A transformação da saúde será tão sólida quanto suas instituições 

Quando o futuro da saúde entra em debate, as atenções se voltam rapidamente para novas tecnologias, Inteligência Artificial, uso de dados e modelos assistenciais. São mudanças relevantes, mas a transformação do setor depende das organizações responsáveis por incorporá-las à prática e convertê-las em benefícios para pacientes e para o sistema de saúde. 

Essa capacidade está relacionada à qualidade da gestão, à clareza das decisões e à forma como cada instituição se prepara para responder a riscos, pressões e mudanças. Uma organização pode apresentar bons resultados em determinado período e, ainda assim, não estar preparada para atravessar transformações regulatórias, econômicas, tecnológicas ou sociais. 

Na saúde, a sustentabilidade institucional envolve uma responsabilidade adicional. As decisões tomadas pelas organizações repercutem no cuidado das pessoas, na proteção de dados sensíveis, nas condições de trabalho, na relação com profissionais, fornecedores, fontes pagadoras, órgãos reguladores e toda a sociedade. Por isso, a perenidade dos negócios não pode ser separada da ética, da integridade e da confiança. 

É nesse campo que governança, compliance e liderança se encontram. A governança estabelece como as decisões serão tomadas, quais informações deverão fundamentá-las, quem acompanhará seus resultados e quem responderá por suas consequências. O compliance ajuda a identificar riscos, cumprir obrigações e prevenir condutas capazes de comprometer a organização. A ética orienta escolhas diante de interesses distintos e de situações para as quais a norma nem sempre oferece uma resposta completa. 

Esses elementos precisam estar presentes nas decisões reais da organização. Eles influenciam a definição de metas, a aprovação de investimentos, a contratação de parceiros, a condução das relações institucionais, o tratamento de conflitos de interesses e a resposta a falhas ou desvios. 

A gestão de riscos também ganha relevância nesse processo. Identificar ameaças com antecedência permite que a organização se prepare para mudanças regulatórias, incidentes de segurança, crises reputacionais, descontinuidades operacionais e outros acontecimentos que podem afetar sua capacidade de prestar serviços. O risco precisa fazer parte das discussões estratégicas e das decisões de investimento, expansão e inovação. 

A liderança tem uma responsabilidade direta na construção desse ambiente. A cultura de uma organização é formada pelos comportamentos que suas lideranças estimulam, reconhecem, toleram ou corrigem. Códigos de conduta, políticas internas, treinamentos e canais de denúncia são indispensáveis, mas sua credibilidade depende da coerência entre as orientações formais e as atitudes observadas no cotidiano. 

Quando profissionais encontram segurança para comunicar dúvidas e inadequações, os problemas podem ser identificados antes de ganhar proporções maiores. Quando as respostas são consistentes e os critérios são conhecidos, a integridade deixa de ficar restrita aos documentos e passa a orientar a rotina. 

Essa coerência também influencia a reputação. Na medicina diagnóstica, a confiança é construída na qualidade dos resultados, na confidencialidade das informações, na segurança dos processos e na transparência das relações. Ela pode levar anos para se consolidar e ser comprometida por uma única decisão conduzida sem os cuidados necessários. 

A reputação, portanto, deve ser compreendida como um ativo estratégico. Ela interfere na relação com pacientes, profissionais, parceiros, órgãos públicos e reguladores. Também influencia a capacidade de atrair talentos, estabelecer parcerias, incorporar inovações e manter relações duradouras. 

No debate sobre o Diagnóstico 5.0, essas dimensões estão conectadas. A regulação estabelece limites e responsabilidades para a atuação do setor. A sustentabilidade econômica oferece condições para que as organizações continuem investindo, gerando empregos e prestando serviços. A governança orienta como os recursos serão utilizados e como as decisões serão conduzidas. Ética e compliance preservam a integridade desse percurso. 

Nenhuma organização consegue antecipar todas as mudanças que alcançarão a saúde nos próximos anos. É possível, contudo, preparar estruturas de decisão, formar lideranças, fortalecer a cultura interna e desenvolver capacidade para identificar riscos e responder a eles. 

Essa reflexão fará parte do 10º FILIS – Fórum Internacional de Lideranças da Saúde, promovido pela Abramed no dia 26 de agosto, em São Paulo, sob o tema “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”. Ao discutir os caminhos do setor, o fórum propõe uma questão necessária: que organizações estamos construindo para conduzir essa transformação? 

O futuro da medicina diagnóstica não será definido somente pelos avanços que o setor conseguir incorporar. Também dependerá da solidez, da integridade e da confiança das instituições responsáveis por transformá-los em cuidado. 

Milva Pagano 

Diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed)

A inovação em saúde começa pelo diagnóstico: o papel dos exames na pesquisa clínica 

Da geração de evidências ao desenvolvimento de novas soluções, a medicina diagnóstica é essencial para que a inovação chegue ao paciente.  

Toda inovação em saúde depende de evidências. Elas são construídas muito antes de um medicamento chegar ao mercado. Por trás de cada nova terapia existe uma etapa indispensável para transformar conhecimento científico em cuidado: a medicina diagnóstica.  

Por meio dos exames laboratoriais, genéticos e de imagem, pesquisadores identificam biomarcadores, selecionam pacientes para estudos clínicos, acompanham a resposta aos tratamentos e produzem evidências que sustentam a incorporação de novas tecnologias à prática médica. 

Esse papel ganha ainda mais relevância diante do envelhecimento populacional, do aumento das doenças crônicas e do avanço da medicina de precisão. Hoje, terapias personalizadas dependem da capacidade de identificar características específicas de cada paciente, permitindo indicar o tratamento mais adequado e evitar intervenções desnecessárias. 

Fortalecer essa capacidade também é estratégico para ampliar a competitividade do Brasil na pesquisa clínica. Atualmente o país ocupa a 12ª posição no ranking mundial e tem potencial para figurar entre os dez principais nesse segmento. Para que isso aconteça, o setor de diagnóstico brasileiro precisa estar à altura em tecnologia, em padronização e em capacidade de integração de dados. 

“O laboratório deixou de ser apenas o lugar onde se processa uma amostra. Hoje, ele também é um gerador de conhecimento. Cada exame produz um dado que pode alimentar pesquisas, ampliar o entendimento sobre as doenças e acelerar o desenvolvimento de novas terapias”, explica Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed. 

