Ano eleitoral, Copa do Mundo e feriados prolongados: quais os impactos nos Projetos de Lei da Saúde em 2026

Calendário político concentrado pode reduzir o tempo de tramitação no Congresso e impactar projetos estruturantes para a Medicina Diagnóstica, exigindo articulação técnica qualificada.

Eleições gerais, Copa do Mundo e aumento de feriados em dias úteis tendem a reduzir o ritmo de tramitação no Congresso Nacional, encurtando o tempo disponível para debate e votação de Projetos de Lei que impactam diretamente a Medicina Diagnóstica.

Para o setor, o cenário exige acompanhamento técnico ainda mais próximo e atuação estratégica junto aos parlamentares e reguladores.

Ritmo legislativo concentrado no primeiro semestre

Em 2026, o Congresso funcionará formalmente de 2 de fevereiro a 17 de julho e de 1º de agosto a 22 de dezembro. As eleições ocorrerão em 4 de outubro (1º turno) e 25 de outubro (2º turno). Na prática, entretanto, o segundo semestre tende a ser marcado por sessões esvaziadas, votações pontuais e priorização de pautas com maior apelo eleitoral.

Com isso, o período efetivamente produtivo para matérias técnicas e estruturantes concentra-se nos primeiros meses do ano. Propostas que exigem debate qualificado em comissões — como aquelas relacionadas à governança de dados, Inteligência Artificial e interoperabilidade — podem enfrentar atrasos ou perda de prioridade.

Em contrapartida, temas com maior mobilização social, como pisos profissionais e jornadas de trabalho, tendem a ganhar visibilidade em ano eleitoral.

Copa do Mundo e redução no ritmo do Congresso

Historicamente, grandes eventos esportivos impactam a dinâmica do Legislativo. Com jogos realizados entre junho e julho, é comum a redução do quórum e o adiamento de votações importantes.

Esse hiato pode postergar discussões relevantes para o setor de saúde justamente no momento em que o calendário eleitoral já começa a influenciar a agenda política.

Feriados e redução de semanas úteis

Além disso, o calendário de 2026 contará com mais feriados em dias úteis, o que reduz semanas completas de trabalho parlamentar e dificulta o andamento de matérias que exigem audiências públicas, pareceres técnicos e negociações intersetoriais.

Projetos complexos, que dependem de análise aprofundada, tendem a ser mais impactados por esse encurtamento do tempo legislativo.

Projetos de Lei prioritários para a Medicina Diagnóstica

A agenda acompanhada pela Abramed reúne propostas estruturantes para o setor.

Entre elas, destacam-se:

  • PL 5478/25Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial (PNDL), que estabelece diretrizes, padrões mínimos e governança para a rede laboratorial;
  • PL 287/24 — critérios de avaliação da qualidade na saúde privada;
  • PL 4058/23 — doenças raras;
  • PL 7417/06 — reformulação da Lei dos Planos de Saúde.

Na agenda digital e de dados:

  • PL 2338/24 — Marco Legal da Inteligência Artificial;
  • PL 6237/25 — Sistema de Informação em Saúde (SIA);
  • PL 330/24 — consentimento duplo para dados médicos;
  • PL 5875/13 e PL 3719/25 — interoperabilidade e transformação digital do SUS.

“Essas propostas definem parâmetros de qualidade, digitalização, segurança da informação, modelos assistenciais e sustentabilidade econômica. Eventuais atrasos ou acelerações sem debate técnico adequado podem gerar impactos significativos para a cadeia da Medicina Diagnóstica”, declara Milva Pagano, diretora executiva da Abramed.

Atuação institucional da Abramed e advocacy 

Em um ano de imprevisibilidade legislativa, a articulação junto ao Legislativo torna-se ainda mais necessária.

A atuação da Abramed em Relações Governamentais e advocacy inclui:

  • Elaboração de notas técnicas e estudos de impacto regulatório;
  • Presença constante em comissões temáticas;
  • Diálogo com frentes parlamentares e lideranças partidárias;
  • Monitoramento de riscos de tramitação acelerada de pautas;
  • Participação ativa na agenda das agências reguladoras.

São ações que têm o objetivo de assegurar decisões regulatórias baseadas em evidências. Mesmo em um ano atípico, a construção de um ambiente regulatório estável é essencial para manter a sustentabilidade do setor e assegurar que avanços normativos sejam implementados com segurança, previsibilidade e qualidade assistencial.

Para a Medicina Diagnóstica — setor responsável por parcela significativa das decisões clínicas e pela base informacional da assistência —, acompanhar e influenciar esse processo é essencial.

