PEC que reduz jornada de trabalho avança ao Senado e acende alerta para reflexos na assistência à saúde

Abramed reforça apoio à qualidade de vida dos trabalhadores, mas alerta para a necessidade de considerar as particularidades do setor

A Câmara dos Deputados aprovou, no dia 27 de maio, a PEC nº 221/2019, que reduz a jornada máxima de trabalho e altera o modelo atual da escala 6×1. Pela proposta, a carga semanal passaria de 44 para 42 horas em até 60 dias após a promulgação da medida, chegando posteriormente a 40 horas semanais em até 14 meses. O texto também mantém o descanso semanal preferencialmente aos domingos e prevê flexibilizações para acordos coletivos e micro e pequenas empresas.

Para a Abramed, a defesa da qualidade de vida e da sustentabilidade das relações de trabalho é legítima e acompanha uma transformação já observada em diferentes setores da economia. Na saúde, porém, a implementação de mudanças relacionadas à jornada exige atenção às especificidades da assistência, à continuidade do cuidado e à segurança do paciente, especialmente diante do curto prazo previsto para adequação inicial das operações.

Na medicina diagnóstica, por exemplo, a operação funciona de forma ininterrupta e envolve atividades altamente especializadas, suporte à tomada de decisão clínica e atendimento a demandas de urgência e emergência. Nesse cenário, mudanças nas relações trabalhistas precisam avaliar, além dos aspectos operacionais, as particularidades do sistema de saúde e a qualidade dos serviços prestados à população.

“Estamos falando de um segmento que participa de forma decisiva na vida do paciente, com operações que funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana. É uma atividade que exige precisão, integração entre equipes, capacidade técnica e responsabilidade contínua com a assistência”, afirma Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

“Todos somos pacientes em algum momento da vida. Ao decidirmos como as atividades no setor devem ser organizadas, estamos decidindo como nós mesmos e nossas famílias seremos atendidos nos momentos de maior vulnerabilidade”, complementa.

A entidade ressalta ainda que a implementação de novos modelos de jornada deve considerar os desafios já enfrentados pelo setor, como a escassez de profissionais especializados, especialmente fora dos grandes centros urbanos.

O Brasil é um país continental, com realidades muito distintas entre regiões, municípios e tipos de serviço. Modelos rígidos de jornadas, aplicados de forma uniforme, tendem a desconsiderar essas diferenças e os efeitos podem ser sentidos justamente onde a oferta de saúde já é mais frágil.

Uma restrição de jornada sem planejamento pode reduzir ainda mais essa cobertura, criando lacunas assistenciais difíceis de suprir no curto prazo. Andrea Pinheiro, líder do Comitê de Comunicação da Abramed, destaca que os desafios relacionados a esse aspecto já fazem parte da rotina de empresas que atuam em diferentes regiões do país.

“Hoje, a saúde já enfrenta uma assimetria estrutural entre oferta e demanda de profissionais, com grandes desafios na contratação em diversas regiões, especialmente no interior. Em muitas localidades, outros setores econômicos disputam, inclusive, os mesmos talentos. Por isso, é importante que qualquer mudança relacionada à carga horária seja debatida levando em conta também os impactos sobre a sustentabilidade da assistência”, avalia.

Outro ponto que integra esse cenário é o papel da tecnologia e da Inteligência Artificial na reorganização das atividades da saúde. Para a Abramed, inovação e digitalização são aliadas fundamentais, mas não substituem o cuidado humano, que exige julgamento clínico, responsabilidade e contato direto com o paciente.

Esses são aspectos que seguem sendo valorizados pelas pessoas e essenciais para a qualidade da assistência. Diante de uma população que envelhece e demanda cada vez mais atenção, substituir pessoas qualificadas por soluções tecnológicas sem a devida avaliação representa um risco à qualidade dos serviços.

“A segurança do paciente está intrinsecamente ligada à qualificação dos profissionais e à capacidade de manter equipes preparadas para atender uma demanda crescente e cada vez mais complexa”, reforça William Malfatti, também líder do Comitê de Comunicação da Abramed.

Diante desse cenário, a entidade vem acompanhando os desdobramentos da proposta e seus possíveis impactos sobre a operação da saúde e da medicina diagnóstica, mantendo interlocução com entidades do setor, especialistas e representantes do ambiente regulatório e legislativo.

O tema tem mobilizado representantes dos comitês internos da associação e lideranças da saúde, com foco em continuidade assistencial, disponibilidade de profissionais, sustentabilidade operacional e qualidade do atendimento. “É fundamental que a implementação de mudanças considere a realidade dos serviços assistenciais no Brasil. O desafio é promover ambientes de trabalho mais saudáveis sem comprometer a capacidade de atendimento e a eficiência do setor”, conclui Milva Pagano.

