FILIS 10 anos: o que mudou na saúde e o que esperar do futuro?

Da regulação e consolidação de mercado às discussões sobre Inteligência Artificial, interoperabilidade, valor e governança, trajetória do Fórum ajuda a revelar como as perguntas da saúde mudaram em uma década

Se um evento pode funcionar como um arquivo das perguntas que um setor faz sobre si mesmo, os dez anos do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS) oferecem uma boa medida do quanto a saúde mudou desde 2016.

Na primeira edição, então apresentada como 1º Congresso Internacional de Gestão em Saúde ICOS – Abramed, a programação foi organizada em quatro grandes temas: relações de trabalho no setor de saúde; agendas regulatórias e seus impactos; tendências em concorrência e consolidação de mercado; e perspectivas futuras da saúde.

Realizado em conjunto pela Abramed e pelo Instituto Coalizão Saúde (ICOS), o encontro teve entre suas lideranças Giovanni Guido Cerri, então vice-presidente do Instituto, que dez anos depois voltaria ao palco do FILIS para discutir inteligência artificial na saúde. 

Em 2026, o 10º FILIS chegou com outro vocabulário. Sob o conceito “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”, colocou lado a lado regulação, valor da Medicina Diagnóstica, ESG e Inteligência Artificial.

A diferença entre as duas agendas não significa que os problemas de 2016 tenham sido resolvidos ou substituídos. Na maior parte dos casos, eles ganharam novas camadas. Regulação continua em pauta. Sustentabilidade também. Tecnologia e futuro nunca deixaram o Fórum. O que mudou foi o tipo de pergunta feita a cada um desses temas.

O futuro deixou de ser uma discussão abstrata

Nos primeiros anos, parte importante das discussões estava concentrada em compreender como novas tecnologias chegariam à saúde e quais impactos provocariam no mercado. Incorporação tecnológica, sustentabilidade, compliance e inovação em diagnósticos foram ganhando espaço progressivamente.

A Inteligência Artificial, inclusive, não surgiu agora na história do evento. Em 2018, ela já provocava perguntas. Em uma enquete realizada com participantes do 3º FILIS, 51% disseram confiar em laudos produzidos com apoio da IA por considerarem esse o caminho do futuro, enquanto 47% confiavam nos resultados, mas ainda atribuíam maior importância à interação humana.

Naquele momento, a questão era, em grande medida, até onde confiar na tecnologia. Oito anos depois, a IA ganhou um eixo inteiro da programação. Mas a pergunta mudou. No FILIS 2026, o debate passou por qualidade dos dados, interoperabilidade, avaliação de risco, validação clínica, responsabilidade profissional e critérios para decidir quando uma aplicação realmente deve ser incorporada.

A coincidência de datas ajuda a dimensionar essa mudança: a décima edição do fórum aconteceu em 26 de agosto, justamente quando entraram em vigor as regras da Resolução CFM nº 2.454/2026 para o uso da IA na medicina, com parâmetros sobre classificação de risco, governança, proteção de dados e responsabilidade médica

A discussão deixou de ser apenas sobre o potencial da tecnologia para tratar das condições necessárias para utilizá-la com segurança e utilidade.

A pandemia acelerou mudanças que já estavam em curso

Em 2019, transformação digital, healthtechs, proteção de dados e o papel da Medicina Diagnóstica no ciclo de cuidado já faziam parte da agenda. No ano seguinte, a pandemia interrompeu a realização do Fórum e, ao mesmo tempo, acelerou muitas dessas transformações.

Quando o FILIS voltou, em 2021, pela primeira vez totalmente digital, a programação carregava marcas daquele período: impactos econômicos do pós-pandemia, telemedicina, LGPD, ciência de dados, exames fora do ambiente laboratorial e o papel da Medicina Diagnóstica diante de uma emergência sanitária.

A partir dali, digitalização deixou de significar apenas modernização de processos. Dados passaram a ser tratados como parte da assistência; integração entre instituições ganhou urgência; e tecnologia passou a conviver cada vez mais com discussões sobre acesso, segurança, qualidade e sustentabilidade.

Nas edições seguintes, esses temas foram se aproximando. Disrupção, integração, gestão, inovação e tecnologia deixaram de aparecer como movimentos isolados e passaram a compor uma discussão mais ampla sobre como organizar um sistema de saúde cada vez mais complexo.

