências de informação e evitar impactos negativos em resultado e em fluxo de caixa.

  1. Com a sanção da lei que cria o Comitê Gestor do IBS, quais decisões ou movimentos desse novo órgão tendem a ter maior impacto estratégico para empresas de serviços e setores regulados, como a saúde?

Renato Nunes: Um ponto de atenção é como funcionarão os procedimentos e processos administrativos relativos ao IBS no âmbito desse Comitê. As empresas, em geral, já possuem experiência com a Receita Federal. As especificidades do Comitê Gestor deverão ser um ponto de constante acompanhamento, sobretudo, por parte dos departamentos fiscal e jurídico.

Especificamente no setor de Medicina Diagnóstica, será necessário acompanhar com atenção como o Comitê Gestor irá se manifestar sobre o local de ocorrência do fato gerador do IBS, especialmente nas atividades de análises clínicas, em que a coleta de material biológico ocorre em município ou estado diverso daquele onde são realizados o processamento e a avaliação.

Se houver dúvida a respeito disso, em que pese, ao menos em teoria, caberá ao Comitê Gestor dar destinação ao valor de arrecadação do IBS com base nas informações constantes do documento fiscal. É importante o setor ficar atento para, se for o caso, agir contra qualquer medida que possa resultar em risco de questionamento para as empresas de Medicina Diagnóstica.

10. Se você tivesse que resumir 2026 em uma mensagem para os executivos do setor de saúde: este é um ano para “testar sistemas”, “corrigir cultura” ou “antecipar estratégia”? Por quê?

Renato Nunes: A Reforma Tributária é mais do que uma mudança de tributos, é uma mudança de lógica de negócios. Antecipar-se deve ser a palavra de ordem.

27 de fevereiro de 2026.

Associados da Abramed debatem a complexidade operacional da Reforma Tributária

A Reunião Mensal de Associados (RMA) da Abramed realizada em 31 de outubro reuniu lideranças da Medicina Diagnóstica para um debate sobre os impactos práticos da Reforma Tributária. Moderado por Milva Pagano, o encontro contou com a participação de Cesar Nomura, Renato Nunes, Ademar Paes Júnior, Lídia Abdalla, Linaldo Vieira Júnior, Júlio Aderne e Edivaldo Bardella.

O debate deixou evidente um consenso: embora a Reforma tenha sido desenhada para simplificar o sistema, a transição que se inicia será marcada por alta complexidade. Até 2033, empresas terão de conviver com dois modelos tributários — o atual e o novo sistema, baseado em CBS e IBS — o que exigirá revisão de controles, processos de auditoria, contratos, sistemas e rotinas fiscais. Milva Pagano, Diretora Executiva da Abramed, sintetizou esse dilema ao afirmar que “a promessa da Reforma é simplificar, mas precisamos entender se esse objetivo se concretizará na prática”.

Hoje, o setor trabalha com uma carga tributária em torno de 6%, considerando PIS, COFINS e ISS. Com a chegada dos novos tributos, especialistas estimam que esse percentual possa chegar próximo de 11%, com impacto direto em margens, sustentabilidade e estrutura de custos. 

Para Renato Nunes, a adoção da não cumulatividade — modelo já conhecido pela indústria — exigirá controles mais rigorosos e um nível de auditoria que pode elevar o custo operacional. “Na Medicina Diagnóstica, devemos ter aumento de complexidade e custo. A tendência é um período inicial mais oneroso”, observou.

A dimensão tecnológica surge como um dos pontos mais sensíveis. A primeira fase de testes da Reforma começa já em janeiro de 2026, com novo layout de nota fiscal e necessidade de adaptação imediata de sistemas. Júlio Aderne, Gerente Geral de Diagnóstico Laboratorial e Líder da Abbott Brasil, reforçou a urgência: sem o novo arquivo XML, nenhuma nota será validada. Edivaldo Bardella, Gerente Fiscal da Abbott Brasil, complementou destacando que a Abbott revisa processos e produtos individualmente para evitar ruptura de fornecimento — risco real diante da aceleração das exigências técnicas.

Entretanto, como destacou Ademar Paes Júnior, sócio da Clínica Imagem e membro do Conselho de Administração da Abramed, o desafio não se limita à emissão de documentos. O ponto crítico é o controle. “Precisamos desenvolver sistemas de automação de controle, não só de emissão. É isso que vai dizer se o governo está cobrando corretamente, caso contrário, as empresas correm risco de não sobreviver”, alertou. 

