Validação e governança orientam o uso da IA na medicina diagnóstica 

Reunião da Abramed discutiu aplicações na rotina dos serviços, avaliação de benefícios clínicos e operacionais e condições para ampliar o uso da tecnologia com segurança. 

À medida que o uso de Inteligência Artificial avança na medicina diagnóstica, uma nova questão ganha espaço: como transformar o potencial da tecnologia em valor efetivo para pacientes, profissionais, empresas e para o sistema de saúde?

Esse foi o tema do debate da Reunião Mensal de Associados (RMA) de setembro da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), realizada na sede da Roche Diagnóstica Brasil, em São Paulo. A abertura reuniu Ana Tuñón Orrico, diretora comercial de Lab na Roche Diagnóstica Brasil; Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês; e Milva Pagano, diretora-executiva da Associação.

Ao receber os associados, Ana chamou a atenção para uma etapa decisiva da inovação: fazer com que os avanços desenvolvidos pela indústria efetivamente cheguem à população. 

Esse ponto vai ao encontro dos resultados da pesquisa realizada na 10ª edição do FILIS sobre as prioridades do setor para os próximos anos. Nas respostas, as menções ao paciente vieram acompanhadas de temas como acesso e equidade, interoperabilidade, inovação, segurança, sustentabilidade, formação dos profissionais, confiança e transparência. 

Aplicações na rotina e avaliação de resultados 

Com mediação de Marcos Queiroz, membro do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Einstein Hospital Israelita, o painel “Como transformar inteligência artificial em valor para a medicina diagnóstica” reuniu Lucas Santana, CIO do DB Diagnósticos; Luciana Hadade, gerente de Desenvolvimento de Soluções Digitais da Roche Diagnóstica Brasil; e Rafael Jácomo, diretor técnico do Grupo Sabin.

Na experiência do DB Diagnósticos, Santana mostrou que alguns dos ganhos mais imediatos aparecem em operações de grande escala, com alto volume de informações e processos repetitivos. Entre os exemplos está a distribuição inteligente de lâminas na patologia, em que algoritmos apoiam a definição de qual patologista receberá cada caso, em que momento e em qual volume.

Modelos e agentes de IA também podem apoiar etapas pré-analíticas, validação de informações, expedição de exames e relacionamento com clientes. “Gosto muito da etapa de orquestração no meio do processo, em que temos um grande volume de dados, processos repetitivos e muitas oportunidades de capturar valor”, afirmou.

A discussão avançou então para outra questão fundamental: como medir esse valor?

Para Luciana Hadade, a avaliação de uma solução de IA deve considerar tanto o retorno financeiro quanto os benefícios clínicos. A economia diretamente obtida pela empresa que investiu, segundo ela, não representa todo o impacto que a tecnologia pode gerar ao longo da jornada do paciente. 

Isso significa considerar impactos ao longo da jornada, como antecipação de diagnósticos, melhor direcionamento do paciente e redução de intervenções futuras. O desafio é que esse benefício nem sempre fica concentrado em quem realizou o investimento: uma solução incorporada pelo laboratório pode gerar economia posteriormente para a operadora, outro prestador ou para o próprio paciente.

Luciana também defendeu modelos de contratação de soluções de IA que relacionem o pagamento ao uso, aos resultados e aos benefícios gerados. Na avaliação dela, esses formatos podem favorecer a adoção de aplicações com potencial clínico relevante. 

Validação e governança acompanham a inovação

Se a busca por valor pode acelerar a adoção da IA, Rafael Jácomo reforçou a necessidade de manter os critérios que historicamente sustentam a qualidade da medicina laboratorial. “Um novo instrumento, tecnologia ou método não exige reinventar os processos existentes. Ele precisa passar por uma validação semelhante à que já realizamos nos testes habituais”, afirmou.

O desafio, segundo ele, não termina na avaliação inicial. É preciso acompanhar o desempenho dos modelos ao longo do tempo, uma vez que algoritmos podem sofrer deterioração e exigir revalidações. A discussão foi ampliada por participantes da plateia, que lembraram que os sistemas de qualidade não devem ser vistos como barreiras à inovação, mas como instrumentos para garantir sua incorporação segura.

Outra pauta que ganhou espaço foi a velocidade com que as próprias equipes estão adotando ferramentas de IA. Se, em ciclos anteriores de automação, as empresas precisavam estimular o uso da tecnologia, agora colaboradores experimentam ferramentas e criam aplicações antes mesmo da existência de políticas corporativas estruturadas.

É o fenômeno conhecido como shadow AI — o uso de soluções não homologadas ou fora do ambiente controlado da organização. Além da exposição de informações sensíveis, esse movimento pode gerar impactos para determinados processos sem documentação, gestão ou preservação do conhecimento desenvolvido.

“Não vamos inibir o desenvolvimento de soluções de IA na ponta, mas precisamos garantir a governança dessas iniciativas”, resumiu Jácomo. 

Uma questão relevante é preservar a experimentação sem abrir mão de segurança, compliance e controle de custos. O próprio consumo das ferramentas adiciona uma dimensão econômica à governança, exigindo critérios sobre quais soluções utilizar, para quais finalidades e por quais profissionais.

Na segurança da informação, Santana falou sobre a necessidade de observar riscos tanto “de fora para dentro” quanto “de dentro para fora”, com monitoramento contínuo, controle de acessos e mecanismos capazes de identificar comportamentos suspeitos.

Interoperabilidade para ampliar o valor

A geração de valor também depende da capacidade de conectar equipamentos, sistemas e informações que ainda funcionam em ecossistemas distintos.

Segundo Luciana, a indústria tem um papel importante nessa integração, inclusive no desenvolvimento de conectores entre soluções de diferentes fabricantes. A lógica deve ser reduzir etapas entre o dado produzido e sua utilização, sem transferir para laboratórios e profissionais a complexidade necessária para fazer os sistemas conversarem.

“Não devemos nos ver apenas como concorrentes, porque o cliente precisa estar no centro do que fazemos”, afirmou. Ressaltou, porém, que a integração ainda esbarra na falta de colaboração entre fabricantes. Quanto mais qualificados e conectados os dados ao longo da jornada, maior a possibilidade de transformar informações isoladas em conhecimento útil para a tomada de decisão.

Da eficiência à medicina preditiva

Ao final do debate, Marcos Queiroz perguntou aos participantes qual seria a prioridade para um projeto de IA nos próximos 12 meses. Para Santana, uma das frentes mais promissoras está no cruzamento de informações clínicas para enriquecer laudos e ampliar o apoio à decisão médica. Já processos transacionais de grande volume continuam oferecendo oportunidades mais imediatas de retorno, com redução de etapas operacionais e do tempo necessário para concluir processos.

Luciana apontou a prevenção e a medicina preditiva como áreas promissoras para a aplicação de IA. Para avaliar os ganhos de um projeto-piloto, destacou a necessidade de comparar os indicadores anteriores e posteriores à implementação. Citou ainda o potencial de algoritmos que combinam grandes volumes de informações para identificar precocemente riscos que poderiam passar despercebidos em uma análise convencional. 

Jácomo, por sua vez, levou o olhar para o pré-analítico. Para ele, aplicativos, canais digitais, tokens e ferramentas capazes de interpretar automaticamente pedidos e documentos podem reduzir digitação, esperas e etapas manuais na chegada do paciente à unidade. “As ferramentas já disponíveis permitem melhorar muito essa experiência e superar as dificuldades atuais”, concluiu. 

FILIS 10 anos: o que mudou na saúde e o que esperar do futuro?

Da regulação e consolidação de mercado às discussões sobre Inteligência Artificial, interoperabilidade, valor e governança, trajetória do Fórum ajuda a revelar como as perguntas da saúde mudaram em uma década

Se um evento pode funcionar como um arquivo das perguntas que um setor faz sobre si mesmo, os dez anos do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS) oferecem uma boa medida do quanto a saúde mudou desde 2016.

