Sustentabilidade humana: um imperativo estratégico para o futuro das organizações de saúde

Por Daniela de Andrade Bernardo

Durante muito tempo, as discussões sobre sustentabilidade estiveram concentradas em aspectos econômicos, ambientais e de eficiência operacional. Embora essas dimensões continuem indispensáveis, elas já não são suficientes para explicar a capacidade de uma organização de permanecer competitiva, inovadora e resiliente no longo prazo.

Nas organizações de saúde, a sustentabilidade depende cada vez mais da forma como as pessoas trabalham, se desenvolvem e permanecem nas instituições. Em um setor caracterizado por alta complexidade técnica, forte pressão regulatória e responsabilidade direta sobre a segurança do cuidado, torna-se necessário incorporar uma dimensão muitas vezes tratada de forma periférica: a sustentabilidade humana.

A medicina diagnóstica retrata com clareza essa realidade. Dados da 8ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico mostram que as empresas associadas realizaram aproximadamente 1,13 bilhão de exames em 2025. Além da contribuição assistencial, o setor apresenta expressiva movimentação no mercado de trabalho. As associadas reúnem 91.602 colaboradores e registraram quase 29 mil admissões ao longo do ano. Aproximadamente 43% dos colaboradores possuem formação técnica ou superior, enquanto cerca de 80% atuam nas áreas operacional e técnica.

Esses números evidenciam não apenas a relevância econômica e assistencial da medicina diagnóstica, mas também a importância estratégica de atrair, desenvolver e reter talentos em um cenário de intensa transformação tecnológica e aumento da demanda por assistência à saúde.

O envelhecimento da população impulsiona a demanda por exames e acompanhamento diagnóstico, ao mesmo tempo em que as empresas convivem com profissionais de diferentes gerações. Nesse contexto, a sustentabilidade humana passa também pela capacidade de preservar conhecimento, estimular a transferência de experiência e promover atualização contínua ao longo de trajetórias profissionais cada vez mais longas.

Mais do que programas isolados de qualidade de vida ou iniciativas pontuais de bem-estar, a sustentabilidade humana representa a capacidade de uma organização criar condições para que seus profissionais exerçam suas atividades com segurança, saúde, respeito e perspectivas concretas de evolução profissional. Em outras palavras, não há organização sustentável sem relações de trabalho sustentáveis.

Questões relacionadas à saúde, diversidade, inclusão, desenvolvimento profissional, liderança e clima organizacional deixaram de ser temas restritos às áreas de Recursos Humanos. Hoje, impactam resultados, reputação institucional, continuidade operacional e qualidade assistencial. Essa mudança exige que lideranças, conselhos de administração, áreas jurídicas, compliance e gestão de pessoas atuem de forma integrada. Afinal, riscos humanos também são riscos corporativos.

A própria evolução regulatória sinaliza nessa direção. A inclusão dos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais, previsto na NR-01, reforça a necessidade de tratar a saúde e a organização do trabalho de forma estruturada, preventiva e integrada à gestão de riscos. A cartilha da Abramed “NR-1 e Riscos Psicossociais no Trabalho para Serviços de Medicina Diagnóstica” contribui para essa reflexão no setor. O adoecimento, os conflitos recorrentes e os elevados índices de afastamento não produzem apenas impactos individuais. Eles afetam produtividade, retenção de talentos e sustentabilidade institucional.

No setor da saúde, onde decisões são tomadas diariamente em contextos de elevada responsabilidade, a construção de ambientes de trabalho saudáveis torna-se um requisito estratégico. A qualidade do cuidado prestado ao paciente depende, em grande medida, das condições oferecidas aos profissionais que atuam em toda a jornada assistencial.

Ao mesmo tempo, automação, digitalização, inteligência artificial e análise avançada de dados ampliam a capacidade diagnóstica, aumentam a eficiência operacional e impulsionam a geração de conhecimento. Entretanto, o avanço tecnológico não reduz a relevância das pessoas. Ao contrário.

