Do dado isolado ao cuidado integrado: os desafios técnicos, econômicos e culturais da interoperabilidade na saúde

Integração é um dos principais caminhos para a sustentabilidade do setor e a centralidade no paciente

O ecossistema de saúde global, incluindo o brasileiro, vive um cenário desafiador e paradoxal: ao mesmo tempo em que dados sobre pacientes e tratamentos são gerados em escala crescente, os sistemas ao redor do mundo enfrentam dificuldades críticas para transformar todo o volume de informações produzido em cuidado integrado.

Para termos uma ideia desse cenário, levantamentos recentes estimam que cerca de 30% de todos os dados gerados na internet provenham da área de saúde e, embora a vasta maioria dos gestores reconheça a importância e o valor clínico desse “big data informacional”, o setor ainda luta para utilizá-lo de maneira eficaz, integrando linguagens e fortalecendo, por exemplo, a conexão entre as redes pública e privada.

Em outras palavras: diariamente, diagnósticos, laudos e prontuários circulam em grandes volumes – segundo a 7ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico, os associados da entidade são responsáveis por mais de 85% dos exames realizados pela saúde suplementar no país – mas muitas das decisões clínicas continuam sendo tomadas, no país, a partir de bases de dados fragmentadas.

É o que explica Pedro Vieira, líder do Comitê de Interoperabilidade da Abramed: “Hoje, o maior obstáculo não é tecnológico, é estrutural. Convivemos com sistemas legados, baixa padronização, governança frágil e maturidade digital desigual. O dado existe, mas a organização não está pronta para usá-lo de forma integrada.”

Interoperabilidade e o dado que gera valor clínico

Para superar esse cenário, a resposta se encontra, justamente, no avanço da interoperabilidade na saúde, que deve ser compreendida como um mecanismo estratégico capaz de gerar mais contexto para escolhas clínicas embasadas e maior sustentabilidade para os sistemas de cuidado.

Afinal de contas, quando os dados fluem de forma integrada, desperdícios são reduzidos, evita-se a duplicidade de exames e um apoio real à decisão médica é sustentado para garantir que a jornada do paciente seja contínua, capaz de antecipar quadros mais graves que também aumentam o custo de tratamentos e internações nas redes pública e privada.

Não por acaso, o custo da baixa interoperabilidade nos sistemas de saúde é alarmante, sendo estimado em cerca R$ 30 bilhões. Esse cenário é agravado por um ciclo de investimento em infraestrutura tecnológica que pode e deve ser acelerado, visando não apenas prioridades de curto prazo.

Além disso, Pedro Vieira destaca os aspectos de governança – em linha com normas como a Lei Geral de Proteção de Dados – que devem conduzir os investimentos em interoperabilidade na área de saúde:

“Compartilhar dados de forma segura exige regras claras, papéis bem definidos, transparência sobre uso da informação e compromisso institucional com privacidade. A LGPD não é um impeditivo da interoperabilidade, mas um guia para fazê-la corretamente”, explica.

O aspecto da governança é especialmente relevante quando consideramos um cenário de aumento nos ataques cibernéticos no setor: um relatório recente apontou que, em 2024, quase metade das organizações de saúde sofreram pelo menos um incidente envolvendo segurança digital.

Assim, o equilíbrio entre compartilhar dados e garantir a privacidade passa pela construção de protocolos que garantam transparência e compromisso institucional com a privacidade do paciente.

Diagnóstico de maturidade e o compromisso da Abramed

Pedro Vieira destaca ainda a importância de o setor evoluir para um diagnóstico claro sobre seu nível de maturidade nesse tema. “Também é importante analisarmos, de forma conjunta e transparente, quais são os reais benefícios clínicos, operacionais e econômicos da interoperabilidade, considerando as diferentes realidades dos prestadores”. 

A Abramed tem atuado como articuladora central nessa jornada por meio de seu Comitê de Interoperabilidade, criado em 2023. Este espaço visa fomentar a troca de melhores práticas, validar padrões e fortalecer o diálogo com órgãos públicos, como a Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI), do Ministério da Saúde.

A Associação acredita, por fim, que a interoperabilidade não é apenas uma melhoria operacional, mas uma das principais agendas para a construção de um sistema de saúde mais sustentável e verdadeiramente centrado no paciente.

27 de fevereiro de 2026.

Levantamento da Abramed aponta 1,8 milhão de testes de HIV realizados no Brasil em 2025

País amplia testagem na rede privada enquanto mortes por Aids caem 12,8% entre 2023 e 2024 e atingem menor patamar histórico 

A rede privada ampliou de forma significativa o acesso ao diagnóstico do HIV em 2025. Levantamento da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), que reúne empresas responsáveis por mais de 85% do volume de exames realizados na saúde suplementar, indica que suas associadas realizaram 1.841.628 testes de HIV no país ao longo do ano.  

Esse avanço na testagem contribui para a consolidação de um cenário epidemiológico mais favorável. Dados do Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, mostram que o país registrou queda de 12,8% nas mortes por Aids entre 2023 e 2024, passando de 10,5 mil para cerca de 9,1 mil óbitos — o menor índice da série histórica e o menor patamar em mais de três décadas. 

No mesmo período, o Brasil recebeu a certificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública.  

Para especialistas, a redução da mortalidade e o avanço no controle da transmissão vertical estão diretamente associados à expansão da testagem, ao fortalecimento do diagnóstico precoce e ao início imediato do tratamento no país. 

“A ampla cobertura de testagem associada à identificação precoce e ao início oportuno do tratamento trouxe impactos relevantes na qualidade de vida das pessoas e na redução da transmissão do HIV, posicionando o Brasil como referência internacional na resposta à doença”, afirma Alex Galoro, líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed. 

Testagem amplia diagnóstico precoce e estratégias de prevenção 

O crescimento do volume de exames evidencia o papel estratégico dos laboratórios como porta de entrada para o cuidado em saúde. A ampliação da testagem permite identificar a infecção em fases iniciais, acelerar o encaminhamento para acompanhamento médico e garantir maior efetividade das terapias antirretrovirais. 