Mais do que apoiar a pesquisa clínica, a medicina diagnóstica produz conhecimento capaz de acelerar a inovação em saúde.  

O diagnóstico como infraestrutura da pesquisa 

A participação da medicina diagnóstica começa antes mesmo do primeiro paciente ser incluído em um estudo clínico. O desenvolvimento de novas tecnologias e novos indicadores permite identificar quais pessoas apresentam determinadas características biológicas, aumentando a precisão das pesquisas e tornando possível avaliar, com maior confiabilidade, a eficácia e a segurança de novas terapias.  

Exames laboratoriais, testes moleculares e métodos de imagem acompanham continuamente a evolução dos participantes, monitorando respostas ao tratamento, possíveis eventos adversos e indicadores clínicos que servirão de base para a geração de evidências científicas. Sem essa infraestrutura funcionando com qualidade, agilidade e rastreabilidade, os estudos podem perder precisão e credibilidade científica. 

Os biomarcadores têm papel duplo nesse processo: funcionam como critérios de seleção de pacientes, identificando quem tem maior probabilidade de responder a um tratamento, e como endpoints dos ensaios, facilitando a avaliação dos resultados. 

Tecnologias voltadas à medicina de precisão já crescem a dois dígitos no Brasil, impulsionadas pelo aumento da incidência de doenças complexas, especialmente em oncologia, neurologia e doenças autoimunes. 

Com os avanços da biologia molecular e do sequenciamento de nova geração, o mapeamento genético tende a ocupar espaço cada vez maior na prática clínica, ampliando a capacidade de identificar riscos, apoiar diagnósticos mais precisos e orientar terapias personalizadas.  

“A incorporação da genômica mostrou que a inovação não acontece apenas quando uma nova terapia é desenvolvida, mas também quando ampliamos nossa capacidade de compreender a biologia das doenças. Quanto melhor entendermos cada paciente, maiores são as possibilidades de oferecer tratamentos mais assertivos e acelerar a produção de conhecimento científico”, afirma Lídia. 

Dados que alimentam a inovação 

Os dados gerados pelos exames ajudam a compreender a evolução das doenças, identificar tendências epidemiológicas, desenvolver novos indicadores e apoiar pesquisas capazes de acelerar a chegada de novas soluções diagnósticas e terapêuticas.  

Para que esse potencial se concretize, é fundamental que essas informações possam ser compartilhadas de forma padronizada e segura. É a interoperabilidade que permite a circulação desses dados entre laboratórios, prontuários e sistemas de saúde, fortalecendo a integração entre pesquisa, assistência e inovação em saúde.  

Além de reduzir tentativas sucessivas de tratamento e favorecer melhores desfechos clínicos, esse processo contribui para o uso mais racional dos recursos disponíveis e acelera o desenvolvimento de novas soluções diagnósticas e terapêuticas.  

Na visão de Lídia Abdalla, os dados gerados pela medicina diagnóstica representam um patrimônio científico para o país. “Transformar esse volume de informações em conhecimento exige interoperabilidade, qualidade e responsabilidade no uso dos dados. É isso que fortalece a pesquisa clínica, amplia nossa capacidade de inovação e gera valor para o paciente e para  todo o sistema de saúde”, analisa. 

Essa transformação, que consolida a medicina diagnóstica como elemento essencial da inovação em saúde, será um dos fios condutores do FILIS 2026, que reunirá líderes do setor para discutir como a inteligência artificial, a medicina de precisão e a transformação digital estão redesenhando o futuro da saúde. 

A discussão reforça um princípio cada vez mais evidente: toda inovação começa com conhecimento e, na saúde, esse conhecimento frequentemente nasce a partir do diagnóstico. 

Para participar do FILIS 2026, acesse o site oficial do evento e adquira o seu ingresso: https://www.abramed.org.br/filis. 

FILIS 2026 celebra 10 anos de diálogo estratégico para o futuro da saúde

Fórum da Abramed reunirá lideranças para discutir como regulação, valor, governança e inteligência artificial se conectam na construção do Diagnóstico 5.0. 

Estão abertas as inscrições para a 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), que será realizada em 26 de agosto de 2026. Desta vez, o evento acontecerá no Teatro Santander, em São Paulo, ampliando a capacidade de receber participantes e acompanhando o crescimento que o Fórum registrou nos últimos anos.

Ao longo de uma década, o FILIS consolidou-se como um importante espaço gerador de pautas propositivas para o setor de saúde, reunindo gestores, executivos e representantes de diferentes segmentos para discutir os desafios e as transformações que impactam o sistema de saúde.

Com o macrotema “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”, a edição de 2026 propõe uma reflexão integrada sobre os fatores que vêm redefinindo a medicina diagnóstica e seu papel na sustentabilidade, na eficiência e na qualidade da assistência. 

“O FILIS é, acima de tudo, um espaço de diálogo e construção conjunta. A cada edição, reforçamos nosso compromisso em fomentar discussões e ações que impulsionam a medicina diagnóstica a um patamar cada vez mais estratégico. O Diagnóstico 5.0 não é apenas uma visão, mas um caminho que estamos trilhando coletivamente para um sistema de saúde mais robusto e centrado no paciente”, afirma Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed. 

A estrutura do evento foi cuidadosamente planejada com eixos temáticos sequenciais e complementares, que guiam os participantes por uma compreensão abrangente dos desafios e oportunidades do setor.

Os eixos que orientam a edição de 2026 

O Fórum começa com o eixo Regulatório, que terá como tema “Segurança regulatória, inovação e sustentabilidade na saúde”. O debate abordará os fundamentos necessários para o desenvolvimento sustentável do setor em um cenário marcado pela inovação tecnológica, pela transformação digital e pela crescente complexidade assistencial.

Entre os assuntos em destaque estarão a modernização regulatória, a integração entre os setores público e privado e os desafios para a construção de um ambiente capaz de acompanhar a velocidade das mudanças sem comprometer a segurança e a qualidade dos serviços.

Na sequência, o eixo Valor discutirá o tema “Dados, precisão e valor: os novos desafios do diagnóstico”. O foco estará na contribuição da medicina diagnóstica para a melhoria dos desfechos clínicos, o apoio à tomada de decisão médica e o uso mais eficiente dos recursos.

