Juntos por mais saúde e menos impostos

Assinado por Vera Valente, diretora-executiva da FenaSaúde, artigo enfatiza os perigos do aumento da tributação do setor

4 de março de 2021

* Por Vera Valente

Qualquer empreendimento humano começa com um projeto, com uma concepção eficaz do que se pretende fazer. Na saúde, não é diferente. A medicina é mais resolutiva quando precedida de diagnósticos precisos e assertivos. A partir da descoberta de qual é a doença e qual seu estágio, são definidas as ações a serem tomadas para que o paciente receba o tratamento adequado e se cure.

As empresas associadas à Abramed possuem esse papel, primordial no auxílio ao êxito de profissionais de saúde. Da boa interação com as operadoras de planos e seguros de saúde privados, representadas pela FenaSaúde, podem surgir respostas ainda melhores e eficazes. A atuação conjunta dos elos da cadeia de prestação de serviços de saúde, como são os casos da medicina diagnóstica e da saúde suplementar, tem se mostrado cada vez mais crucial para prover melhor assistência às pessoas e também para dar mais racionalidade ao sistema.

Estamos agora em meio ao enfrentamento de uma pandemia que apenas no Brasil já nos levou dezenas de milhares de vidas. A chegada da covid-19 nos obrigou a acelerar algo que é rotina na medicina diagnóstica: a inovação constante. Foi admirável a agilidade do segmento ao disponibilizar, por exemplo, testes mais acurados para a detecção do coronavírus, com o padrão-ouro do RT-PCR, ou para a identificação de anticorpos do Sars-CoV-2. Ao mesmo tempo, o setor de saúde como um todo precisou se mover rápido para promover o que tem sido uma verdadeira revolução: a expansão da telessaúde, que veio para ficar.

Uma série de outras mudanças também passaram a se mostrar mais urgentes – ou, pelo menos, a nos cobrar respostas mais céleres a respeito. Entre elas está a maior integração entre os serviços públicos e privados de saúde. Aqui destaco o papel da saúde suplementar no sentido de que cada paciente atendido pela iniciativa privada é uma vaga a mais disponível para quem só tem o sobrecarregado Sistema Único de Saúde (SUS) a que socorrer. A sociedade ganha com os dois sistemas funcionando melhor.

Precisamos avançar mais nessa parceria. Também nas mudanças dos modelos de remuneração dos prestadores. Isso se traduz na promoção de uma medicina alicerçada na entrega de mais valor para o paciente, que privilegie o desempenho ao invés da quantidade. Um sistema mais eficaz é bom para todos. É necessário, ainda, mais ênfase na prevenção e na saúde básica, capazes de resolver até 80% das demandas médicas. Desnecessário dizer como um diagnóstico eficiente é fundamental para essas mudanças de paradigma se efetivarem.

O pano de fundo da necessária transição que o setor de saúde precisa experimentar a partir da pandemia é o crescente desafio de continuar salvando vidas em um cenário de aumento perene dos custos da saúde. Não se trata de particularidade de um sistema carente de recursos orçamentários como o brasileiro. Envelhecimento da população, transição demográfica e rápidas mudanças tecnológicas contribuem para a alta dos dispêndios. É um fenômeno mundial.

Na FenaSaúde, temos lutado para atenuar essa elevação de custos por meio de uma série de ações e iniciativas. Uma delas é propor aperfeiçoamentos na regulamentação dos planos de saúde de maneira que a população tenha como opção viável produtos e coberturas com mensalidades mais compatíveis com o faturamento das empresas e com a renda das famílias. Em suma, que caibam no bolso ou no orçamento. É ainda mais imprescindível que isso ocorra num cenário em que a crise decorrente da pandemia bate na porta de milhões por meio das altíssimas taxas de desemprego.

Diante de situação tão delicada, é inconcebível que, em meio ao esforço conjunto contra a pandemia, contra a ascensão dos custos e a favor da promoção de maior acesso à saúde, que nossos governantes estejam errando no diagnóstico dos problemas. Em particular, é inaceitável cogitar consertar desequilíbrios fiscais – que têm mesmo de ser enfrentados, mas com as ferramentas corretas – sacrificando o setor mais fundamental para o enfrentamento da pandemia: a saúde.

Refiro-me aqui especificamente à decisão tomada pelo governo do estado de São Paulo de simplesmente extinguir, num piscar de olhos, a isenção de ICMS desfrutada há décadas por medicamentos, dispositivos médicos, órteses, próteses e serviços de saúde de diversas naturezas. Num presente de grego, passamos todos s ser gravados em 18%. Agora, definitivamente, não é hora.

Esse gravíssimo erro afeta hospitais, medicina diagnóstica, equipamentos, medicamentos e planos de saúde. E, bem mais grave, atinge milhões de pessoas que fazem exames, recebem tratamentos, compram remédios e cuidam de sua saúde. São elas que pagarão a conta da alta do ICMS paulista – e não apenas em São Paulo, mas em todo o país. É, pois, muito relevante que Abramed, FenaSaúde e outras sete entidades representativas do setor de saúde privada estejamos juntas no movimento Unidos pela Saúde contra o despropósito praticado pelo governo do estado de São Paulo.

A saúde cobra soluções e é na confluência de esforços que podem estar as respostas certas. É desta união que resultarão mais acesso de mais brasileiros à assistência, maior racionalidade e resolutividade nos atendimentos e mais qualidade de vida para a população. Aumentar impostos é o oposto disso. É caminhar na direção contrária do que a população realmente precisa: de mais saúde.

* Vera Valente é diretora-executiva da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde)

Capital paulista incluiu profissionais de laboratórios e clínicas de imagem na prioridade para vacinação

Trabalhadores que atuam na linha de frente do diagnóstico começaram a ser vacinados em 17 de fevereiro

3 de março de 2021

Preocupada com a exposição ao risco dos profissionais que atuam no setor de medicina diagnóstica realizando testes laboratoriais para COVID-19 e exames de imagem capazes de identificar a infecção pelo novo coronavírus, a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) investiu no diálogo com a Prefeitura da Cidade de São Paulo a fim de integrar essa comunidade ao grupo prioritário para vacinação.

O parecer favorável, que protege cerca de 45 mil profissionais que desde o início da pandemia prestam esse serviço essencial para a população da capital paulista, foi anunciado pelo Secretário Municipal de Saúde de São Paulo, Edson Aparecido dos Santos, e publicado em 16 de fevereiro pelo Instrutivo para Priorização de Doses da Vacina de COVID-19 no Município de São Paulo.