Abramed amplia diálogo com ANS e Anvisa sobre soluções regulatórias para a medicina diagnóstica

Aproximação institucional reforça construção conjunta de agendas voltadas à qualidade dos serviços de saúde, segurança do paciente, excelência assistencial e sustentabilidade do setor

Reforçando seu papel na interlocução qualificada entre os prestadores de serviços de saúde e as principais autoridades regulatórias do país, a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) reuniu, em Brasília, lideranças do setor e representantes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para debater caminhos que garantam a sustentabilidade, a segurança jurídica e, acima de tudo, a qualidade da assistência prestada ao paciente.

Os debates ocorreram durante a Reunião Mensal de Associados, no dia 27 de maio, e foram pautados em torno da cooperação mútua e do compartilhamento de conhecimento técnico com o poder público. O primeiro painel abordou os desafios regulatórios do ecossistema de serviços de saúde, com participação de Thiago Campos, diretor da 5ª Diretoria da Anvisa, e de Edmilson Diniz Filho, gerente-geral de Tecnologia em Serviços de Saúde (GGTES) da Agência. A mesa foi moderada pela diretora-executiva da Abramed, Milva Pagano, e contou com a participação do presidente do Conselho de Administração da entidade, Cesar Nomura.

Thiago Campos apresentou um panorama estrutural da agência e reafirmou o compromisso com uma atuação orientada pela responsabilidade regulatória e pela busca de soluções que equilibrem acesso, sustentabilidade e segurança assistencial, destacando a diretriz da atual gestão de manter canais abertos e transparentes para a escuta ativa do setor produtivo.

Também foi abordado o desenvolvimento dos Roteiros Objetivos de Inspeção (ROIs), ferramentas metodológicas que buscam modernizar e uniformizar a linguagem entre quem produz e quem fiscaliza no território nacional, aproximando o setor produtivo das vigilâncias locais com critérios claros e baseados em evidências.

A Abramed reforçou ainda sua atuação próxima no processo de implementação da RDC 978 e reafirmou ainda sua disponibilidade para colaborar tecnicamente com a Anvisa, contribuindo com a experiência acumulada pelos associados na construção de ferramentas regulatórias e processos que fortaleçam o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária.

Diálogo com a ANS: regulação responsiva e equilíbrio na cadeia da saúde suplementar

O segundo bloco foi dedicado à agenda regulatória da saúde suplementar, com participação de Carla Soares, diretora de Gestão Interina da ANS. A mesa foi moderada por Cesar Nomura e contou com a presença de Milva Pagano e da vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed, Lídia Abdalla.

A diretora da ANS trouxe uma visão integrada do modelo atual, enfatizando o conceito de regulação responsiva e que a maturidade alcançada pela saúde suplementar permite uma atuação mais próxima das práticas do setor, promovendo boas práticas de governança e ampliando o diálogo entre operadoras e prestadores.

Ela também reconheceu a assimetria histórica nessa relação e sinalizou que a ANS tem trabalhado para ampliar sua capacidade de monitoramento e presença ao longo de toda a cadeia assistencial.

Foi consenso entre as lideranças da Abramed e a Agência que a medicina diagnóstica — eixo central da prevenção, do diagnóstico correto e da recuperação do paciente — precisa de previsibilidade, transparência e equilíbrio contratual para continuar investindo em inovação e evolução tecnológica.

Cesar Nomura alertou que cerca de 40% do parque tecnológico de alta complexidade do setor, incluindo tomógrafos, equipamentos de ressonância magnética e PET, entrará em fase de obsolescência nos próximos quatro anos.

Segundo ele, a renovação desse parque depende diretamente de um ambiente de maior previsibilidade e sustentabilidade financeira para o setor, tornando ainda mais relevante o avanço das discussões regulatórias em curso.

Carla Soares afirmou que o espaço de diálogo com as lideranças setoriais permanece aberto, reforçando que o aprimoramento contínuo da regulação é desejável e faz parte do papel institucional das agências reguladoras.

Ao final dos painéis, os participantes ressaltaram uma mensagem convergente entre reguladores, operadoras e prestadores: quando o paciente é colocado no centro das decisões, o diálogo técnico e institucional se fortalece.

Novo modelo de fiscalização da ANS: o que muda para operadoras e prestadores

A regulação responsiva já está em vigor e seus efeitos chegam até laboratórios e serviços de diagnóstico.

Neste mês, entrou em vigor o novo modelo de fiscalização da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que tem potencial para alterar a forma como operadoras, hospitais, clínicas e laboratórios se relacionarão daqui para frente.

O modelo aprovado abandona parte da lógica tradicional baseada apenas em punição e amplia a chamada regulação responsiva. Com isso, a ANS prioriza mecanismos de prevenção de conflitos, monitoramento de condutas e estímulo à autorregulação antes da aplicação direta de sanções.

A mudança também atualiza e reorganiza os tipos infracionais e estabelece reajustes escalonados das multas. Dependendo da infração, os valores podem se tornar significativamente mais altos, sobretudo em situações de reincidência ou falhas consideradas sistêmicas.

