Papel do diagnóstico na jornada de volta ao trabalho é debatido em evento on-line

Abramed participa de painel virtual Valor em Saúde

13 de agosto de 2020

A saúde corporativa, a questão assistencial, exames de sorologia e análises clínicas e até outras infecções respiratórias (além das causadas pela COVID-19) estiveram entre os assuntos abordados pelos especialistas que participaram da mesa redonda digital “O Papel do Diagnóstico na jornada de volta ao trabalho” tema do Valor em Saúde, evento on-line organizado pela TMJobs na última quarta-feira, dia 12 de agosto.

Moderador do painel, o presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), Wilson Shcolnik, destacou quão complementares foram as apresentações dos quatro participantes: o médico Marco Antonio Cyrillo, da diretoria da Sociedade Brasileira de Infectologia; a infectologista Nancy Bellei, professora da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp); Leonardo Piovesan, que gerencia o programa de saúde integral do Hospital Alemão Oswaldo Cruz; e o diretor de Desenvolvimento Setorial da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Rodrigo Rodrigues Aguiar.

“Essa pandemia atingiu nosso país e provocou mudanças em toda a sociedade”, afirmou  Shcolnik, que diante da informação divulgada pelo diretor da ANS de que a agência deliberaria, no dia seguinte ao talk show, a incorporação dos exames sorológicos na testagem da COVID-19, questionou os debatedores sobre a eficácia desse tipo de teste independentemente da fase de contaminação ou imunização que cada paciente se encontra.

Marco Antonio Cyrillo lembrou que a COVID-19 é muito nova e que, por enquanto, estão sendo utilizados modelos epidemiológicos que partem de versões anteriores do coronavírus. “É muito importante conhecer epidemiologia, conhecer as medidas realmente eficientes e seguramente diminuir o contágio utilizando medidas não farmacológicas porque os estudos são muito conflitantes. Várias sociedades têm se manifestado, inclusive a Sociedade Brasileira de Infectologia, com relação a tratamentos terapêuticos ou profiláticos que não tem respaldo da literatura e não existam em estudos bem desenhados”, disse ele, que é diretor do hospital IGESP, destacando por conta disso a importância dos testes sorológicos para a diminuição da quantidade de novos casos de Covid-19.

Já a apresentação da infectologista da Unifesp Nancy Bellei abordou justamente os vários tipos de exames aplicados para testar os pacientes, bem como as cargas virais e as fases de contágio, considerando os diferentes sintomas apresentados pelos infectados, e ainda que há pacientes assintomáticos. Ela também explicou sobre vacinação e citou que a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, da Inglaterra, já começou a ser testada em profissionais da Unifesp.

Wilson Shcolnik perguntou também a respeito das mudanças demandadas na rotina de trabalho de agências reguladoras e órgãos governamentais, como a ANS, bem como os desafios enfrentados pelos serviços de saúde como o programa de saúde integral do hospital Oswaldo cruz. “Foi preciso cuidar de seus colaboradores, médicos, enfermeiros, auxiliares, uma gama de profissionais que atuam dentro do hospital e também os pacientes que procuram o hospital”, disse ele.

De acordo com Leonardo Piovesan, muitos dos atendimentos do Oswaldo Cruz migraram para a plataforma de telemedicina e foi aplicada testagens em larga escala entres os colaboradores. “Facilitou porque já tínhamos mapeados os colaboradores de grupo risco e também uma plataforma de telemedicina”, disse ele, explicando que o hospital alemão ofereceu um serviço de consultoria empresarial no qual infectologistas fazem o mapeamento de layouts de escritórios, orientam os médicos do trabalhos sobre as testagens para o coronavírus mais adequadas a cada caso e ainda ministram palestras aos colaboradores para evitar o contágio da COVID-19.

Menos de 30 dias antes de deixar a sua posição na ANS, Rodrigo Rodrigues Aguiar, aproveitou a oportunidade, a pedido de Shcolnik, para avaliar o trabalho da agência nos últimos anos. “Mesmo não sendo capaz de responder se temos um setor melhor do que tínhamos há três anos, que tenhamos deixado a semente ai que possa germinar para melhor o setor de saúde suplementar”, afirmou, destacando os projetos de melhoria do modelo de atenção primária, bem como a construção nacional de indicadores de hospitais que ficarão prontos no final de 2020.

Primeiro episódio da série Abramed Diálogos Digitais fala de retomada econômica e os impactos na saúde

Evento digital recebeu executivos do Grupo Fleury, Hospital Sírio-Libanês e XP Investimentos

11 de agosto de 2020

Em um momento de tantos desafios, fica ainda mais clara a importância do diálogo aberto e da troca de experiências. Neste contexto, nasce o projeto #DiálogosDigitais, uma série de eventos digitais, promovido pela Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), para dialogar sobre os mais variados temas que afetam a cadeia da saúde. O primeiro episódio da série recebeu, na noite de 11 de agosto, lideranças da saúde e especialistas para tratar da retomada econômica na nova realidade.

Com as incertezas que permeiam o cenário nacional abalado pela pandemia de COVID-19, como gestores, médicos e economistas encaram os desafios que estão pela frente? Moderado por Priscilla Franklim Martins, diretora-executiva da Abramed, o diálogo contou com a participação de Carlos Alberto Marinelli, CEO do Grupo Fleury; Paulo Chapchap, diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês; e Rachel de Sá, economista da XP Investimentos.

Logo após a confirmação do primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus no Brasil, a crise começou a se instalar. Com a paralisação de algumas atividades, sendo mantidos apenas os serviços essenciais, a economia começou a enxergar que os desafios seriam enormes. Ainda dentro dessa perspectiva, hospitais, laboratórios e clínicas de imagem viram sua movimentação entrar em vertiginosa queda com a suspensão de atendimentos eletivos, visto que a prioridade do país era identificar e tratar pessoas acometidas pela COVID-19.

Diante de tantas incertezas – estávamos frente a uma doença nova em uma situação difícil de ser compreendida em tão pouco tempo – o conhecimento foi evoluindo tanto na área da saúde quanto na economia. É o que explica Rachel de Sá. “No começo, a maior parte dos economistas do mundo entendiam que vivíamos uma crise de oferta. Porém, depois da compreensão de que o grande problema do novo coronavírus não era a letalidade, mas sim a disseminação muito rápida que ameaçava os sistemas de saúde, entramos em isolamento social e a economia mundial parou. Começamos, então, a avaliar que a COVID-19 era uma crise da economia real, que trazia tanto problemas de oferta quanto de demanda”, disse.

Para os serviços de saúde, a crise também se instalou. Apontando que a incerteza é o maior desafio de todos nesse momento, Carlos Marinelli, falando sob a ótica do Grupo Fleury, traçou um panorama das atividades da rede ao longo dos últimos meses enfatizando que os resultados da companhia mostram que o segundo trimestre de 2020 foi, de fato, muito desafiador.

Lembrando de cenários internacionais como o de Nova Iorque, nos Estados Unidos, que acusou aumento de 800% no número de mortes nas residências por doenças cardíacas ocasionadas principalmente pelo receio das pessoas buscarem atendimento médico e, assim, serem contaminadas com a COVID-19 nos equipamentos de saúde, Marinelli avaliou o segundo semestre. “Cuidados de saúde são prioritários e chega uma hora que a pessoa precisa ir ao médico, precisa fazer seus exames. Quando projetamos 2020, pensamos que uma segunda onda de infecções pelo novo coronavírus não seja o cenário mais provável, visto que infelizmente não tivemos um controle tão efetivo da pandemia”, pontuou. “A gente não teve um colapso do sistema de saúde, o que foi muito positivo. Mas isso não quer dizer que controlamos a pandemia da melhor maneira”, completou.