“Projetos estruturantes para a saúde não podem depender apenas da agenda circunstancial. Nosso papel é garantir que o debate técnico aconteça no momento certo e com a profundidade necessária”, completa Milva.

Veja também: “Radar normativo: o que vem por aí em 2026 que dialoga com a Medicina Diagnóstica”.

27 de fevereiro de 2026.

Do dado isolado ao cuidado integrado: os desafios técnicos, econômicos e culturais da interoperabilidade na saúde

Integração é um dos principais caminhos para a sustentabilidade do setor e a centralidade no paciente

O ecossistema de saúde global, incluindo o brasileiro, vive um cenário desafiador e paradoxal: ao mesmo tempo em que dados sobre pacientes e tratamentos são gerados em escala crescente, os sistemas ao redor do mundo enfrentam dificuldades críticas para transformar todo o volume de informações produzido em cuidado integrado.

Para termos uma ideia desse cenário, levantamentos recentes estimam que cerca de 30% de todos os dados gerados na internet provenham da área de saúde e, embora a vasta maioria dos gestores reconheça a importância e o valor clínico desse “big data informacional”, o setor ainda luta para utilizá-lo de maneira eficaz, integrando linguagens e fortalecendo, por exemplo, a conexão entre as redes pública e privada.

Em outras palavras: diariamente, diagnósticos, laudos e prontuários circulam em grandes volumes – segundo a 7ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico, os associados da entidade são responsáveis por mais de 85% dos exames realizados pela saúde suplementar no país – mas muitas das decisões clínicas continuam sendo tomadas, no país, a partir de bases de dados fragmentadas.

É o que explica Pedro Vieira, líder do Comitê de Interoperabilidade da Abramed: “Hoje, o maior obstáculo não é tecnológico, é estrutural. Convivemos com sistemas legados, baixa padronização, governança frágil e maturidade digital desigual. O dado existe, mas a organização não está pronta para usá-lo de forma integrada.”

Interoperabilidade e o dado que gera valor clínico

Para superar esse cenário, a resposta se encontra, justamente, no avanço da interoperabilidade na saúde, que deve ser compreendida como um mecanismo estratégico capaz de gerar mais contexto para escolhas clínicas embasadas e maior sustentabilidade para os sistemas de cuidado.

Afinal de contas, quando os dados fluem de forma integrada, desperdícios são reduzidos, evita-se a duplicidade de exames e um apoio real à decisão médica é sustentado para garantir que a jornada do paciente seja contínua, capaz de antecipar quadros mais graves que também aumentam o custo de tratamentos e internações nas redes pública e privada.

Não por acaso, o custo da baixa interoperabilidade nos sistemas de saúde é alarmante, sendo estimado em cerca R$ 30 bilhões. Esse cenário é agravado por um ciclo de investimento em infraestrutura tecnológica que pode e deve ser acelerado, visando não apenas prioridades de curto prazo.

Além disso, Pedro Vieira destaca os aspectos de governança – em linha com normas como a Lei Geral de Proteção de Dados – que devem conduzir os investimentos em interoperabilidade na área de saúde:

“Compartilhar dados de forma segura exige regras claras, papéis bem definidos, transparência sobre uso da informação e compromisso institucional com privacidade. A LGPD não é um impeditivo da interoperabilidade, mas um guia para fazê-la corretamente”, explica.

O aspecto da governança é especialmente relevante quando consideramos um cenário de aumento nos ataques cibernéticos no setor: um relatório recente apontou que, em 2024, quase metade das organizações de saúde sofreram pelo menos um incidente envolvendo segurança digital.

Assim, o equilíbrio entre compartilhar dados e garantir a privacidade passa pela construção de protocolos que garantam transparência e compromisso institucional com a privacidade do paciente.

Diagnóstico de maturidade e o compromisso da Abramed

Pedro Vieira destaca ainda a importância de o setor evoluir para um diagnóstico claro sobre seu nível de maturidade nesse tema. “Também é importante analisarmos, de forma conjunta e transparente, quais são os reais benefícios clínicos, operacionais e econômicos da interoperabilidade, considerando as diferentes realidades dos prestadores”. 

A Abramed tem atuado como articuladora central nessa jornada por meio de seu Comitê de Interoperabilidade, criado em 2023. Este espaço visa fomentar a troca de melhores práticas, validar padrões e fortalecer o diálogo com órgãos públicos, como a Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI), do Ministério da Saúde.