O executivo enfatizou ainda que a Reforma só será viável se vier acompanhada de uma verdadeira reforma digital, capaz de elevar o padrão tecnológico de toda a cadeia. Sem isso, a pressão por controles, auditorias e maturidade de sistemas tende a acentuar desigualdades já existentes: empresas menores — que hoje não dispõem de estrutura tecnológica, compliance ou governança de dados — podem não conseguir acompanhar o nível de exigência imposto pelo novo modelo.

Nesse cenário, há um risco real de aceleração da maior consolidação de mercado da história recente do setor, com espaço cada vez mais restrito para organizações sem sistemas robustos, processos digitalizados e capacidade de operação em ambiente altamente fiscalizado.

Outro tema debatido foi o risco de alteração no perfil de cobertura em saúde suplementar. A busca por créditos pode estimular terceirizações excessivas e mudanças na forma como empresas contratam planos de saúde, ampliando fragilidades já observadas no acesso. Soma-se a isso o fato de que a folha de pagamento não gerará crédito — um ponto crítico para prestadores intensivos em mão de obra, como laboratórios e clínicas.

Lídia Abdalla, Vice-Presidente da Abramed e CEO do Grupo Sabin, destacou que a empresa estruturou sua preparação em três pilares: impacto financeiro, adaptação tecnológica e revisão contratual com fornecedores e fontes pagadoras. A qualidade da informação e a consistência dos dados serão determinantes para evitar glosas, falhas operacionais e insegurança jurídica.

Já Linaldo Vilar Júnior, Diretor de Operações Laboratoriais na Dasa, comentou que o risco de erros é inerente a essa transição, por isso, a tecnologia, em conjunto com a revisão de contratos, se coloca como indispensável”.

Diante desse cenário, Cesar Nomura, Presidente do Conselho de Administração da Abramed, reforçou a importância estratégica da atuação institucional da Abramed. “Nossos associados prezam por qualidade, acreditações e eficiência. Crescer sem perder esses princípios é o nosso desafio”, afirmou, lembrando que o setor precisa se posicionar diante das operadoras para reequilibrar as relações, já que a elevação das alíquotas terá impacto direto no segmento diagnóstico.

Milva Pagano encerrou reiterando que o papel da Abramed, neste momento, é integrar o setor, antecipar riscos, orientar decisões e apoiar a transição. A Associação prepara materiais técnicos e treinamentos em conjunto com o escritório Machado Nunes — esforços essenciais para fortalecer a sustentabilidade do setor diante de uma das maiores transformações tributárias das últimas décadas.

Reforma Tributária: impactos e oportunidades para laboratórios e clínicas de Medicina Diagnóstica

Mudanças tributárias inauguram uma nova etapa de adaptação para o setor de saúde, que precisará revisar processos, contratos e sistemas para manter eficiência e competitividade

O sistema tributário brasileiro passa por uma transformação que atinge tanto empresas quanto profissionais de diferentes setores. As mudanças recentes no Imposto de Renda (IR) e a implementação da Reforma Tributária não estão diretamente conectadas, mas fazem parte de um mesmo movimento que busca ampliar a transparência, simplificar regras e redistribuir de forma mais equilibrada a carga tributária.

Para o setor de saúde, especialmente laboratórios e clínicas de Medicina Diagnóstica, o momento exige atenção redobrada. As medidas em curso afetam desde a tributação de lucros e dividendos até o funcionamento das operações e contratos, demandando preparo técnico e revisão de processos.

As alterações previstas no Projeto de Lei nº 1.087/25 ampliam a faixa de isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil por mês e criam uma alíquota de 10% sobre lucros e dividendos distribuídos a beneficiários residentes no Brasil que recebam mais de R$ 50 mil mensais, ou sobre qualquer valor quando o beneficiário for residente no exterior.

Segundo o advogado tributarista Renato Nunes, essa medida pode impactar diretamente sócios e acionistas de laboratórios e clínicas que operam sob o regime de lucro presumido ou Simples Nacional. “Ainda que não tenha relação direta com a Reforma Tributária, essa mudança compõe um cenário mais amplo, em que será essencial reavaliar estruturas societárias e fluxos de rendimento”, explica.

