Por Daniela de Andrade Bernardo
Durante muito tempo, as discussões sobre sustentabilidade estiveram concentradas em aspectos econômicos, ambientais e de eficiência operacional. Embora essas dimensões continuem indispensáveis, elas já não são suficientes para explicar a capacidade de uma organização de permanecer competitiva, inovadora e resiliente no longo prazo.
Nas organizações de saúde, a sustentabilidade depende cada vez mais da forma como as pessoas trabalham, se desenvolvem e permanecem nas instituições. Em um setor caracterizado por alta complexidade técnica, forte pressão regulatória e responsabilidade direta sobre a segurança do cuidado, torna-se necessário incorporar uma dimensão muitas vezes tratada de forma periférica: a sustentabilidade humana.
A medicina diagnóstica retrata com clareza essa realidade. Dados da 8ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico mostram que as empresas associadas realizaram aproximadamente 1,13 bilhão de exames em 2025. Além da contribuição assistencial, o setor apresenta expressiva movimentação no mercado de trabalho. As associadas reúnem 91.602 colaboradores e registraram quase 29 mil admissões ao longo do ano. Aproximadamente 43% dos colaboradores possuem formação técnica ou superior, enquanto cerca de 80% atuam nas áreas operacional e técnica.
Esses números evidenciam não apenas a relevância econômica e assistencial da medicina diagnóstica, mas também a importância estratégica de atrair, desenvolver e reter talentos em um cenário de intensa transformação tecnológica e aumento da demanda por assistência à saúde.
O envelhecimento da população impulsiona a demanda por exames e acompanhamento diagnóstico, ao mesmo tempo em que as empresas convivem com profissionais de diferentes gerações. Nesse contexto, a sustentabilidade humana passa também pela capacidade de preservar conhecimento, estimular a transferência de experiência e promover atualização contínua ao longo de trajetórias profissionais cada vez mais longas.
Mais do que programas isolados de qualidade de vida ou iniciativas pontuais de bem-estar, a sustentabilidade humana representa a capacidade de uma organização criar condições para que seus profissionais exerçam suas atividades com segurança, saúde, respeito e perspectivas concretas de evolução profissional. Em outras palavras, não há organização sustentável sem relações de trabalho sustentáveis.
Questões relacionadas à saúde, diversidade, inclusão, desenvolvimento profissional, liderança e clima organizacional deixaram de ser temas restritos às áreas de Recursos Humanos. Hoje, impactam resultados, reputação institucional, continuidade operacional e qualidade assistencial. Essa mudança exige que lideranças, conselhos de administração, áreas jurídicas, compliance e gestão de pessoas atuem de forma integrada. Afinal, riscos humanos também são riscos corporativos.
A própria evolução regulatória sinaliza nessa direção. A inclusão dos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais, previsto na NR-01, reforça a necessidade de tratar a saúde e a organização do trabalho de forma estruturada, preventiva e integrada à gestão de riscos. A cartilha da Abramed “NR-1 e Riscos Psicossociais no Trabalho para Serviços de Medicina Diagnóstica” contribui para essa reflexão no setor. O adoecimento, os conflitos recorrentes e os elevados índices de afastamento não produzem apenas impactos individuais. Eles afetam produtividade, retenção de talentos e sustentabilidade institucional.
No setor da saúde, onde decisões são tomadas diariamente em contextos de elevada responsabilidade, a construção de ambientes de trabalho saudáveis torna-se um requisito estratégico. A qualidade do cuidado prestado ao paciente depende, em grande medida, das condições oferecidas aos profissionais que atuam em toda a jornada assistencial.
Ao mesmo tempo, automação, digitalização, inteligência artificial e análise avançada de dados ampliam a capacidade diagnóstica, aumentam a eficiência operacional e impulsionam a geração de conhecimento. Entretanto, o avanço tecnológico não reduz a relevância das pessoas. Ao contrário.
Quanto mais sofisticadas se tornam as ferramentas, maior é a necessidade de profissionais preparados para interpretar informações, exercer julgamento crítico, supervisionar processos e garantir que a inovação seja incorporada com qualidade, segurança e responsabilidade. O verdadeiro desafio, portanto, não está em substituir pessoas por tecnologia, mas em desenvolver pessoas capazes de potencializar seus benefícios.
A sustentabilidade humana não deve ser compreendida como uma agenda paralela às prioridades organizacionais. Ela constitui um elemento central da governança, da gestão de riscos e da capacidade de geração de valor das instituições de saúde.
A medicina diagnóstica construiu sua relevância combinando ciência, tecnologia e inovação. O próximo ciclo de crescimento do setor dependerá da capacidade de combinar esses mesmos atributos com uma estratégia consistente de desenvolvimento humano. Porque, em um ambiente cada vez mais automatizado, o diferencial competitivo não estará apenas na tecnologia disponível, mas na qualidade das pessoas capazes de transformá-la em valor para pacientes, profissionais e para todo o sistema.
Daniela de Andrade Bernardo
Advogada, sócia da Andrade Mariano Advogados e consultora trabalhista da Abramed.