O debate destacará como a utilização estratégica de dados e a precisão diagnóstica podem ampliar a eficiência assistencial e reforçar o papel do diagnóstico ao longo da jornada do paciente.

O terceiro eixo será sobre ESG, focando em “Governança, ética e compliance: os pilares da sustentabilidade institucional”. Em pauta, estarão os mecanismos que contribuem para a solidez das organizações, como integridade, transparência e fortalecimento da cultura organizacional.

A discussão evidenciará como esses elementos apoiam a sustentabilidade institucional e fortalecem a capacidade das organizações de responder aos desafios de um ambiente em constante transformação.

Encerrando a programação, o eixo Inteligência Artificial abordará o tema “IA como estratégia para eficiência e qualidade na saúde”. O debate discutirá como a IA, a interoperabilidade e a inteligência de dados estão ampliando as possibilidades de integração de informações, apoio à decisão e geração de conhecimento para profissionais e organizações.

O eixo também mostrará como essas tecnologias estão transformando processos, redefinindo modelos de trabalho e criando oportunidades para uma saúde mais conectada, eficiente e orientada por dados.

“Os desafios da saúde não podem mais ser analisados de forma isolada. Regulação, valor, governança e inteligência artificial são temas interdependentes e fundamentais para a evolução da medicina diagnóstica e do sistema de saúde. O FILIS foi concebido justamente para promover essa visão integrada entre os diferentes atores do setor e direcionar iniciativas concretas”, destaca Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

Reconhecimento e conexão entre lideranças

Além dos quatro eixos temáticos, a edição de 2026 contará com a entrega da 8ª edição do Prêmio Dr. Luiz Gastão Rosenfeld, que reconhece contribuições relevantes para a medicina diagnóstica. O evento também promoverá os tradicionais momentos de Leaders Connection, voltados à troca de experiências e ao relacionamento entre lideranças do setor. 

A expectativa é que ao final do encontro fique reforçado o conceito de Diagnóstico 5.0, que representa a convergência entre todos os eixos para construir um sistema de saúde mais integrado, sustentável, inteligente e centrado no paciente — uma síntese que traduz também os dez anos de trajetória do FILIS.

Participe da 10ª edição do FILIS

As inscrições para o FILIS 2026 estão abertas. Garanta sua participação neste marco de uma década de discussões estratégicas para o futuro da saúde: https://www.abramed.org.br/filis.

* Programação preliminar sujeita a alterações.

Alta inesperada de Influenza em setembro acende alerta para reforço da prevenção

Crescimento de casos reforçam a importância da vacinação, testagem precoce e vigilância integrada

Tradicionalmente associada ao outono e ao inverno, a gripe voltou a registrar aumento significativo de casos em setembro. Dados da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), que reúne associados responsáveis por mais de 85% dos exames realizados na Saúde Suplementar, mostram que a positividade para Influenza alcançou o maior patamar desde junho, revertendo a tendência de baixa observada no meio do ano. A média móvel de cinco semanas confirma essa retomada de alta.

A Covid-19 também segue em patamares preocupantes. Após atingir pico na semana epidemiológica 35 (24 a 30 de agosto), a positividade recuou levemente, mas permanece elevada — os maiores índices desde março. A média móvel sinaliza que a circulação do vírus continua intensa, reforçando a necessidade de manter estratégias de monitoramento e contenção.

O comportamento dos vírus respiratórios neste período fora de época reforça a importância de ampliar a cobertura vacinal e estimular a testagem precoce, sobretudo entre os grupos prioritários, como idosos, gestantes, crianças e pessoas com comorbidades.

Já no caso da Dengue, o cenário é distinto: os índices permanecem estáveis nas últimas semanas, com positividade entre 13% e 17% — os menores do ano. Ainda assim, o acompanhamento laboratorial segue fundamental, já que a proximidade do período mais quente e chuvoso tende a favorecer a proliferação do mosquito transmissor e pode modificar rapidamente o quadro epidemiológico.

Monitoramento integrado e dados estratégicos

Os dados analisados pela Abramed são extraídos da plataforma METRICARE, desenvolvida em parceria com a Controllab, e refletem o compromisso da entidade com o monitoramento contínuo e qualificado de indicadores de saúde. A ferramenta permite acompanhar, em tempo real, o comportamento de diversos agentes infecciosos e apoiar ações públicas e privadas de enfrentamento às epidemias sazonais.

Importante destacar que os exames realizados pelas associadas da Abramed alimentam diretamente a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS/DATASUS), contribuindo com o sistema de vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde. Essa articulação é fundamental para compreender a evolução das doenças respiratórias no país e embasar políticas públicas que protejam a população.ntos e desdobramentos da proposta, que busca consolidar o diagnóstico laboratorial como pilar estruturante da atenção à saúde no país.

Painel no CBPCML 25 debate a Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial (PNDL) e os impactos para o setor de saúde

Evento destaca protagonismo do diagnóstico e mobilização inédita de entidades em torno da proposta de política pública.

Durante o primeiro dia do 57º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica Medicina Laboratorial (CBPCML), realizado no Rio de Janeiro, entre 16 e 19 de setembro, foi promovido o painel “Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial (PNDL): O que é e quais os impactos para a Medicina Diagnóstica”. A atividade reuniu representantes de conselhos profissionais, sociedades científicas, associações para discutir os objetivos, fundamentos e desdobramentos da proposta, que busca consolidar o diagnóstico laboratorial como pilar estruturante da atenção à saúde no país.

O painel, moderado por Wilson Shcolnik, Diretor de Relações Institucionais da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), contou com a participação de Carlos Felipe Garcia, Presidente da Federação Brasileira de Laboratórios de Análises Clínicas (FEBRALAC); Fúlvio Facco, Presidente da Câmara Brasileira de Diagnóstico laboratorial (CBDL);  Lenira da Silva Costa, Vice-Presidente do Conselho Federal de Farmácia (CFF); Marco Antonio Zonta, Conselheiro no Conselho Federal de Biomedicina (CFBM); Maria Elizabeth Menezes, Presidente da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC); e Milva Pagano, Diretora-Executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).