“Com diagnóstico oportuno e acompanhamento adequado, o HIV é hoje uma condição crônica controlável”, explica Galoro. 

Além do tratamento, a testagem também é fundamental para viabilizar o acesso às estratégias de prevenção combinada, como a profilaxia pré-exposição (PrEP), incluindo as versões injetáveis recentemente incorporadas ao SUS. O rastreamento regular permite identificar pessoas elegíveis para a PrEP, orientar o uso adequado da medicação e monitorar a segurança clínica, ampliando a proteção de populações com maior risco de exposição ao vírus. 

Exames laboratoriais acompanham toda a jornada do paciente 

Além do diagnóstico inicial, os exames laboratoriais seguem sendo fundamentais ao longo de toda a jornada do paciente. 

“Eles garantem a qualidade dos testes de triagem e confirmação, além do monitoramento contínuo da resposta ao tratamento, da carga viral e do sistema imunológico, permitindo intervenções mais rápidas e um controle mais eficiente da infecção”, destaca Galoro. 

Para a Abramed, o cenário atual reforça a importância de manter e ampliar os investimentos em testagem, diagnóstico precoce e monitoramento laboratorial, como parte de uma estratégia integrada que une prevenção, cuidado contínuo e redução das desigualdades em saúde. 

Perfil da epidemia muda no Brasil 

Os dados oficiais mais recentes também indicam mudanças importantes no perfil da epidemia no país, como o crescimento proporcional de casos entre pessoas acima de 50 anos, o maior impacto da infecção na população negra e os avanços sustentados no controle da transmissão vertical, resultado da ampliação do pré-natal, da testagem precoce e do início oportuno da terapia antirretroviral. 

27 de fevereiro de 2026.

Atualizações do Padrão TISS e TUSS 38 da ANS trazem mudanças em terminologias, glosas e segurança da informação para 2026

Revisão reduziu cerca de 20% o número de mensagens e visa eliminar redundâncias e qualificar a comunicação entre prestadores e operadoras


A agenda regulatória da Saúde Suplementar avançou com duas atualizações estruturantes para o setor: a nova versão do Padrão TISS, com vigência prevista para junho de 2026, e a revisão da TUSS 38, fruto de um processo técnico conduzido no âmbito do Comitê de Padronização das Informações em Saúde Suplementar (COPISS) ao longo de cerca de dois anos.

As mudanças reforçam um movimento de amadurecimento do sistema com impacto direto na interoperabilidade, na segurança da informação e na eficiência da troca de dados entre prestadores e operadoras.

São alterações que alcançam os componentes Organizacional, de Comunicação e de Conteúdo e Estrutura, que também promovem uma ampla revisão da terminologia de mensagens vinculadas a glosas, negativas e retornos assistenciais.

Entre os principais pontos está a atualização do Componente de Segurança e Privacidade, construída a partir de grupos técnicos realizados ao longo de 2025. O trabalho resultou na consolidação de requisitos, na alteração de quatro deles para a condição “Obrigatório” e na inclusão de novos itens com recomendação formal de adoção, ampliando o escopo institucional e fortalecendo os mecanismos de integridade e rastreabilidade das informações.

Em relação à parte de Comunicação, a adequação da Mensagem de Envio de Documentos estabelece a obrigatoriedade de assinatura digital institucional, com certificado ICP-Brasil do tipo e-CNPJ (ou e-CPF, quando aplicável), vedando a substituição por envio em papel. A medida fortalece a autenticidade, a integridade e o princípio do não repúdio nas trocas eletrônicas entre prestadores e operadoras.

Outro ponto de atenção é a adequação do CNPJ ao padrão alfanumérico, conforme Instrução Normativa da Receita Federal, com vigência a partir de julho de 2026. Embora sem impacto no componente de Conteúdo e Estrutura, a alteração exige ajustes na parte de Comunicação, demonstrando alinhamento regulatório interinstitucional.

A atualização também torna obrigatória a mensagem de comunicação de internação e alta, consolidando o processo como parte dos fluxos padronizados de troca eletrônica. A formalização desse procedimento contribui para maior transparência assistencial e previsibilidade na relação entre os atores do sistema.

No campo estrutural, destacam-se ainda:

  • Inclusão do campo “Caráter do Atendimento” na Guia do tipo Honorário, com terminologia própria, distinguindo atendimentos eletivos de urgência/emergência;
  • Criação do campo “Centro de Consumo” nas guias de resumo de internação, anexo outras despesas, demonstrativo de análise de contas e recurso de glosas;
  • Alteração da condição de preenchimento para “Condicionado” em todas as mensagens e guias do Plano de Contingência;
  • Inclusão de campo de observação no Demonstrativo de Análise de Conta, no nível das guias.

“A Segurança da Informação tem sido um tema recorrente na pauta do COPISS e as mudanças implementadas contribuem diretamente para a mitigação de vulnerabilidades, representando importantes evoluções para a TISS”, afirma Claudio Laudeauzer, membro do Comitê Padão TISS da Abramed.

TUSS 38: padronização e redução de complexidade

Paralelamente, a atualização da TUSS 38 – Terminologia de Mensagens representou um dos movimentos técnicos mais estruturantes da agenda recente da COPISS.

Conduzido ao longo de aproximadamente dois anos, com participação ativa do Comitê Padrão TISS da Abramed e de diversas entidades do setor, o processo partiu de 608 termos originais e promoveu uma revisão ampla que resultou na inativação, unificação e criação de novos códigos.

O trabalho levou à criação de 136 novos códigos, à padronização de 84 termos e à consolidação final de 441 termos organizados de forma mais coerente, reduzindo cerca de 20% no número de mensagens, com eliminação de redundâncias, termos genéricos e sobreposições conceituais.

A revisão também substituiu descrições excessivamente específicas por terminologias mais abrangentes e organizadas, especialmente nos casos de glosas e negativas. Mensagens que antes tratavam situações de forma fragmentada passam a adotar lógica padronizada baseada em “procedimento/item assistencial”, aumentando a compreensão e a aplicabilidade.