A Associação acredita, por fim, que a interoperabilidade não é apenas uma melhoria operacional, mas uma das principais agendas para a construção de um sistema de saúde mais sustentável e verdadeiramente centrado no paciente.

27 de fevereiro de 2026.

Reforma Tributária entra na fase de testes e já impõe desafios operacionais ao setor de saúde

Renato Nunes analisa os primeiros impactos da CBS e do IBS em 2026 e os pontos de atenção para empresas de Medicina Diagnóstica

O ano de 2026 marca o início da fase de transição da Reforma Tributária no Brasil. Embora ainda sem arrecadação efetiva da CBS e do IBS, empresas de todos os setores já passaram a emitir documentos fiscais com destaque dos novos tributos, testar sistemas e simular impactos financeiros para os próximos anos.

Na prática, o chamado “ano-teste” tem revelado que a transição é menos simples do que o discurso da simplificação sugere. Atualização de ERPs, revisão de contratos, parametrização de serviços, saneamento de cadastros e atenção redobrada à formação do histórico fiscal já se tornaram parte da rotina das áreas tributária, financeira e jurídica.

Para o setor de Medicina Diagnóstica, que opera com alto volume de operações, múltiplos municípios e estruturas logísticas complexas, os impactos podem ser ainda mais sensíveis — especialmente diante de temas como creditamento condicionado, split payment e definição do local de ocorrência do fato gerador do IBS.

Para analisar os primeiros efeitos práticos da transição e os riscos estratégicos que já se desenham para os próximos anos, a Abramed conversou com o advogado tributarista Renato Nunes, sócio do escritório Machado Nunes. Doutor e mestre pela PUC-SP, atua nas áreas consultiva e contenciosa e integra o Conselho Municipal de Tributos de São Paulo. Também leciona em cursos de pós-graduação e MBA, além de ser autor e coordenador de obras sobre tributação e Reforma Tributária (IBS e CBS). Confira a entrevista completa!

  1. O ano de 2026 foi desenhado como um período de “teste sem arrecadação”. Na prática, o que esse ano já revelou sobre a capacidade das empresas de se adaptarem ao novo modelo de CBS e IBS?

Renato Nunes: Em termos de adaptação de sistemas, com o objetivo de emitir documentos fiscais conforme os layouts dos novos tributos, a maioria das empresas está conseguindo vencer bem essa etapa. O que temos notado são problemas relacionados às administrações tributárias, sobretudo municipais. Em Guarulhos, por exemplo, segundo município em tamanho de população do Estado de São Paulo, os contribuintes vêm enfrentando muitos problemas para emitir documentos fiscais. 

Já quanto à simulação de impactos para o período de transição e, mais grave, revisão de precificação e contratos com fornecedores relevantes, diversas empresas ainda não começaram a atuar em tais frentes, as quais podem ser determinantes, senão, para aproveitar oportunidades da Reforma Tributária, ao menos para minimizar eventuais impactos negativos.

  1. Mesmo sem cobrança efetiva, muitas empresas já estão preocupadas com o “histórico fiscal” que está sendo formado agora. Que tipos de erros ou inconsistências você considera mais críticos nesse primeiro ano?

Renato Nunes: O que temos observado com maior recorrência é uma dificuldade de classificar corretamente as atividades segundo os novos padrões que vêm sendo divulgados pela Receita Federal e pelo Comitê Gestor. Cremos que até o final deste primeiro semestre as coisas estarão mais bem endereçadas nesse aspecto.

  1. A convivência entre os tributos antigos e o novo IVA dual tem sido apontada como um dos maiores desafios operacionais. Onde você vê os principais riscos de ruído ou retrabalho nesse modelo híbrido?

Renato Nunes: Isso deve começar a gerar mais dúvidas operacionais a partir de 2029, quando nós teremos o IBS sendo cobrado para valer, juntamente com o ISS e o ICMS. Contudo, um problema que já está constatado é a inclusão do IBS e da CBS nas bases de cálculo do ISS e do ICMS — posicionamento que as administrações tributárias têm sinalizado que adotarão. Há fortes argumentos de inconstitucionalidade e o tema deve ser judicializado.

  1. Do ponto de vista de sistemas e dados, 2026 parece menos sobre imposto e mais sobre qualidade da informação. Que fragilidades nos cadastros fiscais e operacionais mais têm aparecido nesse processo?

Renato Nunes e Gabriel Mota: Do que temos acompanhado, as principais falhas estão relacionadas a inconsistências cadastrais, classificação incorreta de produtos e atividades, falhas de integração entre ERP e ambientes fiscais, base de fornecedores desatualizada, entre outros.