Dessa forma, trabalhadores de serviços de diagnóstico da cidade de São Paulo que realizam coleta e análise de amostras de RT-PCR e exames de raios X e tomografia computadorizada começaram a ser vacinados no dia 17 de fevereiro.

“Essas equipes atuam na linha de frente e, portanto, estão expostas ao novo coronavírus. São pessoas que trabalham incansavelmente na busca pelo diagnóstico rápido e preciso da COVID-19 e devem ser priorizadas na fila da imunização. Essa é uma garantia que nossos serviços essenciais não serão interrompidos por falta de pessoal técnico. Agradecemos o posicionamento da Prefeitura da Cidade de São Paulo que reconheceu essa necessidade”, diz Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Abramed.

O tema começou a ser debatido em uma reunião realizada dia 4 de fevereiro entre executivos da Abramed, do Sindicato dos Hospitais, Clínicas, Laboratórios e demais Estabelecimentos de Saúde do Estado de São Paulo (Sindhosp), o secretário de Estado da Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, e a coordenadora de Controle de Doenças da SES, Regiane Aparecida Cardoso de Paula. Posteriormente, houve reunião com o Secretário Municipal de Saúde de São Paulo, Edson Aparecido dos Santos, com a participação do vereador Paulo Frange.

Com a ampliação dos grupos prioritários, atualmente a capital paulista está vacinando idosos com mais de 85 anos; profissionais de saúde com mais de 60 anos; pessoas em situação de rua com mais de 60 anos; trabalhadores da saúde da Rede de Atenção à Saúde Municipal; trabalhadores de Serviços de Diagnóstico da Cidade de São Paulo que realizam coleta e análise de amostras de RT-PCR e exames de raios X e tomografia computadorizada; trabalhadores da saúde das equipes de serviços de ambulância da cidade de São Paulo que fazem transporte e remoção de pacientes infectados; profissionais de cemitérios públicos do município como sepultadores, veloristas, cremadores e condutores de veículos funerários; e trabalhadores de saúde das equipes do Instituto Médico Legal (IML) da cidade de São Paulo, como auxiliares de necrópsia, médicos legislas e atendentes de necrotério.

Radiologia, tecnologia e futuro – Três forças e um único propósito: fortalecer a especialidade

Assinado por Valdair Muglia, presidente do CBR, artigo reforça papel da inovação tecnológica na evolução do diagnóstico por imagem

3 de março de 2021

* Por Valdair Muglia

Historicamente, a Radiologia sempre esteve próxima e acompanhando o desenvolvimento tecnológico da Medicina. Com um  breve olhar retrospectivo, percebe-se que desde 1895, com a descoberta dos raios X, até hoje, permanecemos com esta característica, liderando no que diz respeito à evolução e inovações na Medicina. Os radiologistas sempre foram pioneiros em abraçar tecnologias, de maneira criativa, rápida, assim que percebiam que isso adicionava eficiência ao seu trabalho e qualidade nas entregas aos pacientes.

É verdade que as novas tecnologias, apesar de serem aliadas, exigem cada vez mais de nós. Exigem inteligência, adaptabilidade, limite, enfim, exigem que saibamos utilizá-las mais e melhor em benefício, seja da prática médica, dos pacientes, seja como médicos, como gestores, empreendedores e, principalmente, como cidadãos.

Compreendendo que a Radiologia e Diagnóstico por Imagem está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento de novas tecnologias, é inevitável sua transformação por meio dos avanços tecnológicos. Atualmente, trata-se de um movimento acelerado e contínuo, e por isso, precisamos buscar formas de nos preparar, nos fortalecendo diante das mudanças, que não são poucas. Somos, diariamente, colocados frente a frente com a necessidade de reinvenção e, para isso, devemos estar em constante atualização, indo além do que a imagem radiológica exige de nós, mas percebendo nosso papel em um ecossistema onde podemos ser cada vez mais protagonistas.

Os meios de materializar este intento são vários: participando ativamente de eventos e atividades, dentro e fora da nossa especialidade, que agreguem não só conhecimento e atualização para a carreira, mas que nos propicie sermos mais criativos e dinâmicos; mudando nosso mindset para estarmos cada vez mais abertos e sensíveis às transformações que o mundo nos impõem; sermos críticos ao receber informações e ativos em buscar as melhores fontes; e, claro, estarmos integrados, engajados, trocando experiência e compartilhando conhecimento com nossos pares, frequentemente.

Se os desafios tornaram-se ainda maiores com a pandemia da Covid-19, que também trouxe um protagonismo à área. Crises como essas trazem muitas dificuldades, dor, mas também nos exigem criatividade, determinação, persistência e, também, quebrar paradigmas.

O futuro pós-pandemia não será diferente. Precisamos chegar lá melhor do que estávamos. Mudanças que já estavam em curso foram aceleradas e esta será a dinâmica daqui em diante: mudanças rápidas, novas ideias, visões e fronteiras para nós, médicos radiologistas, buscarmos diariamente nossa melhor atuação, comprometidos com o paciente, colocando-o no centro de tudo. Esse é e será o nosso papel,

Estou certo que iremos nos transformar dia a dia, e assim transformaremos nossa especialidade nesse futuro que se avizinha. Juntos, unidos pela Radiologia e tudo o que ela entrega para a saúde da população, seremos cada vez mais fortes enquanto classe, mais eficientes enquanto profissionais e mais felizes enquanto pessoas.

Como presidente do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem reforço que nós não mediremos esforços para lutar pelos anseios da nossa classe. Estaremos juntos e continuaremos juntos.

* Valdair Muglia é radiologista, professor Associado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP e Presidente do CBR (biênio 2021-2022)

Entidades se unem em campanha contra medida do governo de SP que aumenta ICMS no estado de 0% para 18%

Representantes das principais associações do setor alertam para possível colapso do sistema de saúde

2 de março de 2021

Durante a coletiva de imprensa realizada virtualmente hoje, nove das principais entidades que representam o setor de saúde se reuniram para apresentar os impactos da cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

Chamado de Movimento Unidos pela Saúde, o grupo apontou que o setor de saúde foi o único a ter o aumento integral da tributação, justamente em um momento em que o país passa por um cenário extremamente crítico por conta da pandemia, com alta no número de infecções, aumento das internações por covid e elevação de custos para o setor como consequência deste enfretamento. Para eles, aumentar os preços para esses pacientes neste momento, é uma medida muito prejudicial para todos.