“Foi um longo trabalho de unificação e padronização da Tabela TUSS 38, que também demandou um esforço significativo da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) na convergência das diferentes opiniões das diversas entidades envolvidas. Esse avanço representa um passo importante para o aprimoramento do entendimento das glosas e negativas”, explica Claudio Laudeauzer.

Impactos para a Medicina Diagnóstica

Para a Medicina Diagnóstica, os efeitos dessas mudanças são diretos. A qualificação da terminologia, o fortalecimento da assinatura digital institucional, a formalização de fluxos obrigatórios e a estruturação de novos campos reduzem ruídos, retrabalhos administrativos e riscos de inconsistência.

Além disso, a atualização contribui para maior previsibilidade regulatória, alinhando o setor às exigências de segurança da informação, governança de dados e interoperabilidade — pilares essenciais em um ambiente cada vez mais orientado por integração digital.

A participação ativa do Comitê Padrão TISS da Abramed ao longo das discussões reforça o papel da entidade na qualificação técnica das decisões adotadas no âmbito da Saúde Suplementar, especialmente em temas que impactam diretamente a rotina da Medicina Diagnóstica.

27 de fevereiro de 2026.

ABRAMED: Com trajetória de crescimento nos últimos 15 anos, Medicina Diagnóstica chega a 2026 com expectativa de expansão sustentada por investimentos em tecnologia

Com retomada da saúde financeira de operadoras e olhar para tendências como IA e interoperabilidade, Abramed projeta aumento da receita de inovação no setor laboratorial

A Medicina Diagnóstica consolida sua posição como um dos pilares estruturantes do sistema de saúde brasileiro, sustentando uma trajetória de crescimento contínuo ao longo da última década. Esse avanço tem sido impulsionado pela incorporação de novas tecnologias que propiciam ganhos relevantes de produtividade e eficiência, não gerando assim aumento proporcional de custos para as fontes pagadoras. Nesse sentido, uma pesquisa da Abramed (Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica) com seus associados aponta que as empresas consultadas direcionam até 30% do seu orçamento anual em inovações que incluem equipamentos para automação de processos, IA e sistemas analíticos.

Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed, analisa os benefícios dessa jornada de digitalização para a Medicina Diagnóstica.  “O setor vem em alta nos últimos 15 anos e não deve ser diferente em 2026. Esse crescimento é sustentado por investimentos relacionados à inovação que permitem o avanço em novas tecnologias e oferta de mais exames. Com isso, clínicas e pacientes são beneficiados com mais eficácia, acurácia diagnóstica e redução de custos”.

E esse movimento se reflete diretamente na qualidade dos exames, com equipamentos cada vez mais precisos, rápidos e com melhor capacidade de visualização, permitindo identificar alterações com maior clareza, beneficiando pacientes e médicos sem pressionar o custo assistencial.

Além da evolução tecnológica, o ambiente econômico do setor dá sinais positivos. A melhora da saúde financeira do ecossistema suplementar ao longo de 2025 é vista como fator relevante para toda a cadeia de prestadores. Segundo dados da ANS, nos primeiros 9 meses do ano, as operadoras tiveram variação positiva de 10% na receita em 2025 que deve se manter este ano. A expectativa é que esse cenário se traduza em fluxos de pagamento otimizados, redução de glosas e menor restrição na autorização de exames, fortalecendo a relação entre laboratórios e planos.  

Assim, muitos associados da Abramed veem 2026 como uma janela para retomar aportes mais robustos em tecnologias emergentes com foco em mais eficiência e qualidade para os pacientes.

Desafios e tendências

Diante do protagonismo da tecnologia, o Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico aponta as principais tendências que devem moldar a Medicina Diagnóstica em 2026, incluindo Big Data e IA na personalização do cuidado; fortalecimento da cibersegurança e a consolidação de plataformas únicas de dados interoperáveis.

“O diagnóstico correto, na hora certa e com suporte de tecnologias avançadas leva a um tratamento clínico mais preciso e no melhor momento para o paciente. Tudo isso se traduz em menos custo para a sociedade”, destaca Cesar Nomura.

E esse ganho de eficiência pode ser impulsionado, justamente, pela interoperabilidade de dados. No Brasil, já temos exemplos positivos nesse sentido, como o caso do Hospital Israelita Albert Einstein, que participa da Mayo Clinic Platform Connect, plataforma federada que aumenta o potencial de integração de um dos principais polos clínicos do país.

Modelos de interoperabilidade federada com dados protegidos desde a origem despontam, segundo a Abramed, como alternativas para garantir integração sem compartilhamento indevido de informações sensíveis, diante de exigências regulatórias impostas por normas como a LGPD.

“O crescimento da Medicina Diagnóstica em 2026 depende dessa capacidade de integração. A jornada do paciente deve ser composta por cuidados contínuos e constantes, sem fragmentação”, reforça Milva Pagano, diretora executiva da Abramed.

Nesse cenário, a definição de um marco regulatório para a IA aplicada à saúde ganha importância estratégica, enquanto iniciativas como os projetos de interoperabilidade do SUS Digital e do OpenCare Interop, dos quais a Abramed é uma parceira importante, aparecem como vetores fundamentais para elevar a qualidade e a segurança do cuidado.

“É muito importante trazermos sempre o olhar para a interoperabilidade como o caminho para termos a interconexão de dados e informações, independentemente de onde o paciente está. Ela é recurso efetivo e indispensável para a promoção da saúde”, acrescenta Pagano.

Ao mesmo tempo em que enxerga oportunidades, a Abramed avalia que 2026 trará desafios do ponto de vista político, regulatório e econômico, com a alta do dólar e a tributação de Pessoas Jurídicas como questões sensíveis. O calendário marcado por eventos como as eleições e a Copa do Mundo também pode impactar a tramitação de pautas relevantes no Congresso, como a execução da Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial (PNDL).