Além disso, temos verificado que muitas companhias ainda não realizaram o adequado saneamento de suas bases de produtos, serviços e fornecedores. Esse procedimento é fundamental para a identificação de fragilidades e para a devida regularização das inconsistências.

Neste momento, é fundamental que os sistemas internos estejam corretamente parametrizados e integrados aos ambientes fiscais, a fim de que a transição ocorra sem intercorrências relevantes.

No caso dos prestadores de serviços, inclusive no setor da saúde, é imprescindível que os sistemas internos estejam parametrizados em conformidade com o Anexo VIII da Nota Técnica 004/2025 e com os anexos da Lei Complementar nº 214/2025, que estabelecem o enquadramento e a forma de tributação aplicável a cada tipo de serviço. No âmbito específico dos serviços de saúde, devem ser observados, especialmente, os itens constantes dos Anexos III, IV, V e XII.

  1. Para setores intensivos em tecnologia e investimento, como a medicina diagnóstica, o discurso da simplificação futura convive com um custo relevante no presente. Esse custo é apenas transitório ou tende a se estruturar?

Renato Nunes: As empresas do setor de serviços de saúde, de uma maneira geral, deverão ter um aumento do custo de conformidade quando comparamos com o que atualmente verificam em matéria de PIS/COFINS e ISS — tributos que serão substituídos pela CBS e pelo IBS, respectivamente. Isso porque o PIS/COFINS no setor de serviços de saúde tem um regime de apuração muito simples (cumulativo) e o ISS é simples por natureza. 

Nos novos tributos, teremos a não cumulatividade, então, passará a ser importante que os departamentos de suprimentos trabalhem com a ideia de compras e contratações por preços líquidos de tributação. É uma mudança de mindset mesmo. 

Também é importante falar do split payment, que poderá impactar severamente o fluxo de caixa das empresas que tenham prazos curtos de recebimentos de clientes. Com essa “ferramenta”, os tributos serão segregados automaticamente no momento do pagamento, reduzindo o capital de giro disponível.

  1. A promessa de crédito amplo é um dos pilares da reforma. Já é possível, a partir das simulações de 2026, identificar mudanças relevantes na lógica de recuperação de créditos para prestadores de serviços de saúde?

Renato Nunes: Ainda não é possível, mas a expectativa é grande. Tanto a Emenda Constitucional n.º 132/23 quanto a Lei Complementar n.º 214/25 possuem dispositivos que deveriam assegurar a apropriação, o aproveitamento e o ressarcimento dos créditos sem grande burocracia e com prazos exíguos. A experiência dirá se essas determinações serão realidade ou mais uma fonte de frustrações.

Um ponto ao qual as empresas de Medicina Diagnóstica devem ficar atentas é o fato de que o creditamento somente será autorizado se os débitos de IBS e CBS incidentes nas compras e contratações tiverem sido adimplidos. Esse é um tema que merece ser previsto nas compras e contratações e, eventualmente, até objeto de checagem pelos contratantes. Eventual inadimplência dos fornecedores em relação ao IBS e à CBS impedirá que os clientes tomem os créditos correspondentes, prejudicando os seus fluxos de caixa.

  1. Muitas empresas estão usando 2026 para revisar contratos, preços e cadeias logísticas. Na sua avaliação, o que não pode mais ser tratado como “ajuste fino” e exige decisões estratégicas agora?

Renato Nunes: Levantar os contratos e itens de maior peso em termos de custos e despesas, verificar os impactos da Reforma sobre estes e desenvolver o quanto antes uma estratégia de negociação são tarefas mandatórias para as empresas não perderem oportunidades ou, ao menos, evitarem ou reduzirem impactos negativos em seus fluxos de caixa.

Cláusulas de repasse tributário poderão ter que ser renegociadas e modelos de precificação “com imposto embutido” poderão gerar distorções. Estes e tantos outros temas devem ser objeto de atenção.

  1. A fiscalização eletrônica mais integrada é vista, ao mesmo tempo, como ganho de transparência e como risco futuro. Como as empresas devem se preparar para evitar passivos que só apareçam a partir de 2027?

Renato Nunes: Será de fundamental importância que as empresas mantenham um controle espelho da apuração, especialmente em relação aos créditos reconhecidos pelos sistemas da Receita Federal e do Comitê, bem como dos débitos lá indicados, com vistas a sanar o mais rápido possível eventuais inconsistências de informação e evitar impactos negativos em resultado e em fluxo de caixa.