Movimento Unidos pela Saúde é composto pela Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para a Saúde (ABIMED), Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios (ABIMO), Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI), Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), Associação Brasileira de Planos de Saúde (ABRAMGE), Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) e o Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (SindHosp).

Durante o evento online, os representantes das entidades reforçaram que, ainda que o tributo incida sobre o setor privado, a medida afetará toda a cadeia da saúde. Fernando Silveira, presidente executivo da ABIMED, afirmou que o Movimento Unidos pela Saúde compreende a necessidade do governo estadual de ajuste das contas públicas, mas que aplicar um aumento de 0% para 18% é um exagero. “Queremos dialogar com o governo para chegar a uma solução que seja sensata para todos. Mas, aplicar carga tributária desta forma e neste momento, não é a melhor alternativa”.

Já Paulo Henrique Fraccaro, superintendente da ABIMO, lembrou da importância de focar no tratamento de pacientes com Covid-19, em vez de ajustar as contas públicas. “Somente o governo estadual paulista acredita que seja a hora certa de colocar em ordem as suas finanças, considerando que elas são mais importantes do que os recursos para a saúde. O momento é inoportuno e, como São Paulo atende 70% das necessidades deste setor no país, significa que os outros estados ajudarão a pagar os consertos fiscais do estado”.

Para Bruno Boldrin, diretor executivo da ABRAIDI, este é o pior momento da Covid-19 no Brasil, seja pela superlotação dos hospitais ou pelas restrições realizadas em diversos estados do País. “O aumento da carga tributária pode contribuir negativamente para este cenário, fazendo com que empresas do setor com menor faturamento quebrem, por exemplo. Para lutar contra isso, estamos conversando com deputados que votaram a favor do projeto do governo, para mostrar os reais impactos, e já temos mais de 35 parlamentares que apoiam a nossa causa”.

De acordo com um levantamento realizado recentemente pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), só entre seus 118 membros, o ICMS causará um aumento de custos de 1,3 bilhão. Segundo Eduardo Amaro, presidente do Conselho de Administração da entidade, as instituições ainda tentam se recuperar dos impactos de 2020 e não suportariam mais um aumento de despesa. “No ano passado, os hospitais foram muito impactados pela redução de cirurgias eletivas. Agora, estamos enfrentando uma segunda onda, com as instituições recebendo cada vez mais pacientes com Covid-19 e tendo de lidar com novos cancelamentos de procedimentos não-emergenciais. Neste cenário, definitivamente, agora não é a hora de aumentar o imposto”.

Marco Aurélio, diretor-executivo da Anahp, ressaltou que, apesar de sofrerem impactos financeiros, os hospitais privados contribuíram com a economia do país, com a geração de mais de 70 mil novas oportunidades de emprego, e com o setor de saúde como um todo, com a criação de protocolos de segurança e a construção e administração de hospitais de campanha.

Carlos Goulart, diretor de relacionamento institucional do Sindhosp, reforçou a importância da saúde suplementar para o Brasil. De acordo com um levantamento realizado pela entidade, que reúne cerca de 55 mil hospitais, clínicas e estabelecimentos de saúde, 40% da assistência médica em São Paulo é feita pela área privada. Para o executivo, hospitais e pacientes serão os principais prejudicados com a medida. “Há notícias de empresas de São Paulo que já estão buscando alternativas, muitas delas querendo ir para outros estados. O aumento do tributo só desestimula os investimentos na cidade e ocorre no momento em que hospitais precisam realizar compras de EPIs, por exemplo”.

Em São Paulo, laboratórios de análises clínicas e de diagnóstico por imagem são responsáveis por 56% dos exames solicitados na saúde suplementar, segundo Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed). Neste segmento, os insumos poderão ficar mais caros, levando a um impacto estimado em R﹩ 400 milhões na rede suplementar. Este prejuízo ainda pode se desdobrar em queda drástica nos investimentos e perda de postos de trabalho. “Os nossos associados realizaram 40% dos exames de Covid, por exemplo. Caso o aumento continue, isso trará impactos significativos para o setor”. Este ponto também foi reforçado por Marcos Novais, superintendente executivo da Abramge. “A saúde é um bem essencial e não há substituto”, reforçou.

João Alceu Amoroso Lima, presidente da FenaSaúde, afirmou que o aumento da carga tributária é uma infecção oportunista no sistema de saúde de São Paulo. “Como se já não bastassem os desafios já colocados, como a mudança do perfil demográfico da população, que está ficando mais idosa, e a chegada de novas doenças crônicas, agora surge o impacto da carga tributária”.

Para Bruno Sobral, secretário executivo da CNSaúde, os consumidores do país inteiro sofrerão com o reajuste. “Fizemos um levantamento e, de 117 países, 78% deles não realizam qualquer tributação sobre a saúde. Além disso, só em São Paulo foram fechados 4.500 leitos privados nos últimos tempos e, uma das nossas maiores preocupações, é que a classe média baixa inevitavelmente não consiga arcar com os custos e migre para o SUS”.

A coletiva de imprensa completa pode ser conferida em https://www.youtube.com/watch?v=aCjrPWEv_N8&feature=youtu.be e mais informações sobre o Movimento Unidos pela Saúde podem ser obtidas em https://movimentounidospelasaude.org.br/.

Com dores e aprendizados, pandemia promove a relevância da inteligência artificial na saúde

Armando C. Lopes Jr, da Siemens Healthineers, fala sobre as mudanças que a COVID-19 gerou no país e o despertar da tecnologia

24 de fevereiro de 2021

Sem dúvidas a crise desencadeada pelo novo coronavírus trouxe muitas dores ao mundo moderno. No fechamento dessa matéria já eram mais de 2,4 milhões de óbitos em todo o mundo gerados por uma doença altamente transmissível e nova no globo. Ao mesmo tempo em que tivemos de lutar contra o sofrimento, aprendemos muito sobre relações, mudanças comportamentais e sobre o impacto positivo da tecnologia em nosso dia a dia. Para falar sobre como foram os últimos meses de enfrentamento da pandemia, conversamos com Armando C. Lopes Jr., diretor-geral da área de Diagnóstico por Imagem e Digitalização da Siemens Healthineers para a América Latina.