“O ano de 2026 vai ser desafiador. Para conseguirmos aprovar um Projeto de Lei, precisamos da disponibilidade de congressistas, que estarão em campanha. Tudo isso exige muita articulação institucional das entidades representativas da saúde, como a Abramed”, diz Milva Pagano.

Mesmo com estes pontos de atenção, a avaliação da Abramed é que a Medicina Diagnóstica entra em 2026 com bases sólidas e apoiada em inovação. O desafio do próximo ciclo será equilibrar investimentos, avanço tecnológico e sustentabilidade econômica, mantendo o foco na qualidade do diagnóstico e na integração do cuidado como pilares centrais para o sistema de saúde.

29 de janeiro de 2026.

Inteligência Artificial no Brasil: como o setor da Saúde contribui para a construção do novo marco regulatório

Propostas da Abramed orientam a construção de um marco regulatório que concilie proteção ao paciente, segurança jurídica e desenvolvimento tecnológico.

O Projeto de Lei nº 2.338/2023, que estabelecerá as diretrizes para o desenvolvimento, o fomento e o uso ético e responsável da Inteligência Artificial no país, tem avançado no Congresso Nacional. Em um momento decisivo para a definição de parâmetros de inovação, segurança e responsabilidade, a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) tem atuado de forma estratégica para assegurar que a futura legislação considere as especificidades da saúde e garanta equilíbrio regulatório.

Ao lado da Associação Nacional de Hospitais Privados (ANAHP), Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), Saúde Digital Brasil e outras entidades, a Abramed enviou contribuições que foram apresentadas pela Frente Parlamentar Mista de Saúde ao relator do PL, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), um documento técnico estruturado: o Decálogo de Regulação de IA para o Setor da Saúde, que consolida entendimentos e propõe ajustes fundamentais para que o Brasil avance com segurança e sem criar barreiras desnecessárias à inovação.

De acordo com o advogado Lucas Bonafé, do escritório Machado Nunes, a atuação institucional concentrou-se em qualificar o debate e mitigar generalizações que poderiam dificultar a adoção de novas tecnologias no setor, apresentando propostas concretas de alteração legislativa baseadas em 10 pilares estratégicos. Destacamos abaixo algumas das contribuições apresentadas.

O primeiro trata da definição precisa de alto risco, com a proposta de que o enquadramento de sistemas seja competência do Sistema Nacional de Regulação e Governança de Inteligência Artificial (SIA), considerando probabilidade e gravidade dos impactos adversos. Outro ponto-chave aborda a responsabilidade proporcional e não duplicada, especialmente relevante em saúde, onde uma mesma instituição pode ser desenvolvedora e usuária: defendemos que a responsabilização recaia sobre quem efetivamente exerce controle sobre o sistema.

Também reforçamos a necessidade de proteger a Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), recomendando que aplicações exclusivamente dedicadas à pesquisa fiquem fora do escopo da lei até sua entrada no mercado, garantindo liberdade para etapas iniciais de experimentação. Por fim, enfatizamos a harmonização regulatória entre o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que estrutura a visão estratégica, e o PL 2.338/2023, que deve oferecer segurança jurídica para a aplicação da IA em saúde.

As propostas foram apresentadas diretamente à liderança parlamentar, em nome de entidades representativas da Saúde Suplementar, e seguimos monitorando sua incorporação à versão final do relatório.

A aprovação do Marco Legal trará novos requisitos para empresas e prestadores de serviços de Saúde, entre eles a obrigatoriedade de avaliações de impacto algorítmico que contenham informações técnicas e operacionais sobre riscos potenciais aos direitos fundamentais, medidas adotadas para mitigá-los, etapas de supervisão humana e métricas utilizadas para aferir acurácia e desempenho. A Abramed entende que a regulação é necessária para fortalecer a segurança jurídica, proteger pacientes e promover boas práticas no ciclo de vida dos modelos, sem impor barreiras que inviabilizem a inovação responsável.

Para apoiar o setor nesse processo de transição, recomendamos que os associados iniciem a adoção de boas práticas em três frentes essenciais:

  • Governança de Dados: garantia de qualidade, completude e proteção dos dados utilizados no treinamento de algoritmos;
  • Interoperabilidade: adoção de padrões internacionais que permitam integração com prontuários, sistemas clínicos e repositórios nacionais;
  • Gestão do ciclo de vida da IA: monitoramento contínuo para evitar degradação de desempenho, vieses discriminatórios e perda de acurácia ao longo do tempo.

Nos próximos meses, nossas prioridades incluem a participação ativa em Grupos de Trabalho, contribuindo tecnicamente para a implementação da lei; a capacitação de equipes em temas como transparência, explicabilidade e mitigação de vieses; e o diálogo permanente com legisladores e reguladores para garantir que a regulamentação setorial da saúde seja convergente com o Marco Legal da IA.

A Abramed reafirma seu compromisso em representar o setor com responsabilidade, antecipar tendências regulatórias e contribuir para um ambiente que combine segurança, inovação e qualidade assistencial.

Abramed amplia participação da Medicina Diagnóstica no debate sobre mudanças climáticas

Dados, governança e cadeia produtiva entram no centro das discussões sobre o papel da saúde diante da crise climática.

O avanço das mudanças climáticas vem alterando o funcionamento dos sistemas de saúde em todo o mundo. Eventos extremos mais frequentes, ondas de calor prolongadas, alterações no regime de chuvas e impactos sobre a qualidade do ar e da água já se refletem no perfil epidemiológico da população e na operação de hospitais, laboratórios e serviços assistenciais. Ao mesmo tempo, estima-se que o setor responda por cerca de 4,4% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo estudo da Health Care Without Harm (HCWH).

Esse duplo papel – como setor impactado e emissor relevante – ganhou espaço na agenda internacional durante a COP30, realizada em Belém (PA). Pela primeira vez, a saúde deixou de ocupar uma posição periférica nas discussões climáticas e passou a ser tratada como parte estrutural das estratégias de adaptação. O movimento é fruto de uma trajetória iniciada na COP28, com a criação do Dia da Saúde, e fortalecida na COP29, quando o tema passou a integrar oficialmente a programação das conferências.