  1. Com a sanção da lei que cria o Comitê Gestor do IBS, quais decisões ou movimentos desse novo órgão tendem a ter maior impacto estratégico para empresas de serviços e setores regulados, como a saúde?

Renato Nunes: Um ponto de atenção é como funcionarão os procedimentos e processos administrativos relativos ao IBS no âmbito desse Comitê. As empresas, em geral, já possuem experiência com a Receita Federal. As especificidades do Comitê Gestor deverão ser um ponto de constante acompanhamento, sobretudo, por parte dos departamentos fiscal e jurídico.

Especificamente no setor de Medicina Diagnóstica, será necessário acompanhar com atenção como o Comitê Gestor irá se manifestar sobre o local de ocorrência do fato gerador do IBS, especialmente nas atividades de análises clínicas, em que a coleta de material biológico ocorre em município ou estado diverso daquele onde são realizados o processamento e a avaliação.

Se houver dúvida a respeito disso, em que pese, ao menos em teoria, caberá ao Comitê Gestor dar destinação ao valor de arrecadação do IBS com base nas informações constantes do documento fiscal. É importante o setor ficar atento para, se for o caso, agir contra qualquer medida que possa resultar em risco de questionamento para as empresas de Medicina Diagnóstica.

10. Se você tivesse que resumir 2026 em uma mensagem para os executivos do setor de saúde: este é um ano para “testar sistemas”, “corrigir cultura” ou “antecipar estratégia”? Por quê?

Renato Nunes: A Reforma Tributária é mais do que uma mudança de tributos, é uma mudança de lógica de negócios. Antecipar-se deve ser a palavra de ordem.

27 de fevereiro de 2026.

Letramento digital: a base da inovação responsável na Medicina Diagnóstica

Aumento dos investimentos em tecnologia e dados deve vir acompanhado da capacidade crítica para extrair valor de novas soluções na saúde 

O ecossistema de saúde global atravessa uma era de investimentos sem precedentes em inovação. Só o mercado de inteligência artificial em healthcare foi estimado em mais de US$ 36 bi em 2025 e deve crescer próximo da casa de 40% ao ano até 2033. Nesse mesmo sentido, espera-se que os investimentos em dados na saúde superem US$ 193 bi nos próximos 5 anos, também acelerados pelo direcionamento de recursos para sistemas de análise de informações clínicas.   

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) junto aos seus associados — que representam mais de 85% do volume de exames realizados na saúde suplementar no país —, as empresas do setor destinam até 30% do orçamento anual a iniciativas de inovação tecnológica.

No entanto, há um gargalo desafiador no segmento entre a velocidade da corrida tecnológica e o déficit de maturidade digital de profissionais e organizações.Sem o devido letramento digital, corremos o risco de automatizar a desinformação em escala, pondo em risco a segurança dos pacientes e deixando de usufruir dos benefícios de uma saúde informatizada.

O que é letramento digital e os desafios para seu avanço no Brasil

Antes de aprofundarmos o debate sobre letramento digital na saúde, é importante definirmos esse conceito, que não se resume a treinamentos técnicos para operar sistemas ou navegar em dashboards. Hoje, isso é o básico para qualquer organização.

O verdadeiro letramento é a capacidade crítica de compreender o que os dados dizem, o que não dizem e o que jamais poderão dizer sozinhos. Envolve entender vieses algorítmicos, limitações de base informacional e também avaliar implicações éticas e assistenciais das decisões orientadas pela tecnologia. Pressupõe reconhecer que algoritmo não é neutro, que dados não são verdade absoluta e que decisões baseadas em sistemas cuja lógica não é compreendida representam risco institucional.

Sem essa maturidade, delega-se decisões clínicas complexas a sistemas que muitas vezes não são plenamente explicáveis, criando um ambiente em que a tecnologia é tratada como verdade incontestável — quando deveria ser instrumento de apoio crítico.

No Brasil, esse desafio é especialmente agudo quando consideramos que, segundo pronunciamento recente do Ministério das Comunicações, falta letramento digital para cerca de 70% dos brasileiros, índice que se reflete também na capacidade de operadores do ambiente de saúde em se integrar a uma cultura de base tecnológica e orientada por dados.