Na primeira edição, então apresentada como 1º Congresso Internacional de Gestão em Saúde ICOS – Abramed, a programação foi organizada em quatro grandes temas: relações de trabalho no setor de saúde; agendas regulatórias e seus impactos; tendências em concorrência e consolidação de mercado; e perspectivas futuras da saúde.

Realizado em conjunto pela Abramed e pelo Instituto Coalizão Saúde (ICOS), o encontro teve entre suas lideranças Giovanni Guido Cerri, então vice-presidente do Instituto, que dez anos depois voltaria ao palco do FILIS para discutir inteligência artificial na saúde. 

Em 2026, o 10º FILIS chegou com outro vocabulário. Sob o conceito “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”, colocou lado a lado regulação, valor da Medicina Diagnóstica, ESG e Inteligência Artificial.

A diferença entre as duas agendas não significa que os problemas de 2016 tenham sido resolvidos ou substituídos. Na maior parte dos casos, eles ganharam novas camadas. Regulação continua em pauta. Sustentabilidade também. Tecnologia e futuro nunca deixaram o Fórum. O que mudou foi o tipo de pergunta feita a cada um desses temas.

O futuro deixou de ser uma discussão abstrata

Nos primeiros anos, parte importante das discussões estava concentrada em compreender como novas tecnologias chegariam à saúde e quais impactos provocariam no mercado. Incorporação tecnológica, sustentabilidade, compliance e inovação em diagnósticos foram ganhando espaço progressivamente.

A Inteligência Artificial, inclusive, não surgiu agora na história do evento. Em 2018, ela já provocava perguntas. Em uma enquete realizada com participantes do 3º FILIS, 51% disseram confiar em laudos produzidos com apoio da IA por considerarem esse o caminho do futuro, enquanto 47% confiavam nos resultados, mas ainda atribuíam maior importância à interação humana.

Naquele momento, a questão era, em grande medida, até onde confiar na tecnologia. Oito anos depois, a IA ganhou um eixo inteiro da programação. Mas a pergunta mudou. No FILIS 2026, o debate passou por qualidade dos dados, interoperabilidade, avaliação de risco, validação clínica, responsabilidade profissional e critérios para decidir quando uma aplicação realmente deve ser incorporada.

A coincidência de datas ajuda a dimensionar essa mudança: a décima edição do fórum aconteceu em 26 de agosto, justamente quando entraram em vigor as regras da Resolução CFM nº 2.454/2026 para o uso da IA na medicina, com parâmetros sobre classificação de risco, governança, proteção de dados e responsabilidade médica

A discussão deixou de ser apenas sobre o potencial da tecnologia para tratar das condições necessárias para utilizá-la com segurança e utilidade.

A pandemia acelerou mudanças que já estavam em curso

Em 2019, transformação digital, healthtechs, proteção de dados e o papel da Medicina Diagnóstica no ciclo de cuidado já faziam parte da agenda. No ano seguinte, a pandemia interrompeu a realização do Fórum e, ao mesmo tempo, acelerou muitas dessas transformações.

Quando o FILIS voltou, em 2021, pela primeira vez totalmente digital, a programação carregava marcas daquele período: impactos econômicos do pós-pandemia, telemedicina, LGPD, ciência de dados, exames fora do ambiente laboratorial e o papel da Medicina Diagnóstica diante de uma emergência sanitária.

A partir dali, digitalização deixou de significar apenas modernização de processos. Dados passaram a ser tratados como parte da assistência; integração entre instituições ganhou urgência; e tecnologia passou a conviver cada vez mais com discussões sobre acesso, segurança, qualidade e sustentabilidade.

Nas edições seguintes, esses temas foram se aproximando. Disrupção, integração, gestão, inovação e tecnologia deixaram de aparecer como movimentos isolados e passaram a compor uma discussão mais ampla sobre como organizar um sistema de saúde cada vez mais complexo.

Integração deixou de ser conceito e virou infraestrutura

Talvez a interoperabilidade seja um dos exemplos mais claros desse amadurecimento. Em 2023, a integração dos sistemas estava entre os desafios discutidos no FILIS. Uma das pautas avançou no ano seguinte, quando Abramed e Ministério da Saúde formalizaram, durante o evento, uma cooperação para padronização e integração de dados de exames de notificação compulsória à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS).

Em 2025, a interoperabilidade permaneceu entre os temas principais e ganhou um capítulo específico no Painel Abramed. Na mesma edição do fórum, foi firmado o Memorando de Intenções entre ANS, Ministério da Saúde, Abramed e HCFMUSP/InovaHC para avançar com o projeto OpenCare Interop.

Um ano depois, o projeto retornou ao FILIS com arquitetura desenvolvida, visualizador clínico funcional e em etapa de prova de conceito para testar a circulação segura de informações entre instituições. Ao apresentar essa evolução, Marco Bego, diretor-executivo do InRad-HCFMUSP e diretor de Inovação do InovaHC, resumiu o problema que o projeto busca enfrentar: “Hoje o nosso paciente é interoperável, mas os dados ainda não”. 

Em poucos anos, portanto, a pergunta evoluiu de “como integrar?” para “como colocar essa integração para funcionar, medir resultados e ganhar escala?”.

Temas não desaparecem, eles mudam de lugar

Ao olhar a década, é difícil encontrar uma preocupação que tenha simplesmente sumido. Relações de trabalho, um dos quatro módulos de 2016, deixaram de ocupar um eixo próprio, mas continuam presentes diante da escassez de profissionais especializados, da necessidade de capacitação contínua e das novas competências exigidas pela automação e pela IA.

Concorrência e consolidação de mercado também perderam espaço como discussão isolada, mas o movimento empresarial continua acontecendo. A 8ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico mostra R$ 2,93 bilhões movimentados em operações de fusões e aquisições nos últimos três anos. Hoje, porém, essa discussão está mais conectada à capacidade de investimento, eficiência e sustentabilidade das organizações.

Outros assuntos praticamente não faziam parte do vocabulário da primeira edição. Proteção e governança de dados ganharam relevância com a LGPD. Interoperabilidade passou de aspiração tecnológica a projeto de infraestrutura. Mudanças climáticas entraram formalmente na programação. E sustentabilidade ampliou seu significado, incorporando qualidade assistencial, governança, ética, impacto ambiental e resiliência das instituições.

Talvez a principal mudança esteja no lugar ocupado pela própria Medicina Diagnóstica. Ao longo dos anos, o debate foi deixando de tratar o diagnóstico apenas como uma etapa anterior ao tratamento para discutir sua contribuição em toda a jornada: prevenção, rastreamento, estratificação de risco, escolha terapêutica, monitoramento, avaliação de desfechos e utilização mais eficiente dos recursos.

Esse movimento chegou ao FILIS 2026 sintetizado pelo Diagnóstico 5.0. A programação foi construída como uma sequência: as condições regulatórias para que o setor avance; o valor gerado pelo diagnóstico; a governança e a ética que sustentam as organizações; e, por fim, inteligência artificial, dados e plataformas digitais.

O ponto de encontro entre esses temas é a capacidade de transformar informação em decisões melhores para o paciente e para o sistema.  É uma mudança importante em relação a 2016. Naquele momento, “perspectivas futuras da saúde” cabiam em um módulo específico. Dez anos depois, o futuro está espalhado pela programação inteira.

E o que os próximos dez anos tendem a trazer?

Se a trajetória do FILIS serve como indicador, o próximo ciclo deve ser menos marcado pela chegada fragmentada de novas tecnologias e mais pela capacidade de incorporá-las ao sistema de forma coordenada.