Ao falar sobre a contenção do patógeno na sociedade, o executivo declara que todos estão a cada dia aprendendo mais sobre a doença e sobre como os serviços devem se comportar em um país continental como o Brasil, onde os surtos chegaram em tempos e com intensidades diferentes. “Trabalhamos com pesquisadores da USP e da Unifesp para entender a prevalência de COVID-19 na cidade de São Paulo e o que vemos é uma divergência muito grande em função do nível de renda, visto que em regiões mais pobres já vemos soro prevalência batendo 23%”, apontou. Segundo Marinelli, quando a porcentagem de pessoas que já tiveram contato com o vírus chega a esse patamar, começamos a observar características de imunidade de rebanho. “E é isso que reforça nossa percepção de que não necessariamente teremos uma segunda onda”, disse.

Trazendo dados sobre como o Hospital Sírio-Libanês foi impactado pelo alto número de casos de COVID-19 de março até hoje, Paulo Chapchap fez uma análise de como a pandemia provocou uma mudança na saúde geral da população, mesmo naqueles indivíduos que não se contaminaram com o novo coronavírus. “Começamos a ver internações de pacientes muito mais graves. Tanto de COVID-19 quanto de quem não tinha COVID-19”, disse. O executivo no comando do hospital acredita que nos próximos meses assistiremos o número de exames de diagnóstico voltar a 90% do que era realizado na pré-pandemia.

Papel da testagem – Priscilla provocou os participantes a falarem sobre o papel do diagnóstico nesse cenário. “Sabemos quão importante é a testagem para que a retomada realmente ocorra e que temos testes cada dia mais confiáveis. Temos ciência de que o exame molecular RT-PCR é o padrão ouro para diagnóstico da COVID-19, mas vemos que os testes sorológicos estão a cada dia mais assertivos. Como está esse cenário hoje?”, questionou.

Sem deixar de reforçar que a melhor estratégia para o combate de uma pandemia infecciosa como a COVID-19 é testar, isolar e rastrear, Marinelli falou sobre o teste sorológico como um excelente caminho para empresas que estão retornando às atividades. “Muitas pessoas contaminadas não têm nenhum sintoma característico. O RT-PCR identifica a fase aguda da doença. Vamos, então, testar essas pessoas o tempo todo para identificar o patógeno? Nesse caso, testar pela sorologia é mais vantajoso. Caso o paciente apresente IgM alto, sabemos que está no período mais crítico da doença. Se tiver alto o IgG, é porque já teve contato e o corpo dele já se manifestou, mesmo que não tenha tido sintomas e complicações”, explicou.

Comportamento do cidadão – Chapchap aproveitou a oportunidade para enfatizar que vivemos uma crise onde o cidadão tem papel fundamental. “Uma infecção de transmissão respiratória como a COVID-19 é a situação em que o paciente é mais responsável pelo que acontece com ele. A gente sabe evitar essa doença e nessa pandemia somos responsáveis pela nossa saúde e pela saúde de todos que vamos encontrar”, declarou.

Para Marinelli, com o passar dos meses o conhecimento se multiplicou, mas não adianta compreender melhor a doença se o comportamento não se adéqua aos cenários. “Todos sabemos que temos que usar máscara. Não deveríamos nem estar saindo, mas se já estamos podendo sair, vamos usar a máscara”, enfatizou.

Previsão para 2021 – Para Rachel, a resposta brasileira em termos de política pública foi muito positiva. Em sua análise, a economista declarou que o Brasil, no comparativo com países emergentes da América Latina, é um dos que menos assistirá a quedas econômicas. “Os gastos desse ano estão precificados e justificados. A grande preocupação está no próximo ano”, disse ao mencionar que o que levou o país para a crise que se instalou antes da chegada da COVID-19 foi um cenário similar ao que está sendo traçado agora, onde após políticas econômicas acertadas as políticas contracíclicas permaneceram somadas à estratégia fiscal de estímulo à demanda sem que fosse necessário. “O grande problema era a oferta”, completou.

Para Chapchap, o caminho é único: “Se o Brasil se comportar do ponto de vista fiscal, ano que vem não teremos um problema tão grande para lidar”.

Em termos de saúde, Marinelli se preocupa em não perdermos tudo o que conquistamos em prevenção. Relembrando que muitas pessoas deixaram de fazer suas consultas, exames e cirurgias por medo da contaminação, mas, também, pela paralisação das atividades (muitos serviços públicos cancelaram os atendimentos eletivos), falou sobre a adaptação das instituições para separar os pacientes garantindo segurança nos atendimentos.

“Posso garantir que os locais hoje estão seguros, com fluxos completamente separados. O conhecimento vai nos ajudar a não perder ganhos significativos que tivemos. Além disso, parcimônia e equilíbrio são fatores críticos para retornarmos à nossa normalidade sem desperdiçar a grande evolução que conquistamos com as campanhas de prevenção em saúde que investimos há anos no nosso país”, disse.

Legado da pandemia – Para encerrar o debate, Priscilla trouxe uma pergunta do presidente do Conselho de Administração, Wilson Shcolnik, que questionou aos palestrantes os dois principais pontos de aprendizado que eles acreditam que ficarão para a história.

Rachel, da XP Investimentos, apontou a adesão tecnológica que fez com que as empresas conseguissem bons resultados mesmo diante da crise e a lição de que a responsabilidade fiscal não deve ser um fim, mas um meio para obtenção de respostas em momentos desafiadores; Paulo Chapchap mencionou a compreensão sobre as benesses da ciência de dados gerando informações que baseiam a tomada de decisões, além de que equipes bem treinadas e um bom ambiente de trabalho são fatores fundamentais para o enfrentamento; e Carlos Marinelli enfatizou que estabelecer uma cultura empresarial forte, aprender a fazer mais com menos, foi um dos aprendizados, assim como a percepção de que a tecnologia em saúde é real e pode contribuir de forma grandiosa para os atendimentos e a qualidade de vida de todos.

O bate-papo está disponível no canal do YouTube da Abramed (clique AQUI para assistir). O próximo debate do projeto Diálogos Digitais também tratará da nova realidade após a crise de COVID-19, porém enfocando a gestão de pessoas. Siga a Associação nas redes sociais (Instagram, Facebook e LinkedIn) e fique por dentro.

Transparência e compliance são pilares para gestão de crises

Organizações precisam ser resilientes e manter o gerenciamento de riscos ativo para superar a pandemia de COVID-19

10 de agosto de 2020

A pandemia do novo coronavírus fez com que muitas organizações corressem para ativar ou elaborar um plano de gestão de crises. A continuidade dos negócios ganhou prioridade, assim como garantir a segurança dos colaboradores, colocando-os em home office, desde que o trabalho permitisse este modelo de atuação. Ações sociais e doações ganharam força, assim como o aumento do uso da tecnologia e dos meios virtuais, e a necessidade de buscar novos fornecedores para garantir a sequência das operações.

Superar essas adversidades em meio a tão grave crise de saúde pública, mantendo a transparência, o cumprimento da legislação e os princípios das organizações, é um desafio, mas, também, deve ser o pilar de sustentação para as empresas. “Nesse cenário, é preciso ser resiliente e usar a crise para o crescimento. As diligências de compliance, a ética e as boas práticas de governança tornaram-se essenciais para evitar desvios, fraudes ou possíveis casos de corrupção”, explica Tairyne Claudino, consultora de Gestão de Riscos e Compliance do Grupo Fleury e membro do Comitê de Governança, Ética e Compliance (GEC) da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).   