Já a Lei Complementar nº 214/2025, que institui o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), traz uma das inovações mais significativas das mudanças no regime de tributação do consumo.

Nesse formato, o valor pago ao prestador é dividido automaticamente pela instituição de pagamento (e.g. banco) — uma parte segue para a empresa que forneceu o bem ou serviço e as parcelas correspondentes aos valores de IBS e CBS irão direto ao Comitê Gestor do IBS e à Receita Federal, respectivamente.

“O objetivo é reduzir inadimplência e sonegação, mas o mecanismo exigirá acompanhamento atento. Há algumas modalidades de Split Payment. No que vem sendo denominado Split Payment inteligente, serão segregados valores brutos de IBS e CBS, sem levar em conta eventuais créditos do contribuinte, e eventual excesso deverá ser devolvido em até 3 dias úteis. Isso impactará negativamente o fluxo de caixa das empresas, o que se agravará se a devolução de eventuais excessos não ocorrer no prazo previsto em lei.”, explica Renato.

A Reforma Tributária trará impactos práticos para todo o setor. Além de mudanças na emissão de documentos fiscais — que passam a seguir padrões em desenvolvimento pelo Comitê Gestor do IBS e pela Receita Federal —, haverá necessidade de revisar contratos, atualizar cadastros de produtos, redefinir preços e adequar sistemas de gestão.

Entre as novidades, está a criação de um crédito presumido da CBS para contribuintes que apuram o PIS/COFINS pelo regime cumulativo, caso das empresas de medicina diagnóstica. Esse crédito corresponderá a 9,25% do estoque de insumos existente em 1º de janeiro de 2027, o que poderá representar uma oportunidade concreta de otimização de caixa.

Porém, o cenário não é igual para todos. Entidades filantrópicas, por exemplo, não poderão recuperar o IBS e a CBS pagos em suas aquisições, o que poderá aumentar seus custos, caso não haja negociação com fornecedores.

O novo sistema representa uma virada de lógica na tributação sobre consumo. O IBS e a CBS serão não cumulativos para praticamente todos os contribuintes, permitindo que créditos gerados nas aquisições sejam compensados com os débitos verificados no fornecimento de bens ou serviços.

Um ponto que as empresas de medicina deverão ter atenção diz respeito à exclusão do PIS/COFINS, a partir de 1 de janeiro de 2027, dos valores das compras e contratações. Ele exemplifica: “Um contrato de software de R$ 1.000,00, sujeito hoje a 3,65% de PIS e COFINS, poderá ser revisado, a partir de 1 de janeiro de 2027 para R$ 963,50, valor sobre o qual incidirá apenas a CBS. Essa adequação poderá, a um só tempo, reduzir o valor da despesa, assim como reduzir o desembolso de caixa com a CBS, racional este que também poderá ser adotado quando o IBS começar a substituir o ICMS e o ISS”.

O advogado lembra que a governança tributária será um dos pontos mais sensíveis do novo modelo. Os créditos de IBS e CBS só serão reconhecidos após o efetivo pagamento dentro das modalidades previstas em lei.

“Se o Split Payment for adotado em larga escala, isso trará segurança quanto à regularidade dos recolhimentos. Caso contrário, as empresas precisarão acompanhar de perto cada contratação”, explica.

Por isso, será fundamental investir em sistemas de controle integrados, capazes de monitorar créditos e débitos junto ao Comitê Gestor e à Receita Federal, garantindo transparência e evitando perda de créditos.

A Abramed acompanha as discussões da Reforma desde o início, em diálogo constante com o Governo Federal e o Congresso Nacional. O objetivo é assegurar um tratamento tributário adequado à saúde e manter o equilíbrio da carga tributária para o setor.

“O trabalho das entidades representativas tem sido essencial para garantir que as particularidades da medicina diagnóstica sejam reconhecidas e preservadas, como foi o caso do regime diferenciado ao setor, consistente na redução em 60% das alíquotas do IBS e da CBS”, reforça. Renato.

Para laboratórios e clínicas, preparar-se desde já é o que fará a diferença entre transformar as mudanças em oportunidades ou em aumento de custos e distorções de preço.  A transição pode ser complexa, mas, com informação, organização e diálogo, também pode abrir caminho para um sistema mais justo e eficiente.