Quanto mais sofisticadas se tornam as ferramentas, maior é a necessidade de profissionais preparados para interpretar informações, exercer julgamento crítico, supervisionar processos e garantir que a inovação seja incorporada com qualidade, segurança e responsabilidade. O verdadeiro desafio, portanto, não está em substituir pessoas por tecnologia, mas em desenvolver pessoas capazes de potencializar seus benefícios.

A sustentabilidade humana não deve ser compreendida como uma agenda paralela às prioridades organizacionais. Ela constitui um elemento central da governança, da gestão de riscos e da capacidade de geração de valor das instituições de saúde.

A medicina diagnóstica construiu sua relevância combinando ciência, tecnologia e inovação. O próximo ciclo de crescimento do setor dependerá da capacidade de combinar esses mesmos atributos com uma estratégia consistente de desenvolvimento humano. Porque, em um ambiente cada vez mais automatizado, o diferencial competitivo não estará apenas na tecnologia disponível, mas na qualidade das pessoas capazes de transformá-la em valor para pacientes, profissionais e para todo o sistema.

Daniela de Andrade Bernardo
Advogada, sócia da Andrade Mariano Advogados e consultora trabalhista da Abramed.

Abramed amplia participação no 58º CBPC/ML com debate sobre IA no diagnóstico laboratorial

Pela primeira vez com programação própria de conteúdo no congresso, entidade reuniu lideranças do setor para discutir aplicações e desafios da Inteligência Artificial e ampliou o relacionamento com diferentes públicos em seu estande.

Sustentabilidade no diagnóstico por imagem não se resume a reduzir custos. Ela envolve decisões sobre tecnologia, uso de recursos, eficiência operacional, segurança do paciente e capacidade de manter serviços de qualidade em diferentes realidades assistenciais.

Foi a partir dessa perspectiva que a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) participou do CBR26 – 55º Congresso Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, realizado em Recife. A entidade promoveu uma programação dedicada a temas estratégicos para o setor, que incluiu o lançamento de uma iniciativa voltada ao uso consciente de impressões, um painel sobre sustentabilidade econômica e uma palestra sobre biossegurança em sistemas multipacientes.

Na abertura, Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, trouxe indicadores da 8ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico e reforçou a relevância do diagnóstico por imagem na jornada do paciente. Um dos destaques foi o lançamento do movimento pelo uso consciente de impressões de exames, iniciativa que incentiva, sempre que possível e adequado, o acesso e o compartilhamento digital de imagens e laudos para reduzir consumo de materiais e geração de resíduos.

Ao apresentar a proposta, ela destacou que a mudança já faz parte da rotina do setor, no qual os resultados são cada vez mais acessados digitalmente. Dados apresentados pela Abramed mostram que mais de 96% dos resultados foram acessados ou retirados, contrariando a percepção de que exames não retirados fisicamente deixam de ser utilizados.

Para a diretora-executiva, a mudança depende de uma mobilização que envolva toda a cadeia. “Queremos gerar um movimento maior de conscientização de todos os players — médicos, pacientes e laboratórios — para reduzir a impressão dos exames”, afirmou. “É uma mudança de hábito que pode diminuir a geração de resíduos, sem comprometer o acesso às informações necessárias para o cuidado”, complementou.

A ação ganhou o apoio do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR). Durante o debate, Hélio Vieira Braga, 1º vice-presidente da entidade no biênio 2025/2026 e presidente eleito para o biênio 2027-2028, chamou a atenção para outro aspecto: uma impressão representa apenas uma seleção limitada das imagens produzidas em determinados exames. Em alguns casos, as imagens selecionadas para impressão representam menos de 10% do total gerado no exame.

De acordo com ele, a redução das impressões depende de condições adequadas de acesso remoto às imagens. “Quando o acesso remoto funciona bem, entendo que a impressão de imagens se torna desnecessária”, ponderou. 

O tema também envolve diferenças de infraestrutura e de perfil dos pacientes. Conectividade limitada, sistemas pouco integrados e dificuldades de pessoas idosas no uso de ferramentas digitais ainda precisam ser consideradas para que a transição aconteça sem comprometer o acesso.