É nesse cenário que o gap de letramento se torna uma das principais barreiras para que a inovação entregue ovalor prometido. Isso vale, por exemplo, para a IA: sem maturidade crítica, a inteligência artificial torna-se apenas uma “vitrine tecnológica” que impressiona no piloto, mas enfrenta dificuldades na rotina assistencial, especialmente quando cobrada por impacto clínico mensurável, eficiência sustentável ou melhoria concreta de desfechos. Sem perguntas bem formuladas e critérios claros de validação, soluções sofisticadas podem se tornar tecnicamente avançadas e, ainda assim, clinicamente irrelevantes.

Profissionais híbridos e uma agenda de transformação

Para superar esse cenário, especialidades como a Medicina Diagnóstica precisam trabalhar na formação de profissionais híbridos. O fato é que hoje já contamos tanto com excelentes cientistas de dados quanto com clínicos brilhantes, mas poucos conseguem transitar com fluidez entre esses dois universos. 

E a realidade atual da saúde demanda profissionais que, além do conhecimento médico, saibam trabalhar com estatística, arquitetura de dados e machine learning – e entendam como esses pilares, integrados, influenciam na jornada do paciente, sendo ainda capazes de avaliar riscos clínicos, fatores regulatórios e ambientes informatizados. Mais do que novos cargos, é necessário reconhecer que dados deixaram de ser um tema exclusivo da TI e passaram a ocupar papelcentral nas decisões clínicas, estratégicas e institucionais.

Afinal de contas, a falta de letramento digital tem consequências diretas no cuidado. Quando a tecnologia avança mais rápido que a compreensão humana, o resultado é o aumento de algoritmos mal interpretados e decisões automatizadas sem contexto clínico. Isso pode se traduzir em atrasos diagnósticos ou intervenções desnecessárias, comprometendo a segurança do paciente e a própria sustentabilidade dos sistemas de saúde. Amplificam-se vieses, consolidam-se decisões opacas e eleva-se a exposição regulatória e reputacional das organizações.

Nesse novo panorama, os dados não são mais apenas um tema de TI, mas um instrumento clínico, estratégico e institucional que devolve ao médico o controle sobre a tecnologia, inclusive sobre quando utilizá-la ou não. 

Diante de tudo isso, a agenda do letramento digital deve unir os atores da saúde e da Medicina Diagnóstica. As organizações – com o apoio de entidades e do próprio poder público –, devem investir em capacitação contínua e criar ambientes onde a maturidade crítica é incentivada, de modo que o uso de tecnologias complexas venha acompanhado de formação, tempo e contexto para sua aplicação adequada.

Pois, em última análise, o letramento é o que diferencia a inovação responsável de uma automação sem governança e controle, colocando-se como uma base decisiva para que os dados se transformem, de fato, em ativos de valor capazes de melhorar a jornada de pacientes e o dia a dia dos profissionais.

Pedro Vieira é Líder do Comitê de Interoperabilidade da Abramed

27 de fevereiro de 2026.

Levantamento da Abramed aponta 1,8 milhão de testes de HIV realizados no Brasil em 2025

País amplia testagem na rede privada enquanto mortes por Aids caem 12,8% entre 2023 e 2024 e atingem menor patamar histórico 

A rede privada ampliou de forma significativa o acesso ao diagnóstico do HIV em 2025. Levantamento da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), que reúne empresas responsáveis por mais de 85% do volume de exames realizados na saúde suplementar, indica que suas associadas realizaram 1.841.628 testes de HIV no país ao longo do ano.  

Esse avanço na testagem contribui para a consolidação de um cenário epidemiológico mais favorável. Dados do Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, mostram que o país registrou queda de 12,8% nas mortes por Aids entre 2023 e 2024, passando de 10,5 mil para cerca de 9,1 mil óbitos — o menor índice da série histórica e o menor patamar em mais de três décadas. 

No mesmo período, o Brasil recebeu a certificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública.  

Para especialistas, a redução da mortalidade e o avanço no controle da transmissão vertical estão diretamente associados à expansão da testagem, ao fortalecimento do diagnóstico precoce e ao início imediato do tratamento no país. 

“A ampla cobertura de testagem associada à identificação precoce e ao início oportuno do tratamento trouxe impactos relevantes na qualidade de vida das pessoas e na redução da transmissão do HIV, posicionando o Brasil como referência internacional na resposta à doença”, afirma Alex Galoro, líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed. 

Testagem amplia diagnóstico precoce e estratégias de prevenção 

O crescimento do volume de exames evidencia o papel estratégico dos laboratórios como porta de entrada para o cuidado em saúde. A ampliação da testagem permite identificar a infecção em fases iniciais, acelerar o encaminhamento para acompanhamento médico e garantir maior efetividade das terapias antirretrovirais. 

