Radiologia, tecnologia e futuro – Três forças e um único propósito: fortalecer a especialidade

Assinado por Valdair Muglia, presidente do CBR, artigo reforça papel da inovação tecnológica na evolução do diagnóstico por imagem

3 de março de 2021

* Por Valdair Muglia

Historicamente, a Radiologia sempre esteve próxima e acompanhando o desenvolvimento tecnológico da Medicina. Com um  breve olhar retrospectivo, percebe-se que desde 1895, com a descoberta dos raios X, até hoje, permanecemos com esta característica, liderando no que diz respeito à evolução e inovações na Medicina. Os radiologistas sempre foram pioneiros em abraçar tecnologias, de maneira criativa, rápida, assim que percebiam que isso adicionava eficiência ao seu trabalho e qualidade nas entregas aos pacientes.

É verdade que as novas tecnologias, apesar de serem aliadas, exigem cada vez mais de nós. Exigem inteligência, adaptabilidade, limite, enfim, exigem que saibamos utilizá-las mais e melhor em benefício, seja da prática médica, dos pacientes, seja como médicos, como gestores, empreendedores e, principalmente, como cidadãos.

Compreendendo que a Radiologia e Diagnóstico por Imagem está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento de novas tecnologias, é inevitável sua transformação por meio dos avanços tecnológicos. Atualmente, trata-se de um movimento acelerado e contínuo, e por isso, precisamos buscar formas de nos preparar, nos fortalecendo diante das mudanças, que não são poucas. Somos, diariamente, colocados frente a frente com a necessidade de reinvenção e, para isso, devemos estar em constante atualização, indo além do que a imagem radiológica exige de nós, mas percebendo nosso papel em um ecossistema onde podemos ser cada vez mais protagonistas.

Os meios de materializar este intento são vários: participando ativamente de eventos e atividades, dentro e fora da nossa especialidade, que agreguem não só conhecimento e atualização para a carreira, mas que nos propicie sermos mais criativos e dinâmicos; mudando nosso mindset para estarmos cada vez mais abertos e sensíveis às transformações que o mundo nos impõem; sermos críticos ao receber informações e ativos em buscar as melhores fontes; e, claro, estarmos integrados, engajados, trocando experiência e compartilhando conhecimento com nossos pares, frequentemente.

Se os desafios tornaram-se ainda maiores com a pandemia da Covid-19, que também trouxe um protagonismo à área. Crises como essas trazem muitas dificuldades, dor, mas também nos exigem criatividade, determinação, persistência e, também, quebrar paradigmas.

O futuro pós-pandemia não será diferente. Precisamos chegar lá melhor do que estávamos. Mudanças que já estavam em curso foram aceleradas e esta será a dinâmica daqui em diante: mudanças rápidas, novas ideias, visões e fronteiras para nós, médicos radiologistas, buscarmos diariamente nossa melhor atuação, comprometidos com o paciente, colocando-o no centro de tudo. Esse é e será o nosso papel,

Estou certo que iremos nos transformar dia a dia, e assim transformaremos nossa especialidade nesse futuro que se avizinha. Juntos, unidos pela Radiologia e tudo o que ela entrega para a saúde da população, seremos cada vez mais fortes enquanto classe, mais eficientes enquanto profissionais e mais felizes enquanto pessoas.

Como presidente do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem reforço que nós não mediremos esforços para lutar pelos anseios da nossa classe. Estaremos juntos e continuaremos juntos.

* Valdair Muglia é radiologista, professor Associado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP e Presidente do CBR (biênio 2021-2022)

3° Bootcamp Abramed de Jornalismo em Saúde reúne especialistas para falar de um ano de pandemia

Novas variantes do novo coronavírus e o papel da medicina diagnóstica após a vacinação populacional foram alguns dos temas abordados

03 de março de 2021

A terceira edição do Bootcamp Abramed de Jornalismo em Saúde contou com a participação de jornalistas da grande mídia nacional interessados nas atualizações acerca do papel da medicina diagnóstica na pandemia um ano após a confirmação do primeiro caso de COVID-19 no país. O encontro virtual, realizado dia 25 de fevereiro, pode ser assistido AQUI.

O Bootcamp iniciou com uma apresentação de Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, que trouxe um rápido perfil da entidade. “Hoje, nossas associadas são responsáveis por mais de 56% dos exames realizados na saúde suplementar brasileira”, pontuou. A diretora também aproveitou para enfatizar a relevância do jornalismo na luta contra a disseminação do novo coronavírus e agradecer aos profissionais de mídia presentes.

Na sequência, Leandro Figueira, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e diretor comercial da Alliar Médicos à Frente, trouxe dados atualizados sobre a participação da medicina diagnóstica privada no controle da pandemia de COVID-19. “Mais de 40% dos diagnósticos da infecção pelo novo coronavírus realizados no Brasil ao longo de 2020 foram feitos por associadas à Abramed”, declarou. Segundo o executivo, essas empresas realizaram, até 31 de dezembro, 10,1 milhões de testes, sendo 4,5 milhões RT-PCR e 5,7 milhões de sorológicos.

Outro apontamento relevante feito pelo vice-presidente diz respeito à queda no número de procedimentos eletivos durante o ano de 2020. Em abril do ano passado, quando houve um pico de preocupação e isolamento social no país, a queda na quantidade de autorizações emitidas pelos planos de saúde tanto para exames quanto para terapias chegou a 62%. “Esses dados mostram que deixamos de diagnosticar câncer, doenças cardíacas e distúrbios metabólicos importantíssimos como a Diabetes. Certamente teremos uma demanda futura desencadeada pelo atraso nesses diagnósticos”, disse. “Quanto mais tempo demoramos para detectar, pior é o tratamento e o prognóstico”, completou.

Figueira também disse esperar que com a vacinação, voltemos à sonhada “normalidade”, porém declarou que as sequelas que a pandemia está deixando nos sistemas de saúde são muito importantes. “Precisamos dar voz a todos aqueles que não foram tratados para evitar que eles permaneçam em filas, aguardando seus atendimentos”, finalizou.

Da descoberta do vírus às novas variantes

A apresentação de Celso Francisco Hernandes Granato, médico e diretor clínico do Grupo Fleury, trouxe explicações sobre as variantes do novo coronavírus que estão aparecendo e assustam a população. Depois de fazer um rápido panorama sobre o surgimento da COVID-19, detalhando desde a primeira notificação de uma pneumonia desconhecida na China, Granato disse que “nem toda mutação é ruim e nem toda mutação leva a consequências maiores”. Segundo o especialista, que explicou todas as variantes já identificadas até o momento, essas modificações na estrutura do vírus mostram uma evolução natural do patógeno.

“A primeira mutação, em março do ano passado, rapidamente substituiu a cepa original. A segunda mutação, prevalente na Inglaterra, mostrou uma velocidade de replicação até 60% maior do que a anterior. A outra variante, identificada primeiramente na África do Sul em dezembro, parece permitir a reinfecção dos já infectados. E, agora, a modificação proveniente da Amazônia brasileira carrega grande parte das mutações anteriores”, disse.

Para Granato, as principais implicações das variantes que estão surgindo são: maior carga viral e maior potencial de disseminação do vírus; formas clínicas mais graves da doença; escape do diagnóstico molecular, da sorologia e, inclusive, das vacinas. Porém, o especialista reforça que, por enquanto, esses impactos são potenciais e, exceto pela maior carga viral e facilidade de transmissão, nenhum deles foi comprovado academicamente.