Sustentabilidade econômica exige visão de longo prazo

Moderado por Milva Pagano, o painel “Sustentabilidade econômica do Diagnóstico por Imagem” contou com a participação de Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês; Gileno Portugal, vice-presidente do Grupo Meddi; Hélio Vieira Braga; e Silvio Braga, diretor de Negócios Brasil da Siemens Healthineers.

Para Nomura, decisões de investimento precisam considerar todo o ciclo de vida da tecnologia. “Precisamos olhar qualquer projeto por pelo menos dez anos”, ressaltou. Isso significa avaliar não apenas o preço de aquisição, mas consumo de energia, infraestrutura necessária, manutenção, perfil dos exames realizados, disponibilidade do equipamento e capacidade da equipe.

Um dos exemplos apresentados foi o uso de Inteligência Artificial embarcada em equipamentos de ressonância magnética. Segundo ele, essas soluções vêm proporcionando ganhos de produtividade entre 20% e 30% em determinadas aplicações. No Hospital Sírio-Libanês, a atualização tecnológica de um equipamento já instalado permitiu ampliar sua produtividade sem a necessidade de substituí-lo integralmente.

O raciocínio reforça a ideia de que inovação não deve ser incorporada apenas porque é nova. Silvio Braga acrescentou que o custo real de um equipamento também passa por sua disponibilidade ao longo do tempo. Manutenção, acesso a peças, capacidade técnica do fornecedor e tempo de máquina parada podem ter impacto maior do que o investimento inicialmente previsto.

Por isso, defendeu que a avaliação do custo total de propriedade (TCO, na sigla em inglês) seja complementada pela análise do custo por exame realizado, considerando a produtividade, a eficiência operacional e a disponibilidade dos sistemas. 

Novos modelos para ampliar acesso e previsibilidade

Outro eixo do debate foi a busca por modelos de negócio capazes de ampliar acesso e reduzir a dependência de uma única fonte de receita.

Gileno Portugal apresentou diferentes experiências de parceria, incluindo contratos com cooperativas, parcerias público-privadas e acordos com prefeituras. O ponto comum entre os modelos é a tentativa de gerar maior previsibilidade financeira e combinar eficiência operacional, volume assistencial e qualidade. Segundo ele, a sustentabilidade também depende da capacidade de adaptar soluções às diferentes realidades regionais do país. 

A experiência do paciente apareceu, ainda, como componente econômico. Segurança, presença médica, treinamento das equipes e qualidade do atendimento influenciam diretamente a percepção de valor e a capacidade de fidelização.

Uso de recursos e impacto ambiental 

O consumo de energia também fez parte do debate. Nomura destacou que centros de diagnóstico demandam uso intensivo de energia elétrica. No Hospital Sírio-Libanês, por exemplo, o centro de diagnóstico responde por cerca de 20% da energia elétrica utilizada pela instituição. 

Ao abordar especificamente a impressão de exames, relatou a experiência de redução do uso de filmes e de investimento em infraestrutura digital para disponibilizar resultados remotamente. A instituição mantém a possibilidade de impressão para quem necessita, mas alterou o padrão de entrega depois de um processo de adaptação de médicos e pacientes.

O debate reforçou que medidas ambientais nem sempre representam economia imediata. Algumas escolhas podem até elevar custos no curto prazo, mas sinalizam compromissos institucionais e reduzem impactos que não aparecem diretamente no balanço financeiro.

Segurança como condição para eficiência

Encerrando a programação da Abramed, Marcela Padilha Facetto Azevedo, coordenadora de Desenvolvimento de Produtos e Suporte Clínico da Alko do Brasil, apresentou a palestra “Biossegurança em injetoras de contraste: avaliação microbiológica de sistemas multipacientes”.

Ela apresentou estudos sobre a avaliação microbiológica desses sistemas e abordou o funcionamento de válvulas antirrefluxo, o tempo de utilização e os protocolos de manuseio. A palestra ressaltou a necessidade de validar materiais e processos com base em evidências científicas e em conformidade com as normas sanitárias vigentes.