Na Inteligência Artificial, a discussão tende a avançar da experimentação para validação, acompanhamento de resultados, governança, segurança e definição de responsabilidades. Giovanni Guido Cerri, presidente do Conselho Diretor do InRad-HCFMUSP, do InovaHC e do Conselho de Administração do ICOS, situou essa evolução em diferentes estágios durante o FILIS 2026: enquanto o uso de IA no back office já está mais estabelecido, aplicações clínicas começam a avançar de forma pontual. Uma transformação mais profunda, segundo ele, ainda está por vir, incluindo a radiômica, capaz de extrair das imagens dados que não são identificados pela observação humana.

Em interoperabilidade, o desafio será sair de conexões pontuais para uma infraestrutura capaz de acompanhar o paciente entre diferentes instituições e entre os sistemas público e privado.

Já na Medicina Diagnóstica, biologia molecular, genética, biomarcadores, imagem avançada e novas formas de análise de dados devem ampliar a capacidade de identificar riscos e orientar condutas mais individualizadas. Ao mesmo tempo, crescerá a necessidade de demonstrar valor: não apenas se uma tecnologia funciona, mas para quem deve ser utilizada, em que momento, que decisão pode modificar e qual resultado é capaz de produzir.

Outro sinal do que pode ganhar espaço no próximo ciclo veio da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). No FILIS 2026, Raquel Medeiros Lisbôa, gerente de Estímulo à Inovação e Avaliação da Qualidade dos Prestadores de Serviços (GEIQP), da DIDES/ANS,  informou que a agência está em tratativas para ampliar seu programa de monitoramento da qualidade e incluir a Medicina Diagnóstica entre os próximos segmentos com indicadores disponibilizados à sociedade, com expectativa de avanços já no próximo ano. 

Após dez anos, o histórico do FILIS mostra menos uma sucessão de modismos e mais uma evolução das perguntas. Em 2016, o desafio era compreender para onde a saúde estava caminhando. Em 2026, boa parte desse futuro já chegou. A questão para a próxima década será como conectá-lo, regulá-lo, financiá-lo e transformá-lo em melhores decisões e melhores resultados para as pessoas.

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E aqui as fotos do fórum.

Assista abaixo ao vídeo comemorativo dos 10 anos do FILIS!

Painel Abramed destaca o valor da medicina diagnóstica diante das novas demandas de saúde

8ª edição reúne indicadores sobre acesso, qualidade e inovação e evidencia a contribuição do setor para decisões clínicas e continuidade do cuidado

O envelhecimento da população e a maior preocupação com a saúde podem ampliar a demanda por serviços diagnósticos, tanto para a prevenção e a identificação precoce de doenças quanto para o acompanhamento de condições crônicas. Nesse cenário, o desafio é assegurar que o acesso aos exames se traduza em informação de qualidade para orientar decisões e melhorar o cuidado. 

A 8ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico contribui para compreender como o setor responde a essas necessidades. A publicação anual da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) reúne indicadores sobre capacidade assistencial, acesso aos resultados, inovação, profissionais e sustentabilidade econômica das empresas associadas.

“O valor da medicina diagnóstica está nas decisões que ela torna possíveis. Diante do envelhecimento da população, ampliar o acesso ao diagnóstico com qualidade é essencial para identificar doenças em tempo oportuno, orientar tratamentos e utilizar melhor os recursos da saúde”, afirma Cesar Higa Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed.

Com novo formato editorial e metodologia de coleta revisada, a publicação amplia o espaço dedicado à interpretação dos resultados, oferecendo subsídios ao planejamento das organizações e ao debate sobre políticas de saúde.

Informação que apoia o cuidado

Mais de 96% dos resultados de exames foram acessados ou retirados, e as associadas registraram 90,4 milhões de acessos eletrônicos a resultados. Os indicadores mostram o alcance da informação diagnóstica e a importância dos canais digitais na relação dos pacientes com seus dados de saúde.

O próximo passo é ampliar a integração dessas informações às demais etapas da assistência. A conexão entre laboratórios, clínicas, hospitais e profissionais de saúde favorece a continuidade do cuidado e permite que os resultados estejam disponíveis para apoiar decisões, com segurança e proteção de dados.

Entre as associadas participantes, 47,1% já integram seus sistemas de informação laboratorial ou de radiologia ao sistema de informação hospitalar. O dado aponta avanços e oportunidades para ampliar a interoperabilidade no setor.

“Nunca se produziu tanta informação diagnóstica. O desafio é fazê-la circular com segurança e colocá-la a serviço das decisões que acompanham o paciente ao longo do cuidado”, acrescenta Nomura.

Capacidade assistencial para responder à demanda

Em 2025, as associadas realizaram aproximadamente 1,13 bilhão de exames. Esse volume dimensiona a estrutura mobilizada para atender às necessidades de diagnóstico e acompanhamento da saúde, em um contexto de transformação do perfil demográfico e assistencial do país.

As empresas participantes mantêm 5.312 postos de coleta, 365 centrais de imagem, 145 centrais laboratoriais e 174 laboratórios instalados em hospitais, com presença em 23 estados. A rede combina atendimento distribuído e processamento especializado, dando suporte à oferta de serviços em diferentes regiões.

Essa contribuição também alcança outras instituições de saúde. Entre os exames classificados como produção própria ou apoio prestado, 54,3% foram processados tanto para o setor privado, quanto para o público. O indicador evidencia o papel dos laboratórios de referência e das centrais de processamento no suporte a hospitais, clínicas e laboratórios de diferentes portes.

As análises clínicas representam 93,2% do volume de exames, com papel central na prevenção, na investigação diagnóstica e no acompanhamento de doenças crônicas e tratamentos. No diagnóstico por imagem, as associadas realizaram 22,8 milhões de exames em 2025. Foram 10,9 milhões de ultrassonografias e, somadas, 5,9 milhões de ressonâncias magnéticas e tomografias computadorizadas. Esses métodos ampliam a capacidade de investigação clínica e de acompanhamento terapêutico, oferecendo informações que apoiam decisões em diferentes especialidades e níveis de complexidade.

Inovação conectada às necessidades dos pacientes

Em 2025, 52,9% das associadas investiram em novos modelos de negócio, enquanto 35,3% mantiveram parcerias ou investimentos em startups. Entre as iniciativas relatadas estão inteligência artificial, automação, algoritmos de apoio à decisão clínica, telerradiologia, plataformas digitais e soluções voltadas à experiência do paciente.

A presença dessas tecnologias abre possibilidades para aprimorar processos, ampliar a capacidade assistencial e apoiar os profissionais de saúde. Seu valor está relacionado à capacidade de responder a necessidades concretas, com qualidade, segurança e benefícios para o cuidado.

Os investimentos em expansão, infraestrutura e atualização tecnológica somaram R$ 933,4 milhões no período. São recursos destinados à manutenção e ao desenvolvimento da estrutura necessária para a prestação dos serviços diagnósticos.

Profissionais e qualidade sustentam a assistência

A capacidade de transformar tecnologia em assistência depende de equipes qualificadas. As associadas reúnem 91.602 colaboradores, dos quais cerca de 80% atuam nas áreas operacional e técnica. Aproximadamente 43% possuem formação técnica ou superior, evidenciando a importância da qualificação em um ambiente de crescente automação e incorporação tecnológica.

A escuta do paciente também integra a avaliação dos serviços: 100% das associadas que realizam atendimento direto ao público adotam pesquisas de satisfação. Essa prática oferece subsídios para identificar necessidades e aperfeiçoar a experiência de atendimento.

Os indicadores ajudam a compreender que a qualidade da medicina diagnóstica resulta de um conjunto de fatores, incluindo profissionais, infraestrutura, processos e acompanhamento da experiência do paciente.

Sustentabilidade para manter e ampliar o acesso

A continuidade dos investimentos exige condições econômicas que sustentem a operação. Por isso, o Painel também analisa modelos de remuneração e desafios nas relações com as operadoras de saúde, como glosas e critérios de reajuste contratual.

Segundo a publicação, o trabalho das equipes permite reverter cerca de 70% dos cortes inicialmente aplicados pelas operadoras. Embora essa recuperação reduza as perdas, o processo demanda recursos administrativos e financeiros que poderiam ser direcionados a outras necessidades da assistência.