A Abramed também integra essa agenda. Durante a COP30, Cesar Nomura e Claudia Cohn, respectivamente presidente e membro do Conselho de Administração da entidade, participaram de um debate na EY House que reuniu lideranças do setor de saúde, especialistas em sustentabilidade e representantes do poder público. A discussão girou em torno da integração entre ciência, governança e políticas climáticas, com foco nos efeitos diretos do aquecimento global sobre as cidades e os sistemas de saúde.

“A presença da Abramed demonstrou o papel estratégico da medicina diagnóstica na sustentabilidade ambiental, contribuindo para debates sobre resiliência das cidades, clima, eventos extremos e o protagonismo do diagnóstico por um futuro mais seguro”, destacou Nomura. Segundo ele, a agenda climática passa necessariamente por ganhos de eficiência operacional, redução de desperdícios e revisão de práticas históricas.

A reflexão foi aprofundada posteriormente no painel da Câmara de Assuntos Políticos e Estratégicos (Cape), organizada pela Fesaúde, com apoio da Arca. No encontro, o debate se deslocou da operação individual das instituições para a dimensão sistêmica. Vital Ribeiro, presidente do Conselho do Projeto Hospitais Saudáveis, chamou atenção para o peso da cadeia produtiva nas emissões associadas à saúde. “Setenta por cento do impacto ambiental do setor está nos fornecedores — equipamentos, insumos, logística, energia. Quando se fala em emissões da saúde, é preciso olhar para essa cadeia de forma mais ampla”, observou.

Vital também destacou que, apesar do avanço do tema no ambiente internacional, a saúde ainda ocupa espaço limitado nas negociações climáticas. “Há uma tendência de tratar a mudança climática apenas como um problema operacional, ligado à continuidade do atendimento em situações extremas. Mas as decisões tomadas hoje em áreas como energia, uso do solo, mobilidade e sistemas alimentares terão efeitos diretos sobre a saúde da população nas próximas décadas”, afirmou.

Na avaliação de Claudia Cohn, também diretora de Relações Institucionais da Dasa, um dos principais desafios está na fragmentação das iniciativas. “A saúde não começa nem termina no hospital ou no laboratório. A jornada envolve indústria, logística, embalagens, fornecedores e o próprio comportamento do usuário. Quando cada parte atua de forma isolada, o impacto é limitado”, disse.

Claudia destacou que escolhas historicamente consideradas sustentáveis precisam ser revisitadas à luz de novas evidências. Para ela, decisões relacionadas a materiais, embalagens e consumo exigem uma análise mais cuidadosa dos efeitos ambientais ao longo de toda a cadeia, e não apenas na etapa final do descarte.

A agenda climática na saúde exige decisões coletivas, continuidade e engajamento institucional, acrescentou Nomura. Segundo ele, não é mais possível tratar a crise climática como um problema externo ao setor. “Há uma responsabilidade direta das lideranças e das instituições. Não adianta esperar que o outro faça: a mudança depende de escala, de conscientização e do compromisso das organizações de referência”, afirmou.

Da discussão à prática

As empresas associadas à Abramed têm se dedicado, continuamente, a ações que diminuem o impacto de suas atividades no meio ambiente. Segundo o Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico, houve redução de 25% no consumo de água, 23% no uso de energia elétrica e 29% na geração de resíduos nos últimos anos.

Além disso, 93% dos associados já adotaram coleta seletiva, acompanhada de campanhas de conscientização e treinamentos ambientais. Outro destaque foi o avanço digital, com um salto de 267% no acesso eletrônico a exames, diminuindo drasticamente o uso de filmes radiológicos e gerando impacto positivo no meio ambiente.

Entre as experiências exitosas estão as do Hospital Sírio-Libanês, o primeiro da América Latina a se tornar carbono neutro, combinando mecanismos de compensação de emissões com mudanças estruturais em processos internos e na relação com fornecedores.

A instituição também está substituindo gradualmente a logística tradicional por entregas realizadas com caminhão elétrico, além de avançar na eliminação do uso de filmes radiológicos, com incentivo ao acesso digital aos exames e à devolução de chapas antigas mantidas pelos pacientes. Já foram recolhidas mais de duas toneladas e meia do material, que não se decompõe e gera grande impacto ambiental quando descartado de forma inadequada. 

Outros investimentos envolvem novas tecnologias de imagem, como equipamentos de ressonância magnética que operam com volumes menores de hélio, reduzindo riscos ambientais associados ao insumo. O uso de algoritmos de inteligência artificial também tem permitido encurtar o tempo de realização de exames, com reflexos diretos no consumo de energia e na eficiência da operação. 

Já o Einstein Hospital Israelita aproveitou a COP30 para apresentar sua plataforma MAIS (Meio Ambiente e Impacto na Saúde), que cruza informações ambientais — como temperatura, poluição do ar e ondas de calor — com registros de doenças, internações e mortalidade. O objetivo é ampliar a capacidade de análise sobre como as mudanças climáticas já se refletem nos indicadores de saúde.

A relevância do tema tem levado a Abramed a incluí-lo nos debates do FILIS, o Fórum Internacional de Lideranças da Saúde, realizado anualmente pela entidade. Como sintetiza Nomura, quando a saúde mede o impacto climático, cria-se a base para o cuidado. E, no enfrentamento da crise climática, o diagnóstico é, mais do que nunca, o primeiro passo.

Encontro entre Abramed e ITpS marca nova fase de cooperação entre as entidades

Parceria pode avançar em agenda conjunta na defesa de uma arquitetura nacional de dados em Saúde

A Reunião do Comitê de Interoperabilidade da Abramed, realizada na sede do Instituto Todos pela Saúde (ITpS), se colocou como um marco para a colaboração técnica entre as entidades, que irá ganhar novos desdobramentos ao longo de 2026 e tem como norte a defesa comum de uma arquitetura nacional de dados capaz de sustentar o avanço da saúde digital.