A participação da Abramed no CBR26 fortaleceu o diálogo com a comunidade radiológica sobre os desafios que afetam a oferta e a qualidade dos serviços. Ao contribuir com dados e experiências das associadas, a entidade ampliou a discussão sobre o papel da medicina diagnóstica na construção de um sistema de saúde mais integrado, eficiente e centrado no paciente. 

No CBR26, Abramed lançou movimento pelo uso consciente de impressões e debateu a sustentabilidade do diagnóstico por imagem

Programação da Associação no 55º Congresso Brasileiro de Radiologia reuniu dados do setor, debate sobre eficiência, parcerias e incorporação tecnológica e palestra sobre biossegurança em injetoras de contraste

Sustentabilidade no diagnóstico por imagem não se resume a reduzir custos. Ela envolve decisões sobre tecnologia, uso de recursos, eficiência operacional, segurança do paciente e capacidade de manter serviços de qualidade em diferentes realidades assistenciais.

Foi a partir dessa perspectiva que a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) participou do CBR26 – 55º Congresso Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, realizado em Recife. A entidade promoveu uma programação dedicada a temas estratégicos para o setor, que incluiu o lançamento de uma iniciativa voltada ao uso consciente de impressões, um painel sobre sustentabilidade econômica e uma palestra sobre biossegurança em sistemas multipacientes.

Na abertura, Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, trouxe indicadores da 8ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico e reforçou a relevância do diagnóstico por imagem na jornada do paciente. Um dos destaques foi o lançamento do movimento pelo uso consciente de impressões de exames, iniciativa que incentiva, sempre que possível e adequado, o acesso e o compartilhamento digital de imagens e laudos para reduzir consumo de materiais e geração de resíduos.

Ao apresentar a proposta, ela destacou que a mudança já faz parte da rotina do setor, no qual os resultados são cada vez mais acessados digitalmente. Dados apresentados pela Abramed mostram que mais de 96% dos resultados foram acessados ou retirados, contrariando a percepção de que exames não retirados fisicamente deixam de ser utilizados.

Para a diretora-executiva, a mudança depende de uma mobilização que envolva toda a cadeia. “Queremos gerar um movimento maior de conscientização de todos os players — médicos, pacientes e laboratórios — para reduzir a impressão dos exames”, afirmou. “É uma mudança de hábito que pode diminuir a geração de resíduos, sem comprometer o acesso às informações necessárias para o cuidado”, complementou.

A ação ganhou o apoio do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR). Durante o debate, Hélio Vieira Braga, 1º vice-presidente da entidade no biênio 2025/2026 e presidente eleito para o biênio 2027-2028, chamou a atenção para outro aspecto: uma impressão representa apenas uma seleção limitada das imagens produzidas em determinados exames. Em alguns casos, as imagens selecionadas para impressão representam menos de 10% do total gerado no exame.

De acordo com ele, a redução das impressões depende de condições adequadas de acesso remoto às imagens. “Quando o acesso remoto funciona bem, entendo que a impressão de imagens se torna desnecessária”, ponderou. 

O tema também envolve diferenças de infraestrutura e de perfil dos pacientes. Conectividade limitada, sistemas pouco integrados e dificuldades de pessoas idosas no uso de ferramentas digitais ainda precisam ser consideradas para que a transição aconteça sem comprometer o acesso.

Sustentabilidade econômica exige visão de longo prazo

Moderado por Milva Pagano, o painel “Sustentabilidade econômica do Diagnóstico por Imagem” contou com a participação de Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês; Gileno Portugal, vice-presidente do Grupo Meddi; Hélio Vieira Braga; e Silvio Braga, diretor de Negócios Brasil da Siemens Healthineers.