Integração deixou de ser conceito e virou infraestrutura

Talvez a interoperabilidade seja um dos exemplos mais claros desse amadurecimento. Em 2023, a integração dos sistemas estava entre os desafios discutidos no FILIS. Uma das pautas avançou no ano seguinte, quando Abramed e Ministério da Saúde formalizaram, durante o evento, uma cooperação para padronização e integração de dados de exames de notificação compulsória à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS).

Em 2025, a interoperabilidade permaneceu entre os temas principais e ganhou um capítulo específico no Painel Abramed. Na mesma edição do fórum, foi firmado o Memorando de Intenções entre ANS, Ministério da Saúde, Abramed e HCFMUSP/InovaHC para avançar com o projeto OpenCare Interop.

Um ano depois, o projeto retornou ao FILIS com arquitetura desenvolvida, visualizador clínico funcional e em etapa de prova de conceito para testar a circulação segura de informações entre instituições. Ao apresentar essa evolução, Marco Bego, diretor-executivo do InRad-HCFMUSP e diretor de Inovação do InovaHC, resumiu o problema que o projeto busca enfrentar: “Hoje o nosso paciente é interoperável, mas os dados ainda não”. 

Em poucos anos, portanto, a pergunta evoluiu de “como integrar?” para “como colocar essa integração para funcionar, medir resultados e ganhar escala?”.

Temas não desaparecem, eles mudam de lugar

Ao olhar a década, é difícil encontrar uma preocupação que tenha simplesmente sumido. Relações de trabalho, um dos quatro módulos de 2016, deixaram de ocupar um eixo próprio, mas continuam presentes diante da escassez de profissionais especializados, da necessidade de capacitação contínua e das novas competências exigidas pela automação e pela IA.

Concorrência e consolidação de mercado também perderam espaço como discussão isolada, mas o movimento empresarial continua acontecendo. A 8ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico mostra R$ 2,93 bilhões movimentados em operações de fusões e aquisições nos últimos três anos. Hoje, porém, essa discussão está mais conectada à capacidade de investimento, eficiência e sustentabilidade das organizações.

Outros assuntos praticamente não faziam parte do vocabulário da primeira edição. Proteção e governança de dados ganharam relevância com a LGPD. Interoperabilidade passou de aspiração tecnológica a projeto de infraestrutura. Mudanças climáticas entraram formalmente na programação. E sustentabilidade ampliou seu significado, incorporando qualidade assistencial, governança, ética, impacto ambiental e resiliência das instituições.

Talvez a principal mudança esteja no lugar ocupado pela própria Medicina Diagnóstica. Ao longo dos anos, o debate foi deixando de tratar o diagnóstico apenas como uma etapa anterior ao tratamento para discutir sua contribuição em toda a jornada: prevenção, rastreamento, estratificação de risco, escolha terapêutica, monitoramento, avaliação de desfechos e utilização mais eficiente dos recursos.

Esse movimento chegou ao FILIS 2026 sintetizado pelo Diagnóstico 5.0. A programação foi construída como uma sequência: as condições regulatórias para que o setor avance; o valor gerado pelo diagnóstico; a governança e a ética que sustentam as organizações; e, por fim, inteligência artificial, dados e plataformas digitais.

O ponto de encontro entre esses temas é a capacidade de transformar informação em decisões melhores para o paciente e para o sistema.  É uma mudança importante em relação a 2016. Naquele momento, “perspectivas futuras da saúde” cabiam em um módulo específico. Dez anos depois, o futuro está espalhado pela programação inteira.

E o que os próximos dez anos tendem a trazer?

Se a trajetória do FILIS serve como indicador, o próximo ciclo deve ser menos marcado pela chegada fragmentada de novas tecnologias e mais pela capacidade de incorporá-las ao sistema de forma coordenada.

Na Inteligência Artificial, a discussão tende a avançar da experimentação para validação, acompanhamento de resultados, governança, segurança e definição de responsabilidades. Giovanni Guido Cerri, presidente do Conselho Diretor do InRad-HCFMUSP, do InovaHC e do Conselho de Administração do ICOS, situou essa evolução em diferentes estágios durante o FILIS 2026: enquanto o uso de IA no back office já está mais estabelecido, aplicações clínicas começam a avançar de forma pontual. Uma transformação mais profunda, segundo ele, ainda está por vir, incluindo a radiômica, capaz de extrair das imagens dados que não são identificados pela observação humana.