Abrindo as apresentações, a presidente da SBAC contextualizou o que é a Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial, o surgimento da proposta e ressaltou que a iniciativa parte do reconhecimento da importância estratégica dos exames laboratoriais em toda a jornada do cuidado. Ela explicou que a PNDL é uma proposta de política de Estado, e não apenas de governo, e que sua construção leva em conta dispositivos já previstos na Lei 8.080, que institui o Sistema Único de Saúde (SUS).

“A política propõe a integração dos serviços laboratoriais — como análises clínicas e toxicológicas — aos diferentes níveis de atenção, desde a atenção primária até os cuidados de alta complexidade, garantindo qualidade, acesso e segurança assistencial”, afirmou Maria Elizabeth.

Ainda segundo ela, mais de 95% dos exames realizados pelo SUS são executados por prestadores da rede complementar, o que reforça o papel essencial dos laboratórios privados no sistema de saúde pública. “O laboratório não entrega apenas um papel. Ele entrega saúde. É preciso compreender o laudo como parte de um processo complexo, que sustenta decisões clínicas e impacta diretamente a vida do paciente”, completou.

Na sequência, Lenira da Silva Costa, trouxe à discussão a perspectiva do setor público. Ela destacou que a PNDL pode ser uma ferramenta importante para fortalecer laboratórios locais, ampliar a capilaridade do SUS, melhorar indicadores de saúde pública e reduzir desigualdades regionais. “Ao garantir acesso qualificado e equitativo aos exames laboratoriais, inclusive em regiões remotas, conseguimos antecipar diagnósticos, evitar hospitalizações desnecessárias e apoiar a vigilância em saúde com mais eficiência”, explicou.

Do ponto de vista da indústria, Fúlvio Facco, ressaltou o impacto positivo da proposta para a sustentabilidade e a inovação no setor. Segundo ele, a criação de uma política nacional pode oferecer previsibilidade, segurança regulatória e equilíbrio concorrencial. “A PNDL representa um passo essencial para reduzir os riscos inerentes ao processo de inovação. É o pontapé que faltava para estruturar o mercado de forma mais sólida”, declarou.

Representando as empresas de Medicina Diagnóstica, Milva Pagano reforçou a ideia de que o diagnóstico não pode ser encarado apenas como uma etapa do tratamento da doença, mas como parte integrante da jornada de vida da pessoa.

“O diagnóstico acompanha o indivíduo desde a concepção até o fim da vida. Por isso, não podemos mais aceitar sermos invisíveis. Somos um pilar fundamental da saúde”, afirmou. Ela também fez um alerta sobre a fragmentação do setor e defendeu que a política traga uma atuação mais integrada entre os setores público e privado. “A PNDL não é uma solução mágica, mas pode ser um dos passos para uma maior integração, que poderá ser potencializada com a interoperabilidade que também reduzirá desperdícios, corrigindo ineficiências, com mais qualidade e segurança para o paciente”, completou.

Marco Antonio Zonta foi direto ao resumir o papel do diagnóstico: “Tudo começa e termina no laboratório”. Já Carlos Felipe Garcia, destacou o ambiente de colaboração que se formou em torno da PNDL e o impacto direto da proposta sobre os laboratórios de pequeno e médio porte. “Talvez nunca tenhamos visto tanta união entre as entidades do setor como agora. A política nasce desse esforço conjunto e representa uma oportunidade concreta de avançar”, afirmou.

Ele também apontou os desafios enfrentados por laboratórios que prestam serviços ao SUS, como a necessidade de maior organização, previsibilidade e valorização. “A PNDL pode ser um passo importante para promover mais equilíbrio, sustentabilidade e reconhecimento para esses prestadores, que são fundamentais para o funcionamento do sistema.”

Ao final do painel, Wilson Shcolnik reforçou o apoio da SBPC/ML à iniciativa e destacou o momento histórico vivido pelo setor. “Estamos diante de uma oportunidade real de reposicionar o diagnóstico como eixo estruturante da saúde no Brasil. Acreditamos na PNDL e esperamos em breve poder comemorar sua efetiva implementação como política pública.”

Inteligência Artificial e Radiologia no Brasil: no CBR25, especialistas apontam caminhos para equilibrar inovação, sustentabilidade e regulação no setor

Equilíbrio entre tecnologia, regulação e sustentabilidade marca debate sobre os rumos da Inteligência Artificial na radiologia brasileira

A aplicação da Inteligência Artificial (IA) no campo radiológico e no setor de Medicina Diagnóstica esteve no centro de um importante debate realizado pela Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) no 4º Simpósio de Qualidade e Gestão de Clínicas, que ocorreu durante o CBR25 (Congresso Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem), em Curitiba, no último dia 19 de setembro. O painel reuniu representantes da indústria, gestores e lideranças médicas para analisar oportunidades, riscos e o futuro do radiodiagnóstico frente às inovações tecnológicas que estão transformando o contexto clínico e o ambiente de saúde brasileiro e global.

Com abertura e boas-vindas de Milva Pagano, Diretora Executiva da Abramed, o Painel contou com a participação de Ademar Paes Jr., sócio da Clínica Imagem e Membro do Conselho de Administração da Abramed; Cesar Higa Nomura, Diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês e Presidente do Conselho de Administração da Abramed; João Paulo Souza, General Manager da GE HealthCare Brasil; e  Marcos Queiroz, Diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Israelita Albert Einstein e Membro do Conselho de Administração da Abramed.

Milva Pagano destacou os propósitos da Abramed e a importância da parceria histórica do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, reforçando também alguns dos temas centrais do painel. Segundo ela, a evolução do setor diagnóstico como um todo depende do tripé confiança, segurança e sustentabilidade.

“Os debates em nosso segmento sempre circundam a necessidade da ampliação do acesso à Saúde para a população. Esse ponto é fundamental, mas não dá para discutir acesso sem falar em qualidade e segurança. A missão da Abramed, nesse sentido, é conectar nossos associados para impulsionar práticas que promovam confiança, sustentabilidade e inovação, sempre olhando para a jornada do paciente”, afirmou.

Milva também lembrou a importância da cooperação setorial para o fortalecimento do segmento diagnóstico: mesmo empresas concorrentes no mercado unem esforços dentro da Abramed para fortalecer a qualificação de todo o ecossistema.