Para Nomura, decisões de investimento precisam considerar todo o ciclo de vida da tecnologia. “Precisamos olhar qualquer projeto por pelo menos dez anos”, ressaltou. Isso significa avaliar não apenas o preço de aquisição, mas consumo de energia, infraestrutura necessária, manutenção, perfil dos exames realizados, disponibilidade do equipamento e capacidade da equipe.

Um dos exemplos apresentados foi o uso de Inteligência Artificial embarcada em equipamentos de ressonância magnética. Segundo ele, essas soluções vêm proporcionando ganhos de produtividade entre 20% e 30% em determinadas aplicações. No Hospital Sírio-Libanês, a atualização tecnológica de um equipamento já instalado permitiu ampliar sua produtividade sem a necessidade de substituí-lo integralmente.

O raciocínio reforça a ideia de que inovação não deve ser incorporada apenas porque é nova. Silvio Braga acrescentou que o custo real de um equipamento também passa por sua disponibilidade ao longo do tempo. Manutenção, acesso a peças, capacidade técnica do fornecedor e tempo de máquina parada podem ter impacto maior do que o investimento inicialmente previsto.

Por isso, defendeu que a avaliação do custo total de propriedade (TCO, na sigla em inglês) seja complementada pela análise do custo por exame realizado, considerando a produtividade, a eficiência operacional e a disponibilidade dos sistemas. 

Novos modelos para ampliar acesso e previsibilidade

Outro eixo do debate foi a busca por modelos de negócio capazes de ampliar acesso e reduzir a dependência de uma única fonte de receita.

Gileno Portugal apresentou diferentes experiências de parceria, incluindo contratos com cooperativas, parcerias público-privadas e acordos com prefeituras. O ponto comum entre os modelos é a tentativa de gerar maior previsibilidade financeira e combinar eficiência operacional, volume assistencial e qualidade. Segundo ele, a sustentabilidade também depende da capacidade de adaptar soluções às diferentes realidades regionais do país. 

A experiência do paciente apareceu, ainda, como componente econômico. Segurança, presença médica, treinamento das equipes e qualidade do atendimento influenciam diretamente a percepção de valor e a capacidade de fidelização.

Uso de recursos e impacto ambiental 

O consumo de energia também fez parte do debate. Nomura destacou que centros de diagnóstico demandam uso intensivo de energia elétrica. No Hospital Sírio-Libanês, por exemplo, o centro de diagnóstico responde por cerca de 20% da energia elétrica utilizada pela instituição. 

Ao abordar especificamente a impressão de exames, relatou a experiência de redução do uso de filmes e de investimento em infraestrutura digital para disponibilizar resultados remotamente. A instituição mantém a possibilidade de impressão para quem necessita, mas alterou o padrão de entrega depois de um processo de adaptação de médicos e pacientes.

O debate reforçou que medidas ambientais nem sempre representam economia imediata. Algumas escolhas podem até elevar custos no curto prazo, mas sinalizam compromissos institucionais e reduzem impactos que não aparecem diretamente no balanço financeiro.

Segurança como condição para eficiência

Encerrando a programação da Abramed, Marcela Padilha Facetto Azevedo, coordenadora de Desenvolvimento de Produtos e Suporte Clínico da Alko do Brasil, apresentou a palestra “Biossegurança em injetoras de contraste: avaliação microbiológica de sistemas multipacientes”.

Ela apresentou estudos sobre a avaliação microbiológica desses sistemas e abordou o funcionamento de válvulas antirrefluxo, o tempo de utilização e os protocolos de manuseio. A palestra ressaltou a necessidade de validar materiais e processos com base em evidências científicas e em conformidade com as normas sanitárias vigentes.

A participação da Abramed no CBR26 fortaleceu o diálogo com a comunidade radiológica sobre os desafios que afetam a oferta e a qualidade dos serviços. Ao contribuir com dados e experiências das associadas, a entidade ampliou a discussão sobre o papel da medicina diagnóstica na construção de um sistema de saúde mais integrado, eficiente e centrado no paciente. 