Assim, a ANS passa a ter quatro modalidades de ação escalonadas:

  • A Ação Planejada Preventiva de Fiscalização (APP) é a mais leve e tem caráter orientador, sem previsão de sanção, voltada para situações de menor complexidade;
  • Para situações de risco moderado, será adotada a Ação Planejada Focal (APF), ainda sem aplicação de punição, mas com acompanhamento mais próximo; 
  • Em casos mais graves ou em que as duas medidas anteriores não surtirem efeito, a agência entrará com a Ação Planejada Estruturada (APE) e a multa poderá chegar a R$ 1 milhão por determinação descumprida, além da possibilidade de restrição do exercício do cargo para o administrador da operadora;
  • Por fim, a Ação Coercitiva Incidental (ACI) é reservada para casos de descumprimento relevante ou aumento expressivo de reclamações, com multa diária entre R$ 5 mil e R$ 12,5 mil, conforme o porte da operadora.

Em relação aos valores das penalidades, que terão reajuste escalonado em três etapas até 2028, a elevação total chegará a 170% sobre os valores vigentes atualmente. Por exemplo: uma multa que era fixada em R$ 80 mil, hoje passou a ser de R$ 108 mil e chegará a R$ 162 mil em janeiro de 2027 e a R$ 216 mil em janeiro de 2028.

Isso deve aumentar a pressão sobre toda a cadeia. Rastreabilidade, governança, transparência de processos, capacidade de resposta e redução de falhas evitáveis se tornam ainda mais necessárias.

Se antes muitos conflitos acabavam concentrados em glosas, negativas, prazos ou disputas operacionais pontuais, agora cresce a expectativa de que as empresas consigam demonstrar controles internos, fluxos assistenciais organizados, critérios técnicos documentados e mecanismos efetivos de prevenção de inconformidades.

O impacto para laboratórios e hospitais

Na medicina diagnóstica, os efeitos tendem a ser mais complexos. O setor opera com alto volume assistencial, múltiplas integrações tecnológicas, diferentes regras contratuais e crescente digitalização da jornada do paciente. Pequenas inconsistências cadastrais, falhas de autorização, problemas de comunicação entre sistemas ou ausência de rastreabilidade documental podem deixar de ser apenas gargalos administrativos e representar risco regulatório.

Ao mesmo tempo, o novo modelo cria um ambiente que tende a valorizar estruturas mais maduras de compliance, interoperabilidade e governança de dados.

Laboratórios e hospitais precisarão olhar com mais atenção para alguns pontos sensíveis, como documentação assistencial, padronização de fluxos, rastreabilidade de autorizações, registro adequado das interações com operadoras, governança de dados e gestão de indicadores de qualidade.

“O novo modelo da ANS surge em um momento em que o setor já convive com pressão de custos, judicialização crescente, necessidade de ganho de eficiência e incorporação acelerada de tecnologia. A fiscalização, portanto, deixa de ser apenas um tema jurídico ou regulatório e passa a fazer parte da estratégia operacional das instituições de saúde”, avalia Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

Inteligência artificial, interoperabilidade e valor em saúde pautam debate da Abramed na Hospitalar 2026

Entre equipamentos em fim de vida útil, excesso de informação e modelos de remuneração, lideranças discutiram os desafios de sustentar a evolução da medicina diagnóstica no Brasil. 

Temas como inteligência artificial, interoperabilidade de dados, sustentabilidade financeira e a relação entre inovação e acesso à saúde conduziram o primeiro debate promovido pela Abramed durante a 31ª edição da Hospitalar. A discussão mostrou como a medicina diagnóstica vem passando por uma transformação acelerada, ao mesmo tempo em que precisa enfrentar desafios relacionados à eficiência operacional, integração de informações e sustentabilidade do sistema de saúde.

Com esse foco, a entidade reuniu lideranças do setor no painel “Tecnologia e Inovação na Medicina Diagnóstica: Tendências Estratégicas para Crescimento Sustentável”, moderado por Marcos Queiroz, líder do Comitê Técnico de Radiologia e Diagnóstico por Imagem da Abramed e diretor do Hospital Israelita Albert Einstein.

Participaram Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês; Douglas Penha, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Soluções Digitais na Roche Diagnóstica; Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin; e Rodrigo Lorenzo, diretor de diagnóstico por imagem da Siemens Healthineers para a América Latina.

Marcos Queiroz iniciou o debate chamando atenção para a pressão crescente sobre a medicina diagnóstica, impulsionada pelo envelhecimento populacional, pelo aumento do volume e da complexidade dos exames e pela incorporação de tecnologias voltadas à medicina preditiva e personalizada.

A trajetória do Grupo Sabin foi um dos pontos de partida desse debate. Lídia Abdalla compartilhou como a empresa conseguiu crescer de forma expressiva, mantendo seus padrões de excelência e qual o papel da tecnologia nesse processo. 

“Integramos todos os nossos sistemas para ter uma visão única do paciente. O cliente valoriza muito o histórico dos exames e hoje conseguimos entregar um diferencial enorme para médicos e pacientes”, afirmou. Para ela, no entanto, ferramentas são meio, não fim: “Nossos pilares são tecnologia, qualidade e gente. Gente é sempre o principal”.