A Inteligência Artificial e a Radiologia no Brasil: cenário e tendências

Representando a indústria, João Paulo Souza, da GE HealthCare Brasil, ressaltou o crescimento exponencial da IA aplicada à radiologia: “Em 2024, havia cerca de 900 dispositivos com infraestrutura de IA aprovados pelo FDA (Federal Drug Administration), dos quais quase 700 voltados para a radiologia. É uma aceleração de investimentos enorme em todo o mundo, em um espaço de tempo muito curto”.

Segundo ele, o verdadeiro desafio hoje para a consolidação da IA na Medicina Diagnóstica não é gerar dados, mas estruturá-los e contextualizá-los para que tragam valor real ao paciente – ponto que dialoga de modo direto com os esforços da Abramed em prol da interoperabilidade informacional na Saúde. Nesse processo, Souza frisou que o letramento digital é fundamental para reduzir frustrações e acelerar a adoção consciente da tecnologia.

O executivo destacou ainda a estratégia da GE de desenvolver soluções locais, citando como exemplo um software de embolização prostática criado no Brasil em parceria com a FMUSP e hoje reconhecido mundialmente. “Não adianta tentarmos trazer soluções que são desenvolvidas para o exterior sem as devidas formatações para o mercado brasileiro. Esse entendimento de nosso contexto de saúde é indispensável e ajuda as companhias a investir de maneira mais assertiva. Temos de adotar tecnologias de modo inteligente, considerando a nossa realidade local”, pontuou.

Essa ênfase na adaptação ao contexto nacional conecta-se diretamente à percepção de que a radiologia, por suas características técnicas e estruturais, é um terreno naturalmente fértil para a incorporação de inovações.

Em sua exposição, Ademar Paes Jr. listou fatores que tornam o segmento de imagem um campo propício ao desenvolvimento de soluções baseadas em IA: uso de padrões interoperáveis (como o DICOM), maturidade dos algoritmos de imagem, ambiente intensivo em capital e volume crescente de publicações científicas.

“O mito da garagem é bacana, mas o que constrói grandes empresas são publicações científicas, áreas de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) e investimentos consistentes que impulsionam ecossistemas de inovação maduro. A radiologia tem um grande papel nesse universo por ser uma via agregadora que conecta hospitais, ambulatórios e pacientes. Ou seja: estamos falando de um terreno fértil para a IA e outras inovações”, explicou.

Para o sócio da Clínica Imagem e Membro do Conselho de Administração da Abramed, a atual revolução do setor não está mais no hardware, mas no software. “Nós vivemos revoluções com o raio X, a ultrassonografia, a tomografia, a ressonância magnética e o PET-CT. Agora, a revolução da nossa geração é o software. A IA será o motor que vai permitir levar a radiologia para populações que hoje ainda não têm acesso. Seu potencial, nesse sentido, é desenvolvimento civilizatório”, completou.

Já Cesar Nomura, alertou para os impactos do marco regulatório da IA, atualmente em discussão no Congresso Nacional. Para ele, é fundamental que o setor de saúde participe ativamente desse debate para garantir que a legislação não limite inovações.
 “A radiologia é a área que mais incorporou IA no mundo. Temos que ser protagonistas para discutir esse tema no âmbito regulatório, pois, dependendo de como o marco for aprovado, ele pode se tornar um limitador para a incorporação de novas tecnologias. A legislação precisa acompanhar as mudanças e a Abramed tem participado ativamente dessas discussões”, afirmou.

Nomura também chamou atenção para a lacuna de formação técnica em ciência de dados aplicada à saúde no Brasil: “Se eu pudesse investir em algo hoje, investiria em formar técnicos em ciência de dados em saúde. Esse é o elo que falta para transformar a IA em prática clínica segura e eficiente”.

Convergências e futuro

Ao longo da discussão, os painelistas convergiram em alguns pontos centrais. Segundo eles, a adoção de IA precisa equilibrar benefícios clínicos, eficiência operacional e sustentabilidade financeira. Para tanto, a interoperabilidade de dados é pré-condição para que os algoritmos entreguem resultados efetivos.

Do ponto de vista regulatório, o marco de IA deve ser construído com participação ativa do setor de Medicina Diagnóstica, garantindo segurança na aplicação, mas sem a criação de barreiras para a tecnologia. E, em todo esse contexto, a formação profissional é decisiva para que a tecnologia seja incorporada de maneira ética e responsável.

O debate reforçou a percepção de que a Inteligência Artificial já é uma realidade incontornável para o segmento radiológico, mas que seu potencial só será plenamente alcançado com planejamento estratégico, capacitação profissional e regulação adequada. Entre expectativas e desafios, os painelistas concordaram, por fim, que a IA será uma aliada essencial para ampliar acesso, qualidade e sustentabilidade na radiologia brasileira.

A nova fronteira dos exames: da confirmação à predição

De ferramenta confirmatória a instrumento de antecipação, testes laboratoriais podem ter impacto direto na sobrevida, na sustentabilidade do sistema de saúde e no avanço da medicina personalizada.

Os exames laboratoriais têm assumido um papel que vai além da confirmação de diagnósticos. Da predição de riscos ao suporte na definição de tratamentos, passando pela consolidação dos modelos de medicina personalizada, os testes clínicos vêm se tornando estratégicos na jornada de cuidados – sobretudo na dimensão preventiva.

Como explica o patologista clínico e líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed, Dr. Alex Galoro, esse movimento integra um processo histórico na gestão da Saúde no Brasil.
 “Embora sejam reconhecidos principalmente como diagnósticos, alguns exames já são usados há muito tempo para rastreio, estratificação de risco, seleção de tratamento e monitoramento”, aponta.

Entre os exemplos mais conhecidos estão os testes de triagem neonatal (o teste do pezinho), as dosagens de colesterol e triglicérides para avaliação de risco cardiovascular, os antibiogramas para orientar a escolha de antibióticos, além da hemoglobina glicada e de testes para monitoramento de drogas terapêuticas.

Com o avanço das metodologias laboratoriais, o exame deixa de ser apenas confirmatório e se torna ferramenta de medicina preditiva. Esse movimento é impulsionado pelo maior conhecimento sobre biomarcadores – indicadores de estados fisiológicos – e pela redução de custos dos testes genéticos, que ampliaram a investigação clínica e a própria Medicina Diagnóstica.