Em um contexto de crescente digitalização da saúde e pressão por maior integração dos sistemas, o encontro reforçou a interoperabilidade como condição estruturante para a evolução do setor.

Iniciada no biênio de 2023-2024 como uma parceria voltada ao monitoramento epidemiológico, a convergência entre a Abramed e o ITpS agora abarca a busca pela interoperabilidade dentro do contexto de um Sistema de Saúde ainda marcado por fragmentação, redundâncias e baixa capacidade de troca qualificada de informações. Nesse sentido, a padronização de dados surge como condição estruturante para melhorar desfechos clínicos, reduzir ineficiências e apoiar decisões.

Com abertura de Milva Pagano, Diretora Executiva da Abramed, e Vanderson Sampaio, Diretor de Operações do ITpS, a reunião contou com palestras e um debate técnico entre associados e representantes das entidades, além de hospitais e especialistas.

Na primeira apresentação do encontro, o pesquisador científico do ITpS, Juan Carlo Santos e Silva, trouxe uma leitura sobre os desafios da interoperabilidade de dados no Brasil. Um dos pontos centrais foi a distinção entre integrar e interoperar informações. “Integrar é armazenar dentro de um data lake; interoperar é conseguir trocar informações e fazer com que elas tenham valor para a tomada de decisões. Isso sim gera um impacto positivo enorme para toda a cadeia”, disse.

A apresentação destacou o papel da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), mas também suas limitações atuais, especialmente no consumo efetivo das informações por estados e municípios. Entre os principais gargalos apontados estão a baixa padronização semântica, o uso restrito de terminologias como LOINC e SNOMED, a pouca capacidade de integração dos sistemas legados do SUS e a desigualdade de capacidade técnica entre grandes grupos e pequenos laboratórios.

O pesquisador também apresentou iniciativas do ITpS voltadas à padronização e à governança de dados, com apoio, por exemplo, de automação e inteligência artificial para tradução de códigos com curadoria humana. A proposta é viabilizar caminhos escaláveis e factíveis para a interoperabilidade no Sistema de Saúde brasileiro.

Coordenação do cuidado

A segunda palestra, conduzida por Sabrina Dalbosco, gerente de projetos do Hospital Sírio Libanês, trouxe a interoperabilidade como uma das bases para a sustentabilidade do Sistema de Saúde. Ao abordar o custo da ineficiência, ela ressaltou que falhas na circulação da informação geram desperdício financeiro, retrabalho e riscos clínicos. “Interoperabilidade não é apenas tecnologia; ela está no coração da coordenação do cuidado e da segurança do paciente”, destacou.

Sabrina também alertou para o risco do chamado “falso digital”, quando processos analógicos são simplesmente replicados em sistemas eletrônicos, sem ganhos reais de eficiência ou qualidade. Para ela, padronização, governança de dados e formação de profissionais em saúde digital são condições indispensáveis para que a transformação digital produza, de fato, valor concreto.

Entre os exemplos apresentados, ganhou relevância o Sumário Internacional do Paciente (IPS), iniciativa interoperável entre países que reúne informações clínicas essenciais — como alergias, medicamentos e diagnósticos —, que foi iniciada na pandemia e avança junto ao Ministério da Saúde.

Próximos passos

O debate que se seguiu aprofundou desafios vividos pelos laboratórios diante de questões como as notificações compulsórias e a multiplicidade de exigências de vigilâncias municipais com formatos distintos para os mesmos dados, o que gera retrabalho e insegurança operacional. A centralização das notificações via RNDS, com integração padronizada, foi apontada como caminho prioritário.

Também houve consenso sobre a necessidade de envolver fornecedores de sistemas laboratoriais, mapear a maturidade digital dos associados da Abramed e documentar casos de uso que demonstrem retorno clínico e operacional. Do ponto de vista regulatório, o grupo discutiu a importância de transformar a interoperabilidade em política de Estado, com padrões claros e previsibilidade para o setor.

A reunião sinalizou a possibilidade da ampliação do escopo da parceria entre Abramed e ITpS — antes concentrada em monitoramento epidemiológico — para incorporar a interoperabilidade como agenda estruturante, com encaminhamentos técnicos e perspectiva de continuidade.

Com representantes de laboratórios responsáveis por 85% do volume de exames realizados no país, a Abramed reafirma seu papel estratégico na indução de padrões de interoperabilidade e na construção de uma agenda conjunta capaz de sustentar a qualidade, a segurança e a sustentabilidade do Sistema de Saúde brasileiro. 

Simpósio InovaSUS Digital reforça papel estratégico da agenda nacional de interoperabilidade

Discussões preparatórias consolidam o papel da Abramed no processo que antecede o Chamamento Público do InovaSUS Digital.

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) participou, em 9 de dezembro, do Simpósio Laboratório InovaSUS Digital, realizado pelo Ministério da Saúde em Brasília (DF). O encontro reuniu gestores estaduais e municipais, lideranças do Governo federal, organismos internacionais, instituições de saúde e o setor produtivo em torno dos fundamentos técnicos e estratégicos do SUS Digital — incluindo interoperabilidade, integração de dados, arquitetura nacional de informação, telessaúde, inteligência artificial e serviços digitais para o cidadão.

A presença da Abramed no simpósio soma-se à sua atuação na reunião preparatória que antecedeu o evento, quando a Associação apresentou ao Ministério da Saúde um diagnóstico setorial consolidado com percepções, desafios e prioridades das empresas de Medicina Diagnóstica. Esse processo reafirma o papel institucional da Abramed como representante qualificada da Saúde Suplementar e como parceira do Ministério da Saúde no acordo de cooperação técnica que trata da integração dos resultados de exames à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). 

Pela relevância de suas associadas — responsáveis por mais de 85% dos exames realizados no país —, a Abramed é parte estrutural do movimento de digitalização do SUS, contribuindo diretamente para a maturidade digital e para o avanço da interoperabilidade entre os ecossistemas público e privado.