Muitas instituições precisaram adotar novas rotinas e processos, mas que não estão formalizados nas políticas corporativas, nem foram atualizadas à nova realidade de trabalho remoto, como o uso intensivo de ferramentas de conferência, acesso remoto de redes corporativas e afins. Tampouco os colaboradores estavam preparados para transformar suas residências em seus postos de trabalho, o que dificulta o alinhamento às expectativas da empresa e às orientações corporativas.

Dessa maneira, segundo Tairyne, a governança e o compliance não podem, nem devem deixar de ser prioridades nas organizações. “A crise deve sim ser uma oportunidade para reavaliarmos as rotinas e procedimentos das empresas. Mas não podemos permitir que se transforme esse momento em uma crise de integridade ou de fragilidade à transparência”, afirma.

Ela lembra que em tempos de pandemia a saúde foi altamente demandada pelos setores público e privado, com solicitações de doações de testes, serviços de diagnóstico, materiais e equipamentos, para apoio no combate ao novo coronavírus. Por isso, são tão importantes os controles e a correta diligência reputacional da organização que irá receber a doação.

Tairyne orienta que deve ser avaliado se há histórico de corrupção e improbidade, de má gestão ou desvio de recursos, envolvimento de pessoas politicamente expostas ou conexões com políticos e partidos, pois um processo mal conduzido pode trazer sérias consequências para a empresa e seus executivos. “A corrupção continua sendo crime e a boa intenção não é suficiente para justificar a falta dos devidos cuidados ou desconhecimento dos executivos”, garante.

Nesse caso, é fundamental seguir todos os trâmites e ritos legais necessários, ter uma política de doações e segui-la, formalizar o processo em contrato, declaração ou termo, realizar a prévia de due diligence e mitigar os riscos advindos de potenciais conflitos de interesses. Outra etapa importante é de ser transparente e dar visibilidade às ações. Auditar e acompanhar a utilização da doação feita também são necessários. Vale pedir fotos, vídeos ou mesmo realizar uma auditoria independente.

Da mesma forma, a gestão de terceiros merece atenção, tais como parceiros de negócio, intermediários e fornecedores. Seja no âmbito público, ou privado, há um cenário diferente em razão da pandemia, o que tem exigido maior flexibilidade e busca rápida por opções. “É nesse relaxamento que podem acontecer as fraudes, muitas vezes associadas a desvios de recursos e superfaturamento”, alerta a consultora de Gestão de Riscos e Compliance do Grupo Fleury.

Mitigando impactos

Como as organizações foram atingidas de formas diferentes durante a pandemia, Tairyne orienta que neste momento a ativação de planos de contingência bem estruturados e atualizados se tornou uma necessidade para a mitigação de impactos nas operações. Como exemplo, cita os impactos logísticos, indisponibilidade de insumos, ativação de trabalho remoto pelos colaboradores, indisponibilidade de infraestrutura de tecnologia da informação (TI), etc.

Muitas empresas já possuem planos de contingência, geralmente implementando-os imediatamente em caso de grandes emergências. Mas se a instituição não dispuser de tais planos, ela deve fazer uma avaliação imediata e abrangente de todos os riscos, incluindo questões com funcionários, terceiros, governo, demais públicos externos e toda a sua cadeia logística. “Seguir um passo a passo claro e objetivo para o gerenciamento de crises é importante para que a tarefa não se torne mais uma preocupação ou um gatilho que desencadeie novos incidentes ou problemas institucionais”, argumenta Tairyne.

Estabelecer um mecanismo positivo de comunicação de informações para funcionários, clientes e fornecedores, e criar documentos de comunicação padronizados também são importantes. O gerenciamento de informações e serviços aos clientes evitam a visão negativa decorrente de negligência ou inconsistência.

Outro risco potencializado às organizações apontado pela consultora de Gestão de Riscos e Compliance trata-se da gestão de dados para garantir segurança e confidencialidade de informações.

Com a necessidade imediata de liberação das redes corporativas para realização de trabalho remoto e o uso de meios digitais para acesso à informação e contato com as outras pessoas, os aspectos relacionados à segurança de informação se tornaram ainda mais relevantes durante a pandemia.

Tairyne lembra que mesmo diante da possibilidade de prorrogação da vigência da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), com a medida provisória  n.º 959/2020, para maio 2021, ainda  em discussão, é imprescindível que as empresas se adéquem e tornem o critério de segurança da informação e proteção de dados como prioridade. 

Além disso, é necessário que as instituições implementem um processo de monitoramento da infraestrutura de Segurança da Informação e procedimentos para orientação dos colaboradores que acessam a rede corporativa de suas casas, visando aprimoramento das barreiras de segurança, protegendo assim suas informações. “A privacidade de dados permite enfrentar imprevistos e mudanças com mais tranquilidade, além de garantir melhor competitividade e diferenciação das organizações”, afirma Tairyne Claudino.

Tecnologia é aliada da saúde durante e após a pandemia de COVID-19

Confira a entrevista com Alfonso Migliore Neto, diretor-geral do Hospital 9 de Julho, que fala sobre a relevância da telemedicina e do diagnóstico precoce em tempos de crise

10 de agosto de 2020

A pandemia do novo coronavírus enfatizou a relevância do diagnóstico precoce e acelerou processos tecnológicos que já estavam sendo ensaiados pelo setor de saúde. Com a telemedicina, o atendimento médico pode estar perto dos pacientes mesmo em uma fase de distanciamento social. Para tratar de como a inovação impacta positivamente o setor, Alfonso Migliore Neto, diretor-geral do Hospital 9 de Julho, concedeu uma entrevista exclusiva à Abramed em Foco.

Confira na íntegra.

Abramed em Foco – A pandemia do novo coronavírus atingiu drasticamente os hospitais brasileiros que assistiram ao aumento de internações por Covid-19 e ao desaparecimento de pacientes para outras cirurgias e procedimentos eletivos e ambulatoriais. Qual foi esse impacto no H9J?

Alfonso Migliore Neto – Assim como todos, fomos impactados logo no início da chegada do novo coronavírus ao Brasil. No primeiro mês, tivemos uma queda em torno de 70% nos atendimentos e cirurgias. Entretanto, estávamos acompanhando de perto as medidas que estavam sendo tomadas nos outros países e conseguimos, rapidamente, aplicar novos protocolos de atendimento e medidas de segurança para que tanto a equipe quanto os pacientes se sentissem seguros.

Fizemos uma separação das áreas, criamos fluxos de atendimento distintos, com equipes dedicadas exclusivamente para cada área, além de sinalização em todo o hospital e implantação do distanciamento social. Com todas essas medidas, hoje estamos com 75% do movimento retomado.

Abramed em Foco – Qual o legado que a pandemia deixa para o nosso país?

Alfonso Migliore Neto – Acho que um dos aprendizados mais importantes é sobre o uso da tecnologia. Já defendíamos isso há muito tempo, mas muitos enxergavam a tecnologia o oposto da humanização, o que não é verdade. Temos que utilizar a tecnologia a serviço da vida e da saúde das pessoas. Nesse momento, quantos casos de atendimentos foram resolvidos pelo uso da telemedicina, teleconsultas, etc. Ao mesmo tempo, a tecnologia tornou possível o contato entre as pessoas em um momento em que o isolamento social foi uma questão imprescindível, quando as visitas, por exemplo, foram suspensas e os contatos com os familiares se dão por meio de chamadas de vídeo.

Abramed em Foco – Inovação tecnológica está no DNA do H9J que, inclusive, há anos realiza cirurgias robóticas. Qual a relevância da área de inovação no H9J? Quanto essa área tem de representatividade no planejamento estratégico da instituição?