Evolução dos testes diagnósticos

A apresentação de Rafael Jácomo, diretor técnico do Sabin Medicina Diagnóstica, destacou a evolução dos exames para detecção da COVID-19 desde o surgimento da pandemia. O especialista mostrou uma linha do tempo que aponta a criação do kit de RT-PCR – até hoje considerado padrão ouro – em março e segue com os testes imunocromatográficos disponibilizados em meados de abril; os testes sorológicos para IgG, IgM e IgA no início de maio e os testes de anticorpos totais no final deste mês; as alternativas para detecção da doença na fase ativa como o RT-LAMP em junho; e os testes de antígeno em julho. Quem acompanhou a palestra também pode compreender mais a fundo como funciona cada teste disponível hoje no mercado.

De forma enfática, Jácomo reforçou a importância da realização de todo e qualquer teste em um ambiente adequado e controlado como forma de evitar problemas com os resultados, que podem deixar de ser confiáveis. “Com a realização em locais que beiram o ridículo, como postos de gasolina, vemos que o diagnóstico foi banalizado. Me parece quase óbvio que um ambiente desse não é adequado. Imagine quantas substâncias voláteis estão nesse posto e não sabemos qual a interferência delas nas amostras dos pacientes”, explicou. No ano passado, a mídia denunciou espaços comerciais como postos de gasolina e até pet shops realizando testes para COVID-19.

Considerando a necessidade de ampliar a capacidade de testagem e, ao mesmo tempo, proteger os cidadãos, uma das alternativas encontradas pelos laboratórios foi oferecer o exame em sistema drive-thru. O tema também foi abordado pelo especialista, que enfatizou que para isso estudos foram feitos e os espaços passaram por aprovação dos órgãos reguladores. “Sempre que pensamos em alternativas, devem ser considerados todos os pontos das legislações vigentes. Não podemos criar exceções que podem levar o paciente ao risco”, disse.

Pandemia pós-vacinação

O que devemos esperar com a imunização advinda das vacinas? José Geraldo Ribeiro, epidemiologista e assessor científico em Vacinas do Grupo Hermes Pardini, trouxe uma boa perspectiva ao reforçar que, em Israel, já é possível observar os reflexos positivos da campanha de vacinação. “Vemos o alívio do sistema de saúde com a diminuição dos casos graves devido à uma boa cobertura vacinal”, pontuou.

Uma das principais dúvidas quando se cogita uma vacinação em massa está se poderemos considerar a imunidade de rebanho. Para Ribeiro, há dúvidas. “Proteção de rebanho depende de fatores como modo de transmissão da doença e da cobertura vacinal, principalmente daqueles grupos que transmitem mais. Sabemos que as vacinas são excelentes para a proteção individual, mas não que geram a proteção de rebanho”, disse. Segundo ele, especialistas já chegaram a mencionar que com 80% da população vacinada estaremos protegendo as outras pessoas, porém esse dado ainda é incerto quando se trata da COVID-19. “Existem estudos principalmente da Pfizer e de Oxford, indicando diminuição da infecção, da transmissão e apontando positivamente para esse cenário. Mas só teremos certeza depois que usarmos, de fato, a vacina em massa”, explicou.

Pensando no setor de medicina diagnóstica, o especialista também listou quais os principais impactos da vacinação contra a COVID-19. Declarou que o RT-PCR segue sendo um ótimo teste com sensibilidade para detecção das variantes – tendo sido inclusive responsável pela identificação da variante inglesa – e que nesse momento em que outras cepas estão aparecendo, essa vigilância constante torna-se ainda mais indispensável.

“Não basta saber quem tem Sars-CoV-2, precisamos saber qual a variante para acompanhar a velocidade de infecção e o potencial de controle das vacinas. E isso é um grande desafio tanto para os laboratórios públicos quanto para os privados”, declarou. Segundo ele, ainda não temos laboratórios capacitados à genômica e sequenciamento genético em grande quantidade no país, visto que essa infraestrutura exige bastante tecnologia.

Outro cenário alertado pelo epidemiologista está na busca por comprovação de imunidade após a vacina. “Médicos e pacientes querem provas sorológicas para saber se a vacina os protegeu, porém, essas provas ainda não estão disponíveis. Todos nós estamos nos preparando para explicar, para nossos colegas médicos, que os exames laboratoriais que temos até o momento não são capazes de afirmar a proteção. Esse é um grande desafio que o setor vai vivenciar na medida em que os imunizantes forem sendo aplicados”, declarou.

Em concordância com os pontos já apresentados por Figueira no início do debate, Ribeiro enfatizou que outras doenças não esperam a pandemia passar para se manifestarem e que muitos exames ficaram represados nos últimos meses. “O número de mamografias no Brasil caiu pela metade”, alertou.

Antes de encerrar sua apresentação, Ribeiro parabenizou a atuação de todos os associados à Abramed na pandemia. “Esse trabalho foi imprescindível para o controle da doença no Brasil. Provavelmente a rede pública, sem o apoio da rede privada, teria muito mais dificuldade”, disse.

Encerramento

Para encerrar as apresentações, Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Abramed, aproveitou seu discurso para enfatizar a importância dos exames diagnósticos no controle da saúde populacional. Lembrando que muitos exames deixaram de ser realizados durante as fases críticas da pandemia e que isso fará com que diagnósticos permaneçam represados, o diretor disse que todos devem se recordar que “prevenir custa menos do que tratar”.

Essa fala foi pontuada pela explicação de que ainda há, no país, um certo debate sobre exames representarem custos e despesas inapropriados. “Quanto custam esses exames para o sistema de saúde? Exames não representam os maiores gastos totais da saúde no nosso país. Os laboratoriais representam apenas 3% e os exames de imagem, cerca de 12%. Por isso precisamos continuar prestando esse serviço tão importante para os cuidados e a assistência”, disse.

Após as apresentações, o Bootcamp Abramed de Jornalismo em Saúde permitiu que todos os jornalistas presentes tirassem suas dúvidas com os especialistas. Participaram profissionais da Rede Globo, Record TV, SBT, TV Band, BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Jornal O Globo, Revista Exame, Correio Braziliense, Veja Saúde, UOL, Jovem Pan, entre outros veículos de grande porte e mídias especializadas. A sessão de perguntas e respostas, que trouxe mais explicações sobre as novas variantes, imunidade de rebanho, eficiência das vacinas e retorno à normalidade, pode ser vista diretamente clicando AQUI.

Entidades se unem em campanha contra medida do governo de SP que aumenta ICMS no estado de 0% para 18%

Representantes das principais associações do setor alertam para possível colapso do sistema de saúde

2 de março de 2021

Durante a coletiva de imprensa realizada virtualmente hoje, nove das principais entidades que representam o setor de saúde se reuniram para apresentar os impactos da cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

Chamado de Movimento Unidos pela Saúde, o grupo apontou que o setor de saúde foi o único a ter o aumento integral da tributação, justamente em um momento em que o país passa por um cenário extremamente crítico por conta da pandemia, com alta no número de infecções, aumento das internações por covid e elevação de custos para o setor como consequência deste enfretamento. Para eles, aumentar os preços para esses pacientes neste momento, é uma medida muito prejudicial para todos.

Movimento Unidos pela Saúde é composto pela Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para a Saúde (ABIMED), Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios (ABIMO), Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI), Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), Associação Brasileira de Planos de Saúde (ABRAMGE), Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) e o Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (SindHosp).

Durante o evento online, os representantes das entidades reforçaram que, ainda que o tributo incida sobre o setor privado, a medida afetará toda a cadeia da saúde. Fernando Silveira, presidente executivo da ABIMED, afirmou que o Movimento Unidos pela Saúde compreende a necessidade do governo estadual de ajuste das contas públicas, mas que aplicar um aumento de 0% para 18% é um exagero. “Queremos dialogar com o governo para chegar a uma solução que seja sensata para todos. Mas, aplicar carga tributária desta forma e neste momento, não é a melhor alternativa”.