“Com diagnóstico oportuno e acompanhamento adequado, o HIV é hoje uma condição crônica controlável”, explica Galoro. 

Além do tratamento, a testagem também é fundamental para viabilizar o acesso às estratégias de prevenção combinada, como a profilaxia pré-exposição (PrEP), incluindo as versões injetáveis recentemente incorporadas ao SUS. O rastreamento regular permite identificar pessoas elegíveis para a PrEP, orientar o uso adequado da medicação e monitorar a segurança clínica, ampliando a proteção de populações com maior risco de exposição ao vírus. 

Exames laboratoriais acompanham toda a jornada do paciente 

Além do diagnóstico inicial, os exames laboratoriais seguem sendo fundamentais ao longo de toda a jornada do paciente. 

“Eles garantem a qualidade dos testes de triagem e confirmação, além do monitoramento contínuo da resposta ao tratamento, da carga viral e do sistema imunológico, permitindo intervenções mais rápidas e um controle mais eficiente da infecção”, destaca Galoro. 

Para a Abramed, o cenário atual reforça a importância de manter e ampliar os investimentos em testagem, diagnóstico precoce e monitoramento laboratorial, como parte de uma estratégia integrada que une prevenção, cuidado contínuo e redução das desigualdades em saúde. 

Perfil da epidemia muda no Brasil 

Os dados oficiais mais recentes também indicam mudanças importantes no perfil da epidemia no país, como o crescimento proporcional de casos entre pessoas acima de 50 anos, o maior impacto da infecção na população negra e os avanços sustentados no controle da transmissão vertical, resultado da ampliação do pré-natal, da testagem precoce e do início oportuno da terapia antirretroviral. 

27 de fevereiro de 2026.

Atualizações do Padrão TISS e TUSS 38 da ANS trazem mudanças em terminologias, glosas e segurança da informação para 2026

Revisão reduziu cerca de 20% o número de mensagens e visa eliminar redundâncias e qualificar a comunicação entre prestadores e operadoras


A agenda regulatória da Saúde Suplementar avançou com duas atualizações estruturantes para o setor: a nova versão do Padrão TISS, com vigência prevista para junho de 2026, e a revisão da TUSS 38, fruto de um processo técnico conduzido no âmbito do Comitê de Padronização das Informações em Saúde Suplementar (COPISS) ao longo de cerca de dois anos.

As mudanças reforçam um movimento de amadurecimento do sistema com impacto direto na interoperabilidade, na segurança da informação e na eficiência da troca de dados entre prestadores e operadoras.

São alterações que alcançam os componentes Organizacional, de Comunicação e de Conteúdo e Estrutura, que também promovem uma ampla revisão da terminologia de mensagens vinculadas a glosas, negativas e retornos assistenciais.

Entre os principais pontos está a atualização do Componente de Segurança e Privacidade, construída a partir de grupos técnicos realizados ao longo de 2025. O trabalho resultou na consolidação de requisitos, na alteração de quatro deles para a condição “Obrigatório” e na inclusão de novos itens com recomendação formal de adoção, ampliando o escopo institucional e fortalecendo os mecanismos de integridade e rastreabilidade das informações.

Em relação à parte de Comunicação, a adequação da Mensagem de Envio de Documentos estabelece a obrigatoriedade de assinatura digital institucional, com certificado ICP-Brasil do tipo e-CNPJ (ou e-CPF, quando aplicável), vedando a substituição por envio em papel. A medida fortalece a autenticidade, a integridade e o princípio do não repúdio nas trocas eletrônicas entre prestadores e operadoras.

Outro ponto de atenção é a adequação do CNPJ ao padrão alfanumérico, conforme Instrução Normativa da Receita Federal, com vigência a partir de julho de 2026. Embora sem impacto no componente de Conteúdo e Estrutura, a alteração exige ajustes na parte de Comunicação, demonstrando alinhamento regulatório interinstitucional.

A atualização também torna obrigatória a mensagem de comunicação de internação e alta, consolidando o processo como parte dos fluxos padronizados de troca eletrônica. A formalização desse procedimento contribui para maior transparência assistencial e previsibilidade na relação entre os atores do sistema.

No campo estrutural, destacam-se ainda:

  • Inclusão do campo “Caráter do Atendimento” na Guia do tipo Honorário, com terminologia própria, distinguindo atendimentos eletivos de urgência/emergência;
  • Criação do campo “Centro de Consumo” nas guias de resumo de internação, anexo outras despesas, demonstrativo de análise de contas e recurso de glosas;
  • Alteração da condição de preenchimento para “Condicionado” em todas as mensagens e guias do Plano de Contingência;
  • Inclusão de campo de observação no Demonstrativo de Análise de Conta, no nível das guias.