Nesse bate-papo, Lopes Jr. enfatiza a necessidade de o setor seguir investindo em pesquisa, desenvolvimento e inovação e traz alguns projetos encabeçados pela companhia para aliar a inteligência artificial às melhores estratégias de combate à COVID-19. Fala sobre o mercado de diagnóstico por imagem e traz detalhes sobre um projeto inovador que está sendo testado na Alemanha e promete auxiliar a melhor distribuição das vacinas no país.

Confira a entrevista completa.

Abramed em Foco – Qual a sua percepção sobre os impactos da pandemia de COVID-19 no nosso segmento?

Armando C. Lopes Jr. – A pandemia trouxe muita tristeza, pessoas adoeceram, perderam entes queridos e as restrições levaram a uma redução brutal no fluxo de pacientes. Tivemos clientes que fecharam suas portas e vimos os hospitais direcionarem praticamente toda sua estrutura ao atendimento à COVID-19. O eletivo deixou de existir até que tivéssemos maior compreensão sobre o percurso da pandemia e a melhor forma de lidar com os pacientes. Por outro lado, a crise trouxe muitos aprendizados e possibilitou a aplicação de técnicas e tecnologias que já estavam disponíveis, porém por vieses e paradigmas, não eram adotadas.

Assim, não podemos perder o “lado positivo” da crise. Não devemos virar o rosto para pontos muito importantes que tivemos de abandonar, como o contato social e a criação coletiva. Mas, sem dúvida, o mundo que vai emergir após todos estarem vacinados não será como antes e não será como o que estamos vivendo agora.

Abramed em Foco – Como a Siemens Healthineers reagiu à crise?

Armando C. Lopes Jr. – Olhando para dentro de casa, podemos dizer que o home office funcionou muito bem. Já praticávamos duas vezes por semana e, portanto, estávamos adaptados à plataforma. Porém, passamos a utilizar mais a câmera nas reuniões e a estrutura em sua plenitude. Aderimos, inclusive, à assinatura digital eletrônica tanto para documentos internos quanto para documentos externos. Uma tecnologia disponível há muito tempo, mas que culturalmente ainda não era muito bem aceita. Na fábrica e no almoxarifado, criamos dois turnos para manutenção do distanciamento físico adequado.

Já os engenheiros de campo não podem ficar remotamente, portanto os vulneráveis foram preservados e aqueles que poderiam seguir atuando receberam todo o equipamento de proteção necessário. Assim, tivemos um nível bastante baixo de infecção e nenhum caso grave ou óbito. Isso nos permitiu mantermos o atendimento aos clientes de forma satisfatória.

Até mesmo algumas atividades que eram feitas in loco passaram a ser feitas virtualmente de forma plena. A aplicação – momento após a instalação quando há uma interação com radiologistas e equipes para ensiná-los a utilizar e calibrar as máquinas – passou a ser remota e trouxe vantagens significativas. Antes, nosso pessoal passava uma semana no cliente, visto que os médicos têm uma agenda acirrada e não tinham condições de disponibilizar muitas horas por dia para esse processo. O cenário levava a uma menor produtividade. Remotamente, podemos fracionar essa agenda. Essa possibilidade já existia há dez anos, porém sofríamos com uma percepção de que o cliente fazia questão da presença física do técnico. Com a pandemia impedindo esse contato, o paradigma se dissolveu e essa nova versão se provou melhor do que a anterior.

Abramed em Foco – Toda essa digitalização pode afastar ainda mais as pessoas?

Armando C. Lopes Jr. – Pelo contrário. A digitalização aproxima. Hoje sou diretor-geral da área de Diagnóstico por Imagem e Digitalização para toda a América Latina. Tivemos um isolamento físico intenso, mas do ponto de vista social, acredito que aumentamos nossa proximidade. Passamos a falar por tela, e não por telefone. Passamos a ver mais uns aos outros. O que a tecnologia já permitia, a pandemia nos empurrou a usar. Não podemos nos permitir perder esses avanços, mesmo precisando resgatar coisas importantes como o olho no olho.

Abramed em Foco – Qual é o papel da inteligência artificial em todo esse processo de digitalização?

Armando C. Lopes Jr. – São muitas as aplicações. A pandemia também nos mostra a importância da inteligência artificial na gestão da saúde populacional. Desenvolvemos, na Alemanha, e estamos trazendo para a América latina um sistema para melhor definição de prioridades para vacinação contra a COVID-19. Hoje temos uma prioridade clara: profissionais de saúde e idosos. Mas em breve chegaremos a uma massa de pessoas com basicamente o mesmo nível de prioridade, mas ainda carecendo de critérios para indicar quem deve receber as doses primeiro.

Temos um mapa de calor da infecção que mostra o impacto da doença em diferentes cidades e de bairro para bairro. Lembrando que uma pessoa vacinada protege cinco pessoas ao seu redor, interrompendo a transmissão do patógeno, precisamos incluir esse mapa de calor como um critério para priorização. Assim a imunização será realizada antes nas localidades onde a taxa de infecção está maior. Para isso, é utilizada uma ferramenta de inteligência artificial que diz quem é e onde está a pessoa ideal para tomar a vacina no primeiro, no segundo e no terceiro mês da campanha a fim de quebrar, de forma otimizada, a cadeia de infecção. A promessa de valor é a de que a distribuição inteligente da vacina pode reduzir em até 30% a mortalidade quando comparada com uma distribuição convencional.

Além disso, a ferramenta também pode evitar o desperdício de doses que vem sendo observado no Rio de Janeiro, por exemplo. Por lá, a vacina da AstraZeneca vem com dez doses e todas precisam ser aplicadas após aberto o frasco. Acontecia de o dia de vacinação ser encerrado e algumas doses ficarem remanescentes nos postos, gerando uma “xepa” com pessoas idosas circulando entre os atendimentos em busca das doses que estavam “sobrando”. Com a inteligência artificial aplicada a esses postos, além de evitar o desperdício, evita-se que pessoas do grupo de risco fiquem zanzando pela cidade para tomar a vacina.

Abramed em Foco – O diagnóstico por imagem seguiu muito relevante para confirmação da COVID-19. Ao mesmo tempo, durante meses os atendimentos relativos a outras patologias ficaram represados, pela paralização do sistema e pelo medo da população em frequentar estabelecimentos de saúde. A Siemens Healthineers sentiu alguma movimentação na vertical de imagem em decorrência da pandemia?