Já Paulo Henrique Fraccaro, superintendente da ABIMO, lembrou da importância de focar no tratamento de pacientes com Covid-19, em vez de ajustar as contas públicas. “Somente o governo estadual paulista acredita que seja a hora certa de colocar em ordem as suas finanças, considerando que elas são mais importantes do que os recursos para a saúde. O momento é inoportuno e, como São Paulo atende 70% das necessidades deste setor no país, significa que os outros estados ajudarão a pagar os consertos fiscais do estado”.

Para Bruno Boldrin, diretor executivo da ABRAIDI, este é o pior momento da Covid-19 no Brasil, seja pela superlotação dos hospitais ou pelas restrições realizadas em diversos estados do País. “O aumento da carga tributária pode contribuir negativamente para este cenário, fazendo com que empresas do setor com menor faturamento quebrem, por exemplo. Para lutar contra isso, estamos conversando com deputados que votaram a favor do projeto do governo, para mostrar os reais impactos, e já temos mais de 35 parlamentares que apoiam a nossa causa”.

De acordo com um levantamento realizado recentemente pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), só entre seus 118 membros, o ICMS causará um aumento de custos de 1,3 bilhão. Segundo Eduardo Amaro, presidente do Conselho de Administração da entidade, as instituições ainda tentam se recuperar dos impactos de 2020 e não suportariam mais um aumento de despesa. “No ano passado, os hospitais foram muito impactados pela redução de cirurgias eletivas. Agora, estamos enfrentando uma segunda onda, com as instituições recebendo cada vez mais pacientes com Covid-19 e tendo de lidar com novos cancelamentos de procedimentos não-emergenciais. Neste cenário, definitivamente, agora não é a hora de aumentar o imposto”.

Marco Aurélio, diretor-executivo da Anahp, ressaltou que, apesar de sofrerem impactos financeiros, os hospitais privados contribuíram com a economia do país, com a geração de mais de 70 mil novas oportunidades de emprego, e com o setor de saúde como um todo, com a criação de protocolos de segurança e a construção e administração de hospitais de campanha.

Carlos Goulart, diretor de relacionamento institucional do Sindhosp, reforçou a importância da saúde suplementar para o Brasil. De acordo com um levantamento realizado pela entidade, que reúne cerca de 55 mil hospitais, clínicas e estabelecimentos de saúde, 40% da assistência médica em São Paulo é feita pela área privada. Para o executivo, hospitais e pacientes serão os principais prejudicados com a medida. “Há notícias de empresas de São Paulo que já estão buscando alternativas, muitas delas querendo ir para outros estados. O aumento do tributo só desestimula os investimentos na cidade e ocorre no momento em que hospitais precisam realizar compras de EPIs, por exemplo”.

Em São Paulo, laboratórios de análises clínicas e de diagnóstico por imagem são responsáveis por 56% dos exames solicitados na saúde suplementar, segundo Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed). Neste segmento, os insumos poderão ficar mais caros, levando a um impacto estimado em R﹩ 400 milhões na rede suplementar. Este prejuízo ainda pode se desdobrar em queda drástica nos investimentos e perda de postos de trabalho. “Os nossos associados realizaram 40% dos exames de Covid, por exemplo. Caso o aumento continue, isso trará impactos significativos para o setor”. Este ponto também foi reforçado por Marcos Novais, superintendente executivo da Abramge. “A saúde é um bem essencial e não há substituto”, reforçou.

João Alceu Amoroso Lima, presidente da FenaSaúde, afirmou que o aumento da carga tributária é uma infecção oportunista no sistema de saúde de São Paulo. “Como se já não bastassem os desafios já colocados, como a mudança do perfil demográfico da população, que está ficando mais idosa, e a chegada de novas doenças crônicas, agora surge o impacto da carga tributária”.

Para Bruno Sobral, secretário executivo da CNSaúde, os consumidores do país inteiro sofrerão com o reajuste. “Fizemos um levantamento e, de 117 países, 78% deles não realizam qualquer tributação sobre a saúde. Além disso, só em São Paulo foram fechados 4.500 leitos privados nos últimos tempos e, uma das nossas maiores preocupações, é que a classe média baixa inevitavelmente não consiga arcar com os custos e migre para o SUS”.

A coletiva de imprensa completa pode ser conferida em https://www.youtube.com/watch?v=aCjrPWEv_N8&feature=youtu.be e mais informações sobre o Movimento Unidos pela Saúde podem ser obtidas em https://movimentounidospelasaude.org.br/.

Fim da isenção do ICMS gera impacto anual de R$ 400 milhões na rede suplementar de diagnóstico

Insumos mais caros ameaçam a realização de exames e podem complicar a avaliação pulmonar de pacientes afetados pela COVID-19

1 de março de 2021

A revogação da isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de diversos produtos e equipamentos para saúde gerada pela proposta de ajuste fiscal do Governo do Estado de São Paulo traz prejuízos para toda a cadeia justamente em um momento de união de esforços para enfrentamento da pandemia de COVID-19. Na medicina diagnóstica – especialmente no segmento de diagnóstico por imagem – os insumos ficarão mais caros levando a um impacto anual de R$ 400 milhões na rede suplementar e esse prejuízo ainda pode se desdobrar em queda drástica nos investimentos e perda de postos de trabalho. A estimativa foi traçada pela Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), cujos associados respondem por cerca de 56,4% de todos os exames realizados no setor privado.

No Brasil, desde 1999 o setor de saúde atua com a isenção do ICMS sobre uma lista variada de produtos, entre eles chapas e filmes para raio-X, drenos para sucção, cateteres e eletrodos, itens utilizados na rotina das clínicas de imagem. Com a revogação desse benefício, todos esses dispositivos passam a sofrer com uma alíquota de 18%, o que impacta a cadeia de saúde em toda sua extensão, desde a indústria até o usuário final.

A medicina diagnóstica tem papel indispensável na assistência à saúde e essa percepção se fortaleceu ainda mais durante a pandemia com a urgência de testes tanto laboratoriais quanto de imagem para diagnóstico da COVID-19 e acompanhamento dos pacientes infectados. “Mesmo com as dificuldades enfrentadas – o setor estima uma redução de aproximadamente 15,3% nas receitas brutas, o que representa uma queda nominal de R$ 6 bilhões em 2020 – laboratórios e clínicas de imagem seguiram auxiliando o país para garantir o atendimento populacional. Esse é um momento de recuperação econômica, totalmente inadequado para aumento da nossa carga tributária”, comenta Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Abramed, ao afirmar que a entidade defende a isenção total do tributo e reforçar que saúde é um serviço essencial e direito constitucional.

Considerando que o impacto ocorrerá principalmente no ramo de diagnóstico por imagem, há prejuízo inclusive para os cidadãos infectados pelo novo coronavírus, já que exames de imagem do tórax são utilizados tanto para confirmação diagnóstica da infecção quanto para acompanhamento do comprometimento pulmonar desses pacientes.

Além do aumento direto nos custos de insumos indispensáveis à atividade diagnóstica que aumentarão os preços dos exames, a revogação da isenção do ICMS pode se desdobrar em riscos à manutenção da empregabilidade de um setor que gera mais de 250 mil postos de trabalho formal. Haverá, também, possível queda nas taxas de investimento. Hoje, esse segmento dedica aproximadamente 12% de sua receita bruta à pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Entenda a revogação

Em agosto de 2020, o Governo do Estado de São Paulo apresentou a proposta do Pacote de Ajuste Fiscal Paulista, medida criada para reduzir os gastos públicos gerados pela pandemia de COVID-19. Essa proposta, aprovada ainda em outubro do ano passado e publicada pelos Decretos Estaduais nº 65.253/20, nº 65.254/20 e nº 65.255/20, trouxe um aumento direto na carga tributária do fornecimento de produtos médico-hospitalares ao alterar alguns artigos do RICMS/SP que previam a isenção do ICMS pelos Convênios 1/99 e 126/10.