Um dos principais paradoxos atuais da medicina diagnóstica também foi debatido: a abundância de dados que ainda não se traduz em inteligência aplicada. “Geramos muitos dados, mas ainda não usamos todos eles. O desafio é ter dados mais estruturados para trazer insights e tomar decisões, rumo a uma medicina de precisão cada vez mais personalizada”, destacou Douglas Penha. 

Ele também apontou a patologia digital e o conceito de analisador digital como as próximas fronteiras de inovação, além da inteligência artificial como ferramenta para democratizar o acesso a especialistas em regiões de escassez de profissionais. 

Essa visão foi endossada por Cesar Nomura, que ressaltou que o setor ainda utiliza pouco o potencial da jornada integrada do paciente: “As informações ainda estão muito segmentadas. Enquanto não integrarmos tudo isso com custo adequado, não conseguiremos entregar valor”.

Lídia Abdalla complementou com um questionamento que resume bem o desafio coletivo: “Temos ilhas de excelência no Brasil. Como conectá-las para que isso vire valor para o sistema como um todo? Como propor melhorias sem dados e sem informação?”.

A fragilidade econômica do setor, a relação com operadoras e os modelos de remuneração também foram discutidos. Com cerca de 35% dos equipamentos no Brasil em fim de vida útil e ausência de remuneração por qualidade, o risco de sucateamento é real. “Você usa um tomógrafo que projeta menos radiação no paciente e não será melhor remunerado por isso”, alertou Cesar Nomura. 

Para Douglas Penha, a saída rumo ao próximo estágio passa por mostrar números que comprovem que as novas tecnologias reduzem custos no longo prazo — uma mudança que, conforme adiantou a CEO do Grupo Sabin, exigirá coragem e disposição de ambos os lados para manter o equilíbrio e o benefício para todos.

Na plateia, Claudia Cohn, membro do Conselho de Administração da Abramed, levantou a questão da confiança e do prazo necessário para que investimentos em saúde gerem retorno, especialmente diante da rotatividade dos beneficiários nos planos. Rodrigo Lorenzo destacou o papel das empresas contratantes na valorização da qualidade assistencial durante as negociações com operadoras, para ajudar a minimizar as perdas.

Ele também trouxe a perspectiva da indústria e explicou o desafio de incorporar tecnologia em um setor de alto custo, especialmente na área de imagem. Em sua opinião, a solução passa por parcerias de valor, que considerem a venda de equipamentos e todo o ciclo de vida da tecnologia. A visão de um hub integrado de soluções diagnósticas, inspirado em modelos como o do Salesforce, foi apresentada como caminho para reduzir custos e ampliar o acesso à inovação.

Ao final, Cesar Nomura reforçou que a interoperabilidade pode ajudar o setor a operar com mais eficiência e gerar valor real ao paciente. “Ninguém quer ganhar em cima de algo que não é necessário. A interoperabilidade nos permite olhar para o setor com mais eficiência e levar valor ao paciente: fazer o que precisa ser feito”, concluiu.

O debate deixou evidente que a transformação da medicina diagnóstica não depende apenas da incorporação de novas tecnologias, mas da capacidade do setor de reorganizar relações, integrar informações e construir modelos sustentáveis de financiamento e remuneração.

Em um ambiente cada vez mais pressionado por eficiência, envelhecimento populacional e expansão da demanda, inovação isolada já não basta. O desafio agora é fazer com que avanço tecnológico, qualidade assistencial e viabilidade econômica consigam evoluir no mesmo ritmo.

Confira aqui o painel “Qualidade e Segurança na Medicina Diagnóstica”, que também foi realizado pela Abramed durante a Hospitalar 2026.

Qualidade e segurança na medicina diagnóstica: cultura, dados e o desafio da melhoria contínua

Da acreditação à interoperabilidade, debate da Abramed na Hospitalar mostrou os desafios de sustentar a excelência laboratorial em um cenário de maior complexidade diagnóstica e pressão financeira.

A qualidade e a segurança vêm ganhando centralidade nas discussões sobre o futuro da medicina diagnóstica, especialmente diante do avanço tecnológico, das novas exigências regulatórias e da crescente complexidade da assistência à saúde. Garantir processos seguros, rastreáveis e resultados confiáveis tornou-se um desafio estratégico para o setor.

Com esse foco, a Abramed promoveu, durante a Hospitalar, o painel “Qualidade e Segurança na Medicina Diagnóstica”, moderado por Milva Pagano, diretora-executiva da entidade. A sessão reuniu Luiza Bottino, gerente de P&D da Controllab; Carlos Eduardo Ferreira, líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed e gerente médico do Laboratório Clínico do Einstein Hospital Israelita; e Guilherme Ferreira de Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), para debater os desafios regulatórios, operacionais e tecnológicos envolvidos na melhoria contínua dos serviços diagnósticos e na segurança do paciente.

O encontro se iniciou com a palestra de Luiza Bottino, que apresentou o papel do controle externo da qualidade na segurança do paciente e mostrou como o erro laboratorial pode impactar diretamente a vida do paciente, a reputação do laboratório e a cadeia de fornecedores. 