Em interoperabilidade, o desafio será sair de conexões pontuais para uma infraestrutura capaz de acompanhar o paciente entre diferentes instituições e entre os sistemas público e privado.

Já na Medicina Diagnóstica, biologia molecular, genética, biomarcadores, imagem avançada e novas formas de análise de dados devem ampliar a capacidade de identificar riscos e orientar condutas mais individualizadas. Ao mesmo tempo, crescerá a necessidade de demonstrar valor: não apenas se uma tecnologia funciona, mas para quem deve ser utilizada, em que momento, que decisão pode modificar e qual resultado é capaz de produzir.

Outro sinal do que pode ganhar espaço no próximo ciclo veio da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). No FILIS 2026, Raquel Medeiros Lisbôa, gerente de Estímulo à Inovação e Avaliação da Qualidade dos Prestadores de Serviços (GEIQP), da DIDES/ANS,  informou que a agência está em tratativas para ampliar seu programa de monitoramento da qualidade e incluir a Medicina Diagnóstica entre os próximos segmentos com indicadores disponibilizados à sociedade, com expectativa de avanços já no próximo ano. 

Após dez anos, o histórico do FILIS mostra menos uma sucessão de modismos e mais uma evolução das perguntas. Em 2016, o desafio era compreender para onde a saúde estava caminhando. Em 2026, boa parte desse futuro já chegou. A questão para a próxima década será como conectá-lo, regulá-lo, financiá-lo e transformá-lo em melhores decisões e melhores resultados para as pessoas.

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E aqui as fotos do fórum.

Assista abaixo ao vídeo comemorativo dos 10 anos do FILIS!

OpenCare entra em nova fase de testes para avançar na interoperabilidade em saúde 

Apresentado no FILIS 2025, projeto do InovaHC retorna ao Fórum com visualizador clínico funcional, instituições conectadas e prova de conceito voltada à troca segura de informações 

Em 2025, o FILIS foi palco da assinatura de um Memorando de Intenções entre a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI) do Ministério da Saúde, a Abramed e o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), por meio do InovaHC. O acordo previu a implementação do OpenCare como projeto-piloto e a cooperação para ampliar a integração de dados, com privacidade, segurança e conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Um ano depois desse compromisso institucional, o OpenCare voltou ao evento para mostrar os avanços do projeto durante o Momento Transformação. Marco Bego, diretor-executivo do InRad-HCFMUSP e diretor de Inovação do InovaHC, e Rodrigo Amancio de Oliveira, diretor de Produtos da Unidade de Infraestrutura para Financiamentos da Trillia, novo negócio de inteligência de dados da B3, apresentaram a evolução da plataforma e as etapas percorridas para transformar o projeto em uma infraestrutura capaz de conectar informações clínicas entre diferentes instituições.

Nas palavras de Marco Bego, o OpenCare partiu de uma dificuldade recorrente no sistema de saúde: o paciente circula entre médicos, hospitais e serviços de medicina diagnóstica, mas suas informações permanecem distribuídas em diferentes sistemas. Muitas vezes, cabe a ele reunir exames, laudos e históricos produzidos ao longo da jornada e levá-los de um ponto a outro. “Hoje o nosso paciente é interoperável, mas os dados ainda não”, resumiu.

O OpenCare foi concebido como uma plataforma capaz de conectar instituições de saúde de maneira segura e padronizada. O projeto está estruturado sobre quatro eixos: conectividade entre sistemas, segurança e rastreabilidade das informações, continuidade do cuidado e apoio à decisão médica, com mais subsídios para o raciocínio clínico. 

A arquitetura tecnológica foi desenvolvida, o visualizador clínico já está em funcionamento e o projeto avançou para a etapa de prova de conceito, voltada a avaliar, em situações reais, como as informações podem circular de forma segura entre diferentes organizações. 

Da integração tecnológica ao uso no atendimento

Um dos avanços apresentados na 10ª edição do FILIS foi justamente a materialização dessa arquitetura em uma interface de uso clínico. Na fase atual, o visualizador reúne identificação do paciente e do atendimento, instituição e profissional responsável, diagnósticos, procedimentos, medicamentos, alergias, imunizações, resultados de exames laboratoriais, sinais vitais, observações médicas e laudos de exames de imagem — mas não as imagens propriamente ditas. 