Alfonso Migliore Neto – A tecnologia é um pilar importante para o desenvolvimento da medicina, por isso, ela é peça fundamental no planejamento estratégico do Hospital, estando presente em diversas áreas, trazendo vantagens para médicos, pacientes e todos os funcionários. É por meio da tecnologia que conseguimos trazer diagnósticos mais assertivos e buscar alternativas de tratamento menos invasivas, proporcionando mais qualidade de vida para os pacientes. Além disso, a tecnologia também tem um papel fundamental na desburocratização do sistema. Isso traz mais agilidade e conseguimos ter um aproveitamento melhor de espaços e equipes. Atualmente, temos diversos projetos em andamento no Hospital, como, por exemplo, o hospital digital, que visa diminuir o uso de papel, reduzindo a burocracia, otimizando o tempo e estrutura, garantindo mais segurança aos dados e informações e a implementação de novidades no centro cirúrgico para maior controle do uso das salas e, com isso, redução de possíveis atrasos.

Abramed em Foco – A medicina diagnóstica esteve, nos últimos meses, em evidência devido à importância dos testes de Covid-19 neste cenário pandêmico. E o Centro de Diagnósticos do H9J é um dos mais bem equipados de São Paulo. Acredita que a pandemia nos permitirá priorizar ainda mais o diagnóstico precoce, mostrando a todos a importância desse setor da saúde?

Alfonso Migliore Neto – É inegável que a pandemia trouxe uma série de mudanças estruturais importantes, não só para o setor da saúde, mas para o mundo como um todo. Mas falando do nosso setor, especificamente, acredito que o novo coronavírus mostrou, sim, a importância do diagnóstico precoce, principalmente por causa da sua rapidez de contágio. O nosso desafio daqui para frente é continuar investindo no diagnóstico precoce para outras doenças e mostrar quantas vidas podemos salvar com uma medicina preventiva e a tecnologia, que também passou, e vai passar, por mudanças estruturais pós-pandemia, será a nossa principal aliada nesse aspecto.

Abramed em Foco – Em tempos de crise é ainda mais importante focar em humanização do atendimento, colocando o paciente sempre no centro da atenção?

Alfonso Migliore Neto – A humanização do atendimento sempre foi uma premissa do Hospital 9 de Julho e a falta de contato com o paciente, em um primeiro momento, foi um desafio. Entretanto, a tecnologia, que era tão demonizada justamente porque muitos achavam que iria desumanizar a medicina, foi fundamental para que conseguíssemos atingir o nosso propósito. Foi por meio dela que conseguimos manter o contato com o paciente sem trazer riscos para a sua saúde, também conseguimos levar conforto aos pacientes em isolamento, por meio de videochamadas, enfim, a pandemia veio para nos mostrar que a tecnologia pode, sim, ajudar na humanização do relacionamento médico-paciente e pode, ainda, trazer mais agilidade no tratamento, fazendo com que o paciente fique internado por menos tempo e com mais conforto. 

Abramed em Foco – Como o H9J tem lidado com o advento da telemedicina? Acredita que essa tecnologia deixará mesmo de ser apenas uma tendência para se consolidar como uma realidade no ambiente hospitalar?

Alfonso Migliore Neto – A telemedicina já vem sendo debatida há anos e, apesar de não substituir uma consulta presencial, é uma ferramenta importante que pode facilitar o trabalho do médico e dar mais conforto para pacientes. O novo coronavírus veio para acelerar esse debate e todos diversos setores tiveram que promover mudanças na forma de se relacionar. Os escritórios, por exemplo, tiveram que adotar o home office, com reuniões via videochamada. Com os pacientes não tem por que ser diferente. Hoje, o Hospital 9 de Julho oferece o serviço para algumas especialidades com cobertura de planos de saúde. Também implementamos o telemonitoramento para pacientes com Covid, mas que não necessitam de internação. E temos percebido que é possível trazer mais facilidade, agilidade e conforto por meio desse serviço. 

Abramed em Foco – Qual é, ao seu ver, a importância de o setor de medicina diagnóstica contar com a representação da Abramed, uma associação que abrange desde os grandes hospitais até os pequenos laboratórios espalhados pela imensidão do Brasil?

Alfonso Migliore Neto – A medicina diagnóstica tem papel fundamental no sistema de saúde. Dessa forma, é muito importante termos uma Associação que defende os interesses comuns, toma a frente de iniciativas que regulamentam o setor, discutindo de forma abrangente as questões que envolvem relações com governo, órgãos regulatórios e empresas. Sem contar suas parcerias científicas que contribuem para a disseminação de conhecimento entre seus associados.

Nesse momento da pandemia, a agilidade da Associação foi um diferencial.

Abramed em Foco – Em 2020, a Abramed comemora 10 anos de história. O que espera da Associação para a próxima década?

Alfonso Migliore Neto – A medicina irá mudar ainda mais nesses próximos 10 anos, novas tecnologias irão surgir, novas práticas e, com elas, a necessidade de mais conhecimento, agilidade nas implantações, agilidade nas regulamentações do setor, sempre de forma ética e sustentável. Dessa forma, tenho certeza de que nos próximos 10 anos, a Abramed continuará sendo essa instituição representativa competente e eficiente que é hoje e, com isso, os interesses da sociedade civil e do setor de saúde continuarão a ganhar. O uso da tecnologia pela área de medicina diagnóstica é motivo de inspiração para o setor hospitalar.

Saúde e Educação abatidas pela reforma tributária

Superoneração de serviços essenciais terá consequências perversas para população

06 de agosto de 2020

* Por Bruno Sobral, Elizabeth Guedes e Fabio Cunha

Há um ponto comum e negativo que não pode ser ignorado nas propostas de reforma tributária da Câmara, do Senado e do Executivo: o aumento expressivo da carga tributária para os setores de Saúde e Educação. Esta superoneração de serviços que são essenciais terá consequências perversas não só para as instituições, mas para o próprio governo e para a população brasileira. Se calcularmos o impacto da reforma com base no modelo sugerido pelo Ministério da Economia —  unificação de PIS/Pasep e Cofins sob alíquota única de 12% —, teremos um aumento médio de tributação de 67% na carga tributária para os hospitais e laboratórios; para Educação será de 940% com o fim da isenção sobre PIS/Cofins do Prouni, retirando, apenas da educação superior, cerca de 500 mil alunos. Além disso, a proposta do governo pode representar uma redução de 80% das receitas líquidas, nas pequenas unidades escolares e hospitalares que atendem a municípios do interior do país.

Ainda que se proponha adoção de um regime não cumulativo, em que despesas com insumos são compensadas ao longo da cadeia, os referidos setores seguem no prejuízo, pois a parte mais expressiva dos custos de hospitais e laboratórios, bem como de escolas e universidades, é formada por folha de pagamento, o que não é dedutível neste sistema.

Outro efeito nefasto é o desincentivo ao emprego que a proposta do governo cria, pois como este não gera crédito tributário ao longo da cadeia, as empresas que menos empregarem, ou demitirem, serão as maiores beneficiadas. Ao justificar que os setores não serão prejudicados com as mudanças, o governo argumenta que o novo imposto incide sobre o consumo e, portanto, é o consumidor final quem arca com o impacto.  Na Saúde, projeta-se um aumento de mais de 7% nos preços do serviço, o que fará a demanda reduzir em R$ 3,1 bilhões. É um consumidor que terá que mudar para um plano de saúde de pior qualidade ou recorrer ao SUS. Impacto semelhante se dará no setor de Educação e impactará principalmente o ensino das famílias mais carentes, dependentes de créditos estudantis.