Conforme explicou, o controle externo funciona como antídoto para a miopia da gestão: ao comparar o desempenho com outros players do mercado, o laboratório consegue monitorar tendências, imprecisões e falhas antes que elas cheguem à rotina clínica.

Luiza também ressaltou que, além da função regulatória, os dados gerados por esses programas apoiam decisões estratégicas das instituições, incluindo avaliação de metodologias, desempenho de equipamentos e identificação de oportunidades de melhoria.

“O controle externo entrega dados de forma rápida para a sociedade”, reforçou, apontando que laboratórios com participação contínua em programas de controle externo apresentam melhoria de 8% no desempenho.

De acordo com sua apresentação, o futuro passa pela automação, para que a ferramenta seja incorporada à rotina sem impactar o fluxo operacional, e por um ecossistema integrado de qualidade, com painéis que reúnam desempenho de controle interno, externo e comparativo entre unidades de uma mesma rede.

No debate, realizado durante a segunda parte do encontro, Guilherme Ferreira de Oliveira lembrou que 70% das decisões médicas são baseadas em resultados laboratoriais e que a medicina diagnóstica brasileira não deve nada a nenhuma outra no mundo. Apesar disso, provar esse valor com dados objetivos ainda é um desafio. 

“O laboratório provoca desfechos intermediários, o que dificulta a medição. Depositamos na interoperabilidade a esperança de medir isso de forma mais sólida”, afirmou.

Carlos Eduardo Ferreira complementou, destacando a crescente complexidade do cenário: a medicina caminha para painéis com 50 a 100 indicadores integrados, e o desafio de garantir qualidade se amplifica nessa escala. “Estamos saindo da era do achismo para uma era em que implementamos a cultura de dados. É importante ter informação, mas também conduta e tomada de ação diante de resultados inadequados”, pontuou.

Qualidade como cultura, não como obrigação

Um dos momentos mais ricos do debate foi a discussão sobre o que sustenta a qualidade no longo prazo. Para Guilherme, qualidade, resultados confiáveis e segurança do paciente não podem ser tratados como caixas separadas. Além disso, tudo começa no topo. “Se a alta direção não estiver comprometida, haverá muitas barreiras. As pessoas precisam comprar esse discurso e entender que o problema não é errar, mas não descobrir a não conformidade”. 

Luiza acrescentou que um dos maiores desafios para sustentar programas de qualidade está na gestão de pessoas e na disseminação da cultura organizacional. “Se a qualidade não estiver incorporada na cultura da empresa, ela não ganha tração”.

Entre os temas abordados, os participantes comentaram as contradições do setor. As certificações ainda se concentram nos grandes laboratórios, em um percentual considerado baixo diante do universo total do setor. O presidente da SBPC/ML apontou o fator financeiro como determinante: enquanto a inflação acumulou 154% em determinado período, a remuneração dos laboratórios cresceu apenas 10%.

“A remuneração não acompanhou a escala de realização de exames. Precisamos dar condições para que todos os laboratórios invistam em qualidade. A qualidade tem preço, mas ela é um investimento”, alertou.

Carlos Eduardo apontou outra distorção que afeta diretamente o acesso: um laboratório pode realizar o mesmo exame com tecnologias completamente diferentes e receber a mesma remuneração.

Na etapa final, os debatedores falaram sobre soluções diagnósticas mais avançadas, como testes moleculares e tecnologias ômicas. O líder do Comitê de Análises Clínicas da Abramed destacou que boa parte dessas soluções ainda permanece restrita a poucos centros no Brasil e que o setor precisa avançar também em técnicas essenciais que ainda não chegam de forma adequada a toda a população.

Outra provocação trazida por Milva para a mesa foi que, embora a qualidade esteja no centro da operação laboratorial, grande parte desse trabalho permanece invisível para o paciente, que percebe o atendimento e a experiência final, enquanto boa parte da construção da qualidade acontece nos bastidores. 

A discussão terminou com uma reflexão sobre o próprio modelo da saúde suplementar. Muitas vezes, o paciente sequer consegue escolher o laboratório que deseja utilizar, já que essa decisão costuma estar vinculada às operadoras e aos contratos corporativos. Para Guilherme, essa desconexão entre paciente, assistência e decisão sobre o cuidado também é um dos desafios que o setor precisará enfrentar.

Confira aqui o debate “Tecnologia e Inovação na Medicina Diagnóstica: Tendências Estratégicas para Crescimento Sustentável”, também promovido durante a Hospitalar 2026 pela Abramed.

Abramed debate IA, interoperabilidade e transformação digital no diagnóstico por imagem durante a JPR 2026

Especialistas abordaram desde os impactos da IA na rotina profissional até os desafios regulatórios, operacionais e de infraestrutura do setor..

A radiologia já convive com a Inteligência Artificial há anos. O desafio agora é discutir como ampliar o uso dessas ferramentas com segurança, qualidade, interoperabilidade e sustentabilidade operacional dentro das instituições de saúde.