Esse avanço traz impactos diretos em doenças complexas como o câncer, um dos maiores desafios globais de Saúde. Segundo a OMS, até 2050 o mundo poderá registrar 35 milhões de novos casos. Nesse cenário, a predição é fundamental para aumentar a sobrevida.

“A detecção precoce, com testes que permitem identificar o câncer ainda em estágio inicial, aumenta significativamente as taxas de sobrevida. Nos tipos mais comuns, como próstata e mama, a sobrevida em 5 anos chega a 99% quando detectados precocemente, mas cai para 31% e 29%, respectivamente, nos casos de metástase à distância”, destaca Galoro.

Além do ganho clínico, há benefícios econômicos: estudos mostram que o fortalecimento da atenção primária pode reduzir em cerca de 5% as internações e gerar economia aproximada de R$ 400 milhões ao sistema de saúde brasileiro.

Novas fronteiras e responsabilidades

Esse novo olhar abre espaço para conceitos como a medicina de precisão, que se apoia em informações mais assertivas para triagem, diagnóstico e tratamento. Também cresce o interesse pela análise de microbioma, baseada na hipótese de que os microrganismos do intestino influenciam a digestão, a absorção de nutrientes, o metabolismo, a imunidade e até a saúde mental – por meio do eixo cérebro-intestinal e da liberação de neurotransmissores relacionados ao humor.

Outro campo em expansão é o estudo de perfis e marcadores genéticos. Como ressalta Galoro, os avanços da biologia molecular “oferecem uma visão detalhada dos diferentes processos metabólicos e fisiológicos do organismo humano”.

A promessa da predição, no entanto, deve caminhar com responsabilidade clínica, evidências robustas e ética.
 “Exames nunca são perfeitos. Sempre podem gerar resultados falso-positivos ou falso-negativos, por isso não podem ser interpretados isoladamente. A má interpretação pode levar a diagnósticos incorretos, riscos aos pacientes e aumento de custos no sistema de saúde”, alerta o especialista.

No campo regulatório, Galoro lembra que as normas e marcos legais são fundamentais para garantir segurança e ética, mas ainda apresentam limitações e podem ser burlados – o que reforça a necessidade de monitoramento constante e validação rigorosa.

Outro desafio é garantir equidade em países desiguais como o Brasil. “O equilíbrio entre acesso, custo e equidade depende não apenas do preço dos exames, mas também do financiamento adequado, tanto no sistema público quanto no privado. Embora a equidade plena seja difícil de alcançar, ampliar o acesso passa necessariamente pela redução dos custos das metodologias e pelo fortalecimento do financiamento da Saúde”, explica.

“Para utilizar os exames de forma segura e responsável, é essencial investir em estudos bem estruturados que tragam evidências científicas sobre o desempenho de cada teste. Só assim será possível integrar a inovação sem abrir mão da ética e da segurança”, conclui o líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed.

NR-1 e riscos psicossociais: por que a Saúde precisa assumir o protagonismo?

Por Lucilene Costa, Líder do Comitê de Recursos Humanos da Abramed

A recente atualização da NR-1, que incluiu a obrigatoriedade de mapear riscos psicossociais nos Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR), trouxe para o setor de saúde uma responsabilidade que vai além do cumprimento regulatório. Estamos falando de fatores do ambiente de trabalho que afetam diretamente a saúde mental, como excesso de jornada, sobrecarga emocional e pressão constante. E, no caso dos hospitais, laboratórios e serviços de diagnóstico — ambientes naturalmente intensos —, não podemos ser coadjuvantes na construção das soluções que vão definir como essa norma será aplicada.

O prazo de adequação, inicialmente previsto para junho deste ano, foi prorrogado para 2026. Mas, como costumo dizer, esse é apenas um “respiro curto”, reflexo de um cenário confuso, marcado por informações desencontradas, disputas de interpretação e ofertas precipitadas de soluções.

Esse tempo extra é, na verdade, um chamado à ação e deve ser visto pelo que realmente é: uma oportunidade para organizar dados, estruturar processos e apresentar evidências que retratem a realidade do setor.

Ao contrário de outras áreas, lidamos diariamente com jornadas intensas, contato com sofrimento humano e decisões críticas em tempo real. Sabemos na prática o que significa risco psicossocial. Temos, portanto, legitimidade — e também dever — de assumir o protagonismo e conduzir esse debate.

As consequências da omissão são conhecidas e custosas. Estão nos indicadores previdenciários (FAP e RAT), em potenciais ações regressivas do INSS, em passivos trabalhistas. Traduzindo: milhões de reais em custos adicionais para empresas que já vivem sob pressão. E, sobretudo, estão no bem-estar dos profissionais — porque equipes fragilizadas e absenteísmo crescente comprometem, no fim das contas, a segurança do paciente.

É por isso que a NR-1 não deve ser vista como burocracia. Mapear riscos psicossociais com consistência técnica, envolver equipes multidisciplinares e propor caminhos são passos indispensáveis para mostrar que a saúde não só cumpre normas, mas contribui para aperfeiçoá-las.

Na Abramed, já estamos nesse caminho: promovendo treinamentos, articulando com parceiros e levando ao Ministério do Trabalho as particularidades do setor. Mas nenhuma entidade consegue sozinha. É hora de cada instituição colocar o tema no topo da agenda.

Porque, quando o assunto é saúde, não há setor mais preparado para liderar essa discussão. Esse protagonismo não é apenas sobre cumprir uma exigência legal: é sobre garantir sustentabilidade e qualidade na assistência que o Brasil precisa.

Como os exames podem apoiar no diagnóstico da ansiedade e da depressão?

Campanhas como o Setembro Amarelo reforçam a importância do cuidado contínuo com a saúde mental, promovendo a conscientização sobre prevenção, tratamento adequado e qualidade de vida.

Ansiedade e depressão estão entre os maiores desafios de saúde pública no Brasil e no mundo. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 300 milhões de pessoas sofram de depressão — hoje a principal causa de incapacidade laboral. No Brasil, estudos epidemiológicos apontam prevalência de sintomas depressivos em 15,5% da população ao longo da vida, enquanto a ansiedade atinge mais de 18 milhões de brasileiros, quase 10% dos habitantes do país.