O que marcou o simpósio

As discussões do InovaSUS Digital evidenciaram que a transformação do SUS depende de uma arquitetura nacional de dados robusta, de padrões técnicos consolidados e da integração plena das informações ao longo da jornada do paciente. Entre os destaques das falas, esteve a importância do histórico clínico contínuo como base para segurança, qualidade assistencial e vigilância epidemiológica — além dos obstáculos persistentes, como fragmentação de sistemas, ausência de padronização, diferenças de maturidade digital entre estados e municípios, desafios de governança e limitações tecnológicas que dificultam o fluxo de dados em tempo real.

Também foram abordados o papel central da RNDS como infraestrutura estratégica do país; os avanços regulatórios em interoperabilidade; a necessidade de integrar dispositivos médicos, serviços digitais e telessaúde; e o fortalecimento de mecanismos de proteção de dados e segurança cibernética. Especialistas ressaltaram que a consolidação de padrões nacionais é condição para ampliar acesso, reduzir assimetrias e permitir que soluções inovadoras se conectem de forma segura ao SUS Digital.

O diagnóstico setorial entregue pela Abramed à Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI) demonstra que o setor de Medicina Diagnóstica compartilha dos mesmos desafios estruturantes debatidos no simpósio. Entre os principais pontos técnicos destacados no ofício:

  • Falta de padronização nacional (57,1%) e altos custos de integração (71,4%) são as barreiras mais relevantes para a interoperabilidade;
  • A maturidade digital é heterogênea: 42,9% possuem interoperabilidade parcial e outra parcela igual ainda enfrenta limitações internas e externas;
  • Em telessaúde, a expansão esbarra em integração com sistemas existentes (57,1%) e infraestrutura insuficiente (42,9%);
  • Em análises avançadas e medicina de precisão, o maior obstáculo é a qualidade e padronização dos dados (57,1%);
  • Em gestão, as prioridades são Inteligência Artificial e automação de processos (ambas com 85,7%), frente a desafios como custos de digitalização (85,7%) e falta de integração entre áreas (71,4%);
  • As prioridades estratégicas do setor convergem com as do SUS Digital: engajamento do paciente (71,4%), gestão e eficiência (57,1%) e serviços digitais e telessaúde (42,9%).

Essa convergência reforça a importância da participação da entidade como ponte entre a Saúde Suplementar e o Ministério da Saúde. Ao contribuir tecnicamente para os eixos do InovaSUS Digital, a Associação apoia a formulação de diretrizes, editais e modelos colaborativos que reduzirão assimetrias tecnológicas, fortalecerão padrões nacionais e ampliarão a capacidade de integração entre os diversos prestadores do sistema.

Próximos passos: o chamamento público

O Ministério da Saúde confirmou que o simpósio antecede o lançamento do Chamamento Público do InovaSUS Digital, que credenciará parceiros para desenvolver projetos de inovação alinhados aos eixos estratégicos da transformação digital. As contribuições recebidas — incluindo as da Abramed — subsidiarão a construção dos editais e das diretrizes técnicas do programa.

A Abramed seguirá acompanhando e colaborando com o Ministério da Saúde nessa agenda estratégica, reafirmando seu compromisso com interoperabilidade, qualidade, segurança, governança e integração dos dados de saúde — elementos essenciais para um SUS digital, moderno e sustentável.

Reunião conjunta dos Comitês Jurídico e de Proteção de Dados aprofunda debate sobre ECA Digital

Lei traz novos parâmetros para a segurança de crianças e adolescentes no meio virtual que alcança hospitais, laboratórios e reforça a responsabilidade solidária na cadeia de Medicina Diagnóstica

A Abramed reuniu, no último dia 4 de dezembro, seus Comitês Jurídico e de Proteção de Dados para discutir um dos marcos regulatórios que mais mobilizaram a sociedade brasileira contemporânea: o ECA Digital, relacionado ao(Estatuto da Criança e do Adolescente, que foi instituído pela Lei 15.211/2025 e tem como princípio fortalecer os mecanismos de proteção de crianças e adolescentes em ambientes virtuais. 

A pauta é central para a cadeia de Medicina Diagnóstica pois, além de se referir a um tema com impacto direto na saúde mental de jovens do país, seus efeitos alcançam portais de exames, aplicativos de telemedicina, sistemas de agendamento, chatbots de hospitais e laboratórios e qualquer canal online com acesso eventual desse público, mesmo que não seja a ele direcionado. 

A reunião, realizada virtualmente, contou com palestras de Alessandra Borelli, especialista em Ética, Direito Digital, IA e Proteção de Dados; e Lucas Bonafé, especialista em Direito Digital, Regulatório e Proteção de Dados do Machado Nunes — escritório que representa a Abramed.

Um marco regulatório que muda a governança digital da saúde

Ao apresentar as bases do ECA Digital, Alessandra Borelli ressaltou que o Brasil assume protagonismo regional ao se tornar um dos primeiros países da América Latina a estabelecer um marco regulatório específico para a proteção digital infantojuvenil. 

“Os casos expostos recentemente com o “Efeito Felka” mobilizaram a sociedade e criaram guardiões digitais dentro de um debate fundamental para o futuro da segurança na internet. O ECA Digital é um marco que cobra responsabilidade de empresas, pais, poder público e, do ponto de vista tecnológico, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) já está trabalhando para esclarecer pontos sensíveis da nova lei”, disse Borelli. 

Sobre os efeitos da legislação no ecossistema de saúde e de Medicina Diagnóstica, Alessandra Borelli apresentou os nove pilares que impactam diretamente os canais virtuais de hospitais e laboratórios, incluindo a necessidade de verificação etária, de medidas para a proteção contra conteúdo nocivo, publicidade responsável, do design seguro, de políticas claras de governança e transparência,  da responsabilidade solidária na cadeia e prevenção de interações indevidas, além da proteção de dados pessoais e do direito à desconexão com fomento da educação digital.