O valor econômico da Medicina Diagnóstica: muito além do laudo

Por César Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed

Quando se pensa em um exame médico, normalmente se foca apenas no resultado, que chega em formato de um laudo — dando pouca atenção às imagens e gráficos indecifráveis para os leigos, mas que já são sinal inequívoco da complexidade da Medicina Diagnóstica.

Por trás de cada exame, existe uma profunda inteligência em saúde, movida por uma engrenagem complexa que movimenta bilhões de reais, sustenta milhares de empregos e impulsiona a inovação no Brasil.

A Medicina Diagnóstica não é apenas uma etapa do cuidado. É um motor silencioso que conecta ciência, tecnologia, indústria e desenvolvimento econômico.

Em 2024, as empresas associadas à Abramed realizaram cerca de 1 bilhão de exames. Esse número, por si só, impressiona. Mas o que ele representa vai muito além do volume: cada exame envolve insumos adquiridos, equipamentos em funcionamento, profissionais qualificados e cadeias de serviços que se movimentam.

Um simples teste de sangue mobiliza fornecedores de reagentes, fabricantes de materiais de coleta, empresas de logística, energia, tecnologia da informação e até empresas de descarte seguro de resíduos.

O impacto econômico é concreto. Em 2024, o consumo de produtos e equipamentos médico-laboratoriais cresceu 11,5%. O uso de reagentes subiu 28,4% e as importações, 19,4%. São recursos que irrigam o mercado, geram empregos e sustentam empresas de diversos segmentos.

Além de ser parte essencial das demandas geradas pelo setor de Saúde, que responde por cerca de 10% do PIB brasileiro, a Medicina Diagnóstica é também um vetor de inovação. A busca por precisão, agilidade e confiabilidade estimula investimentos constantes da indústria nacional e internacional em novas tecnologias.

O setor ainda possui um ativo de grande valor, mas pouco visível: a informação. Cada exame gera dados clínicos que, quando integrados e compartilhados com segurança, podem transformar o cuidado no país.

Esse, aliás, é o princípio da interoperabilidade, assunto tão debatido em nossa área por evitar exames repetidos, reduzir desperdícios, acelerar diagnósticos e liberar recursos para atender mais pacientes. Na prática, interoperabilidade é eficiência — e eficiência significa economia.

Toda essa engrenagem também está conectada a outro tema que dialoga diretamente com o impacto econômico do setor: a sustentabilidade.

Quando reduzimos o uso de filmes e papéis em exames de imagem e migramos para formatos digitais, estamos diminuindo nosso impacto ambiental e impulsionando um novo mercado de soluções sustentáveis. Isso envolve fornecedores de tecnologia, empresas de armazenamento seguro em nuvem, softwares de visualização, equipamentos de digitalização e serviços de descarte adequado.

Ou seja, até na busca por práticas ambientalmente responsáveis, a Medicina Diagnóstica continua sendo uma grande compradora, geradora de serviços e um setor que impulsiona a inovação. Um movimento que cria uma cadeia de valor que une eficiência operacional, responsabilidade ecológica e dinamismo econômico.

É por isso que defendo que a Medicina Diagnóstica seja vista e tratada como um pilar econômico e social do Brasil. Investir no nosso setor não é gasto — é estratégia. Cada real aplicado em diagnóstico de qualidade significa decisões clínicas mais assertivas, tratamentos mais eficazes, menos desperdício de recursos e mais vidas salvas.

O desafio agora é consolidar essa visão na formulação de políticas públicas, na regulação e no próprio planejamento das empresas.

Precisamos garantir um ambiente sustentável para que o setor continue crescendo, inovando e integrando a saúde do país. Porque fortalecer a Medicina Diagnóstica não é apenas cuidar melhor das pessoas — é fortalecer o Brasil.

Cofundador da Dengo Chocolates palestra sobre propósito e impacto social nos negócios para associados da Abramed

Realizado na sede da Roche, em São Paulo, o 2º Simpósio de ESG na Medicina Diagnóstica, organizado pelo Comitë de ESG da Abramed, reuniu associados em um encontro que reforçou a relevância dos temas ambientais, sociais e de governança para o setor. A abertura do evento foi conduzida por César Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed; Milva Pagano, diretora-executiva da entidade; e Carlos Martins, presidente da Roche, que deu as boas-vindas aos participantes.