Nesse contexto, campanhas como o Setembro Amarelo assumem papel essencial ao ampliar a visibilidade sobre a importância de cuidar da saúde mental e conscientizar a população em relação à necessidade do acompanhamento contínuo e tratamento adequado para reduzir o impacto dos transtornos mentais na qualidade de vida das pessoas, evitando desfechos mais graves.

O papel emergente dos exames laboratoriais

Tradicionalmente, a identificação de transtornos ocorre a partir da avaliação clínica, baseada em anamnese, critérios diagnósticos e observação de sintomas. Contudo, esse processo, muitas vezes subjetivo, enfrenta desafios como a sobreposição de comorbidades e a influência de fatores sociais e ambientais.

Nos últimos anos, a pesquisa científica tem explorado biomarcadores hormonais, metabólicos, genéticos e inflamatórios que podem oferecer apoio adicional ao olhar clínico. A proposta não é substituir a avaliação psiquiátrica ou psicológica, mas sim complementá-la, trazendo mais precisão, personalização e monitoramento contínuo.

Estudos recentes reforçam essa tendência. Pesquisadores da Universidade de Newcastle avaliaram dados genéticos, bioquímicos e psiquiátricos de quase 1 milhão de pessoas e identificaram correlações entre níveis de glóbulos brancos, substâncias inflamatórias no sangue e risco de depressão — parâmetros que podem ser detectados em análises laboratoriais. Outro exemplo vem da Universidade de Illinois Chicago, em parceria com outras instituições, que identificou em plaquetas humanas um biomarcador capaz de indicar a presença de depressão e auxiliar no acompanhamento da resposta a medicamentos psiquiátricos.

Além desses achados, diferentes grupos de pesquisa investigam marcadores inflamatórios, hormonais e metabólicos, que podem apoiar tanto no diagnóstico quanto no monitoramento da evolução clínica. Embora ainda não estejam incorporados à prática de rotina, esses estudos reforçam o potencial dos serviços diagnósticos como ferramenta complementar no cuidado com a saúde mental.

Quando integrados, os exames laboratoriais podem reduzir a subjetividade das análises, identificar predisposições antes do agravamento dos sintomas, monitorar com maior precisão a resposta aos tratamentos e ainda relacionar saúde mental e física, considerando comorbidades como diabetes, doenças cardiovasculares ou alterações metabólicas. Essa integração contribui para um cuidado mais individualizado e assertivo, trazendo benefícios tanto para médicos quanto para pacientes.

Limites e cuidados necessários

Apesar dos avanços, é preciso reconhecer limitações. Muitos marcadores apresentam grande variação entre indivíduos, influenciados por fatores como alimentação, estresse cotidiano e uso de medicamentos. Além disso, a sensibilidade e a especificidade dos testes ainda não permitem que sejam usados isoladamente como ferramenta diagnóstica.

Outro ponto central é a ética e a regulação. Garantir a privacidade dos dados e evitar riscos de estigmatização dos pacientes são princípios indispensáveis. Também é fundamental que a interpretação dos resultados seja realizada apenas por profissionais qualificados, dentro de protocolos bem estabelecidos.

A incorporação responsável desses testes depende de protocolos alinhados às melhores evidências científicas e de políticas que assegurem qualidade, equidade e acesso. O futuro aponta para a criação de painéis laboratoriais integrados a aplicativos de saúde mental e wearables, capazes de monitorar em tempo real indicadores relevantes para o bem-estar emocional.

Trata-se de uma área em plena expansão, que já apresenta evidências consistentes de que os biomarcadores podem apoiar milhões de pessoas. Eles não substituem o olhar clínico, mas representam um reforço importante na busca por conclusões mais precisas e tratamentos mais eficazes.

A contribuição da Medicina Diagnóstica nessa área está apenas começando a ser explorada. Avanços em biomarcadores, inteligência artificial e análises multiômicas abrem perspectivas otimistas para um futuro em que ansiedade e depressão possam ser identificadas e acompanhadas com maior precisão.

Combinar ciência de qualidade, protocolos bem definidos e acesso responsável é o primeiro passo para transformar dados em cuidado efetivo e salvar vidas.

FILIS 2026 é lançado com convite ao diálogo para a transformação do futuro da Saúde

A 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), principal evento da Abramed (Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica), foi lançada oficialmente em São Paulo, no Hospital Israelita Albert Einstein, em um encontro que reuniu especialistas do ecossistema de Saúde Suplementar no dia 09 de setembro.

O encontro evidenciou o caráter histórico do FILIS, criado pela Abramed com o intuito de consolidar um espaço de conexão, diálogo e geração de agendas propositivas para o setor, incluindo a integração dos sistemas público e privado e o fomento de consensos em torno de pautas estratégicas que favoreçam o acesso a uma medicina de qualidade para todos.

Na abertura, Milva Pagano, Diretora Executiva da Abramed, reforçou que o FILIS se consolidou como espaço de conexão e de construção coletiva para o setor. Ela ressaltou que o evento deixou de ser apenas palco de debates para se tornar ambiente de pactuação de pautas propositivas que precisam se materializar em ações concretas e apresentou alguns destaques da última edição do Fórum e do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico, que consolidaram temas como interoperabilidade, ESG e atualização regulatória.

Milva também apresentou a nova proposta de parceria do FILIS, que passa a ser estruturada de forma ainda mais estratégica, com três categorias simplificadas: Liderança, Estratégia e Presença. O modelo, segundo ela, facilita a adesão das empresas e fortalece o relacionamento estratégico de longo prazo com o setor.

No centro do painel, estiveram presentes alguns dos temas que guiarão os debates do FILIS 2026, com destaque para a inteligência artificial e suas aplicações na Saúde, o protagonismo da interoperabilidade de dados como vetor de transformação positiva para desfechos clínicos mais assertivos e ágeis, além das questões regulatórias que cercam esse contexto.