Foi esse o tom do painel promovido pela Abramed durante a Jornada Paulista de Radiologia 2026 (JPR), um dos principais encontros de diagnóstico por imagem da América Latina. Com o tema “Como IA, Automatização e Fluxos Digitais estão Redesenhando o Trabalho Médico”, o debate reuniu especialistas da Medicina Diagnóstica, indústria e academia para discutir o que já mudou na prática médica e o que ainda trava a adoção dessas soluções em larga escala.

A abertura foi conduzida por Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, que reforçou o propósito da Abramed de ampliar o acesso aos serviços com qualidade e segurança.  O debate foi moderado por Marcos Queiroz, membro do Conselho de Administração da Abramed e líder do Comitê Técnico de Diagnóstico por Imagem da entidade. Os participantes foram Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed; Giovanni Guido Cerri, presidente dos Conselhos dos Institutos de Radiologia (InRad) e de Inovação (InovaHC) do Hospital das Clínicas; João Paulo Souza, chefe-executivo da GE HealthCare no Brasil; e Leonardo Vedolin, vice-presidente Médico e de Operações da Dasa.

Giovanni Cerri lembrou que boa parte da Inteligência Artificial já está incorporada aos equipamentos e aos fluxos da radiologia há anos, muitas vezes sem que os próprios profissionais percebam. Para ele, a grande mudança agora está na incorporação dos algoritmos ao raciocínio diagnóstico do radiologista.

Ao comparar o momento atual com a chegada do Picture Archiving and Communication System (PACS) — sistema desenvolvido para armazenar, gerenciar e distribuir imagens médicas de maneira digital nos anos 90 —, Cerri afirmou que toda transformação tecnológica enfrenta resistência inicial. “O grande desafio é a capacitação”, resumiu. 

Segundo ele, os médicos precisarão dominar não apenas conhecimento técnico, mas também tecnologia, gestão, telemedicina e Inteligência Artificial.

Leonardo Vedolin, por sua vez, trouxe a visão de quem tenta transformar inovação em operação real dentro de uma estrutura de grande escala. E foi direto ao ponto: testar Inteligência Artificial é muito mais simples do que fazê-la funcionar no dia a dia.

“Dez anos depois de ter iniciado isso na Dasa, testamos 595 algoritmos, dos quais 592 falharam. Só três funcionaram”, exemplificou.

Em sua visão, muitas soluções funcionam em ambientes controlados, mas perdem desempenho quando precisam operar em escala, com fluxos complexos, diferentes perfis populacionais e limitações de infraestrutura. Vedolin também chamou atenção para barreiras financeiras e culturais. Em muitos casos, a tecnologia resolve um problema técnico, mas não fecha a conta operacional.

Ele também abordou os impactos distintos da IA sobre remuneração e mercado de trabalho.  Na sua leitura, os profissionais que entenderem seu papel como supervisores de sistemas sairão na frente. 

Outros aspectos levantados por ele foram a regulação e a recente norma do Conselho Federal de Medicina sobre Inteligência Artificial aplicada à prática médica, incluindo temas como consentimento informado e responsabilidade profissional.

Do ponto de vista regulatório, Cesar Nomura reforçou que o setor de saúde precisa ocupar espaço nas discussões sobre o tema antes que decisões sejam tomadas sem conhecimento técnico da assistência.

Ele citou as discussões do projeto de lei sobre IA que começou a tramitar no Senado e criticou versões iniciais que classificavam qualquer uso da tecnologia em saúde como “alto risco”, o que poderia inviabilizar aplicações já incorporadas à rotina médica.

“Se não formos protagonistas para mostrarmos a importância da Medicina Diagnóstica e da Inteligência Artificial, muitas vezes são os políticos e advogados que decidem”, enfatizou.

Nomura também trouxe a discussão para interoperabilidade e compartilhamento seguro de dados. Segundo ele, a fragmentação das informações ainda gera desperdício, repetição desnecessária de exames e perda de eficiência para toda a cadeia.

“Teremos que mudar essa cultura para oferecer o melhor para quem precisa, no momento certo”, ressaltou.

Ao abordar os desafios de infraestrutura, o presidente do Conselho de Administração da Abramed chamou atenção para o envelhecimento do parque de imagem brasileiro. O Brasil possui cerca de 12 mil equipamentos de tomografia e ressonância magnética, dos quais aproximadamente 40% têm mais de 11 anos de uso. “A estimativa é que seriam necessários cerca de R$ 23 bilhões para renovar esse parque tecnológico nos próximos anos”.

João Paulo Souza apresentou a visão da indústria sobre o assunto e afirmou que o setor deixou de vender apenas equipamentos e passou a operar em uma lógica de plataformas, softwares e integração de ecossistemas digitais.

“A indústria por muito tempo vendeu ferro, vendeu caixas. As empresas agora estão vindo com uma gestão de solução”.

Souza comentou que o avanço da Inteligência Artificial acelerou uma mudança importante em relação aos equipamentos, que já não são apenas geradores de imagem, mas estruturas capazes de organizar dados, identificar padrões e apoiar decisões clínicas em tempo real.