“A Segurança da Informação tem sido um tema recorrente na pauta do COPISS e as mudanças implementadas contribuem diretamente para a mitigação de vulnerabilidades, representando importantes evoluções para a TISS”, afirma Claudio Laudeauzer, membro do Comitê Padão TISS da Abramed.

TUSS 38: padronização e redução de complexidade

Paralelamente, a atualização da TUSS 38 – Terminologia de Mensagens representou um dos movimentos técnicos mais estruturantes da agenda recente da COPISS.

Conduzido ao longo de aproximadamente dois anos, com participação ativa do Comitê Padrão TISS da Abramed e de diversas entidades do setor, o processo partiu de 608 termos originais e promoveu uma revisão ampla que resultou na inativação, unificação e criação de novos códigos.

O trabalho levou à criação de 136 novos códigos, à padronização de 84 termos e à consolidação final de 441 termos organizados de forma mais coerente, reduzindo cerca de 20% no número de mensagens, com eliminação de redundâncias, termos genéricos e sobreposições conceituais.

A revisão também substituiu descrições excessivamente específicas por terminologias mais abrangentes e organizadas, especialmente nos casos de glosas e negativas. Mensagens que antes tratavam situações de forma fragmentada passam a adotar lógica padronizada baseada em “procedimento/item assistencial”, aumentando a compreensão e a aplicabilidade.

“Foi um longo trabalho de unificação e padronização da Tabela TUSS 38, que também demandou um esforço significativo da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) na convergência das diferentes opiniões das diversas entidades envolvidas. Esse avanço representa um passo importante para o aprimoramento do entendimento das glosas e negativas”, explica Claudio Laudeauzer.

Impactos para a Medicina Diagnóstica

Para a Medicina Diagnóstica, os efeitos dessas mudanças são diretos. A qualificação da terminologia, o fortalecimento da assinatura digital institucional, a formalização de fluxos obrigatórios e a estruturação de novos campos reduzem ruídos, retrabalhos administrativos e riscos de inconsistência.

Além disso, a atualização contribui para maior previsibilidade regulatória, alinhando o setor às exigências de segurança da informação, governança de dados e interoperabilidade — pilares essenciais em um ambiente cada vez mais orientado por integração digital.

A participação ativa do Comitê Padrão TISS da Abramed ao longo das discussões reforça o papel da entidade na qualificação técnica das decisões adotadas no âmbito da Saúde Suplementar, especialmente em temas que impactam diretamente a rotina da Medicina Diagnóstica.

27 de fevereiro de 2026.

Abramed analisa avanço tecnológico e perspectivas da Medicina Diagnóstica em 2026 em matéria do site Medicina S/A


Investimentos em inovação, interoperabilidade e eficiência operacional sustentam o crescimento do setor no Brasil.

A Abramed participou de reportagem publicada pelo portal Medicina S/A que aborda como as novas tecnologias impulsionam a Medicina Diagnóstica no Brasil e consolidam o setor como um dos pilares estruturantes do sistema de saúde. A matéria destaca o ciclo contínuo de investimentos em inovação, automação, inteligência artificial e sistemas analíticos, que ampliam a produtividade e a qualidade assistencial sem pressionar proporcionalmente os custos.

Segundo levantamento da Abramed com seus associados, empresas do setor destinam até 30% do orçamento anual a iniciativas de inovação tecnológica. O presidente do Conselho de Administração da entidade, Cesar Nomura, ressalta que esse movimento sustenta o crescimento observado nos últimos 15 anos e deve permanecer em 2026, com ganhos em eficácia, acurácia diagnóstica e eficiência operacional.

A reportagem também traz a visão da diretora-executiva da Abramed, Milva Pagano, que aponta a interoperabilidade como elemento central para o próximo ciclo de evolução do setor. A integração segura de dados, o avanço da IA aplicada à saúde e o fortalecimento da governança digital são apresentados como vetores estratégicos para ampliar a qualidade do cuidado e reduzir desperdícios no sistema.

Além das oportunidades tecnológicas, a publicação aborda o contexto regulatório e político de 2026, destacando a importância da articulação institucional em pautas como a Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial (PNDL) e o debate sobre o marco regulatório da Inteligência Artificial.

Confira a matéria completa no Medicina S/A.

18 de fevereiro de 2026.