Participaram da discussão Cesar Nomura, Presidente do Conselho de Administração da Abramed e Diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês; Cristóvão Mangueira, Diretor de Medicina Laboratorial do Einstein; Edgar Gil Rizzatti, Presidente da Unidade de Negócios Médico, Técnico, Hospitais e Novos Elos do Grupo Fleury; Leonardo Vedolin, Vice-Presidente Médico e de Operações da Dasa; e Lídia Abdalla, Vice-Presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin

O lançamento destacou ainda a transformação digital como movimento decisivo para o setor, mas também destacou questões sociais, econômicas e estruturais que desafiam o sistema. Nesse sentido, ficou claro que os avanços dependem não apenas de tecnologia, mas também de integração, olhar humano, diálogo contínuo e postura coletiva do setor, como destacou Cesar Nomura:

“Que nós estejamos juntos discutindo não só a Medicina Diagnóstica, mas o contexto da Saúde como um todo. Juntos somos mais fortes e temos poder de contribuir com as pautas regulatórias que moldarão a jornada do cuidado.”

O potencial (e os limites) da inovação: dos dados à IA

Na discussão sobre as tendências de inovação que trazem novos paradigmas para a prática clínica, a inteligência artificial foi apontada como uma evolução do big data e das soluções de analytics que já provocam impactos em produtividade, eficiência e no desenho de modelos de atenção.

Os debatedores, porém, foram claros: o que se aplica hoje ainda não é uma IA plena. “Ainda não chegamos a uma IA real; o que usamos hoje é big data com esteroides. A verdadeira transformação virá quando avançarmos para a predição clínica”, provocou Cristóvão Mangueira.

Nesse ponto, os debatedores ressaltaram a importância de separar hype de resultados efetivos e reconhecer que há dificuldade em comprovar ROI e sustentabilidade da adoção de IA, sobretudo em modelos de remuneração baseados em custo e volume, e não em desfecho.

Dentre outros pontos, os participantes trouxeram exemplos práticos da aplicação de algoritmos na detecção precoce de nódulos pulmonares. Em case do Grupo Fleury, foi destacado o cruzamento de imagens com dados clínicos a partir do uso de sistemas de inteligência artificial que permitiram diagnósticos mais rápidos, precisos e com maiores taxas de retorno dos pacientes, aumentando as chances de tratamento bem-sucedido.

“Dados são um insumo muito presente para quem trabalha com Medicina Diagnóstica e colocar médicos para trabalhar junto com cientistas de dados pode ser muito virtuoso. No caso dos exames de nódulos pulmonares, por exemplo, tivemos um aumento de 13% para 40% no retorno dos pacientes. Mas é fundamental ter em mente que o engajamento e a coordenação do cuidado continuam sendo função do médico. A tecnologia contribui, mas não resolve sozinha”, explicou Edgar Gil Rizzatti.

“A inteligência artificial já está mudando a maneira como os seres humanos se relacionam com o trabalho, aumentando muito a produtividade dos profissionais. Mas ainda não temos uma IA que possa tomar decisões. O componente humano é fundamental e ele se torna mais eficiente com o desenvolvimento da tecnologia”, disse o Diretor de Medicina Laboratorial do Hospital Israelita Albert Einstein.

Conectando inovação ao protagonismo do paciente, Lídia Abdalla reforçou que a transformação digital não é apenas promessa, mas realidade que já impacta a vida dos pacientes.

“Com testes digitais e wearables, já conseguimos obter muitas informações de saúde dos indivíduos. Isso já está acontecendo e favorece o autocuidado, uma das bases para a sustentabilidade do sistema”, pontuou.

O painel também abordou o marco regulatório da IA, em tramitação no Congresso. Para Nomura, o desafio é não engessar o setor:

“Mais de 60 PLs em Brasília envolvem Medicina Diagnóstica e 38 podem ter impacto significativo. É nossa obrigação influenciar a discussão legislativa para que a regulação não restrinja a inovação e, ao mesmo tempo, traga segurança ao paciente.”

E trouxe ainda uma reflexão sobre sustentabilidade: se a lógica atual remunera mais o tratamento da doença do que a prevenção, como equilibrar inovação e viabilidade econômica? Para Mangueira, o setor precisa avançar nessa agenda: é essencial criar mecanismos que valorizem a prevenção e a inovação como parte das soluções do sistema, mesmo diante de modelos ainda centrados na doença.

Tech vs. Touch: empatia e letramento digital em debate

No debate, o consenso entre os participantes é de que o letramento digital deve ser tratado como prioridade estratégica, envolvendo desde a formação acadêmica até programas contínuos de atualização profissional por meio, por exemplo, de formações técnicas em ciências de dados aplicadas à Saúde.

Leonardo Vedolin comentou que um dos grandes desafios em provar o potencial dos dados e das soluções de analytics na Medicina Diagnóstica diz respeito ao gap de letramento, por isso, fazer essa pauta avançar nas organizações é decisivo.

Preparar profissionais para lidar com dados e IA de forma crítica e humanizada é condição para reduzir as barreiras de acesso, não comprometer a efetividade da inovação no setor e garantir que a tecnologia seja suporte, e não substituto, da relação médico-paciente. “Quem entrega valor é quem está mais próximo do paciente, e não a tecnologia”, afirmou Vedolin.

Para além da tecnologia, a humanização também foi destaque. Cláudia Cohn, membro do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Alta Diagnósticos, alertou para o problema de colocar a empatia em segundo plano:

“Mais de 50% das criações de IA que explodiram recentemente são personagens feitos para conversar com pessoas. Daqui a pouco, teremos mais interações com IA do que com humanos. Como garantir empatia no diagnóstico, quando o médico corre o risco de virar apenas logística?”

O painel deixou claro que não há consenso sobre o tema: se, por um lado, há convergência sobre o papel fundamental do componente humano na tomada de decisões e como ele se torna ainda mais eficiente com o desenvolvimento da tecnologia, por outro, ficou a reflexão de que a empatia já é frágil na prática médica e precisa ser preservada como diferencial para que os profissionais do setor não sejam substituídos pelo “tech”.

O lançamento do FILIS 2026 reafirmou o protagonismo da Abramed na articulação de agendas para o setor e colocou em evidência dilemas centrais em Saúde. As reflexões adiantam que a 10ª edição do Fórum, muito além de um encontro, será um espaço para pactuar caminhos que ajudem a transformar a inovação em valor concreto para pacientes, profissionais e todo o Sistema de Saúde, e que devem orientar o futuro da Medicina Diagnóstica no Brasil.

A 10ª edição do FILIS já tem data marcada – 26 de agosto de 2026.