A especialista enfatizou que esses elementos exigem uma revisão profunda das jornadas digitais, contratos de telemedicina, fluxos de consentimento e políticas internas de comunicação. Como argumentou, “as instituições podem ser responsabilizadas por incidentes mesmo quando ocorrem por meio de terceiros, como agências de marketing ou plataformas tecnológicas” .

Borelli reforçou ainda que crianças e jovens são mais vulneráveis a riscos digitais relacionados a conteúdos, contatos, condutas, contratos e comércio no ambiente virtual. Esses eixos são decisivos para que se formulem estratégias de segurança, permitindo também o dimensionamento de impactos financeiros, operacionais e reputacionais para empresas que não se adequarem à nova lei.

A responsabilidade solidária prevista no ECA Digital alcança todos os integrantes da cadeia, incluindo fornecedores de tecnologia, parceiros terceirizados, provedores de infraestrutura digital e empresas de comunicação. A depender da gravidade da violação, a lei prevê advertência, suspensão de funcionalidades, bloqueio temporário de serviços, obrigação de implementação imediata de medidas corretivas e multas que podem atingir valores significativos, especialmente quando envolvem dados sensíveis de menores. Esse contexto reforça a necessidade de diagnósticos regulatórios, revisão de políticas e implementação de controles digitais adequados para evitar interrupções assistenciais e impactos reputacionais.

Questões regulatórias e o papel da Abramed

Em sua participação Lucas Bonafé trouxe a discussão sobre a Tomada de Subsídios – Consulta Pública aberta recentemente que revisa a agenda regulatória da ANPD – , lembrando que o setor de Medicina Diagnóstica enfrenta nuances específicas e que “há um prazo breve para contribuições dos associados sobre pautas como a definição de acesso a dados em portais de saúde e aplicativos de telemedicina, especialmente quando há a permissão do acesso de adolescentes”. 

Sobre esse ponto, Bonafé debateu o conceito de “acesso provável”, explicando que ele exige atenção, já que portais e aplicativos que não foram concebidos para crianças – mas que podem ser utilizados por adolescentes de forma autônoma – precisam ter “exigências de verificação etária harmonizadas com a importância da continuidade do cuidado, sobretudo quando consideramos ferramentas voltadas a saúde mental e que tem um papel importante, inclusive, no tratamento dos impactos do ambiente digital na vida dos jovens”. 

Também foram apresentadas reflexões sobre aculturamento digital, capacitação das equipes e a necessidade de envolver setores como jurídico, TI, governança, comunicação e pediatria em um esforço integrado. 

O encontro reforçou o papel da Abramed como articuladora setorial, consolidando evidências, levantando dúvidas técnicas e preparando contribuições coordenadas à ANPD sobre temas como: mecanismos adequados de verificação etária em portais de exames; limites para coleta e uso de dados sensíveis de menores na jornada assistencial; critérios de responsabilização quando a interação ocorre via terceiros; e parâmetros mínimos de governança digital para o setor de saúde.

A entidade seguirá apoiando os associados na interpretação das obrigações regulatórias e na implementação de medidas técnicas e organizacionais que garantam conformidade diante da combinação entre LGPD, ECA Digital e normas sanitárias.

Ao comentar a relevância da pauta, Milva Pagano, Diretora Executiva da Abramed, destacou: “O ECA Digital inaugura uma nova fronteira de responsabilidade solidária para o setor de Saúde. Não se trata apenas de cumprir regras, mas de garantir que cada interação digital seja segura, ética e compatível com o cuidado que prestamos. A Abramed seguirá como um ponto de convergência entre reguladores, especialistas e o setor produtivo para apoiar uma adequação madura, responsável e alinhada à proteção integral de crianças e adolescentes”.

Mensagem de fim de ano

Prezado associado,

Ao nos aproximarmos do final de 2025, é tempo de pausar, olhar para trás e celebrar um ciclo verdadeiramente vitorioso para todos nós. Este ano não foi apenas mais um calendário cumprido, mas um marco definitivo em nossa história, onde nossos compromissos estratégicos se transformaram em entregas concretas que fortaleceram a Medicina Diagnóstica em todo o Brasil.

Foi um período em que a materialização dos nossos avanços ampliou a confiança da sociedade e reafirmou a importância do nosso setor. Intensificamos nossa presença institucional em Brasília e junto a órgãos reguladores, construindo pontes sólidas que garantiram que o diagnóstico fosse reconhecido como um componente estratégico e vital para a saúde nacional.

Essa maturidade institucional, fruto dos nossos 15 anos de caminhada, refletiu-se na qualidade dos nossos encontros. Momentos como o FILIS e o lançamento da nova edição do Painel Abramed não foram apenas espaços de debate, mas de construção coletiva de soluções, onde antecipamos tendências e compartilhamos conhecimentos valiosos.

Ao longo do ano, atuamos de forma decisiva na linha de frente das grandes discussões que moldam o futuro do nosso mercado. Desde os debates sobre Inteligência Artificial e a defesa da Política Nacional do Diagnóstico Laboratorial até o acompanhamento minucioso da Reforma Tributária, nosso foco foi garantir segurança, transparência e sustentabilidade. Trabalhamos incansavelmente para traduzir a complexidade desses temas em apoio real e informação clara para o seu dia a dia, ao mesmo tempo em que avançamos nas pautas de inovação e ESG.

Encerramos este ciclo com o coração cheio de gratidão e a convicção de que cada avanço e parceria firmada em 2025 tornou a Abramed um agente de transformação ainda mais forte. Nada disso seria possível sem a sua confiança e participação.

Que as conquistas deste ano sirvam de inspiração para o novo tempo que se aproxima. A Abramed reafirma o compromisso de seguir ao seu lado, apoiando as adaptações necessárias e promovendo a excelência.

Desejamos a você, à sua família e a toda sua equipe um final de ano de paz e alegria, e um 2026 repleto de prosperidade e novas realizações.

Boas festas!

Milva Pagano, Diretora Executiva da Abramed.