Ele chamou atenção para um problema recorrente no setor: a distância entre a velocidade da inovação e a capacidade de as instituições de absorverem essas tecnologias. “Quando a infraestrutura não está preparada, a tecnologia frustra”, pontuou.

O chefe-executivo da GE HealthCare no Brasil fechou o debate com dados do mercado: dos 1.430 dispositivos registrados com uso ativo de IA, 76% estão na radiologia — e o mercado global de IA para saúde, hoje em 36 bilhões de dólares, deve crescer 40% ao ano até 2032.

Ao reunir diferentes agentes do setor, a Abramed contribui para ampliar o debate sobre os caminhos da transformação digital na Medicina Diagnóstica brasileira. 

Abramed debaterá inovação, qualidade e inteligência de dados em programação especial na Hospitalar 2026

Com dois painéis que reúnem lideranças de referência na medicina diagnóstica, a entidade participa da maior feira de saúde da América Latina. Associados e parceiros têm 15% de desconto no ingresso.

A Hospitalar, principal evento de saúde da América Latina, reunirá entre os dias 19 e 22 de maio de 2026, no São Paulo Expo, lideranças, empresas e especialistas para debater os caminhos da transformação do setor. Em sua 31ª edição, a feira deve repetir o alto volume de negócios e a presença internacional, consolidando-se como um dos principais espaços de discussão técnica e estratégica do tema no país.

Na edição deste ano, o Summit Abramed será realizado no dia 19 de maio, das 14h30 às 17h40, e terá uma programação especial na Arena 3 da Plaza Hospitalar, sob o macrotema “Inovação, Qualidade e Inteligência de Dados: O Futuro da Medicina Diagnóstica”. 

A proposta reflete a atuação da entidade na articulação de temas centrais para o setor, ao conectar o avanço tecnológico — como inteligência artificial e soluções digitais — com a garantia de qualidade e segurança dos serviços e o uso estratégico de dados para apoiar decisões clínicas e de gestão, reforçando o papel da medicina diagnóstica como base para um cuidado mais integrado, eficiente e orientado a valor.

“Falar sobre inovação, qualidade e inteligência de dados é tratar dos elementos que, juntos, orientam a evolução do cuidado em saúde. Na medicina diagnóstica, essa integração permite transformar informação em decisão, com mais precisão, segurança e impacto real na jornada do paciente”, comenta Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, que fará a abertura do Summit.

Debates

O primeiro debate abordará “Tecnologia e Inovação na Medicina Diagnóstica: Tendências Estratégicas para Crescimento Sustentável”, sob moderação de Marcos Queiroz, líder do Comitê Técnico de Radiologia e Diagnóstico por Imagem da Abramed e diretor do Hospital Israelita Albert Einstein.

O painel reunirá Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês; Douglas Penha, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Soluções Digitais na Roche Diagnóstica; Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin; e Rodrigo Lorenzo, managing director de Imagem Diagnóstica para a América Latina da Siemens Healthcare.

A sessão abordará as principais tendências e inovações que estão redesenhando o setor e explorará como a tecnologia pode apoiar decisões mais precisas, ampliar a eficiência dos serviços e sustentar o crescimento das organizações. 

O segundo bloco será dedicado à “Qualidade e Segurança na Medicina Diagnóstica”, com moderação de Milva Pagano. A sessão começa com palestra de Luiza Bottino, gerente de P&D da Controllab, sobre o papel do controle externo da qualidade na segurança do paciente.

Ela também compõe a mesa de debate, com Carlos Eduardo Ferreira, líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed, e Guilherme Ferreira de Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML). O foco serão os desafios regulatórios, operacionais e tecnológicos envolvidos na garantia de processos seguros, resultados confiáveis e melhoria contínua dos serviços diagnósticos.

A edição 2026 da Hospitalar contará ainda com múltiplos espaços de conteúdo, incluindo arenas temáticas sobre Inteligência Artificial, gestão, regulação e experiência do paciente, ampliando o debate sobre os desafios e oportunidades do setor.

“Participar deste evento é uma oportunidade de contribuir com discussões que estão no centro das transformações da saúde, ao lado de lideranças que têm papel ativo na construção de soluções para o setor no Brasil”, afirma Milva.

Condições especiais para associados

A Abramed também terá um estande próprio no espaço B-137 — no mesmo local da edição anterior. Associados e parceiros da entidade poderão usar o cupom ABRAMED15 para obter 15% de desconto nos ingressos de visitante e congressista. O benefício não é válido para a categoria Visitante Lounge. Inscrições e programação completa em https://www.hospitalar.com.

Abramed na Hospitalar 2026

Inovação Incremental: como solucionar os desafios da Medicina Diagnóstica com recursos tecnológicos já disponíveis no mercado?