Dessa forma, o setor de saúde foi o único a perder 100% da isenção e uma sequência de itens que não sofriam com o imposto passaram a ser tributados em 18% em 1º de janeiro de 2021. Apesar da mudança ocorrer apenas em São Paulo, os impactos são nacionais, visto que 70% dos dispositivos médicos são distribuídos pelo país a partir desse estado.

Durante o início desse ano, a fim de dirimir os prejuízos do setor, a Abramed – assim como outras entidades representativas da saúde – iniciou uma articulação para derrubar a revogação e conquistou uma decisão judicial favorável, uma liminar publicada em 13 de janeiro pela juíza Laís Helena Bresser Lang, da 2ª Vara de Fazenda Pública da Comarca de São Paulo, que reforçava que “a respectiva revogação, via decreto, é ilícita e causa ainda prejuízo direto à população pela consequente e provável oneração dos serviços de saúde prestados”. A alegação da magistrada foi de que essa modificação caberia à lei complementar, visto que o ICMS é um tributo de natureza remuneratória.

Porém, no dia 20 do mesmo mês, a Procuradoria Geral do Estado de São Paulo ingressou com uma nova medida judicial para suspender a execução de liminares, derrubando tanto a conquista da Abramed quanto a de outros segmentos da saúde.

Campanha #AgoraNãoÉHoraSP

Com o objetivo de fomentar o debate sobre o impacto de mais um tributo para o setor de saúde que vem sofrendo há quase 12 meses com a pandemia de COVID-19, o Movimento Unidos pela Saúde lança a campanha #AgoraNãoÉHoraSP.

Nove entidades do setor estão alinhadas a fim de apresentar os impactos que a revogação do ICMS traz, mostrando que toda a cadeia de saúde suplementar – indispensável para o atendimento dos mais de 210 milhões de brasileiros e aliada do Sistema Único de Saúde (SUS) – sofre com essa decisão que prejudica a indústria, os hospitais, serviços de diagnóstico e planos de saúde.

A campanha foi lançada em 1º de março de 2021 com uma coletiva de imprensa realizada em ambiente virtual e ações em mídias sociais, TV e rádio. Há, também, uma página exclusiva na Internet que reúne todos os pleitos, manifestos, estudos de impacto e recomendações das signatárias e pode ser acessada AQUI.

A Abramed participa da campanha que também conta com a Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde (ABIMED); a Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratório (ABIMO); a Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (Abraidi); a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge); a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp); a Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde); a Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde); e o Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (Sindhosp).

Com dores e aprendizados, pandemia promove a relevância da inteligência artificial na saúde

Armando C. Lopes Jr, da Siemens Healthineers, fala sobre as mudanças que a COVID-19 gerou no país e o despertar da tecnologia

24 de fevereiro de 2021

Sem dúvidas a crise desencadeada pelo novo coronavírus trouxe muitas dores ao mundo moderno. No fechamento dessa matéria já eram mais de 2,4 milhões de óbitos em todo o mundo gerados por uma doença altamente transmissível e nova no globo. Ao mesmo tempo em que tivemos de lutar contra o sofrimento, aprendemos muito sobre relações, mudanças comportamentais e sobre o impacto positivo da tecnologia em nosso dia a dia. Para falar sobre como foram os últimos meses de enfrentamento da pandemia, conversamos com Armando C. Lopes Jr., diretor-geral da área de Diagnóstico por Imagem e Digitalização da Siemens Healthineers para a América Latina.

Nesse bate-papo, Lopes Jr. enfatiza a necessidade de o setor seguir investindo em pesquisa, desenvolvimento e inovação e traz alguns projetos encabeçados pela companhia para aliar a inteligência artificial às melhores estratégias de combate à COVID-19. Fala sobre o mercado de diagnóstico por imagem e traz detalhes sobre um projeto inovador que está sendo testado na Alemanha e promete auxiliar a melhor distribuição das vacinas no país.

Confira a entrevista completa.

Abramed em Foco – Qual a sua percepção sobre os impactos da pandemia de COVID-19 no nosso segmento?

Armando C. Lopes Jr. – A pandemia trouxe muita tristeza, pessoas adoeceram, perderam entes queridos e as restrições levaram a uma redução brutal no fluxo de pacientes. Tivemos clientes que fecharam suas portas e vimos os hospitais direcionarem praticamente toda sua estrutura ao atendimento à COVID-19. O eletivo deixou de existir até que tivéssemos maior compreensão sobre o percurso da pandemia e a melhor forma de lidar com os pacientes. Por outro lado, a crise trouxe muitos aprendizados e possibilitou a aplicação de técnicas e tecnologias que já estavam disponíveis, porém por vieses e paradigmas, não eram adotadas.

Assim, não podemos perder o “lado positivo” da crise. Não devemos virar o rosto para pontos muito importantes que tivemos de abandonar, como o contato social e a criação coletiva. Mas, sem dúvida, o mundo que vai emergir após todos estarem vacinados não será como antes e não será como o que estamos vivendo agora.

Abramed em Foco – Como a Siemens Healthineers reagiu à crise?

Armando C. Lopes Jr. – Olhando para dentro de casa, podemos dizer que o home office funcionou muito bem. Já praticávamos duas vezes por semana e, portanto, estávamos adaptados à plataforma. Porém, passamos a utilizar mais a câmera nas reuniões e a estrutura em sua plenitude. Aderimos, inclusive, à assinatura digital eletrônica tanto para documentos internos quanto para documentos externos. Uma tecnologia disponível há muito tempo, mas que culturalmente ainda não era muito bem aceita. Na fábrica e no almoxarifado, criamos dois turnos para manutenção do distanciamento físico adequado.

Já os engenheiros de campo não podem ficar remotamente, portanto os vulneráveis foram preservados e aqueles que poderiam seguir atuando receberam todo o equipamento de proteção necessário. Assim, tivemos um nível bastante baixo de infecção e nenhum caso grave ou óbito. Isso nos permitiu mantermos o atendimento aos clientes de forma satisfatória.

Até mesmo algumas atividades que eram feitas in loco passaram a ser feitas virtualmente de forma plena. A aplicação – momento após a instalação quando há uma interação com radiologistas e equipes para ensiná-los a utilizar e calibrar as máquinas – passou a ser remota e trouxe vantagens significativas. Antes, nosso pessoal passava uma semana no cliente, visto que os médicos têm uma agenda acirrada e não tinham condições de disponibilizar muitas horas por dia para esse processo. O cenário levava a uma menor produtividade. Remotamente, podemos fracionar essa agenda. Essa possibilidade já existia há dez anos, porém sofríamos com uma percepção de que o cliente fazia questão da presença física do técnico. Com a pandemia impedindo esse contato, o paradigma se dissolveu e essa nova versão se provou melhor do que a anterior.

Abramed em Foco – Toda essa digitalização pode afastar ainda mais as pessoas?

Armando C. Lopes Jr. – Pelo contrário. A digitalização aproxima. Hoje sou diretor-geral da área de Diagnóstico por Imagem e Digitalização para toda a América Latina. Tivemos um isolamento físico intenso, mas do ponto de vista social, acredito que aumentamos nossa proximidade. Passamos a falar por tela, e não por telefone. Passamos a ver mais uns aos outros. O que a tecnologia já permitia, a pandemia nos empurrou a usar. Não podemos nos permitir perder esses avanços, mesmo precisando resgatar coisas importantes como o olho no olho.

Abramed em Foco – Qual é o papel da inteligência artificial em todo esse processo de digitalização?