O conjunto dos indicadores evidencia que o valor da medicina diagnóstica vai além da realização dos exames: envolve a capacidade de produzir informações confiáveis, disponibilizá-las no momento oportuno e integrá-las às decisões sobre a saúde de cada paciente. Preservar essa capacidade exige investimentos contínuos em profissionais, tecnologia e qualidade, aliados a condições que sustentem a oferta e a ampliação do acesso. 

Para conferir o conteúdo completo da 8ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico, acesse: https://mailchi.mp/abramed.org.br/painel_abramed

Comunicação que cuida: por que informar bem o paciente tornou-se uma intervenção em saúde

Por William Malfatti

A saúde vive um momento de profunda transformação. Se durante décadas a comunicação foi tratada principalmente como uma ferramenta de relacionamento, hoje ela precisa ser reconhecida como parte integrante do cuidado. Na medicina diagnóstica, em especial, a qualidade da comunicação influencia diretamente a adesão do paciente, a segurança assistencial, a compreensão dos resultados e a continuidade da jornada de saúde.

No livro “Experiência do Paciente: Na Teoria e Muita Prática” (Rokkets Editora), do qual sou coautor, defendi que a confiança é um dos ativos mais valiosos das organizações de saúde e que ela se constrói a partir da combinação entre segurança do paciente, qualidade assistencial e empatia ao longo de toda a jornada.

O desafio contemporâneo é ampliar essa reflexão: não basta oferecer excelência técnica. É necessário garantir que cada informação chegue ao paciente de forma compreensível, relevante e aplicável. A comunicação deixou de ser apenas uma camada da experiência para tornar-se um componente do próprio cuidado. 

Na minha visão, a comunicação deve ser considerada parte da jornada de cuidado porque a qualidade clínica, por si só, não garante desfechos positivos. O paciente precisa, com orientação do seu médico, compreender o que fazer, quando fazer e por que fazer.

Em outras palavras, as pessoas precisam ser capazes de acessar, compreender, avaliar e utilizar informações para promover sua saúde. Mais importante ainda, a responsabilidade por isso não é apenas do indivíduo, mas também de todos os agentes de saúde, que devem tornar a informação clara e aplicável.

Quando um paciente não entende adequadamente o preparo de um exame, deixa de comparecer a uma consulta ou recebe um resultado sem saber qual o próximo passo, estamos diante de falhas de comunicação que afetam diretamente a efetividade do cuidado.

Por isso, comunicar não é apenas informar. Comunicar é reduzir dúvidas, orientar decisões, gerar segurança e promover adesão.

Onde a comunicação faz maior diferença na medicina diagnóstica

Na medicina diagnóstica, existem momentos críticos em que uma comunicação clara e proativa pode produzir enorme valor.

1) O primeiro deles é o preparo para exames. Orientações inadequadas podem comprometer a qualidade diagnóstica, provocar remarcações e gerar ansiedade. Informações simples, objetivas e enviadas no momento correto aumentam significativamente a aderência às recomendações.

2) O segundo momento é a realização do exame. O acolhimento, a explicação sobre o procedimento e a gestão das expectativas ajudam a reduzir receios e fortalecem a confiança do paciente na instituição.

3) O terceiro é a entrega dos resultados. O acesso rápido é importante, mas não suficiente. De forma inequívoca, a comunicação tempestiva de resultados diagnósticos é fundamental para a segurança do paciente e para evitar perdas de seguimento assistencial. 

Finalmente, existe a etapa da continuidade do cuidado. O exame é apenas um elo de uma jornada maior, que inclui consultas, tratamentos, monitoramento ou ações preventivas. Uma comunicação bem estruturada pode conectar esses pontos e evitar que o paciente interrompa seu acompanhamento. 

O papel dos canais digitais na adesão ao cuidado

Os recursos digitais ampliaram significativamente a capacidade de comunicação das organizações de saúde. Aplicativos, portais, SMS, WhatsApp e notificações permitem interações mais personalizadas e oportunas.

O potencial dessas ferramentas vai muito além da confirmação de agenda. Elas permitem orientar preparos, notificar a disponibilidade de resultados, reforçar ações preventivas e incentivar o acompanhamento clínico posterior. Quando utilizadas com inteligência, transformam-se em instrumentos de navegação da jornada de saúde.

Nesse sentido, as instituições de medicina diagnóstica exercem um papel relevante ao reforçarem o estímulo para que o paciente procure o seu médico para entender o significado daquele resultado e quais são os próximos passos recomendados.

Em outras palavras, uma boa comunicação não termina na entrega da informação. Ela termina quando a pessoa sabe o que fazer com aquela informação.

Personalização com responsabilidade

A personalização representa uma enorme oportunidade para melhorar a experiência do paciente, mas exige rigor absoluto em privacidade e proteção de dados.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica informações de saúde como dados sensíveis, demandando cuidados adicionais na sua utilização. Além disso, o ambiente da saúde também é regulado por normas do Conselho Federal de Medicina (CFM) e por requisitos cada vez mais rigorosos de governança e segurança da informação.

As organizações precisam adotar critérios claros de consentimento, governança, controle de acesso, segurança cibernética e transparência sobre a utilização dos dados. A confiança digital deve acompanhar a confiança assistencial. Uma não existe sem a outra.

Por fim, é fundamental reconhecer que nem todos os pacientes possuem o mesmo nível de acesso à tecnologia ou o mesmo grau de familiaridade com ferramentas digitais. Isso significa que a transformação digital não pode substituir totalmente os canais tradicionais. Ela deve ampliá-los.

O futuro da comunicação em saúde é omnicanal e inclusivo. A assimetria geracional vai existir sempre e isso exige atenção a todos os diferentes perfis e suas necessidades.

William Malfatti – Colíder do Comitê de Comunicação da Abramed e Diretor de Comunicação, Relacionamento com Clientes e Relações Institucionais do Grupo Fleury

Diagnóstico 5.0 e o valor da medicina diagnóstica na transformação da saúde

Conceito que orienta a 10ª edição do FILIS traduz uma mudança que já alcança laboratórios e hospitais e reposiciona a medicina diagnóstica na jornada do cuidado

Depois de “indústria 4.0”, virou comum nomear qualquer salto tecnológico com uma numeração parecida. Na medicina diagnóstica, porém, mesmo que uma nova tecnologia entre em operação, o equipamento ganhe velocidade, o sistema processe mais informações e novas ferramentas ajudem a identificar padrões em grandes volumes de dados, nada disso, isoladamente, define o “Diagnóstico 5.0”.

O termo marca a passagem de uma fase em que digitalizar e automatizar eram os principais objetivos para outra em que a tecnologia só faz sentido quando gera resultados mais precisos e ágeis para o paciente. 

Exames de biologia molecular e testes genéticos já permitem identificar a causa de uma doença com mais precisão e ajustar o tratamento a cada paciente, em vez de repetir o mesmo protocolo para todo mundo. Segundo projeções do setor, exames de alta complexidade e medicina de precisão avançam de duas a três vezes mais rápido que o mercado como um todo, entre 15% e 25% ao ano, e devem chegar a R$ 70 bilhões até 2030.

Contudo, um levantamento do Comitê Gestor da Internet no Brasil mostra que, hoje, apenas 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros usam Inteligência Artificial. Esse percentual sobe para 29% nos serviços de apoio diagnóstico e terapêutico, mas o uso ainda é concentrado em tarefas operacionais, como organização de processos. O mercado de IA aplicada à saúde no Brasil deve crescer 38% ao ano até 2030, um ritmo alto exatamente porque a base de hoje ainda é pequena.

“O crescimento da medicina de precisão não é modismo, é continuidade de um movimento que já sustenta a medicina diagnóstica há 15 anos. A diferença é que, agora, cada ganho de tecnologia só se justifica se vier acompanhado da capacidade de transformar aquele resultado em decisão clínica ou de gestão”, avalia Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed. 