Se mudarmos a lente para a experiência internacional, veremos que o Brasil já impõe cargas tributárias sobre Saúde e Educação das mais altas do mundo. Não se pode, dessa forma, aceitar o argumento de que estamos caminhando, com a reforma, para o que há de mais moderno no mundo em termos de tributação. Não é verdadeira a afirmação de que o Imposto sobre Valor Agregado, ou IVA, é o modelo de imposto adotado em todo o mundo e aplicado de forma unificada a bens e serviços, outro bordão a que recorre a equipe econômica com frequência. A Educação teve um aumento expressivo de inadimplência e de redução de mensalidades e espera que cerca de 25% das escolas não sobrevivam à crise, incluindo aí a educação infantil, que deverá praticamente desaparecer; já a Saúde viu suas receitas despencarem em pelo menos 50% (com os laboratórios chegando a 70%), pois os hospitais foram impedidos de fazer cirurgias eletivas e os serviços voltaram toda a sua atenção ao combate à Covid-19.

Se somarmos os impactos da reforma tributária aos efeitos da pandemia sobre estes setores, a consequência será o inquestionável fechamento de escolas, universidades, hospitais e laboratórios por todo o país, gerando uma migração de usuários para os serviços públicos. A única forma de evitar tal cenário é a garantia da neutralidade da reforma tributária para estes setores. Não se trata de pleitear qualquer tipo de benefício ou vantagem, apenas alinhamento às melhores práticas internacionais, em benefício da população. É necessário que o Legislativo envide esforços para ajustar a proposta, salvaguardando a sobrevivência destes serviços essenciais ao progresso e bem-estar dos brasileiros.

* Bruno Sobral é secretário-executivo da Confederação Nacional da Saúde (CNSaúde), Elizabeth Guedes é presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares (ANUP) e Fabio Cunha é diretor da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed)

** Este artigo foi originalmente publicado no jornal O Globo

Saúde e Educação se unem por uma Reforma Tributária justa

Compartilhando dores similares, setores essenciais batalham para que as mudanças não inviabilizem suas atividades

07 de agosto de 2020

Com o desenrolar da Reforma Tributária no Congresso Nacional, Saúde e Educação se uniram na luta por mudanças fiscais justas e que não inviabilizem a atuação da esfera privada, indispensável para o atendimento da demanda brasileira. Com perfis semelhantes – ambos são direitos constitucionais, essenciais ao desenvolvimento do país, e que têm a maior parte de suas despesas consolidadas na folha de pagamento – , os setores firmaram uma aliança que levanta dados e informações para apresentar aos poderes legislativo e executivo os impactos que uma reforma tributária míope podem gerar.

“Sempre que nos aproximávamos do governo para tratar desse assunto, víamos que saúde e educação estavam alinhadas. Foi natural entender que os dois setores tinham a mesma visão, as mesmas dores e as mesmas necessidades”, declara Fabio Cunha, diretor do comitê jurídico da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) sobre a criação da Aliança Saúde-Educação. “O que nos uniu é que estamos na mesma sala de espera sofrendo do mesmo mal”, complementa Elizabeth Guedes, presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares (ANUP).

São muitos pleitos em comum. Na medicina diagnóstica, por exemplo, laboratórios e clínicas terão seus serviços inviabilizados caso se concretize o aumento brutal da carga tributária esperado no modelo sugerido pelo Ministério da Economia, que unifica o PIS/PASEP e COFINS sob uma alíquota única de 12%.

Na educação privada, o cenário se repete. “Mais de 80% das instituições de ensino superior são pequenas. Muitas delas funcionando no interior do Brasil, em locais onde muitas vezes não há nada, a não ser a escola. O fechamento dessas instituições, bem como das pequenas empresas da saúde, vai pressionar ainda mais a rede pública”, explica Elizabeth.

Além disso, ambos os setores são grandes promotores de empregos formais. Na medicina diagnóstica, cerca de 50% das despesas de laboratórios e clínicas de imagem são com folha de pagamento. No ensino, essa porcentagem chega a 80%. Dessa forma, a superoneração pode desencadear uma sequência desastrosa de novos desempregados em um panorama que já é de índices alarmantes de desemprego.

As semelhanças desses dois setores não é exclusividade do Brasil. “No mundo todo, onde há o IVA (Imposto sobre Valor Agregado), saúde e educação são setores tratados com essencialidade. O que o governo brasileiro está fazendo é ir na contramão do mundo”, enfatiza Cunha explicando que muitas nações isentam esses setores dos tributos ou, ao menos, ofertam a eles alíquotas diferenciadas.

Em resumo, saúde e educação estão juntas a fim de lutar por uma reforma que não aumente a carga tributária de seus serviços, essenciais para a população; que não sobrecarregue ainda mais os serviços públicos, levando milhões de pacientes para o Sistema Único de Saúde (SUS) e milhões de alunos para as escolas federais, estaduais e municipais; e que permita que essas atividades permaneçam atuantes gerando emprego e contribuindo para a saúde e o bem-estar da população brasileira.

Abramed pede padronização nas notificações de resultados de testes de COVID-19

Ampla diversidade de informações solicitadas pelas vigilâncias municipais e estaduais somadas à falta de padrão no formato para comunicação dos dados geram dificuldades para notificação compulsória da doença

6 de agosto de 2020

O setor privado de medicina diagnóstica no Brasil já estava em conformidade com a notificação compulsória de inúmeras doenças conforme estipulado pela Portaria de Consolidação nº 4 do Ministério da Saúde. Assim, qualquer resultado de exame para diagnóstico de pacientes com Dengue, Febre Amarela e Hepatite, entre outras patologias, naturalmente já era comunicado à autoridade competente dentro do prazo estipulado.

Porém, com a pandemia do novo coronavírus, os laboratórios passaram a ter de notificar, em até 24 horas, todos os resultados de testes para COVID-19 tanto para a Federação quanto para Estados e Municípios. Com milhares de testes sendo realizados todos os dias e a falta de padronização nas solicitações advindas de cada uma das esferas, os laboratórios se viram em uma situação caótica.

Dessa forma, a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) – com 26 empresas que respondem por cerca de 60% de todos os exames realizados pela saúde suplementar no país  –  vem encabeçando diálogos tanto com o Governo Federal e o Ministério da Saúde quanto com os municípios por meio do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), a fim de sanar esses entraves e, dessa forma, permitir que a notificação de todos os testes realizados pelos laboratórios privados sejam enviadas e possam auxiliar na construção da análise epidemiológica do país e no controle da disseminação do SARS-CoV-2.

Considerando que a portaria institui a notificação compulsória imediata, porém não deixa claro qual deve ser o formato dessa notificação, cada vigilância em saúde institui seu fluxo próprio. “Sempre tivemos essa falta de padronização, porém não vivíamos um cenário de pandemia com milhares de exames sendo realizados por cada laboratório todos os dias, então o entrave era superável. Porém, agora, com a COVID-19 e o altíssimo volume de exames, tornou-se impossível atender às diferentes solicitações de cada região”, esclarece Priscilla Franklim Martins, diretora-executiva da Abramed.

No âmbito Federal, o problema foi solucionado por meio da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). Agora, todas as notificações são inseridas na RNDS. Porém, nas esferas Estadual e Municipal, as dificuldades permanecem, como esclarece Marília Bortolotto, membro da Câmara Jurídica Abramed e advogada da DASA. “Cada secretaria tem seu fluxo próprio, sendo que algumas exigem que o laboratório entregue uma ficha física preenchida pelo paciente diretamente na vigilância, enquanto outras pedem o envio dos dados por e-mail, inclusive, em alguns casos, da via digitalizada dos laudos, documento que não deve ser compartilhado sem o conhecimento do paciente e os requisitos de segurança adequados”, pontuou.

Além do processo não estar definido, ou seja, dos laboratórios terem de se adaptar a diferentes formas de notificação, há também a falta de padronização nos dados que são solicitados, o que leva à uma preocupação ainda maior quanto à proteção das informações dos pacientes.