Armando C. Lopes Jr. – São muitas as aplicações. A pandemia também nos mostra a importância da inteligência artificial na gestão da saúde populacional. Desenvolvemos, na Alemanha, e estamos trazendo para a América latina um sistema para melhor definição de prioridades para vacinação contra a COVID-19. Hoje temos uma prioridade clara: profissionais de saúde e idosos. Mas em breve chegaremos a uma massa de pessoas com basicamente o mesmo nível de prioridade, mas ainda carecendo de critérios para indicar quem deve receber as doses primeiro.

Temos um mapa de calor da infecção que mostra o impacto da doença em diferentes cidades e de bairro para bairro. Lembrando que uma pessoa vacinada protege cinco pessoas ao seu redor, interrompendo a transmissão do patógeno, precisamos incluir esse mapa de calor como um critério para priorização. Assim a imunização será realizada antes nas localidades onde a taxa de infecção está maior. Para isso, é utilizada uma ferramenta de inteligência artificial que diz quem é e onde está a pessoa ideal para tomar a vacina no primeiro, no segundo e no terceiro mês da campanha a fim de quebrar, de forma otimizada, a cadeia de infecção. A promessa de valor é a de que a distribuição inteligente da vacina pode reduzir em até 30% a mortalidade quando comparada com uma distribuição convencional.

Além disso, a ferramenta também pode evitar o desperdício de doses que vem sendo observado no Rio de Janeiro, por exemplo. Por lá, a vacina da AstraZeneca vem com dez doses e todas precisam ser aplicadas após aberto o frasco. Acontecia de o dia de vacinação ser encerrado e algumas doses ficarem remanescentes nos postos, gerando uma “xepa” com pessoas idosas circulando entre os atendimentos em busca das doses que estavam “sobrando”. Com a inteligência artificial aplicada a esses postos, além de evitar o desperdício, evita-se que pessoas do grupo de risco fiquem zanzando pela cidade para tomar a vacina.

Abramed em Foco – O diagnóstico por imagem seguiu muito relevante para confirmação da COVID-19. Ao mesmo tempo, durante meses os atendimentos relativos a outras patologias ficaram represados, pela paralização do sistema e pelo medo da população em frequentar estabelecimentos de saúde. A Siemens Healthineers sentiu alguma movimentação na vertical de imagem em decorrência da pandemia?

Armando C. Lopes Jr. – Realmente em um primeiro momento os procedimentos eletivos foram quase à zero e técnicas como ressonância magnética e PET TC diminuíram muito, fazendo com que os clientes paralisassem os investimentos nessas tecnologias. Por outro lado, no Brasil, tivemos um aumento de demanda por tomografia computadorizada. Em outros países, notamos aumento de raio-X móvel. E aqui temos, mais uma vez, uma solução que otimiza os exames. Temos um laboratório de inteligência artificial no Hospital das Clínicas de São Paulo que aplicou um algoritmo para leitura de imagens de pulmão, um consórcio firmado com mais de 30 instituições. Chegamos a 30 mil imagens lidas pela ferramenta, o maior índice de upload do mundo.

Com isso, qualquer lugar do país conseguia ter uma segunda opinião sobre aquele exame, facilitando a tomada de decisão sobre internar ou não, intubar ou não. Uma ferramenta importante para que o corpo clínico tivesse mais convicção sobre o procedimento. Trata-se de um auxílio à opinião soberana do médico que, na pandemia, tem de tomar decisões a cada 30 segundos.

Abramed em Foco – Os investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação se mostraram ainda mais fundamentais?

Armando C. Lopes Jr. – Sou suspeito para falar, pois não só acredito como tenho evidências de que investimento em tecnologia reduz o custo da saúde. São menos tangíveis para medir, mas bastante evidentes quando olhamos o processo. Nesse momento que estamos vivendo vimos como é importante seguir investindo em tecnologias que acelerem o ciclo dos produtos, de ampliar a capacidade de rapidamente trazer essas soluções, testá-las e escalá-las. A tecnologia sempre foi a ferramenta que proporcionou o progresso para a humanidade. Ao longo de toda a nossa história, a automação nos liberou tempo para que pudéssemos desenvolver coisas novas. Lembrando que todas essas soluções de suporte à decisão clínica não substituem o médico, mas dão a ele velocidade e segurança para a tomada de decisão. Tudo isso nos levará a uma medicina cada vez mais personalizada.

Abramed em Foco – Qual é, a seu ver, o grande desafio da medicina diagnóstica brasileira hoje? E como a indústria pode ajudar o setor a vencer esses gargalos?

Armando C. Lopes Jr. – A medicina diagnóstica deve seguir o caminho de, cada vez mais, apoiar a decisão clínica fornecendo conhecimento, informação e minorando o custo dos tratamentos. No caso do diagnóstico por imagem, promover procedimentos menos invasivos, por exemplo. Na área de análises clínicas, auxiliar a prever medicamentos mais precisos para cada característica pessoal, seguindo a perspectiva de orientar um tratamento mais eficaz e menos custoso. Com as plataformas digitais agregando dados, colocando algoritmos de inteligência artificial que usam as informações do paciente para um conhecimento de massa.

Abramed em Foco – Como enxerga a atuação da Abramed na medicina diagnóstica? O que espera da entidade como parceira para melhoria do setor?

Armando C. Lopes Jr. – No meu entendimento, a Associação deve continuar promovendo esse diálogo entre todos os atores do sistema de saúde, que ainda tem muitas ineficiências advindas do modelo de pagamento. Essa abertura que a Abramed possibilita é muito importante para sanar esse grande desafio. Como podemos, eventualmente, reorganizar as relações para diminuir o desperdício, melhorar o valor entregue para o paciente? Todos esses objetivos do triple aim [estrutura desenvolvida pelo Institute for Healthcare Improvement dos Estados Unidos que descreve uma abordagem para otimizar o desempenho do sistema de saúde] dependem do diálogo entre os atores e da gradativa revisão dos papéis de cada um. E a Abramed faz isso de forma brilhante. Traz essa discussão ao mesmo tempo em que promove a defesa de seus associados.

Projeto de Lei visa criar Dia Nacional do Laboratório Clínico

Ementa sugere a data de 14 de junho para homenagear o setor

24 de fevereiro de 2021

O Projeto de Lei nº 122/2021, apresentado em 3 de fevereiro de 2020 pelo deputado Luiz Antonio Teixeira Júnior (PP/RJ), visa instituir o dia 14 de junho como o Dia Nacional do Laboratório Clínico. A data foi escolhida por marcar o nascimento de Karl Landsteiner, médico e cientista austríaco que recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1930 por sua descoberta dos grupos sanguíneos humanos, um dos exames laboratoriais mais realizados no mundo.

Tramitando na Câmara dos Deputados, a proposta reforça a relevância do laboratório clínico na assistência à saúde, contribuindo decisivamente para melhorar a qualidade de vida populacional. Inclusive, importante frisar que até 70% das decisões médicas se baseiam em exames laboratoriais.

“As pessoas recorrem aos Laboratórios Clínicos em diferentes momentos de suas vidas e neles colocam esperanças e expectativas de alegrias ou até mesmo de seus sonhos ou partes dele; isso pode ser visto quando da realização de exames para fins do diagnóstico da gravidez ou para estudo das doenças genéticas. Situações críticas de saúde ou de risco elevado de comprometimento ou mesmo de perda da vida, também recorrem aos recursos disponíveis nos Laboratórios Clínicos e a mais recente delas é a pandemia que está presente em todo país, para a qual os exames laboratoriais passaram de serem úteis para serem essenciais”, diz trecho da defesa.

O projeto de lei segue aguardando despacho do Presidente da Câmara dos Deputados. Clique AQUI para ler o texto na íntegra.

Compliance antidiscriminatório é o caminho para a diversidade nas organizações

Empresas devem instituir programas para combater discriminação e melhorar governança corporativa

9 de fevereiro de 2021

Cada vez mais as organizações têm compreendido a importância de se ter uma governança corporativa que, dentre outras funções, busca a estabilidadee a manutenção do valor de mercado das instituições, projetando-as para o futuro para além das pessoas que as administram.