A intenção é tornar invisível, para quem está na ponta do cuidado, boa parte da complexidade tecnológica necessária para localizar, conectar e apresentar essas informações. Enquanto hospitais, laboratórios e demais organizações mantêm seus próprios sistemas, a infraestrutura atua como uma camada de conexão entre eles.

É nessa frente que entra a Trillia, responsável pela infraestrutura tecnológica e de segurança do projeto. Rodrigo Amancio destacou a experiência do grupo na operação de infraestruturas que conectam diferentes participantes de um ecossistema e explicou que, no OpenCare, essa capacidade está sendo aplicada à circulação segura de informações em saúde.

Para Bego, porém, o desafio vai além da tecnologia. A construção depende de instituições dispostas a testar conjuntamente regras, fluxos e formas de gerar valor a partir da interoperabilidade. Nesta etapa, participam do OpenCare o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o A.C.Camargo Cancer Center, a Beneficência Portuguesa de São Paulo (BP), o Hospital Sírio-Libanês, o Grupo Fleury, a Dasa, o Grupo Sabin e o próprio HCFMUSP. O projeto é coordenado pelo InovaHC, conta com a infraestrutura tecnológica da Trillia e recebe o apoio do Ministério da Saúde, da ANS e da Abramed. 

“Não é um projeto de um, é um projeto de vários”, disse Bego, que agradeceu à Abramed por aproximar associados que “já sabem fazer interoperabilidade”. “Esse projeto só faz sentido quando estamos todos juntos”, afirmou.

Do paciente como “integrador” à integração dos dados

Para usar a plataforma, o profissional acessa o sistema durante o atendimento e, mediante consentimento do paciente, pode consultar informações disponíveis nas instituições conectadas. O fluxo prevê identificação protegida, localização das informações, auditoria dos acessos e apresentação dos dados em um visualizador clínico. Ao final da consulta, os dados clínicos trafegados pela plataforma são descartados, permanecendo os registros necessários à rastreabilidade da operação.

Esse formato evita, portanto, que o OpenCare funcione como mais um grande repositório centralizado de prontuários. A lógica já estava presente no projeto apresentado no FILIS 2025: manter as informações em suas bases de origem e permitir o intercâmbio quando necessário e autorizado.

POC prepara caminho para a próxima etapa

O cronograma apresentado no FILIS 2026 ajuda a dimensionar a evolução ocorrida ao longo do ano. Entre janeiro e fevereiro, o trabalho esteve concentrado no ingresso das instituições e na definição das regras de negócio. De fevereiro a abril, vieram certificações, conexões, testes e treinamentos. Entre abril e agosto, o planejamento previa a execução da prova de conceito, com operação, suporte e coleta de impressões dos participantes.

A etapa seguinte, prevista entre setembro e novembro, é dedicada à apuração dos resultados, comunicação dos aprendizados e preparação para uma eventual operação em maior escala. O momento atual ainda é de avaliação e os indicadores da POC deverão mostrar o que funcionou, quais ajustes são necessários e em que condições a infraestrutura poderá avançar.

Essa distinção é importante porque benefícios como redução de repetição de exames, maior eficiência operacional, melhor coordenação do cuidado e apoio a decisões clínicas mais ágeis aparecem no projeto como objetivos e potenciais ganhos da interoperabilidade. A prova de conceito é justamente a etapa que permitirá avaliar como esses efeitos se manifestam no ambiente real.

O retorno do OpenCare ao FILIS mostrou a passagem do compromisso institucional firmado em 2025 para uma etapa concreta de testes. Com a prova de conceito, o próximo desafio será analisar os resultados, realizar os ajustes necessários e identificar as condições para ampliar, com segurança, a troca de informações clínicas entre as instituições. 

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Ives Gandra leva ao FILIS reflexão sobre ética, valores e responsabilidade das lideranças

Em palestra na 10ª edição do Fórum, jurista relacionou avanço tecnológico, cidadania e valores; abertura do eixo ESG apresentou indicadores de governança das empresas associadas à Abramed

Um dos nomes de maior projeção do Direito brasileiro, Ives Gandra da Silva Martins, esteve entre os destaques da 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS) ao conduzir uma reflexão sobre ética, valores e responsabilidade em um momento marcado por rápidas transformações tecnológicas, institucionais e sociais.