O ponto alto do encontro foi a palestra de Estevan Sartoreli, cofundador da Dengo Chocolates, que compartilhou reflexões sobre propósito, impacto social e ambiental, os desafios de colocar em prática a sustentabilidade de forma autêntica, além da urgência de repensar o papel das lideranças e revisar a lógica de sucesso nas organizações.

“O mundo está adoecido emocionalmente. O desengajamento começa pelo colaborador desmotivado — e o responsável é o líder. Precisamos parar de correr tanto e refletir se estamos fazendo as coisas certas”, afirmou.

Sartoreli também relacionou saúde mental a fatores como uso excessivo de telas, ambientes tóxicos e alimentação ultraprocessada e pontuou que relações de qualidade impactam diretamente na saúde emocional das pessoas. “Será que estamos juntos apenas para saber o que o outro está fazendo, ou para começar a fazer juntos?”, provocou.

Ele defendeu ainda que propósito não é algo genérico ou apenas comunicável, apresentando a trajetória da Dengo como exemplo de empresa que nasceu com um propósito claro e o mantém como guia estratégico, e pontuou que a sustentabilidade precisa estar na origem do modelo de negócio — não como uma agenda paralela, mas como parte indissociável da operação.

Debate: ESG e o futuro dos negócios

Na sequência, Estevan Sartorelli participou de um painel com Daniel Périgo (Líder do Comitê de ESG da Abramed) e César Nomura, com mediação de Lídia Abdalla (Vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed). O debate abordou os desafios da Saúde Suplementar, o papel da interoperabilidade na sustentabilidade e a necessidade de colaboração entre players da cadeia.

Daniel Périgo ressaltou que, apesar de avanços heterogêneos, a agenda de sustentabilidade ainda precisa amadurecer no setor e apontou a necessidade de desenvolver parcerias mais sustentáveis ao longo da cadeia de fornecimento, reforçando que o setor ainda conversa pouco para propor soluções conjuntas. “Quando há um problema, a Saúde é lembrada. Mas na prevenção, somos esquecidos. Isso precisa mudar”, alertou.

Nomura reforçou que ESG é uma maratona, não uma corrida de 100 metros, e que decisões consistentes exigem coragem e tempo para amadurecimento. Ele destacou ainda a atuação da Abramed para conectar o setor privado ao público, inclusive por meio do trabalho em interoperabilidade. “Evitar exames desnecessários e reduzir a repetição está diretamente ligado à sustentabilidade do sistema. Mas todo mundo quer interoperabilidade — ninguém quer ser o primeiro a compartilhar seus dados”, afirmou.

Complementando o debate, Lídia Abdalla destacou que o setor de Medicina Diagnóstica precisa assumir com mais clareza o seu protagonismo no impacto social e na contribuição efetiva para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

“Nosso setor tem um impacto social gigantesco no Brasil, especialmente por levar serviços de qualidade e segurança para regiões distantes, fora dos grandes centros. Mas ainda falamos pouco sobre isso. Precisamos escolher onde atuar com profundidade e responsabilidade, e entender que nossos negócios só vão prosperar se cuidarmos verdadeiramente do entorno. Sustentabilidade é também sobre fazer escolhas conscientes, equilibrando custo, investimento e impacto”, refletiu.

O CEO da Dengo finalizou dizendo que gestores devem fazer escolhas difíceis e que não será mais fácil daqui em diante. Sartorelli também pontuou que “a ação deve preceder a regulação” — uma frase que resume o espírito do encontro: incentivar que, mais do que se adaptar a regras externas, as organizações de Saúde liderem com propósito, promovam práticas sustentáveis e colaborem para um setor mais justo e resiliente.    

A Abramed, como representante desse ecossistema, seguirá incentivando o diálogo e o protagonismo de seus associados na construção desse caminho.