Armando C. Lopes Jr. – Realmente em um primeiro momento os procedimentos eletivos foram quase à zero e técnicas como ressonância magnética e PET TC diminuíram muito, fazendo com que os clientes paralisassem os investimentos nessas tecnologias. Por outro lado, no Brasil, tivemos um aumento de demanda por tomografia computadorizada. Em outros países, notamos aumento de raio-X móvel. E aqui temos, mais uma vez, uma solução que otimiza os exames. Temos um laboratório de inteligência artificial no Hospital das Clínicas de São Paulo que aplicou um algoritmo para leitura de imagens de pulmão, um consórcio firmado com mais de 30 instituições. Chegamos a 30 mil imagens lidas pela ferramenta, o maior índice de upload do mundo.

Com isso, qualquer lugar do país conseguia ter uma segunda opinião sobre aquele exame, facilitando a tomada de decisão sobre internar ou não, intubar ou não. Uma ferramenta importante para que o corpo clínico tivesse mais convicção sobre o procedimento. Trata-se de um auxílio à opinião soberana do médico que, na pandemia, tem de tomar decisões a cada 30 segundos.

Abramed em Foco – Os investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação se mostraram ainda mais fundamentais?

Armando C. Lopes Jr. – Sou suspeito para falar, pois não só acredito como tenho evidências de que investimento em tecnologia reduz o custo da saúde. São menos tangíveis para medir, mas bastante evidentes quando olhamos o processo. Nesse momento que estamos vivendo vimos como é importante seguir investindo em tecnologias que acelerem o ciclo dos produtos, de ampliar a capacidade de rapidamente trazer essas soluções, testá-las e escalá-las. A tecnologia sempre foi a ferramenta que proporcionou o progresso para a humanidade. Ao longo de toda a nossa história, a automação nos liberou tempo para que pudéssemos desenvolver coisas novas. Lembrando que todas essas soluções de suporte à decisão clínica não substituem o médico, mas dão a ele velocidade e segurança para a tomada de decisão. Tudo isso nos levará a uma medicina cada vez mais personalizada.

Abramed em Foco – Qual é, a seu ver, o grande desafio da medicina diagnóstica brasileira hoje? E como a indústria pode ajudar o setor a vencer esses gargalos?

Armando C. Lopes Jr. – A medicina diagnóstica deve seguir o caminho de, cada vez mais, apoiar a decisão clínica fornecendo conhecimento, informação e minorando o custo dos tratamentos. No caso do diagnóstico por imagem, promover procedimentos menos invasivos, por exemplo. Na área de análises clínicas, auxiliar a prever medicamentos mais precisos para cada característica pessoal, seguindo a perspectiva de orientar um tratamento mais eficaz e menos custoso. Com as plataformas digitais agregando dados, colocando algoritmos de inteligência artificial que usam as informações do paciente para um conhecimento de massa.

Abramed em Foco – Como enxerga a atuação da Abramed na medicina diagnóstica? O que espera da entidade como parceira para melhoria do setor?

Armando C. Lopes Jr. – No meu entendimento, a Associação deve continuar promovendo esse diálogo entre todos os atores do sistema de saúde, que ainda tem muitas ineficiências advindas do modelo de pagamento. Essa abertura que a Abramed possibilita é muito importante para sanar esse grande desafio. Como podemos, eventualmente, reorganizar as relações para diminuir o desperdício, melhorar o valor entregue para o paciente? Todos esses objetivos do triple aim [estrutura desenvolvida pelo Institute for Healthcare Improvement dos Estados Unidos que descreve uma abordagem para otimizar o desempenho do sistema de saúde] dependem do diálogo entre os atores e da gradativa revisão dos papéis de cada um. E a Abramed faz isso de forma brilhante. Traz essa discussão ao mesmo tempo em que promove a defesa de seus associados.

Projeto de Lei visa criar Dia Nacional do Laboratório Clínico

Ementa sugere a data de 14 de junho para homenagear o setor

24 de fevereiro de 2021

O Projeto de Lei nº 122/2021, apresentado em 3 de fevereiro de 2020 pelo deputado Luiz Antonio Teixeira Júnior (PP/RJ), visa instituir o dia 14 de junho como o Dia Nacional do Laboratório Clínico. A data foi escolhida por marcar o nascimento de Karl Landsteiner, médico e cientista austríaco que recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1930 por sua descoberta dos grupos sanguíneos humanos, um dos exames laboratoriais mais realizados no mundo.

Tramitando na Câmara dos Deputados, a proposta reforça a relevância do laboratório clínico na assistência à saúde, contribuindo decisivamente para melhorar a qualidade de vida populacional. Inclusive, importante frisar que até 70% das decisões médicas se baseiam em exames laboratoriais.

“As pessoas recorrem aos Laboratórios Clínicos em diferentes momentos de suas vidas e neles colocam esperanças e expectativas de alegrias ou até mesmo de seus sonhos ou partes dele; isso pode ser visto quando da realização de exames para fins do diagnóstico da gravidez ou para estudo das doenças genéticas. Situações críticas de saúde ou de risco elevado de comprometimento ou mesmo de perda da vida, também recorrem aos recursos disponíveis nos Laboratórios Clínicos e a mais recente delas é a pandemia que está presente em todo país, para a qual os exames laboratoriais passaram de serem úteis para serem essenciais”, diz trecho da defesa.

O projeto de lei segue aguardando despacho do Presidente da Câmara dos Deputados. Clique AQUI para ler o texto na íntegra.

Compliance antidiscriminatório é o caminho para a diversidade nas organizações

Empresas devem instituir programas para combater discriminação e melhorar governança corporativa

9 de fevereiro de 2021

Cada vez mais as organizações têm compreendido a importância de se ter uma governança corporativa que, dentre outras funções, busca a estabilidadee a manutenção do valor de mercado das instituições, projetando-as para o futuro para além das pessoas que as administram.

Neste sentido, os conceitos de inclusão e diversidade estão ainda mais valorizados no ambiente corporativo. Por isso, é fundamental que as empresas desenvolvam processos técnicos e de gestão de riscos para diagnosticar os conflitos relacionados à diversidade racial, de gênero, de etnia, de orientação sexual, dentre outros.

“A ação discriminatória tem como efeito principal acabar com a desigualdade de oportunidade ou de tratamento, que traz grandes danos, tanto emocionais quanto financeiros, a quem sofre esse tratamento injusto e problemas para a cultura corporativa e lucratividade da empresa”, explica Walquiria Favero, superintendente jurídica e Compliance da Dasa e membro do Comitê de Governança, Ética e Compliance (GEC) da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).