“Os laboratórios não têm parametrizados em seus sistemas de atendimento dados que não são indispensáveis à realização dos exames. Seguindo as indicações da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que entrará em vigor no primeiro semestre de 2021, os estabelecimentos nem mesmo podem solicitar esses dados aos pacientes”, complementa Marília ao explicar que há, por exemplo, casos de municípios que pedem dados como nome da mãe, raça e cor dos pacientes, além de informações do médico prescritor do exame. É com base na LGPD, também, que a Abramed se preocupa com o compartilhamento dessas informações por meio de plataformas pouco seguras como, por exemplo, o correio eletrônico, que não trabalha com criptografia e pode facilitar o vazamento desses dados sensíveis gerando problemas tanto para o paciente quanto para a instituição que detinha esse controle.

Dessa forma, o pleito emergencial da Abramed é pela padronização tanto do formato da notificação quanto dos dados que são solicitados. “Precisamos criar e definir um padrão para ser seguido por todas as esferas da Federação e que, assim, não sujeite os laboratórios a trabalhar de uma forma diferente em cada região”, pontua Marília.

Em uma live realizada na manhã de 3 de agosto, o DATASUS respondeu às principais dúvidas relativas à RNDS, inclusive sobre as dificuldades para integração e credenciamento dentro do sistema. Participando do encontro virtual, Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Abramed, questionou se teremos, em breve, as vigilâncias municipais e estaduais com acesso à RNDS para que tenhamos a resolução do problema da falta de padronização.

“Estamos fazendo todos os esforços para alimentar a base de dados nacional com os resultados dos exames que realizamos diariamente, porém se as outras pastas interessadas não conseguem visualizar esses dados, nosso esforço pode não resultar em nada. Quanto tempo demora para que as secretarias tenham de fato acesso?”, perguntou.

Em resposta, Henrique Nixon, da Coordenação-Geral de Sistemas de Informações e Operações (CGSIO) do DATASUS, confirmou que essa pendência está sendo solucionada. “Vamos entregar a integração do e-SUS Notifica à RNDS nos próximos 15 dias. Tudo será automatizado e estamos muito próximos de concretizar essa etapa”, disse.

Sobre os testes rápidos realizados, com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) em farmácias e drogarias, o DATASUS reforçou que a notificação da COVID-19 é compulsória a qualquer profissional da saúde, seja biomédico, enfermeiro ou farmacêutico. Porém, no caso dos testes rápidos, a notificação se faz obrigatória em pacientes sintomáticos e com resultado positivo. “A preferência é por notificar todos os resultados, sejam positivos, sejam negativos. Porém sabemos que talvez não seja possível por não se tratar de um ambiente laboratorial. Dessa forma, os sintomáticos positivos são obrigatórios”, declarou.

Apesar de muitos laboratórios já terem vencido a barreira da integração de suas plataformas com a RNDS, esse tema ainda preocupa. Com experiência do processo realizado na DASA, Marília detalha que é preciso amplo conhecimento técnico para que a integração seja bem-sucedida. “A integração foi super trabalhosa, tivemos que colocar nossas melhores cabeças do ponto de vista técnico em TI para suprir essa etapa”, comentou.

Esse foi um dos pontos alertados por Shcolnik ao DATASUS na reunião de 3 de agosto, visto que grande parte dos laboratórios clínicos do país são pequenas e médias empresas que, nem sempre, têm estrutura de TI adequada para trabalhar nessa integração. Em resposta, os executivos do Ministério da Saúde disseram que há espaço para que empresas mais fortes de tecnologia da informação trabalhem para a construção dessas integrações e prestem serviços aos laboratórios menores, consolidando e transmitindo os dados.

É preciso vencer a pandemia sem negligenciar outras doenças

* Por Priscilla Franklim Martins, diretora-executiva da Abramed

02 de agosto de 2020

Viver um momento histórico é desafiador. A pandemia de COVID-19 estremeceu sistemas de saúde e gerou um medo generalizado que fez os cidadãos passarem a se preocupar apenas em evitar a infecção pelo novo coronavírus, deixando de lado outros tantos aspectos de saúde fundamentais para uma vida com qualidade.

Os hospitais viram os atendimentos eletivos caírem vertiginosamente; laboratórios clínicos e clínicas de diagnóstico por imagem – serviços também essenciais – registraram redução expressiva de demanda; a imunização da população, em diferentes faixas etárias, teve queda em todo o mundo. Então qual será o reflexo disso no futuro, já que outras doenças não esperam a pandemia passar para se manifestarem?

Teremos uma avalanche de problemas de saúde relacionados ao agravamento de doenças que deveriam ter sido diagnosticadas, monitoradas e tratadas oportunamente. Poderemos enfrentar outra enxurrada de óbitos que poderiam ter sido evitados com diagnóstico precoce e manutenção dos atendimentos.

Estudo inglês recentemente publicado pelo The British Medical Journal sugere que a mortalidade por câncer pode aumentar até 20% por conta da pandemia de COVID-19. Obviamente que uma parcela desses óbitos estará ligada a pessoas em tratamento oncológico e, portanto, com deficiências imunológicas, infectadas pelo novo coronavírus. Mas outra parcela significativa diz respeito a pessoas que terão seus diagnósticos atrasados ou paralisaram seus tratamentos por conta de todas as atenções em saúde estarem voltadas aos casos de COVID-19.

Outro estudo, desta vez divulgado no British Journal of Surgery, diz que mais de 28 milhões de cirurgias eletivas serão canceladas em todo o mundo devido à pandemia. Mesmo que a maioria desses procedimentos esteja relacionada a especialidades que não a oncologia, qual será o impacto disso para pacientes que terão suas condições deterioradas devido à paralisação? Como enfrentar uma pandemia sem deixar rastros tão sombrios?

Nos Estados Unidos, os sistemas de emergência identificaram um aumento gigantesco de mortes por infarto em casa. Com medo do novo coronavírus, as pessoas deixaram até mesmo de procurar a emergência médica ao sentir sintomas já tão conhecidos como dor no peito, formigamento do braço esquerdo e náuseas. No Brasil, ainda não temos dados para afirmar que houve aumento no número de óbitos por doenças cardiovasculares, mas os hospitais já mostram que o número de atendimentos caiu, o que gera essa percepção de que estamos seguindo o mesmo caminho negativo trilhado pelos norte-americanos.

O que precisamos, de fato, é reforçar para a população que, sim, o novo coronavírus é altamente contagioso, que ficar em casa e evitar o contato com outras pessoas é o melhor caminho para combater a disseminação e achatar a curva. Porém, devemos também educá-las no sentido de que outras situações de saúde não devem ser negligenciadas.

O ficar em casa não é válido quando há um tratamento em curso, não é válido quando existem sintomas consideráveis que devem ser analisados por profissionais de saúde. Não é válido, tampouco, quando o paciente está em uma investigação e tem, em mãos, pedidos de exames que podem auxiliar no entendimento do seu estado de saúde e na tomada de decisões terapêuticas.

Os equipamentos de saúde estão trabalhando para garantir a segurança da população. Assim, tanto hospitais quanto redes de laboratórios criaram estratégias para separar casos suspeitos de infecção pelo novo coronavírus de pacientes com outras queixas e patologias.

Com a telemedicina aprovada e já instituída para diversos atendimentos, os pacientes não devem temer. Em caso de sintomas mais simples, podem recorrer aos atendimentos virtuais e, assim, o médico do outro lado da tela saberá instruir se essa pessoa deve ou não procurar ajuda presencial. E para casos que desde os primeiros sintomas soam mais sérios, não deve haver hesitação. Buscar ajuda é primordial.

Mesmo em uma pandemia, as pessoas precisam monitorar suas condições de saúde e sentirem-se seguras para intervir quando for preciso. Aqui o medo em nada ajuda, apenas atrapalha.