Neste sentido, os conceitos de inclusão e diversidade estão ainda mais valorizados no ambiente corporativo. Por isso, é fundamental que as empresas desenvolvam processos técnicos e de gestão de riscos para diagnosticar os conflitos relacionados à diversidade racial, de gênero, de etnia, de orientação sexual, dentre outros.

“A ação discriminatória tem como efeito principal acabar com a desigualdade de oportunidade ou de tratamento, que traz grandes danos, tanto emocionais quanto financeiros, a quem sofre esse tratamento injusto e problemas para a cultura corporativa e lucratividade da empresa”, explica Walquiria Favero, superintendente jurídica e Compliance da Dasa e membro do Comitê de Governança, Ética e Compliance (GEC) da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).

A organização deve, segundo a especialista, seguir a legislação antidiscriminatória para transformar sua cultura institucional e, dessa forma, identificar as discriminações diretas (caracterizada quando o indivíduo é tratado de forma menos favorável devido sua etnia, raça, posição política, idade, religião, gênero, entre outros aspectos) e indiretas (ato discriminatório feito de uma forma menos explícita, por exemplo, quando uma norma, critério ou prática que deveria ser neutra coloca pessoas em situação de desvantagem em comparação aos outros), as maneiras como os processos mentais, o favoritismo de determinados grupos e preferências culturais afetam a operação cotidiana da empresa por meio do comportamento de seus funcionários.

É por esse motivo que as políticas corporativas devem estar pautadas em claros parâmetros éticos para que elas possam atingir os objetivos presentes na Constituição Federal. “A promoção de medidas de diversidade permite que elas ampliem a capacidade de solução de problemas ao garantir, por exemplo, que a produção de seus produtos e serviços reflita os interesses de diversos setores da sociedade”, esclarece Walquiria.

O direito à não discriminação previsto na Carta Magna determina a missão de garantir a todos a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceito.

A elaboração de um compliance antidiscriminatório é importante e necessário para garantir o bom convívio, respeito à diversidade e segurança dentro de uma instituição pública ou privada.

Esse programa deve implementar novas normas, controles e processos de governança corporativa para identificar, prevenir e acabar com possíveis situações discriminatórias, que incluem tratamentos desfavoráveis ou incoerentes devido à cor, raça, etnia, gênero, orientação sexual, visão política, classe social, deficiência física, entre outras diversas razões incabíveis.

Tendo em mente que o compliance tem relação com a conduta da empresa e sua adequação às normas dos órgãos de regulamentação, vale a pena observar, de acordo com a superintendente da Dasa, que a mudança dessas diretrizes deve considerar também esse viés, entendendo que de nada adianta uma organização adotar um discurso antirracismo ou politicamente a favor da diversidade, se na rotina do local existem atos discriminatórios contra os próprios colaboradores, clientes, parceiros ou qualquer outro tipo de relacionamento da empresa. “Para mudar, é preciso incluir boas práticas de gestão”, reforça Walquiria.

Dentre essas ações estão: o Canal de Denúncias – ferramenta que recebe e encaminha notificações de denúncias sobre qualquer tipo de má conduta (assédio moral, sexual, racismo, entre outras); Código de Conduta Ética – documento que contém as normas e os princípios da empresa para que todos os colaboradores o sigam, incluindo tópicos que pregam a não tolerância à discriminação; e, por último, a checagem de terceiros (ou background check) – prática capaz de prever o mau comportamento por parte de um colaborador ou outro tipo de relacionamento da organização por meio da verificação de seus dados e relacionamentos públicos com outras companhias.

A advogada salienta que um dos pontos fundamentais de toda política antidiscriminatória nas empresas é a isonomia. Isso significa que seu alcance deve atingir todos os integrantes da hierarquia corporativa, alcançando desde a alta administração até estagiários, aprendizes, terceirizados e os que estejam atuando como prestadores de serviços em nome da empresa. “Essa prática traz grande relevância no plano social, tendo em vista que aumenta a representatividade da população na participação do quadro de funcionários, bem como aumenta as possibilidades de novos mercados consumidores, fazendo, assim, aumentar os investimentos na economia.”

Tecnologia como aliada

Uma dica pertinente em relação à prática de checagem de terceiros é o investimento em soluções tecnológicas de big data emineração de dados. Essas plataformas são capazes de trazer informações importantes em um curto espaço de tempoDessa forma, equipes de compliance, RH e gestão de riscos conseguem realizar mais checagens e tomar as suas decisões de forma mais assertiva.

Dados sobre processosmídia negativa também podem ser eficazes na identificação de candidatos que já cometeram atos discriminatórios na internet, antigos empregos ou outras situações.

Munidos dessas informações, explica Walquiria, gestores e analistas conseguem identificar de forma mais assertiva possíveis riscos à organização, garantir contratações e relacionamentos mais transparentes, reduzir custos e adotar ações estratégicas mais eficazes. “Nos dias de hoje, o alto índice de atos discriminatórios, corrupção, fraudes e processos trabalhistas, envolvendo tanto colaboradores, quanto outros relacionamentos das empresas (fornecedores, investidores, transportadoras, entre outros), evidencia a necessidade de investir em práticas de checagens e soluções que otimizem este tipo de processo. A prevenção e as boas práticas são sempre a melhor escolha”, afirma.

“Agora nosso maior desafio é econômico”

Fabio Arcuri, da Thermo Fisher Scientific, fala sobre medicina diagnóstica, as tendências do setor e as batalhas vencidas na pandemia.

4 de fevereiro de 2021

Quais foram os principais desafios que a indústria voltada à medicina diagnóstica enfrentou nos últimos meses? Como atuou para vencê-los e como pode auxiliar laboratórios nesse momento de recuperação? Para entender a visão das fabricantes, conversamos com Fabio Arcuri, commercial director da Thermo Fisher Scientific no Brasil e presidente do Conselho da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL) na gestão 2020/2021.

A fornecedora norte-americana de reagentes, consumíveis, instrumentação e serviços está muito atuante na pandemia de COVID-19 ofertando testes para detecção da infecção pelo novo coronavírus e vislumbra, na área de biologia molecular para doenças infectocontagiosas, um caminho profícuo para o futuro do setor.

Nessa entrevista, Arcuri também fala sobre os principais desafios da saúde no Brasil – entre eles a necessidade de mudança no modelo de remuneração dos serviços para maior sustentabilidade do setor – e reforça a importância da união de diversos players dessa complexa cadeia.

Confira a entrevista completa.

Abramed em Foco – A pandemia de COVID-19 impactou todos os setores da economia, sem exceção. Quais foram os principais desafios enfrentados pela Thermo Fisher Scientific ao longo dos últimos meses e qual a estratégia adotada pela companhia para vencê-los?

Fabio Arcuri – A pandemia nos atingiu em duas vertentes distintas. No que tange a RT-PCR e outros exames moleculares, tivemos uma participação muito importante no mercado global e provemos condições para que o Brasil conseguisse ofertar uma grande quantidade de testes para COVID-19. Nesse cenário, nossos principais entraves estavam atrelados à capacidade produtiva e à importação, entrega, instalação e validação das metodologias para que todo o negócio pudesse funcionar. Foi, de fato, um desafio muito grande conseguir que tantos clientes tivessem suas plataformas funcionando e apenas alcançamos sucesso por montarmos uma força-tarefa específica para esse mercado.

Paralelamente, assim como tantas outras empresas, sentimos o impacto no restante do portfólio que, desvinculado à COVID-19, sofreu certa anemia. Nesse ponto, nosso desafio foi, mesmo com a queda de volume e com as dificuldades logísticas, continuar provendo os serviços e produtos aos nossos clientes, mantendo nossa capacidade de entrega.