A organização deve, segundo a especialista, seguir a legislação antidiscriminatória para transformar sua cultura institucional e, dessa forma, identificar as discriminações diretas (caracterizada quando o indivíduo é tratado de forma menos favorável devido sua etnia, raça, posição política, idade, religião, gênero, entre outros aspectos) e indiretas (ato discriminatório feito de uma forma menos explícita, por exemplo, quando uma norma, critério ou prática que deveria ser neutra coloca pessoas em situação de desvantagem em comparação aos outros), as maneiras como os processos mentais, o favoritismo de determinados grupos e preferências culturais afetam a operação cotidiana da empresa por meio do comportamento de seus funcionários.

É por esse motivo que as políticas corporativas devem estar pautadas em claros parâmetros éticos para que elas possam atingir os objetivos presentes na Constituição Federal. “A promoção de medidas de diversidade permite que elas ampliem a capacidade de solução de problemas ao garantir, por exemplo, que a produção de seus produtos e serviços reflita os interesses de diversos setores da sociedade”, esclarece Walquiria.

O direito à não discriminação previsto na Carta Magna determina a missão de garantir a todos a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceito.

A elaboração de um compliance antidiscriminatório é importante e necessário para garantir o bom convívio, respeito à diversidade e segurança dentro de uma instituição pública ou privada.

Esse programa deve implementar novas normas, controles e processos de governança corporativa para identificar, prevenir e acabar com possíveis situações discriminatórias, que incluem tratamentos desfavoráveis ou incoerentes devido à cor, raça, etnia, gênero, orientação sexual, visão política, classe social, deficiência física, entre outras diversas razões incabíveis.

Tendo em mente que o compliance tem relação com a conduta da empresa e sua adequação às normas dos órgãos de regulamentação, vale a pena observar, de acordo com a superintendente da Dasa, que a mudança dessas diretrizes deve considerar também esse viés, entendendo que de nada adianta uma organização adotar um discurso antirracismo ou politicamente a favor da diversidade, se na rotina do local existem atos discriminatórios contra os próprios colaboradores, clientes, parceiros ou qualquer outro tipo de relacionamento da empresa. “Para mudar, é preciso incluir boas práticas de gestão”, reforça Walquiria.

Dentre essas ações estão: o Canal de Denúncias – ferramenta que recebe e encaminha notificações de denúncias sobre qualquer tipo de má conduta (assédio moral, sexual, racismo, entre outras); Código de Conduta Ética – documento que contém as normas e os princípios da empresa para que todos os colaboradores o sigam, incluindo tópicos que pregam a não tolerância à discriminação; e, por último, a checagem de terceiros (ou background check) – prática capaz de prever o mau comportamento por parte de um colaborador ou outro tipo de relacionamento da organização por meio da verificação de seus dados e relacionamentos públicos com outras companhias.

A advogada salienta que um dos pontos fundamentais de toda política antidiscriminatória nas empresas é a isonomia. Isso significa que seu alcance deve atingir todos os integrantes da hierarquia corporativa, alcançando desde a alta administração até estagiários, aprendizes, terceirizados e os que estejam atuando como prestadores de serviços em nome da empresa. “Essa prática traz grande relevância no plano social, tendo em vista que aumenta a representatividade da população na participação do quadro de funcionários, bem como aumenta as possibilidades de novos mercados consumidores, fazendo, assim, aumentar os investimentos na economia.”

Tecnologia como aliada

Uma dica pertinente em relação à prática de checagem de terceiros é o investimento em soluções tecnológicas de big data emineração de dados. Essas plataformas são capazes de trazer informações importantes em um curto espaço de tempoDessa forma, equipes de compliance, RH e gestão de riscos conseguem realizar mais checagens e tomar as suas decisões de forma mais assertiva.

Dados sobre processosmídia negativa também podem ser eficazes na identificação de candidatos que já cometeram atos discriminatórios na internet, antigos empregos ou outras situações.

Munidos dessas informações, explica Walquiria, gestores e analistas conseguem identificar de forma mais assertiva possíveis riscos à organização, garantir contratações e relacionamentos mais transparentes, reduzir custos e adotar ações estratégicas mais eficazes. “Nos dias de hoje, o alto índice de atos discriminatórios, corrupção, fraudes e processos trabalhistas, envolvendo tanto colaboradores, quanto outros relacionamentos das empresas (fornecedores, investidores, transportadoras, entre outros), evidencia a necessidade de investir em práticas de checagens e soluções que otimizem este tipo de processo. A prevenção e as boas práticas são sempre a melhor escolha”, afirma.

“Agora nosso maior desafio é econômico”

Fabio Arcuri, da Thermo Fisher Scientific, fala sobre medicina diagnóstica, as tendências do setor e as batalhas vencidas na pandemia.

4 de fevereiro de 2021

Quais foram os principais desafios que a indústria voltada à medicina diagnóstica enfrentou nos últimos meses? Como atuou para vencê-los e como pode auxiliar laboratórios nesse momento de recuperação? Para entender a visão das fabricantes, conversamos com Fabio Arcuri, commercial director da Thermo Fisher Scientific no Brasil e presidente do Conselho da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL) na gestão 2020/2021.

A fornecedora norte-americana de reagentes, consumíveis, instrumentação e serviços está muito atuante na pandemia de COVID-19 ofertando testes para detecção da infecção pelo novo coronavírus e vislumbra, na área de biologia molecular para doenças infectocontagiosas, um caminho profícuo para o futuro do setor.

Nessa entrevista, Arcuri também fala sobre os principais desafios da saúde no Brasil – entre eles a necessidade de mudança no modelo de remuneração dos serviços para maior sustentabilidade do setor – e reforça a importância da união de diversos players dessa complexa cadeia.

Confira a entrevista completa.

Abramed em Foco – A pandemia de COVID-19 impactou todos os setores da economia, sem exceção. Quais foram os principais desafios enfrentados pela Thermo Fisher Scientific ao longo dos últimos meses e qual a estratégia adotada pela companhia para vencê-los?

Fabio Arcuri – A pandemia nos atingiu em duas vertentes distintas. No que tange a RT-PCR e outros exames moleculares, tivemos uma participação muito importante no mercado global e provemos condições para que o Brasil conseguisse ofertar uma grande quantidade de testes para COVID-19. Nesse cenário, nossos principais entraves estavam atrelados à capacidade produtiva e à importação, entrega, instalação e validação das metodologias para que todo o negócio pudesse funcionar. Foi, de fato, um desafio muito grande conseguir que tantos clientes tivessem suas plataformas funcionando e apenas alcançamos sucesso por montarmos uma força-tarefa específica para esse mercado.