O ponto de transformação só acontecerá quando esses recursos passarem a conectar etapas que, por muito tempo, funcionaram de forma fragmentada: solicitação, realização do exame, análise, interpretação dos resultados, definição da conduta e acompanhamento do paciente. Nesse modelo, o diagnóstico deixará de ser compreendido como um momento pontual da jornada assistencial e ampliará sua participação nas decisões que orientam o cuidado.

“Diagnóstico 5.0 é sobre integrar todas essas informações com segurança e transformar isso em cuidado personalizado para quem está do outro lado do resultado”, diz Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

Para quem gerencia um laboratório ou uma rede hospitalar, isso deixou de ser uma discussão de médio prazo para se tornar uma decisão estratégica de agora: quanto investir em genômica, como preparar equipes para interpretar resultados mais complexos, como precificar um exame que entrega mais informação, mas também custa mais para ser feito.

São respostas que não podem ser dadas por uma única área. Elas são técnicas, financeiras, éticas e clínicas ao mesmo tempo. Respondê-las exige diálogo entre empresas, profissionais de saúde, reguladores, fontes pagadoras, desenvolvedores de tecnologia e representantes dos pacientes. Essa mistura é, talvez, a definição mais honesta de Diagnóstico 5.0, que não é uma tecnologia específica, mas o momento em que tecnologia, dado e decisão de negócio deixam de ser conversas separadas dentro de uma mesma organização.

Informação para cuidar e também para planejar

Os efeitos do Diagnóstico 5.0 ultrapassam a decisão sobre um caso individual. Quando analisados de forma agregada, segura e responsável, os dados produzidos pela medicina diagnóstica também podem revelar perfis de demanda, lacunas assistenciais, mudanças epidemiológicas e oportunidades de aprimoramento dos serviços.

Essas informações contribuem para dimensionar a capacidade de atendimento, planejar investimentos, organizar fluxos, reduzir repetições desnecessárias e direcionar recursos para onde podem gerar maior impacto. O diagnóstico passa, assim, a apoiar tanto as decisões clínicas quanto as organizacionais.

Uma mudança que fortalece o papel das empresas de medicina diagnóstica como parceiras na construção de modelos assistenciais mais eficientes, sustentáveis e orientados a melhores desfechos e aumenta ainda mais a necessidade de garantir a qualidade de todos os processos diagnósticos.

A precisão técnica do exame continua sendo indispensável e, cada vez mais, passará a integrar um conjunto mais amplo de responsabilidades, que inclui padronização das informações, rastreabilidade, proteção de dados, segurança dos sistemas e critérios transparentes para o uso de novas tecnologias.

“Estamos falando de uma transformação que atravessa toda a organização. Ela exige investimento em tecnologia, mas também em governança, qualificação das equipes, integração entre instituições e clareza sobre o valor que se pretende gerar. O Diagnóstico 5.0 só fará sentido se a inovação chegar à prática, fortalecer a sustentabilidade do sistema e produzir benefícios perceptíveis para pacientes e profissionais”, destaca Milva Pagano.

Uma transformação que depende de escolhas

Avançar não significa incorporar toda tecnologia disponível, mas saber escolher aquelas capazes de resolver problemas que há muito tempo fazem parte do setor. A tecnologia permite dar escala a essa capacidade de análise. O conhecimento médico, por sua vez, preserva o contexto necessário para definir qual investigação é necessária, em que momento deve ser realizada e como o resultado pode modificar uma conduta, evitando que os resultados sejam reduzidos a um conjunto de indicadores.

Essa discussão fará parte da 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), promovido pela Abramed em 26 de agosto, no Teatro Santander, em São Paulo. Sob o macrotema “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”, o encontro conectará Regulação, Valor da Medicina Diagnóstica, ESG e Inteligência Artificial.

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Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial avança no Congresso 

Construído coletivamente por entidades do setor, projeto propõe integrar a rede, assegurar padrões de qualidade e ampliar o acesso a exames na saúde pública 

O diagnóstico laboratorial orienta decisões que vão da prevenção ao acompanhamento dos tratamentos, mas o Brasil ainda não possui uma política nacional que organize a rede, articule padrões de qualidade e estabeleça bases sustentáveis de financiamento.

O Projeto de Lei 5.478/2025 busca preencher essa lacuna ao instituir a Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial (PNDL). De autoria do deputado federal Pedro Westphalen (PP-RS), a proposta foi construída ao longo de um ano e meio, em diálogo com entidades representativas de diferentes segmentos do diagnóstico laboratorial e da saúde. 

Além da Abramed, participam dessa construção a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), a Federação Brasileira de Laboratórios de Análises Clínicas (Febralac), a Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar), o Conselho Federal de Farmácia (CFF), a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), o Conselho Federal de Biomedicina (CFBM), a Federação das Associações de Biomedicina (Faebim) e a Associação Médica Brasileira (AMB). 

Westphalen afirma que sua experiência como médico motivou a atuação em torno da proposta. “Eu só consigo fazer um tratamento adequado com um diagnóstico bem-feito, com precisão, segurança e sustentabilidade”, diz. Para o parlamentar, a pandemia de Covid-19 também evidenciou a importância dos profissionais que atuaram nos bastidores da resposta sanitária, como farmacêuticos e bioquímicos. 

O diálogo técnico e institucional contribuiu para que o projeto chegasse à relatoria com uma base considerada consistente. Responsável pelo parecer na Comissão de Saúde, o deputado Dr. Ismael Alexandrino (PSD-GO) avalia: “Meu primeiro diagnóstico foi de que o projeto chegou às minhas mãos muito maduro.” 

Qualidade, financiamento e dados

Na relatoria, o texto foi aperfeiçoado em diálogo com o Ministério da Saúde e as entidades envolvidas na construção da proposta, consolidando três eixos centrais: qualidade e isonomia sanitária, sustentabilidade financeira e interoperabilidade.

O primeiro reúne qualidade e isonomia sanitária. Como o processo diagnóstico compreende as fases pré-analítica, analítica e pós-analítica, o texto determina que os exames sejam executados por laboratórios licenciados e que os estabelecimentos autorizados a realizar coletas ou testes cumpram requisitos técnico-sanitários e padrões de qualidade equivalentes.

O segundo eixo é a sustentabilidade financeira. A proposta prevê a atualização anual da remuneração dos exames realizados para o SUS, com metodologia baseada nos custos reais de produção, considerando insumos, tecnologia, logística e recursos humanos.

A interoperabilidade constitui o terceiro eixo. Os laboratórios que integram a rede do SUS deverão conectar seus sistemas à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). A integração pode reduzir a repetição de exames, favorecer a continuidade do cuidado e ampliar o uso dos dados na vigilância epidemiológica.

“Esses pilares procuram resolver, na prática, a fragmentação sistêmica da rede, a dependência externa crítica de insumos e a oneração do erário com repetições desnecessárias de exames”, explica Alexandrino.

Para que a PNDL não se limite a princípios, o texto reúne mecanismos de qualidade, financiamento e monitoramento, como controle de qualidade nos laboratórios, rastreabilidade das amostras, atualização anual da remuneração e financiamento interfederativo. Segundo o relator, a implementação também deverá promover a integração entre o Sistema Nacional de Laboratórios de Saúde Pública (Sislab) e a rede privada.

A proposta incentiva ainda a pesquisa, a inovação e a produção nacional, com o objetivo de reduzir a dependência externa de insumos e equipamentos. Caso o projeto seja aprovado pelo Congresso e sancionado, o Poder Executivo terá 180 dias para regulamentá-lo.

Sem a PNDL, alerta Alexandrino, o país corre o risco de perpetuar a fragmentação e a desigualdade no acesso, além de limitar sua capacidade de resposta a futuras emergências sanitárias.