Abramed em Foco – Quais as particularidades do mercado brasileiro nesse momento de crise?

Fabio Arcuri – Diferente de outras nações, o maior desafio do Brasil foi a política de testagem. O país não soube se organizar. Tivemos, inclusive, que atuar junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para estender o prazo de validade dos reagentes, pois o governo não conseguiu distribuir e utilizar todos os testes disponibilizados. Faltou uma melhor estruturação para a testagem. Além disso, o país utiliza poucos testes diferentes do RT-PCR, um teste molecular de alta complexidade que nem todos os laboratórios têm infraestrutura para oferecer. Enquanto isso, dispomos da sorologia, um teste mais simples, porém que carece de uma validação mais profunda, até porque a pandemia nos afetou de forma muito ágil.

Abramed em Foco – Como tem sido o relacionamento da Thermo Fisher Scientific com seus clientes brasileiros durante a crise? Dificuldades surgiram?

Fabio Arcuri – Todos estão conectados digitalmente, então não observamos dificuldades para acessar nossos clientes laboratoriais. Com os médicos clínicos, que recebem os pacientes nos consultórios, sofreram com a ausência desses pacientes e, depois, com a sobrecarga advinda da retomada dos atendimentos e das abordagens comerciais, enfrentamos mais dificuldades. Eu, Fabio, sinto certa falta da proximidade física, mas acredito que o mercado vai adotar essa política virtual que permite mais flexibilidade às pessoas. Um membro da área comercial, por exemplo, consegue atender um parceiro em São Paulo e, no momento seguinte, outro em Portugal.

Agora, existem atividades que precisam da presença e o maior entrave percebido dentro da Thermo Fisher Scientific foi no campo de aplicação e serviços, visto que não são atividades que podem ser feitas à distância, obrigando os profissionais a se deslocarem junto com os equipamentos para instalação. Mas o importante é que tivemos um saldo positivo. Alguns poucos casos de COVID-19 em nosso time, todos leves, sem complicações e, principalmente, sem nenhum óbito.

Abramed em Foco – Os investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação se mostraram ainda mais relevantes?

Fabio Arcuri – A Thermo Fisher Scientific já investe uma porcentagem interessante do seu lucro em P&D de novos produtos, mas houve uma aceleração do processo como um todo e, sem dúvida, uma canalização desses investimentos para a área de biologia molecular em doenças infectocontagiosas. Essa é uma estratégia global e o mercado brasileiro tem muito potencial, pois tem mais de 210 milhões de habitantes e um setor público de saúde atuante, o que é fundamental para a disseminação desses exames. O que falta, no caso, não é nem estrutura para ofertar esses testes, mas estratégias que viabilizem essas negociações.

Pensando apenas nos exames RT-PCR, que se popularizaram agora na pandemia, existem máquinas, instrumentos, tipos de reagentes que permitem executar uma grande quantidade de testes por hora, mas o governo acaba comprando o sistema com baixo rendimento. Focado nos gastos, não percebe que a rápida entrega de resultados, em casos como esse, de pandemia, é muito mais vantajosa.

Abramed em Foco – Quais os principais pontos de atenção para o futuro da medicina diagnóstica?

Fabio Arcuri – Em primeiro lugar podemos colocar o point-of-care (testes feitos no ponto de atendimento), uma realidade que vai se tornar a cada dia mais presente no nosso meio. O segundo ponto é que, na virologia, muitas das doenças infecciosas passarão a ser testadas via diagnóstico molecular, pois é uma metodologia com maior eficácia diagnóstica para detecção desses patógenos. Não que a sorologia perca importância, pois é uma área que se mantém em alta e podemos observar isso agora com a vacinação contra a COVID-19, quando esses testes sorológicos serão fundamentais para entender o comportamento das pessoas frente à imunização. O terceiro ponto está na espectrometria de massas, testes que também representam aumento da sensibilidade e trazem resultados clinicamente ainda mais confiáveis.

Abramed em Foco – Como, a seu ver, a indústria pode auxiliar laboratórios e clínicas a recuperarem seus negócios afetados pela pandemia? Quais soluções são mais emergenciais?

Fabio Arcuri – Acredito que, agora, o maior desafio é econômico. Temos 210 milhões de habitantes, mas cerca de 50 milhões são responsáveis, segundo dados da CBDL, por metade do mercado de diagnóstico in vitro no país. Isso significa que essas 50 milhões de pessoas consomem o mesmo que os outros 170 milhões restantes. E assim vemos o nível da desigualdade.

O setor laboratorial privado está cobrindo um segmento que o Governo Federal não consegue atender, mesmo a saúde sendo um direito constitucional universal. Porém, esses laboratórios dependem, em sua grande maioria, de pacientes advindos dos planos de saúde, que são regulados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Inicia-se, então, uma sequência que impacta a sustentabilidade do sistema.

Dentro da cadeia da saúde, há uma forte pressão nos custos dos procedimentos laboratoriais, causados por desequilíbrios macroeconômicos que se arrastam no tempo. Entre eles, a desvalorização cambial.  É importante lembrar que mais de 70% dos produtos e insumos IVD (In Vitro Diagnostics) são importados e, por sua vez, têm o custo impactado pela desvalorização cambial dentro de uma política fiscal pouco amigável. Esta situação afeta a saúde geral da cadeia e, portanto, dos fornecedores também.

O que precisamos é batalhar pela mudança no modelo de remuneração que impacta toda essa cadeia de serviços em saúde. Somente assim ofertaremos os melhores exames atendendo toda a população brasileira. Para contribuir com esse cenário de maior eficiência, a indústria está desenvolvendo metodologias em parceria com a academia e com as sociedades médicas para aplicar algoritmos decisórios capazes de otimizar o diagnóstico.

Abramed em Foco – Como enxerga a atuação da Abramed na medicina diagnóstica? O que espera da entidade como parceira para melhoria do setor?

Fabio Arcuri – Vejo a união da Abramed e de seus associados a outras entidades como uma postura muito positiva que tem levado a uma agenda alinhada às sociedades médicas, à academia e ao setor produtivo e comercial. Mesmo que alguns pleitos sejam diferentes, há muito interesse em comum, agendas sinérgicas. É o caso, por exemplo, desse trabalho por novos modelos de remuneração, que não é apenas uma necessidade da medicina diagnóstica, mas do setor de saúde como um todo.

Mamografia – Número de exames cai pela metade na pandemia

Diagnóstico tardio reduz consideravelmente a chance de cura e aumenta os custos do tratamento; há desigualdade na distribuição de mamógrafos no país

7 de fevereiro de 2021

O Dia Nacional da Mamografia, comemorado em 5 de fevereiro, traz luz ao tema, porém os dados relativos ao principal exame para detecção precoce do câncer de mama não são muito animadores. Ao longo de 2020, ano assolado pela pandemia de COVID-19, o número de mamografias realizadas no país sofreu queda considerável tanto no sistema privado quanto no público, o que desperta um alerta sobre as consequências drásticas do diagnóstico tardio.

Somente nas empresas que integram a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) – que em 2019 representaram 56,4% do total de exames realizados na saúde suplementar – entre março e novembro de 2020 houve diminuição de 53,1% na quantidade de mamografias quando comparado com o mesmo período do ano anterior.

“Com a suspensão dos procedimentos eletivos diversas unidades de atendimento foram fechadas. Além disso, com o receio da contaminação, muitas pessoas deixaram de realizar seus exames periódicos e se afastaram da assistência como um todo ao longo de 2020. As consequências podem ser graves. Em termos absolutos, a redução no número de mamografias chega a 1,5 milhão de exames”, comenta Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Abramed.