Ao apresentar o convidado, Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed, destacou sua trajetória ligada aos temas da ética e da justiça e sua capacidade de dialogar com diferentes correntes políticas e institucionais. A palestra integrou o eixo ESG do evento, dedicado à governança. 

Em sua exposição, Ives Gandra levou a discussão para além dos mecanismos formais de controle e compliance e percorreu temas como filosofia, democracia, cidadania e relações humanas. Ele chamou a atenção para um paradoxo contemporâneo: a sociedade avança rapidamente em conhecimento, tecnologia e inteligência artificial, mas nem sempre na mesma velocidade quando se trata dos valores que orientam suas escolhas. 

“O que eu vejo hoje, que o mundo está perdendo, é esse sentido de valores”, afirmou.

Ao longo da apresentação, Gandra retomou as origens dos conceitos de ética e moral e refletiu sobre sua importância para a vida pública, profissional e social. Sua fala trouxe a responsabilidade para o plano individual ao lembrar que as instituições são formadas por pessoas e que, portanto, os princípios precisam se manifestar nas decisões tomadas diariamente.

Na saúde, ao abordar a relação entre médico e paciente, Gandra observou que, mesmo diante do avanço dos recursos tecnológicos, o cuidado continua apoiado na confiança, na responsabilidade e nas relações humanas. O jurista também fez um chamado ao exercício permanente da cidadania e à avaliação das próprias escolhas.

“Temos que fazer um exame de consciência”, afirmou, ao convidar o público a refletir sobre suas atitudes na família, na profissão, na sociedade e no exercício da cidadania.

Governança começa nos indicadores, mas precisa chegar à cultura

Claudia Cohn, membro do Conselho de Administração da Abramed e diretora-executiva da Dasa, abriu o eixo ESG apresentando indicadores das empresas associadas à entidade. Ela defendeu que a governança deve ultrapassar conselhos e estruturas administrativas para orientar as decisões tomadas diariamente nas organizações. Na medicina diagnóstica, isso envolve confiabilidade dos dados, padronização de processos, proteção das informações, segurança das decisões e inovação com responsabilidade.

A palavra que conecta esses elementos, segundo Claudia, é confiança. “Como conseguir que governança e ética sejam base de confiança no setor de medicina diagnóstica?”, questionou.

Os dados apresentados mostram que 100% das associadas possuem código de conduta formalizado e controles de conformidade com normas e leis. Todas também têm políticas de compliance implantadas ou em implementação, enquanto 93,6% contam com processos e rotinas padronizados e acessíveis.

Claudia destacou ainda o avanço dos processos de supervisão. Entre as empresas participantes do levantamento, 68,8% possuem auditoria interna de governança; 81,3% contam com comitê dedicado a riscos; e 75% possuem comitê de auditoria. No mapeamento das quatro categorias prioritárias — privacidade e dados; compliance e ética; riscos operacionais; e qualidade e segurança do paciente —, 81,3% das associadas identificam os riscos e adotam medidas para reduzi-los. Em tecnologia da informação e cibersegurança, esse percentual é de 75%.

Outro ponto de atenção foi a preparação das organizações para uma saúde cada vez mais digital. Quase 94% das associadas possuem contratos com cláusulas de proteção de dados, tema que ganha peso diante da expansão da inteligência artificial, da interoperabilidade e do uso de grandes bases de informações.

Claudia, porém, reforçou que a existência de regras e estruturas formais não encerra o trabalho de governança. “A formalização não resolve, se você não tiver ela atuante na ponta”, afirmou ao comentar os códigos de conduta.

Depois de apresentar os indicadores, Claudia permaneceu no palco ao lado de Cesar Nomura e Ives Gandra durante a palestra e a rodada de perguntas. Na conversa, ela relacionou as reflexões do jurista à rotina das organizações de saúde e reiterou que um código de conduta não pode permanecer apenas no papel, mas deve orientar a atuação de cada profissional, inclusive em decisões relacionadas a uma cirurgia, uma prótese, um diagnóstico, uma cobrança ou uma glosa.

A discussão colocou duas dimensões da governança lado a lado: de um lado, processos, indicadores, auditoria, compliance e gestão de riscos; do outro, os valores que orientam as pessoas responsáveis por colocar essas estruturas em funcionamento.

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