Paralelamente, assim como tantas outras empresas, sentimos o impacto no restante do portfólio que, desvinculado à COVID-19, sofreu certa anemia. Nesse ponto, nosso desafio foi, mesmo com a queda de volume e com as dificuldades logísticas, continuar provendo os serviços e produtos aos nossos clientes, mantendo nossa capacidade de entrega.

Abramed em Foco – Quais as particularidades do mercado brasileiro nesse momento de crise?

Fabio Arcuri – Diferente de outras nações, o maior desafio do Brasil foi a política de testagem. O país não soube se organizar. Tivemos, inclusive, que atuar junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para estender o prazo de validade dos reagentes, pois o governo não conseguiu distribuir e utilizar todos os testes disponibilizados. Faltou uma melhor estruturação para a testagem. Além disso, o país utiliza poucos testes diferentes do RT-PCR, um teste molecular de alta complexidade que nem todos os laboratórios têm infraestrutura para oferecer. Enquanto isso, dispomos da sorologia, um teste mais simples, porém que carece de uma validação mais profunda, até porque a pandemia nos afetou de forma muito ágil.

Abramed em Foco – Como tem sido o relacionamento da Thermo Fisher Scientific com seus clientes brasileiros durante a crise? Dificuldades surgiram?

Fabio Arcuri – Todos estão conectados digitalmente, então não observamos dificuldades para acessar nossos clientes laboratoriais. Com os médicos clínicos, que recebem os pacientes nos consultórios, sofreram com a ausência desses pacientes e, depois, com a sobrecarga advinda da retomada dos atendimentos e das abordagens comerciais, enfrentamos mais dificuldades. Eu, Fabio, sinto certa falta da proximidade física, mas acredito que o mercado vai adotar essa política virtual que permite mais flexibilidade às pessoas. Um membro da área comercial, por exemplo, consegue atender um parceiro em São Paulo e, no momento seguinte, outro em Portugal.

Agora, existem atividades que precisam da presença e o maior entrave percebido dentro da Thermo Fisher Scientific foi no campo de aplicação e serviços, visto que não são atividades que podem ser feitas à distância, obrigando os profissionais a se deslocarem junto com os equipamentos para instalação. Mas o importante é que tivemos um saldo positivo. Alguns poucos casos de COVID-19 em nosso time, todos leves, sem complicações e, principalmente, sem nenhum óbito.

Abramed em Foco – Os investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação se mostraram ainda mais relevantes?

Fabio Arcuri – A Thermo Fisher Scientific já investe uma porcentagem interessante do seu lucro em P&D de novos produtos, mas houve uma aceleração do processo como um todo e, sem dúvida, uma canalização desses investimentos para a área de biologia molecular em doenças infectocontagiosas. Essa é uma estratégia global e o mercado brasileiro tem muito potencial, pois tem mais de 210 milhões de habitantes e um setor público de saúde atuante, o que é fundamental para a disseminação desses exames. O que falta, no caso, não é nem estrutura para ofertar esses testes, mas estratégias que viabilizem essas negociações.

Pensando apenas nos exames RT-PCR, que se popularizaram agora na pandemia, existem máquinas, instrumentos, tipos de reagentes que permitem executar uma grande quantidade de testes por hora, mas o governo acaba comprando o sistema com baixo rendimento. Focado nos gastos, não percebe que a rápida entrega de resultados, em casos como esse, de pandemia, é muito mais vantajosa.

Abramed em Foco – Quais os principais pontos de atenção para o futuro da medicina diagnóstica?

Fabio Arcuri – Em primeiro lugar podemos colocar o point-of-care (testes feitos no ponto de atendimento), uma realidade que vai se tornar a cada dia mais presente no nosso meio. O segundo ponto é que, na virologia, muitas das doenças infecciosas passarão a ser testadas via diagnóstico molecular, pois é uma metodologia com maior eficácia diagnóstica para detecção desses patógenos. Não que a sorologia perca importância, pois é uma área que se mantém em alta e podemos observar isso agora com a vacinação contra a COVID-19, quando esses testes sorológicos serão fundamentais para entender o comportamento das pessoas frente à imunização. O terceiro ponto está na espectrometria de massas, testes que também representam aumento da sensibilidade e trazem resultados clinicamente ainda mais confiáveis.

Abramed em Foco – Como, a seu ver, a indústria pode auxiliar laboratórios e clínicas a recuperarem seus negócios afetados pela pandemia? Quais soluções são mais emergenciais?

Fabio Arcuri – Acredito que, agora, o maior desafio é econômico. Temos 210 milhões de habitantes, mas cerca de 50 milhões são responsáveis, segundo dados da CBDL, por metade do mercado de diagnóstico in vitro no país. Isso significa que essas 50 milhões de pessoas consomem o mesmo que os outros 170 milhões restantes. E assim vemos o nível da desigualdade.

O setor laboratorial privado está cobrindo um segmento que o Governo Federal não consegue atender, mesmo a saúde sendo um direito constitucional universal. Porém, esses laboratórios dependem, em sua grande maioria, de pacientes advindos dos planos de saúde, que são regulados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Inicia-se, então, uma sequência que impacta a sustentabilidade do sistema.

Dentro da cadeia da saúde, há uma forte pressão nos custos dos procedimentos laboratoriais, causados por desequilíbrios macroeconômicos que se arrastam no tempo. Entre eles, a desvalorização cambial.  É importante lembrar que mais de 70% dos produtos e insumos IVD (In Vitro Diagnostics) são importados e, por sua vez, têm o custo impactado pela desvalorização cambial dentro de uma política fiscal pouco amigável. Esta situação afeta a saúde geral da cadeia e, portanto, dos fornecedores também.

O que precisamos é batalhar pela mudança no modelo de remuneração que impacta toda essa cadeia de serviços em saúde. Somente assim ofertaremos os melhores exames atendendo toda a população brasileira. Para contribuir com esse cenário de maior eficiência, a indústria está desenvolvendo metodologias em parceria com a academia e com as sociedades médicas para aplicar algoritmos decisórios capazes de otimizar o diagnóstico.

Abramed em Foco – Como enxerga a atuação da Abramed na medicina diagnóstica? O que espera da entidade como parceira para melhoria do setor?

