Construção de ambiente regulatório capaz de promover a inovação na saúde é pauta do primeiro debate do FILIS 2026

Representantes da Anvisa, da Abramed e do setor hospitalar analisaram alternativas para garantir previsibilidade e fortalecer a sustentabilidade dos serviços

A inovação em saúde avança em um ambiente que exige segurança regulatória e qualidade dos processos, ao mesmo tempo em que novas tecnologias precisam encontrar condições para serem desenvolvidas e incorporadas à rotina assistencial. 

A pauta fez parte do debate “Regulação, inovação e os impactos para a Medicina Diagnóstica”, que abriu a programação do FILIS 2026 e contou com mediação de Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed, diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Participaram da discussão Diogo Penha Soares, diretor-adjunto da Presidência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa); Fernando Ganem, CEO do Hospital Sírio-Libanês; Henrique Neves, diretor-geral do Einstein Hospital Israelita; e Julio Vieira, membro do Conselho Fiscal da Abramed e CEO do Hcor.

Ao longo do painel, Cesar Nomura chamou atenção para o envelhecimento do parque de equipamentos de radiologia no país. Segundo pesquisa citada por ele, entre 30% e 40% das máquinas pesadas poderão chegar ao fim de sua vida útil nos próximos dois anos.

Diante desse cenário, Fernando Ganem abordou o desafio de avaliar quais inovações devem receber investimento e ganhar escala dentro de uma instituição de alta complexidade. Para ele, a capacidade de oferecer os recursos necessários ao diagnóstico e ao tratamento também está ligada à sustentabilidade e ao posicionamento estratégico do hospital.

O executivo trouxe a perspectiva de quem recebe, todos os dias, propostas de novas tecnologias e modelos de negócio e comentou que o desafio do gestor é ter informações técnicas consistentes para tomar decisões. “Se algum paciente ou profissional escolher não estar na nossa instituição porque nós não temos o recurso para fazer o diagnóstico ou o tratamento dele, temos um problema de sustentabilidade”, afirmou. 

Ganem defendeu ainda que a ciência e os dados orientem essa incorporação: “Trazer a ciência, trazer o dado, junto com as instituições sérias, para influenciar as políticas de saúde e a relação com as operadoras, e questionar aquilo que realmente gera valor para os pacientes que precisam do acesso”. 

Ao apresentar as experiências do Einstein em terapia celular, saúde digital e startups, Henrique Neves, por sua vez, mostrou que foi necessário desenvolver soluções ao mesmo tempo em que se construíam os caminhos regulatórios para viabilizá-las.

“Quando começamos a desenvolver projetos e a lidar com os desafios trazidos pelas novas tecnologias, isso despertou um interesse cada vez maior dentro da organização. E fomos aprendendo à medida que ampliávamos essas experiências”, afirmou. A partir desse processo, o hospital passou a estruturar uma governança específica, com um comitê de empreendedorismo e inovação que acompanha investimentos, resultados e novas colaborações.

Os dados da 8ª edição do Painel Abramed — O DNA do Diagnóstico mostram que esse movimento também ocorre entre as associadas: 52,9% investem em novos modelos de negócio e 35,3% mantêm parcerias ou investimentos em startups. 

Representando a Anvisa, Diogo Penha Soares destacou que o diálogo com quem desenvolve e utiliza novas tecnologias é parte importante da construção de respostas regulatórias.

“Queremos discutir a inovação com quem está desenvolvendo inovação. Aprendemos como regular junto ao regulado, que é quem está inovando”, ressaltou. Entre as iniciativas apresentadas, Diogo mencionou a proposta de criação de um sandbox regulatório — ambiente de experimentação que permitirá à agência avaliar novas soluções e aperfeiçoar a regulação a partir de dados e da interação com quem desenvolve as tecnologias.

Júlio Vieira trouxe a discussão para a capacidade das instituições de gerar resultados suficientes para sustentar a atualização tecnológica. Os dados do Painel Abramed ajudam a dimensionar esse esforço: em 2025, as associadas somaram R$ 933,4 milhões em CAPEX, mesmo diante das pressões sobre custos e margens. 

“Quando se fala de investimento em equipamentos, pensa-se muito na compra de um aparelho de ressonância, de tomografia ou de ultrassom. Só que esse investimento não vem sozinho. Ele vem também com investimento em infraestrutura e com um custeio adicional de manutenção, reposição de peças, trocas e substituições”, explicou.

Ele também lembrou que os hospitais trabalham com margens apertadas e precisam gerar resultados para cobrir a própria depreciação antes de investir em novos projetos. Para Vieira, a Medicina Diagnóstica vai ocupar uma parte cada vez maior dessa agenda, visto que mais de 70% das decisões clínicas já se apoiam no diagnóstico.

Ainda no âmbito financeiro e da governança do ecossistema de saúde, o CEO do Hcor comentou a relação entre prestadores e fontes pagadoras. A 8ª edição do Painel Abramed — O DNA do Diagnóstico mostra que o prazo médio de recebimento pode chegar a 71 dias. As glosas iniciais representam 4,6% do faturamento das associadas, enquanto 1,2% permanece não pago mesmo após a contestação, processo que pode superar 85 dias. 

“Na Medicina Diagnóstica, conseguimos melhorar esse processo, inclusive com informatização, automação e Inteligência Artificial. Mas a questão da glosa ainda é pouco técnica e muito administrativa, o que acaba gerando instabilidade para o setor”, comentou. Para ele, o tema deixou de ser apenas operacional e exige uma discussão mais ampla sobre regras e relações entre os diferentes agentes do setor.

Ao encerrar o debate, Cesar Nomura reforçou a necessidade de criar condições para que o setor incorpore novas soluções com segurança e gere valor para o sistema. “Vemos que a inovação precisa de sustentabilidade para fazer tudo isso”, afirmou.

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