No Sistema Único de Saúde (SUS), o cenário também é preocupante. Os números compilados pelo Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico mostram que, entre março e julho de 2020, foi observada uma queda de 63,4% no total de mamografias bilaterais para rastreamento realizadas no setor público ante igual período de 2019.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda que toda mulher com idade entre 50 e 69 anos faça uma mamografia a cada dois anos como forma de prevenção. Na saúde suplementar, antes da crise de COVID-19, o número de exames para essa faixa etária mantinha-se estável desde 2015, com cerca de 2,3 milhões de mamografias realizadas anualmente para rastreio de câncer de mama nessa população. “A perspectiva é que esse número também tenha caído entre 50% e 60% no setor privado ao longo de 2020”, diz o executivo. Esses dados tornam-se ainda mais preocupantes se considerada a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA) de que, no ano passado, foram mais de 66 mil casos da doença no país.

O diagnóstico tardio traz prejuízos para os pacientes e para os sistemas de saúde. Segundo o INCA, 95% dos casos de câncer de mama no país têm chance de cura quando detectados precocemente. Porém, antes mesmo da pandemia, não tínhamos uma detecção tão rápida assim. A edição de 2019 do Painel Abramed já enfatizava que 53,9% das pacientes eram diagnosticadas em estadiamento avançado, ou seja, nos estágios 3 e 4 da doença. Com o represamento das mamografias, essa estatística deve tornar-se ainda mais preocupante.

Paralelamente, o atraso na detecção das lesões impacta a sustentabilidade da prestação de serviços em saúde. A mais recente edição do Painel Abramed consolida, em números, essa consequência. Segundo o relatório de 2020, os custos diretos do tratamento do câncer de mama se elevam concomitantemente ao estadiamento da doença. Enquanto o tratamento iniciado no primeiro estágio custa cerca de R$ 12,9 mil, quando iniciado no segundo estágio o custo sobe para R$ 38,9 mil e, no terceiro estágio, chega a R$ 62,5 mil.

Todos esses dados se somam à mais um cenário que complica o acesso das brasileiras ao diagnóstico precoce dessa doença que mata 17,5 mil mulheres ao ano no país. Entre 2010 e 2019 aumentamos o número de mamógrafos em território nacional, passando de 4.214 para 5.847. Esse número atende ao parâmetro estabelecido pelo próprio Ministério da Saúde de que, para suprir a demanda populacional, é necessário contar com um mamógrafo para cada 240 mil habitantes.

Porém, ainda assim, 77,8% dos municípios não têm nenhum equipamento para realização desses exames. Seguimos em um cenário de desigualdade da oferta de mamografia já alertado pelo Painel Abramed de 2019 que enfatizava que quase metade dos equipamentos estão concentrados na região sudeste e a região norte tem apenas 6% dos mamógrafos em uso. “Quando temos uma discrepância na distribuição de serviços de saúde, nos deparamos com um vazio assistencial que precisa ser observado e vencido. Para isso, precisamos investir na gestão eficiente de recursos tanto no setor público quanto no privado, evitando desperdícios e ampliando as PPPs a fim de prover o atendimento necessário à população. Além disso, as economias de escala são essenciais para o desenvolvimento de uma rede assistencial economicamente sustentável e precisamos pensar na criação de incentivos regulatórios para viabilizar o desenvolvimento dessas redes”, finaliza Shcolnik.

Em nova fase da pandemia, laboratórios iniciam busca por testes com maior precisão para detecção pós vacinal

Dependendo do imunizante e do teste escolhido, resultado negativo não significa que vacina não foi eficaz, mas que o exame não foi capaz de identificar aqueles anticorpos específicos

4 de fevereiro de 2021

A medicina diagnóstica tem sido protagonista no cenário de pandemia de COVID-19. Em um primeiro momento, os testes foram fundamentais para detecção rápida e isolamento das pessoas infectadas a fim de evitar a disseminação desenfreada do novo coronavírus. Na sequência, para controle epidemiológico e compreensão da parcela da população já exposta ao patógeno, novos exames estão sendo utilizados. Agora que as vacinas foram disponibilizadas – até o fechamento dessa matéria eram mais de 2,2 milhões de brasileiros imunizados – a testagem assume um novo papel: o de checar a eficácia dos imunizantes.

“Há um desafio pela frente para os laboratórios: encontrar o teste sorológico com maior precisão para esse objetivo, visto que os atualmente disponíveis podem não conseguir apontar a presença dos anticorpos protetores gerados a partir dos diferentes estímulos vacinais”, explica Wilson Shcolnik, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).

Somente no Brasil, por exemplo, a vacinação foi iniciada com a Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, mas já está sendo providenciado também o imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca e há negociações em curso para inclusão, em nosso Programa Nacional de Imunização, de vacinas desenvolvidas na Índia e na Rússia.

Esse panorama ocorre porque os testes sorológicos são desenvolvidos para verificar a presença de anticorpos contra o SARS-CoV-2, proteínas específicas que se ligam ao vírus com o intuito de defender o organismo. Porém, o vírus produz tipos diferentes de proteínas e o organismo pode contra-atacar por diversas frentes. As principais proteínas que estimulam o sistema imunológico são a Spike, responsável pela ligação do vírus na célula humana e peça-chave na infecção; e as do nucleocapsídeo viral, envelope que protege e carrega a carga genética do vírus, o RNA viral. Dentro desse cenário, os fabricantes de testes de anticorpos utilizam uma dessas proteínas para desenvolvimento dos reagentes.

Paralelamente, cada vacina tem um tipo de mecanismo diferente de levar à imunidade – lembrando que todas protegem, em maior ou menor grau, a população. Dependendo do tipo do imunizante, há um estímulo específico de anticorpos contra uma proteína. Se o teste sorológico utilizado não cobrir essa proteína, o resultado pode ser um falso-negativo em alguém que está, de fato, imunizado. É o que explica Alvaro Pulchinelli, diretor científico da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML).

“A vacina de Oxford, por exemplo, basicamente simula a produção da proteína Spike. Para a pessoa que tomou esse imunizante, o teste que busca anticorpos contra a proteína Spike conseguirá identificá-los. Agora outros testes, que procuram na amostra do paciente, outras partículas do vírus, podem não funcionar para confirmar a eficácia dessa vacina específica”, detalha. Nesse caso, o resultado negativo não significa que a vacina não foi eficaz, mas que o teste escolhido não foi capaz de detectar aqueles anticorpos contra SARS-CoV-2 no paciente.

Não há essa preocupação para a testagem de pessoas que de fato contraíram a infecção e adoeceram, pois, nesse caso, a pessoa foi exposta ao vírus completo e teve seu sistema imune estimulado por mais de uma frente.

Diante desse alerta, para essa nova testagem, os laboratórios precisam ter acesso à qual imunizante o paciente recebeu para, então, identificar qual o melhor teste a ser feito, evitando, assim, resultados falso-negativos. “Importante enfatizar que os testes sorológicos tentam checar o estado imunitário do paciente e não dizer qual é a melhor ou pior vacina”, complementa Pulchinelli.

Caso haja uma demanda por testes sorológicos para checagem de eficácia das vacinas contra COVID-19, o setor pode trabalhar em conjunto a fim de encontrar os testes mais eficientes para esse objetivo, assim como foi feito no início da pandemia quando a Abramed e a SBPC/ML se uniram à Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC) e à Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL) para a construção do Programa de Avaliação de Kits de Diagnóstico para SARS-CoV-2, projeto que utilizou a estrutura de grandes laboratórios nacionais para conferir a qualidade dos testes que chegaram ao nosso país e, posteriormente, divulgar os resultados de forma aberta no portal www.testecovid19.org.

Importante ressaltar que a Diretriz de Utilização (DUT) dos testes sorológicos para a rede de saúde suplementar não inclui a testagem pós-vacinal, ou seja, esse teste, até o momento, não está sendo coberto pelos planos de saúde.