Fabio Arcuri – Vejo a união da Abramed e de seus associados a outras entidades como uma postura muito positiva que tem levado a uma agenda alinhada às sociedades médicas, à academia e ao setor produtivo e comercial. Mesmo que alguns pleitos sejam diferentes, há muito interesse em comum, agendas sinérgicas. É o caso, por exemplo, desse trabalho por novos modelos de remuneração, que não é apenas uma necessidade da medicina diagnóstica, mas do setor de saúde como um todo.

Novas contribuições da medicina laboratorial no diagnóstico da COVID-19

Assinado por Carlos Eduardo Ferreira, presidente da SBPC/ML, artigo detalha atuação do setor frente a crise

03 de fevereiro de 2021

* Por Carlos Eduardo dos Santos Ferreira

Quase um ano se passou desde a detecção do primeiro caso do novo Coronavírus no País em fevereiro do ano passado. Foram diversas contribuições da Medicina Laboratorial e da SBPC/ML ao longo de 2020. A implantação das reações de PCR em tempo real “in house”, a chegada dos primeiros ensaios imunocromatográficos, a automação na reação de RT-PCR, os ensaios sorológicos de primeira geração, os POCTs de biologia molecular, as otimizações nos protocolos de extração do RNA viral, as novas gerações dos ensaios automatizados, testes de antígenos, LAMP (amplificação isotérmica), entre outras. Sem contar com o pioneirismo do Brasil nas alternativas diagnósticas, como a utilização de sequenciadores de última geração (NGS) e a espectrometria de massas na identificação de metabólitos dos vírus. E nesta leva a validação de métodos utilizando outras amostras alternativas ao uso das secreções de naso e oro faringe; tais como saliva e fezes na identificação dos vírus.

Já a SBPC/ML contribuiu em diferentes frentes no combate a pandemia. Criação do programa de avaliação de kits diagnósticos (testecovid19.org), estruturação de cursos, webinars em parcerias com outras sociedades médicas, o primeiro congresso virtual focado na infecção pelo Sars-CoV-2, veiculação de informação de qualidade na mídia aberta e fechada, entre outras inciativas.

As novidades e iniciativas não pararam por aí e não podem parar pois o vírus ainda circula mundo a fora. Com essa disseminação nos diversos continentes, o vírus foi se adaptando e mutando ao infectar diferentes organismos. A identificação destas mutações se faz necessária para o reconhecimento de novas linhagens do vírus. Estas novas cepas devem ser avaliadas do ponto de vista da infectividade e gravidade das mesmas. Por isso a genotipagem do vírus se faz necessária para que possamos avaliar estas diferenças nos pacientes, o impacto no tratamento e na prevenção com as diferentes vacinas que estão no mercado. Outro ponto de destaque na utilização prática da genotipagem se faz na identificação de surtos por cepas específicas em ambientes específicos. Esta genotipagem antes restrita aos laboratórios de pesquisa está ganhando mais relevância na condução da pandemia.

Outro ponto de destaque da Medicina Laboratorial é a evolução dos testes sorológicos. No início da pandemia os ensaios foram desenvolvidos avaliando as diferentes classes de imunoglobulinas (IgA, IgM e IgG) em resposta a diferentes epítopos proteicos.  Com o avanço das pesquisas verificou-se que a produção destas classes anticorpos aconteciam praticamente de forma simultânea e que grande parte destes anticorpos não ofereciam capacidade de neutralizar o vírus. A resposta imune natural e vacinal é melhor avaliada com anticorpos mais maduros (IgG) contra um epítopo spike (S1). Esses anticorpos apresentam capacidade de impedir que o vírus entre na célula para se replicar.  Os chamados anticorpos neutralizantes ligam-se à ligação ao receptor (RBD) da proteína epítopo viral, bem como a outros domínios, evitando que o vírus se ancore em seu receptor de entrada (ACE2), este presente em grade parte das células do nosso organismo.  A indústria diagnóstica já começou a disponibilizar ensaios avaliando a produção destes anticorpos contra estes epítopos.

Para fechar as novidades, a SBPC/ML em parceria com a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL) em parceria com laboratórios públicos e privados em um projeto inédito em parceria com a Agência Nacional Vigilância Sanitária (Anvisa) está revalidando os kits diagnósticos destinados ao diagnóstico da COVID-19 que já estão expirados. Os testes rigorosos de revalidação já estão sendo realizados e a Anvisa determina se o produto pode ou não continuar a ser utilizado para a prática clínica.

O diagnóstico laboratorial ganhou e vem ganhando protagonismo desde o início da pandemia. Um diagnóstico rápido e preciso contribuiu no controle da disseminação do vírus permitindo um isolamento rápido do paciente infectado. Vamos em frente buscando sempre uma melhoria contínua para que possamos superar este momento difícil para todos.

* Carlos Eduardo dos Santos Ferreira é Presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML)

Abramed tem nova diretora-executiva

Milva Pagano é advogada e assumiu o cargo em 18 de janeiro

19 de janeiro de 2021

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) tem uma nova diretora-executiva. Profissional com vasta experiência no segmento da saúde, Milva Pagano é advogada e tem MBA em direito da economia e da empresa pela Fundação Getúlio Vargas.

Com destacado perfil de liderança, Milva reúne as características ideais para a posição por ter atuado com reestruturação organizacional e institucional e por sua vivência significativa no segmento de gestão de saúde, inclusive no âmbito da saúde suplementar.

“Minha trajetória no complexo segmento de gestão da saúde suplementar e corporativa e minha atuação junto às associações fortaleceram meu olhar para a construção social. Acredito que, na Abramed, poderei agregar valor aos desafios da medicina diagnóstica, um importante elo do ecossistema da saúde”, pontua.

Com expertise na área de consultoria, Milva também auxiliou a construção de experiências oferecendo apoio às ações estratégicas devido à sua habilidade de converter dados em inteligência. Além disso, a executiva construiu bons caminhos de contato com públicos estratégicos, poder executivo, órgãos de proteção e defesa do consumidor e, também, com a imprensa, característica indispensável a quem está na direção de uma entidade como a Abramed.

Idealizadora, coordenadora e coautora do livro “Boas práticas de gestão em saúde corporativa”, lançado com a Editora Leader, Milva coordena o curso de extensão em Gestão de Saúde Corporativa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e já assumiu desafios diversos presidindo, ao longo de sua jornada, entidades como a Associação Brasileira dos Profissionais de Recursos Humanos (ABPRH) e a Aliança para Saúde Populacional (ASAP).