Próximos passos no Congresso

Em 17 de agosto, Alexandrino apresentou novo parecer pela aprovação do projeto, com substitutivo, na Comissão de Saúde. A proposta também está pronta para ser incluída na pauta do Plenário da Câmara.

O regime de urgência para o PL 5.478/2025 foi aprovado por unanimidade pelo Plenário em 9 de junho. Com isso, a matéria pode ser votada diretamente em Plenário, sem depender da conclusão prévia de toda a tramitação nas comissões.

Westphalen afirma que a articulação está concentrada no diálogo com as entidades e com as lideranças partidárias para incluir o projeto na pauta. O parlamentar manifestou a expectativa de votação em setembro e de sanção ainda em 2026.

Para os pacientes do SUS, os primeiros efeitos esperados estão na organização e na qualificação da rede, com maior segurança e confiabilidade nos exames. No médio prazo, a política pode ampliar o acesso a procedimentos de média e alta complexidade, reduzir desigualdades regionais e fortalecer a resposta a emergências sanitárias.

“A PNDL muda a vida do paciente do SUS de forma progressiva, mas consistente: primeiro na qualidade e na segurança do exame; depois, no acesso e na capacidade do sistema de antecipar e responder aos problemas de saúde da população”, resume Alexandrino.

A construção coletiva que levou a proposta até esta etapa evidencia a convergência das entidades em torno de uma agenda comum. O desafio agora é transformar essa base técnica em uma política pública efetiva, capaz de integrar a rede, dar previsibilidade ao financiamento, ampliar o acesso e elevar a segurança do diagnóstico oferecido à população.

Saúde privada atualiza Código de Boas Práticas e amplia agenda de governança de dados 

Construído por nove entidades, documento amplia orientações para aplicação da LGPD e incorpora temas como inteligência artificial, interoperabilidade e segurança da informação

A segunda edição do Código de Boas Práticas do Setor da Saúde foi lançada em 5 de agosto, na sede da CNSaúde, em Brasília, durante evento promovido pelo Instituto Consenso. O documento estabelece referências para a aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) em uma cadeia da saúde cada vez mais conectada e dependente do compartilhamento de informações.

Resultado de dois anos de trabalho conjunto, o Código foi construído por nove entidades representativas dos principais elos da saúde privada: Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (Abraidi), Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas (CMB), Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), Federação Brasileira de Hospitais (FBH), Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) e Associação Brasileira de Planos Odontológicos (Sinog).

O lançamento reuniu parlamentares, representantes de agências reguladoras, autoridades do Ministério da Saúde e lideranças do setor para debater governança de dados, interoperabilidade e Inteligência Artificial aplicada à saúde.

Durante o evento, a deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP) apresentou o andamento do projeto de lei sobre interoperabilidade de dados em saúde e a Rede Nacional de Dados de Saúde. Também participou do encontro Ana Estela Haddad, que, na ocasião, ocupava o cargo de secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde.

Representantes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) discutiram os impactos regulatórios da Inteligência Artificial e os caminhos para maior diálogo entre reguladores e setor. A apresentação do Código ficou a cargo das coordenadoras acadêmicas Laura Schertel Mendes e Mônica Fujimoto, do IDP/CEDIS, ao lado de Lorena Giuberti, diretora da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

O que muda na nova edição?

A primeira edição, lançada em 2021, ofereceu ao setor um parâmetro próprio de conformidade voltado especificamente aos prestadores privados de serviços de saúde.

Já a segunda versão amplia esse escopo ao incorporar também operadoras de planos de saúde e fornecedores e distribuidores de produtos para saúde, refletindo a própria dinâmica do setor.

Dados clínicos e administrativos percorrem diferentes organizações ao longo da jornada do paciente — do agendamento e realização de exames à emissão de laudos, autorização de procedimentos, faturamento, auditoria, assistência, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias. O Código reconhece a interdependência desses fluxos e propõe uma abordagem de proteção de dados que considere toda a cadeia.

Organizado em duas partes, o documento apresenta inicialmente conceitos, princípios e bases legais da LGPD aplicados à saúde e, em seguida, reúne orientações sobre temas como prontuário eletrônico, telessaúde, relação com terceiros, auditorias, direitos dos titulares, Relatórios de Impacto à Proteção de Dados Pessoais e segurança da informação.

Um dos principais avanços está no conteúdo dedicado à inovação, com orientações sobre privacy by design, pesquisa em saúde, biometria e utilização de Inteligência Artificial, associando a adoção de novas tecnologias a critérios como transparência, governança, avaliação de riscos e supervisão humana.

O conteúdo parte da premissa de que proteção de dados e inovação não são agendas opostas. Regras claras de governança podem favorecer o compartilhamento responsável de informações, a segurança jurídica e a confiança entre pacientes, profissionais e instituições.

O olhar da medicina diagnóstica

A medicina diagnóstica ocupa uma posição importante nessa discussão. Laboratórios, clínicas e serviços de diagnóstico por imagem produzem, processam, armazenam e compartilham informações clínicas sensíveis em atividades como realização de exames, emissão de laudos e intercâmbio de informações com médicos, hospitais e operadoras.

Por isso, desde o início da construção do Código, a Abramed atuou para incorporar ao documento a realidade da medicina diagnóstica e sua conexão com os demais elos da saúde.

Para Lucas Bonafé, advogado do escritório Machado Nunes e sócio da área de Direito Digital e Propriedade Intelectual, que acompanhou a elaboração do material, essa participação ajudou a conferir ao Código uma abordagem realista.

“A importância do Código de Boas Práticas de LGPD é conseguir demonstrar a capilaridade da medicina diagnóstica na área da saúde como um todo e explicar como os dados de saúde são utilizados hoje em toda a cadeia”, afirma.

Segundo o advogado, a Abramed levou ao debate as particularidades da medicina diagnóstica e contribuiu para a articulação das perspectivas de prestadores, operadoras e indústria. Esse diálogo ajudou a conferir ao documento uma abordagem prática, apoiada em exemplos reais de compartilhamento de informações.

Confiança como ativo da saúde

Para Rogéria Leoni Cruz, líder dos Comitês Jurídico e de Proteção de Dados da Abramed, a discussão ganha importância adicional na saúde por envolver informações produzidas em momentos de vulnerabilidade das pessoas.

“A saúde é construída sobre a confiança. Confiamos no médico que nos acolhe, nos hospitais que cuidam de nossas famílias e que informações profundamente pessoais serão tratadas com respeito, responsabilidade e segurança”, afirma.

Na avaliação de Rogéria, o avanço da Inteligência Artificial, da medicina personalizada, da interoperabilidade e de outras ferramentas digitais reforça a necessidade de incorporar a proteção de dados à estratégia das organizações.

“Proteger dados não significa limitar o avanço da ciência, da tecnologia ou da assistência. Significa garantir que esse avanço aconteça da forma correta”, ressalta.

A efetividade do Código dependerá agora de sua incorporação ao cotidiano de organizações de diferentes portes e segmentos. Ao transformar os princípios da LGPD em referências práticas para processos, contratos, tecnologias e relações entre os agentes da cadeia, o documento oferece uma base comum para que a inovação e o compartilhamento de dados avancem com segurança, responsabilidade e confiança.

Acesse a íntegra do Código de Boas Práticas do Setor da Saúde

Relembre o lançamento da primeira edição do Código, em 2021

Biomarcadores no sangue ampliam caminhos para o diagnóstico do Alzheimer

Reunião do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed debateu o avanço dos testes plasmáticos e os desafios de qualidade, interpretação e incorporação à prática assistencial 

Durante muito tempo, a investigação da doença de Alzheimer se apoiou na avaliação clínica, em exames de imagem e, em casos específicos, na análise de biomarcadores no líquor. A chegada de testes capazes de detectar no sangue alterações biológicas associadas à doença amplia as possibilidades diagnósticas. Para a assistência, a gestão e a medicina diagnóstica, surge uma questão central: como incorporar essa tecnologia de forma segura, clinicamente útil e operacionalmente viável? 