* Priscilla Franklim Martins é diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed)
** Artigo originalmente publicado no O Estado de S.Paulo

Relevância da medicina diagnóstica e mudanças no “novo normal”

Webinar da SAHE debateu aspectos do setor no cuidado geral com a saúde e protagonismo nesse momento de pandemia

4 de agosto de 2020

Para tratar da relevância da medicina diagnóstica no contexto geral da saúde e debater os novos rumos do setor após a pandemia de COVID-19, a South America Health Education (SAHE), plataforma de compartilhamento de conteúdo do Grupo Mídia, recebeu Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), para um encontro virtual realizado na noite de 3 de agosto. Comandado por Claudia Cohn, que além de membro do Conselho de Administração da Associação, é diretora-executiva da DASA e presidente do comitê científico do Masterclass de Medicina Diagnóstica da SAHE’21, o webinar tratou de temas que permeiam muitas das atuais discussões da saúde.

O encontro foi iniciado com uma conversa sobre a contribuição do diagnóstico para a medicina e com os executivos elencando as inúmeras atribuições do setor na melhoria da saúde populacional. “Os médicos utilizam exames complementares para confirmar ou excluir possibilidades diagnósticas, porém o segmento também atua na definição dos tratamentos mais adequados à determinadas patologias”, explicou Shcolnik exemplificando que um corriqueiro antibiograma é extremamente útil para indicar, ao médico, qual o medicamento mais eficaz para combater especificamente aquele determinado micro-organismo.

O executivo também mencionou o monitoramento de resultados de tratamentos, como a coleta de sangue para análise de desempenho das terapias anticoagulantes, evitando que os pacientes utilizem doses elevadas da medicação levando a possíveis sangramentos; e o monitoramento das doenças em si, como no caso de pneumonias que são acompanhadas por meio de exames de imagem. Além disso, Shcolnik enfatizou a relevância dos exames tanto para a indicação de hospitalização quanto para balizar a decisão da alta hospitalar.

Pensando no contexto dos sistemas de saúde, a prevenção também foi elencada como uma das principais estratégias de adoção do diagnóstico. “O exame bem realizado, no paciente certo, na hora certa, tem grande valor para os desfechos da assistência à saúde”, pontuou o presidente da Abramed reforçando que a Associação defende o uso racional dos exames, ou seja, a aplicação de procedimentos adequados que gerem valor para a sustentabilidade dos sistemas, mas sobretudo aos pacientes.

Entrando no atual contexto, Claudia enfatizou que a medicina diagnóstica se tornou protagonista, levando termos mais técnicos para o conhecimento de todos. “Dois dos termos repercutidos são qualidade e rastreabilidade. Qual a importância desses conceitos?”, questionou.

Para explicar essas terminologias, Shcolnik enfatizou que a tecnologia trouxe muitas evoluções, entre elas kits de diagnóstico industrializados que entregam ainda mais precisão. Porém, a qualidade desses testes também depende dos processos pré-analíticos, analíticos e pós-analíticos. “Temos procedimentos utilizados antes das amostras laboratoriais chegarem e no preparado dos pacientes que serão submetidos a exames de imagem; precisamos de cuidados para a execução dessas amostras e desses exames; e não podemos nos desprender dos processos de qualidade na emissão dos laudos, pois se essas etapas não forem seguidas, algo pode dar errado”, detalhou.

Ainda citando termos que se tornaram conhecidos, Claudia abordou a questão da especificidade e da sensibilidade dos exames para diagnóstico da COVID-19. Momento em que Shcolnik aproveitou para mencionar a qualidade dos testes e enfatizar a preocupação do setor em prover informação para que todos os interessados pudessem investir em exames realmente eficazes.

“Os testes rápidos, por exemplo, já foram por nós questionados antigamente para a detecção da AIDS, pois não tinham sensibilidade adequada, deixando de apontar resultados positivos para quem estava doente; e também não eram específicos, pois não entregam resultados negativos quando as pessoas estavam saudáveis. Com o SARS-CoV-2 aconteceu a mesma coisa”, pontuou o executivo.

O novo normal – “A verdade é que estamos em um momento bastante diferente. O que você acha que precisa mudar no setor de diagnósticos agora que estamos vivendo esse ‘novo normal’?”, perguntou Claudia ao iniciar o debate sobre a medicina diagnóstica na pandemia do novo coronavírus.

Relembrando que a COVID-19 representa um desafio para todos os países e para todos os setores da economia, Shcolnik lembrou que ainda estamos vivenciando a pandemia pois não temos uma vacina comprovada e disponível e os tratamentos ainda não são tão eficazes. Além da gestão dos surtos em si, o executivo apontou outro grande desafio vivenciado pelo setor nos últimos meses: o afastamento dos pacientes das consultas e exames relativos à outras enfermidades e doenças além da infecção pelo SARS-CoV-2.

“As pessoas deixaram de recorrer aos serviços de saúde. No Brasil, temos uma grande população de idosos com mais de uma doença crônica e esses pacientes ficaram limitados na assistência, com receio de sair de casa e com muitas clínicas fechadas”, pontuou ao comentar a proatividade de muitos laboratórios e clínicas que começaram a disponibilizar serviços em formatos alternativos como, por exemplo, a coleta domiciliar e o sistema de drive-thru a fim de evitar que as pessoas tivessem de se deslocar até as unidades.

Hoje, com a flexibilização da quarentena e a reabertura de algumas clínicas e unidades, os espaços já estão preparados para receber com segurança os pacientes, visto que criaram novos fluxos de atendimento, separando pessoas sintomáticas e que estão em busca de testes para diagnóstico da COVID-19 de outros pacientes lidando com patologias distintas.

Capacidade de testagem – Os executivos também falaram sobre a capacidade de testagem do Brasil, tão questionada pela população. Shcolnik mencionou relatórios recentemente divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) sobre a quantidade de exames realizados no âmbito da saúde privada nos primeiros meses da pandemia. “Em março, o Rio de Janeiro realizou apenas 928 exames. Em abril, saltou para 2 mil testes. Então esses números refletem o que foi observado, de que testamos pouco apesar dos nossos esforços”, declarou.

Porém, com os exames sorológicos, há uma melhor perspectiva. “A oferta da sorologia é maior e a indústria está nos municiando com uma nova geração de kits muito mais preciso e que nos dão ainda mais confiança para ofertar os exames. Além disso, temos a expectativa de que a ANS divulgue sua normativa para tornar obrigatória a cobertura dos testes sorológicos pelos planos de saúde”, complementou.

E, para garantir qualidade dos exames à sociedade, Shcolnik também mencionou o Programa de Avaliação de Kits de Diagnóstico para SARS-CoV-2, uma iniciativa da Abramed em parceria com a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), e a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), que utiliza a estrutura de grandes laboratórios com atendimento hospitalar para avaliar testes disponíveis no mercado brasileiro, disponibilizando as análises no portal www.testecovi19.org.

Reforçando a importância de fazer o teste correto, no momento correto, Claudia declarou que “é preciso escolher um bom kit e não fazer o exame à toa, seja o RT-PCR, seja a sorologia. E a melhor pessoa para auxiliar nessa decisão é o médico”.

Pesquisa e Desenvolvimento – Os executivos também entraram na seara da pesquisa e desenvolvimento no setor de saúde, abordando a qualidade dos profissionais que hoje estão em atuação no Brasil. “No nosso segmento, por exemplo, durante a pandemia vimos pesquisadores desenvolverem alternativas incríveis para diagnóstico da COVID-19”, disse Shcolnik. Segundo o executivo, as dificuldades existem e estão sempre sendo enfatizadas pelos cientistas como, por exemplo, o atraso na liberação de reagentes importados por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que muitas vezes leva ao atraso da pesquisa no país.