Com avanço em soluções de automação e na nuvem na saúde, setor aposta em tecnologias consolidadas para otimizar fluxos, reduzir desperdícios e melhorar a experiência do paciente

Na corrida da transformação digital que impulsiona diferentes setores da economia e da sociedade, incluindo o universo da saúde e da Medicina Diagnóstica, é muito comum que os olhares se voltem para a próxima tendência disruptiva capaz de trazer novos paradigmas para o mercado e nosso dia a dia.

No entanto, é na chamada inovação incremental – aquela que se baseia em tecnologias já existentes, implementadas para aprimorar processos e recursos – que organizações do Brasil e do mundo concentram boa parte de seus esforços de digitalização na busca por mais eficiência, qualidade e sustentabilidade financeira. 

E, na Medicina Diagnóstica, em que grandes volumes de atendimentos e rotinas operacionais – como as solicitações de autorização, agendamentos, abertura de fichas, preenchimento de documentações e registros de cobranças – são processados diariamente, esse modelo de inovação que busca, por exemplo, maximizar o uso de ERPs, plataformas de auto-atendimento, sistemas de automação e soluções na nuvem, é especialmente relevante.

“A incorporação destas tecnologias já disponíveis no mercado tem tornado a experiência de todos os envolvidos no atendimento muito mais fluida, uma vez que elas tornam os processos centrais do setor mais seguros, ágeis, menos burocráticos e com um maior nível de informação que, por sua vez, melhora a tomada de decisões e permite a otimização do gerenciamento e da rastreabilidade de todo o workflow. Tudo isso potencializa a experiência para o paciente, para o colaborador e para o corpo clínico, trazendo ainda resultados práticos para a organização em termos de fluxos, tempos de atendimento e resultados financeiros”, afirma Júlio Vieira, Diretor de Negócios e Estratégias no HCor e membro do Conselho de Administração da Abramed.

E, quando lançamos um olhar para tecnologias já consolidadas no mercado, é positivo observar seu gradativo avanço no setor de saúde. O relatório Healthcare Cloud Computing Market aponta, por exemplo, que os investimentos em computação na nuvem devem crescer 17,5% até 2029 no segmento, ao passo que, segundo o estudo Medical Automation Market Size, os processos de automação na medicina já movimentaram mais de US$ 52 bilhões em todo o mundo, trazendo avanços e eficiência para o campo dos diagnósticos e exames de pacientes.

Na prática, isso significa enfrentar gargalos históricos da Medicina Diagnóstica com soluções, via de regra, de menor custo para as organizações e que podem ser integradas por meio de APIs (interfaces e protocolos de programação que facilitam a conexão entre sistemas) e dos próprios ERPs das empresas.

“Na minha visão, o próximo passo da transformação digital da Medicina Diagnóstica consiste, justamente, em explorar de modo mais estratégico os recursos de tecnologias já existentes. A maioria das empresas já tem ERPs em funcionamento, por exemplo, mas não utilizam todo o seu potencial. Temos também muitos sistemas que solucionam problemas específicos do setor. São ferramentas baratas, já maduras, que podem ser integradas e que resolvem gargalos em larga escala, mas que ainda dependem de uma maior maturidade do setor em sua jornada de digitalização. Isto inclui desde a automação de processos operacionais (elegibilidade, autorizações), e robôs que executam tarefas repetitivas (faturamento) e até softwares que aceleram a produção de exames”, diz Júlio Vieira.

Dentro do campo das inovações incrementais, Júlio explica ainda que outro pilar que pode ser melhor explorado pela Medicina Diagnóstica envolve os sistemas de predição, que combina o uso de dados, machine learning e algoritmos de inteligência artificial para melhorar a previsibilidade em processos como o planejamento de compras, gestão de estoques e dos fluxos logísticos do setor.

“Temos um case importante nesse sentido e que contou não só com a implantação de tecnologia de predição, mas também com a revisão de políticas de planejamento, saldos de estoques, distribuição entre os diversos pontos de consumo e estabelecimento de cotas e implantação de VMI (projeto em que o fornecedor apoia e executa o planejamento de compras e distribuição) no Hcor. Este projeto gerou uma economia de R$ 9 milhões para o hospital, assegurou o estoque e a disponibilidade de todos os itens padronizados, racionalizou o consumo, reduziu o índice de perdas e vencimentos, diminuindo ainda a necessidade de compras de urgência”, acrescenta o  Diretor de Negócios e Estratégias no HCor e membro do Conselho de Administração da Abramed.

Os ganhos da inovação incremental podem ser observados também no dia a dia de pacientes. Segundo estudo da Abramed, por exemplo, já em 2023, tivemos um aumento de 54% no número de exames ou laudos acessados digitalmente em relação a 2022. Na comparação com 2021, o volume dobrou.

Esse número é reflexo de um ecossistema de saúde mais integrado e que explora com mais eficiência tecnologias que permitem a informatização de seus processos. Para elevar o patamar dessa corrida tecnológica, é fundamental que as empresas do setor reestruturem protocolos e treinem suas equipes para que possam atuar em ambientes organizacionais com maiores níveis de digitalização. Afinal de contas, antes de reinventar a roda, é fundamental fazer um melhor uso de recursos subutilizados.