Foi esse o tema da reunião do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed, realizada em 13 de agosto, na sede da Roche, em São Paulo, que reuniu especialistas para discutir a evolução do diagnóstico da doença, as evidências para os novos biomarcadores e os desafios de levar essa tecnologia da pesquisa para a rotina assistencial.

Guilherme Lemos, coordenador de Valor Médico da Roche Diagnóstica Brasil, abriu a apresentação perguntando: quem nunca saiu de casa e voltou para conferir se tinha trancado a porta? A provocação chegou ao ponto principal da palestra: esquecimentos acontecem. O problema é quando passam a ser tratados automaticamente como consequência da idade e deixam de ser investigados.

O diagnóstico ainda costuma chegar tarde 

Estima-se que 2,71 milhões de pessoas com 60 anos ou mais vivam com demência no Brasil, número que pode chegar a 5,6 milhões em 2050. A doença de Alzheimer é a causa mais frequente, representando de 60% a 70% dos casos. Outro dado chama atenção: aproximadamente quatro em cada cinco idosos que apresentam critérios para demência não receberam diagnóstico formal. 

A ciência, porém, mostra sinais prévios: a patologia amiloide pode surgir cerca de 20 a 30 anos antes das primeiras manifestações clínicas. Identificar a doença mais cedo muda a conversa sobre diagnóstico, acompanhamento e, principalmente, elegibilidade para novas terapias.

A análise de biomarcadores no líquor e o PET amiloide são métodos consolidados, mas envolvem custos, infraestrutura e, no caso do líquor, uma coleta invasiva. Os biomarcadores plasmáticos entram nesse cenário com uma vantagem que interessa a qualquer gestor: escala. Uma coleta de sangue é mais simples, mais fácil de incorporar à rotina de um laboratório e mais acessível a um número maior de pacientes.

Nos dados apresentados, a p-tau217 se destacou pela sensibilidade e especificidade e pela capacidade de diferenciar pacientes com e sem patologia amiloide; a p-tau181 foi apresentada como alternativa relevante, sobretudo para triagem.

Gustavo Bruniera, coordenador médico do serviço de Líquido Cefalorraquidiano (LCR) do Einstein Hospital Israelita, reconstruiu essa evolução: dos critérios clínicos da década de 1980, passando pela sistema biológico AT(N) a partir de 2018, até a reclassificação mais recente, que ampliou a presença dos biomarcadores plasmáticos.

“Ninguém tem dúvida de que o plasma vai chegar, na verdade já chegou. Mas a grande dúvida é como isso vai ser utilizado”, afirmou.

Segundo ele, a Academia Brasileira de Neurologia segue uma linha próxima à do grupo europeu associado a Dubois, que exige a combinação entre manifestação clínica e biomarcador positivo. Já a linha americana, associada a Jack, trabalha com uma definição biológica da doença, em que o biomarcador tem papel central.

“O guideline não é uma reserva de mercado. É uma padronização de como todos nós temos que agir”, concluiu.

O laboratório passa a ter uma responsabilidade ainda maior

O debate mostrou que, além do desempenho clínico, existe uma segunda camada igualmente importante: a qualidade do processo laboratorial. Os novos testes trabalham com concentrações muito baixas, o que aumenta a importância do controle pré-analítico, da padronização e da automação, pontos que Guilherme destacou ao falar dos ganhos da automação no desempenho dos exames.

Carlos Eduardo Ferreira, um dos líderes do Comitê Técnico da Abramed e gerente médico do Laboratório Clínico do Einstein Hospital Israelita, levou essa discussão para a prática laboratorial. “Estamos discutindo um, dois, três, quatro marcadores soltos. Daqui a pouco, teremos a opção de mensurar um número maior de marcadores”, ponderou. “Se já está complexo com um ou dois marcadores, na hora que você colocar uma quantidade grande chegando ao mercado, isso pode gerar confusão”, completou. Ele vê na inteligência artificial uma ferramenta possível para organizar esse cenário, mas alerta para um problema anterior: entender o que significa um resultado alterado em quem ainda não tem comprometimento cognitivo.

A expansão dos biomarcadores aumenta a importância dos laboratórios. Os médicos, porém, também precisarão interpretá-los melhor dentro da história do paciente, dos sintomas e da avaliação cognitiva.

Foi nessa fronteira que Márcio Vega, coordenador médico do Senne Líquor Diagnóstico, trouxe a experiência de quem acompanha a utilização desses exames pelas equipes médicas. Segundo ele, na casuística acompanhada pelo serviço, a proporção de resultados positivos nas assinaturas clássicas de biomarcadores em líquor passou de cerca de 30%, anos atrás, para mais de 60% atualmente. Ainda assim, defendeu cautela em pacientes assintomáticos, lembrando que detectar uma alteração antes dos sintomas nem sempre muda a conduta clínica.

Alex Galoro, um dos líderes do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed e gerente médico da DB Diagnósticos, ampliou a discussão, relacionando o avanço das doenças neurodegenerativas à própria transformação do perfil epidemiológico mundial: à medida que a medicina controla melhor doenças infecciosas e cardiovasculares e as pessoas vivem mais, as enfermidades neurodegenerativas ganham espaço e passam a demandar mais biomarcadores e tratamentos capazes de alterar sua evolução. Segundo ele, é para organizar esse volume crescente de variáveis, e não para substituir o raciocínio clínico, que a inteligência artificial deve ganhar espaço.

Uma agenda que vai crescer

As demências também têm uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. Segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, o custo total anual foi estimado em R$ 96,7 bilhões em 2022 e pode chegar a R$ 199,4 bilhões em 2050. Na estimativa referente a 2019, os custos indiretos representavam 78% do total. O estudo mostrou ainda que 83,6% dos cuidadores exerciam essa atividade de maneira informal e sem remuneração. 

Os participantes convergiram no ponto de que os biomarcadores já estão mudando o diagnóstico do Alzheimer, mas o setor ainda está aprendendo a organizar o uso dessa informação. A indústria desenvolve novos marcadores e a literatura cresce em velocidade; diretrizes, modelos assistenciais e critérios de incorporação ainda precisam acompanhar esse movimento.

Esse debate ultrapassa o território da neurologia e envolve laboratórios, hospitais, médicos, gestores, indústria diagnóstica e regulação. Também amplia o papel da medicina diagnóstica diante de um desafio crescente: transformar dados biológicos em informação clínica útil, capaz de produzir valor real para o paciente e para o sistema de saúde.

Abramed fortalece articulação internacional da medicina diagnóstica no ADLM 2026

Como uma das entidades organizadoras da 3ª Missão Brasileira, a entidade participou de uma agenda de conteúdo científico, articulação internacional e visitas técnicas nos Estados Unidos

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) integrou a organização da 3ª Missão Brasileira no ADLM 2026, realizada entre 27 e 30 de julho, na Califórnia, nos Estados Unidos. Representada por Lidia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração, a entidade participou da iniciativa liderada pela Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), voltada a ampliar a presença institucional do setor brasileiro e o intercâmbio com referências internacionais da medicina laboratorial.

A Missão ocorreu durante o ADLM, o maior congresso mundial do segmento laboratorial, promovido pela Association for Diagnostics & Laboratory Medicine, em Anaheim. Com mais de 250 atividades educacionais e a participação de mais de 700 empresas, a edição reuniu especialistas de diferentes países para debater inovações em exames laboratoriais e diagnóstico clínico. 

Na abertura, representantes de entidades brasileiras e internacionais dividiram o palco. Paul Jannetto, presidente da ADLM 2026, e Stan Lo, presidente eleito da organização, deram as boas-vindas aos participantes, ao lado de Carlos Gouvêa, presidente executivo da CBDL. Fúlvio Facco, presidente do Conselho de Administração da entidade, destacou a união dos stakeholders brasileiros naquele momento.