“Porém, mesmo diante dos entraves, acredito que os grandes grupos de medicina diagnóstica investem muito em pesquisa e em desenvolvimento. E quem ganha com isso é a população”, complementou.

O webinar está disponível na íntegra no canal do YouTube do Grupo Mídia. Clique AQUI para acessar.

A corrida dos laboratórios privados para ampliar a testagem de COVID-19

Além da agilidade na disponibilização de kits para RT-PCR e de validar outras metodologias diagnósticas, rede privada desenvolve alternativas para a população

31 de julho de 2020

Nenhuma nação estava totalmente preparada para enfrentar uma pandemia como a que estamos vivendo com o novo coronavírus e, por isso, a capacidade de tomar decisões rápidas e de agir com assertividade tornou-se uma competência primordial. No Brasil, assim que o primeiro caso de COVID-19 foi confirmado, os laboratórios privados iniciaram um trabalho imediato para desenvolver, artesanalmente, os testes moleculares recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), necessários para confirmação do diagnóstico dessa doença. Desde então, foram inúmeras as ações para contribuir com a contenção do surto no país e garantir o acesso da população aos testes capazes de detectar a infecção.

“A resposta do setor privado de medicina diagnóstica no país foi extremamente rápida. Assim que houve a confirmação da chegada do novo coronavírus em nosso território, os laboratórios trabalharam para desenvolver os kits de diagnóstico in house. Nas primeiras semanas, processavam centenas de exames moleculares RT-PCR diariamente. Porém, em pouco tempo já tinham capacidade para processar milhares de exames a cada 24h”, comenta Priscilla Franklim Martins, diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).

Mesmo enfrentando dificuldades como, por exemplo, a falta de insumos – prioritariamente importados – e problemas logísticos ocasionados pela interrupção da malha aérea, esses laboratórios seguiram atuantes para ampliar a capacidade de testagem no país, desenvolvendo, inclusive, grandes parcerias com o Sistema Único de Saúde (SUS).

Em termos operacionais, além do desenvolvimento ágil in housedos primeiros kits de RT-PCR – exame que continua sendo apontado como o padrão ouro pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para diagnóstico da COVID-19 – e do investimento na ampliação da capacidade de processamento, esses laboratórios seguiram também atentos a outras possibilidades: estabeleceram sistemas de drive-thru para coleta de amostras visando evitar aglomeração nas unidades de atendimento; participaram do Programa de Avaliação de Kits para SARS-CoV-2, uma iniciativa da Abramed em parceria com a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC) e a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML) que está validando diferentes kits de reagentes relacionados à COVID-19 disponíveis no mercado brasileiro e disponibilizando os resultados em testecovid19.org; atuaram na melhoria dos testes sorológicos a fim de aumentar a sensibilidade e a especificidade dessas metodologias; e criaram novos métodos de exames para ampliar o acesso e melhorar a capacidade de testagem do país.

Confira alguns dos principais testes para diagnóstico da COVID-19 disponíveis hoje no Brasil:

RT-PCR – Exame molecular de alta complexidade, o RT-PCR é o teste indicado para detecção da infecção pelo novo coronavírus na fase aguda da doença, ou seja, logo nos primeiros dias após o surgimento dos sintomas. Essa metodologia consiste na identificação do RNA do vírus na análise de amostras nasofaríngeas coletadas até o sétimo dia da infecção por meio de um cotonete estéril (swab). Considerado o padrão ouro pela OMS devido à sua alta sensibilidade e especificidade, é o exame ideal para a contenção da transmissão do patógeno por permitir que os indivíduos infectados sejam identificados e possam permanecer em isolamento, além de garantir que as pessoas que estiveram em contato direto com esse paciente também sejam testadas e, caso apresentem resultados positivos, isoladas. Os resultados levam, em média, 48 horas para serem disponibilizados.

Sorológicos – Diferentemente do RT-PCR, que identifica o código genético do vírus, os testes sorológicos detectam anticorpos. Portanto, é preciso respeitar a janela imunológica (tempo que o organismo leva para produzir anticorpos detectáveis) realizando esses testes no mínimo oito dias após o surgimento dos sintomas (estudos publicados mostram que a sensibilidade desses exames aumenta após a terceira semana da infecção).

Existem diferentes metodologias de testes sorológicos. Os testes rápidos, que são realizados pela punção digital, ou seja, por um pequeno furo na ponta do dedo do paciente, são qualitativos e há grande variabilidade na sensibilidade desses kits. Já os testes sorológicos realizados em laboratório são feitos em amostras venosas coletadas em ambiente adequado e processadas em diversas metodologias como a ELISA e a quimioluminescência, entre outras. Esses exames, diferentemente dos testes rápidos, são quantitativos, ou seja, capazes de apontar a quantidade de cada anticorpo presente naquela amostra e realizados por profissionais capacitados, em ambientes laboratoriais com equipamentos que permitem escalabilidade e garantia da qualidade. Hoje, após acompanhar as particularidades da COVID-19, a maioria dos laboratórios está oferecendo exames sorológicos para detecção de anticorpos totais (IgG + IgM) por acreditarem que esses exames trazem mais assertividade do que os que detectam o IgG e o IgM isoladamente. Os testes rápidos têm resultados entregues em poucos minutos e os testes sorológicos de laboratório costumam ter os resultados disponíveis em 24 horas.

Proteômica – Assim como o RT-PCR, o teste por proteômica é realizado em amostras nasofaríngeas que devem ser coletadas até o sétimo dia do início dos sintomas para detecção da COVID-19 na fase aguda. Porém, enquanto o RT-PCR detecta o RNA do vírus nessas amostras, o método proteômico por espectrometria de massas detecta a proteína do novo coronavírus. Por ser totalmente automatizado, é apontado como uma alternativa ao RT-PCR e observado como oportunidade para testagem em massa e para o controle da expansão dos casos.

Considerando que a proteína é mais estável do que o RNA do vírus, o método oferece melhor estabilidade permitindo que as amostras sejam transportadas em temperatura ambiente, característica excelente para um país continental como o Brasil, onde muitas vezes as amostras percorrem milhares de quilômetros entre a coleta e seu processamento. Os resultados ficam prontos em média em três dias úteis.

Sequenciamento genético de nova geração – O Brasil desenvolveu o primeiro teste genético do mundo para detecção em larga escala do novo coronavírus utilizando a técnica de Sequenciamento Genético de Nova Geração (Next Generation Sequencing – NGS). Com 100% de especificidade, o exame não apresenta casos de falsos positivos e oferece 90% de sensibilidade, o que também reduz drasticamente a chance de falsos negativos. O teste é processado por amostras coletadas com swabs em contato com a região nasal ou com a saliva dos pacientes nos primeiros dias dos sintomas.

O exame é apontado como alternativa viável para diagnóstico em massa por permitir um volume de processamento 16 vezes maior do que o RT-PCR e, assim, poder contribuir para a contenção da disseminação da infecção. Os testes têm resultados disponibilizados em média em três dias úteis.

RT-LAMP – Para detecção na fase aguda da doença, o exame molecular pela metodologia RT-LAMP (amplificação isotérmica mediada por alça com transcrição reversa), assim como o RT-PCR, permite a detecção do material genético do novo coronavírus, porém em amostras de saliva dos pacientes que devem ser coletadas nos primeiros dias dos sintomas. Com especificidade de 100%, ou seja, não gera resultados falsos positivos, o teste tem sensibilidade equiparada ao RT-PCR (baixa chance de falsos negativos) e surge como um reforço para que a sociedade brasileira possa aumentar sua capacidade de testagem principalmente por utilizar reagentes e equipamentos que não estão escassos e gerar resultados em até uma hora.