Lidia Abdalla defendeu uma agenda consistente junto às agências reguladoras, voltada às políticas públicas e ao fortalecimento da medicina laboratorial. “Estamos aqui buscando, cada vez mais, qualidade, melhor assistência, segurança do paciente em um setor que passa por grandes transformações”, afirmou durante a abertura.

Representantes de outras entidades também subiram ao palco. Leonardo Vasconcellos, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), associou o laboratório atual à gestão de big data e citou a Inteligência Artificial como tema central do congresso da própria sociedade neste ano.

Maria Elizabeth Menezes, da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), tratou da regulação do setor e do papel dos pequenos e médios laboratórios no acesso da população ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Ainda na noite de abertura, a sessão científica seguiu com dois painéis dedicados a mostrar como o diagnóstico avança do exame à inteligência integrada em saúde e a debater a interoperabilidade e a necessidade de padrões comuns para o uso de IA na rotina laboratorial. 

A contribuição institucional da Abramed para essas agendas foi ressaltada durante os debates. Rafael Jácomo, do Grupo Sabin, citou uma colaboração da Associação com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), do Ministério da Saúde, entre as iniciativas em curso no país para ampliar a integração das informações em saúde. Linaldo Vilar, da Dasa, também destacou o papel da entidade no avanço de iniciativas de interoperabilidade. 

Imersão em operações de referência

Nos demais dias, a Missão seguiu para San Juan Capistrano, na Califórnia, para uma visita técnica exclusiva ao campus da Quest Diagnostics, associada da Abramed no Brasil. A delegação brasileira acompanhou uma operação que funciona 24 horas por dia, recebe mais de 100 mil requisições diárias e processa hoje mais de 80% dos exames de apoio enviados do Brasil para a Quest Diagnostics.

Os participantes tiveram contato com áreas como biologia e genética molecular, doenças infecciosas, espectrometria de massas, hematologia, oncologia, química clínica e sorologia. A experiência mostrou como automação, gestão da informação e diferentes competências laboratoriais podem ser articuladas em uma operação de grande escala.

O encerramento ocorreu em 30 de julho, com uma visita técnica à Hologic, em San Diego, um dos principais centros mundiais de inovação voltados à saúde da mulher e ao diagnóstico molecular. A delegação conheceu suas plataformas, a linha de manufatura da empresa e o Centro de Inovação, que reúne tecnologias de citologia digital e inteligência artificial aplicada ao rastreamento do câncer.

Cooperação que ultrapassa o congresso

Além da agenda científica e técnica, a Missão também aproximou o Brasil de outras entidades internacionais. Tomris Özben, presidente da International Federation of Clinical Chemistry and Laboratory Medicine (IFCC), esteve presente, reforçando a conexão global da medicina laboratorial. A agenda internacional também incluiu a discussão de uma possível cooperação com Debi Boeras para cursos sobre resistência aos antimicrobianos (RAM), envolvendo CBDL, SBAC, SBPC/ML, Abramed e outras entidades.

Para as próximas edições, a organização já projeta um modelo permanente de relacionamento entre entidades brasileiras e ADLM.

A experiência reforça uma agenda que seguirá além do congresso: criar condições para que inovação e novas tecnologias possam ser incorporadas à medicina diagnóstica com qualidade, segurança e previsibilidade, conectadas às necessidades do cuidado e aos desafios do sistema de saúde brasileiro.

Diálogo e decisões estratégicas orientam a agenda da saúde no segundo semestre 

Definições regulatórias e a aproximação das eleições exigirão  articulação entre entidades, reguladores e formuladores de políticas públicas para manter o avanço de pautas estruturantes. 

Com a aproximação das eleições, a agenda pública tende a ser marcada por pautas de maior apelo eleitoral, enquanto discussões técnicas e estruturantes podem perder espaço no debate legislativo.

Para a saúde, esse cenário representa um desafio. Temas como regulação, sustentabilidade, transformação do modelo assistencial e governança continuam essenciais e exigirão articulação entre entidades representativas, reguladores e poder público para avançar.

Um tema que deve permanecer na pauta é o Projeto de Lei nº 2.338/2023, que propõe o marco regulatório da inteligência artificial no Brasil. A regulamentação precisa garantir transparência, segurança, supervisão humana e responsabilização, sem impedir o desenvolvimento de ferramentas capazes de apoiar profissionais, qualificar processos e ampliar a capacidade assistencial.

Aprovada pelo Senado e em análise na Câmara dos Deputados, a proposta aguarda parecer na comissão especial e seguirá demandando atenção do setor.

Outro ponto relevante é a Agenda Regulatória 2026–2028 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O planejamento estabelece 14 pautas prioritárias, organizadas em três eixos: proteção dos beneficiários; qualidade do cuidado e transformação assistencial; e sustentabilidade, dados e governança da informação. Entre os assuntos previstos estão o aprimoramento das regras para reajustes coletivos, portabilidade e reembolsos.

Embora muitas dessas iniciativas não sejam direcionadas especificamente à medicina diagnóstica, elas influenciam o ambiente regulatório da saúde suplementar e ajudam a definir as condições para o desenvolvimento do setor nos próximos anos.

“Acompanhar e influenciar esse processo é essencial. Projetos estruturantes não podem depender apenas de questões circunstanciais, e o papel do setor é garantir que o debate técnico aconteça no momento certo e com a profundidade necessária”, avalia Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed.

A saúde no debate eleitoral

Ao longo do semestre, propostas relacionadas ao financiamento do sistema, à transformação do modelo assistencial, ao acesso e à integração entre os sistemas público e privado devem ganhar espaço nas conversas com candidatos, partidos e formuladores de políticas públicas.

Por estar presente em diversas etapas da jornada do paciente e por conectar o Sistema Único de Saúde (SUS) e a saúde suplementar, a medicina diagnóstica contribui para aproximar diferentes players em torno de desafios que ultrapassam as fronteiras de cada segmento.

Esse período também amplia a responsabilidade das entidades representativas de levar dados, evidências e conhecimento técnico ao debate público, contribuindo para que a saúde seja tratada como uma política estratégica para o desenvolvimento social e econômico do país, e não apenas sob a perspectiva das demandas imediatas.

A Abramed amplia o diálogo e a produção de conhecimento

Os próximos meses reúnem algumas das principais iniciativas da Abramed. Entre elas está a 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), marcada para 26 de agosto.

O encontro reunirá reguladores, gestores e lideranças empresariais para debater temas estratégicos e transformar as discussões em propostas para os desafios e as oportunidades dos próximos anos da saúde brasileira.

“Como costumo dizer, somos vasos comunicantes. Saúde pública, saúde suplementar, reguladores e setor produtivo precisam caminhar de forma integrada. É essa habilidade de construir soluções em conjunto que permitirá à medicina diagnóstica manter sua capacidade de adaptação”, pontua Cesar Nomura.

O FILIS também será o principal momento de divulgação dos dados da 8ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico. A publicação será lançada na noite anterior, durante um jantar exclusivo para convidados, e reunirá os indicadores mais recentes das empresas associadas, acompanhados de análises sobre os resultados apurados.

A agenda do segundo semestre contará ainda com o Simpósio ESG Abramed, que aprofundará temas como responsabilidade ambiental, sustentabilidade econômica, governança e qualidade assistencial, cada vez mais relevantes para a gestão das organizações de saúde.

Na ocasião, a associação lançará, pela primeira vez em edição independente, o Caderno ESG Abramed. Até então, os indicadores e as iniciativas de sustentabilidade integravam o Painel Abramed. A realização de um simpósio e a criação de uma publicação dedicados ao tema refletem o amadurecimento dessa agenda na associação e no setor.

Essas iniciativas reforçam a relevância da medicina diagnóstica nos debates que influenciam a saúde brasileira. Diante das definições regulatórias e das articulações que antecedem um novo ciclo político, o setor precisará levar dados, conhecimento técnico e propostas aos espaços em que as decisões são construídas.