FILIS 2026 debate caminhos para uma regulação alinhada à realidade, com foco em segurança e qualidade assistencial

Debate mostrou que o cumprimento de normas deve caminhar ao lado de cultura organizacional, governança, tecnologia, formação humana e diálogo com órgãos regulatórios

A discussão sobre regulação em saúde deve considerar os impactos das normas na relação com o paciente, nos processos das organizações e na qualidade dos serviços oferecidos. Esse foi um dos focos do segundo debate do FILIS 2026, que contou com mediação de Wilson Shcolnik, membro do Conselho de Administração da Abramed e gerente de Relações Institucionais do Grupo Fleury. Participaram Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury; Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin; Rafael Lucchesi, CEO da Dasa; e Thiago Lopes Cardoso Campos, diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Os executivos discutiram como os marcos regulatórios podem contribuir para serviços mais seguros e eficientes, relacionando a atuação das agências à incorporação desses princípios na gestão e na operação das instituições. 

Na abertura, Thiago Lopes Cardoso Campos destacou o esforço da Anvisa para ampliar o diálogo com o setor, enfrentar gargalos acumulados e fortalecer o acompanhamento dos serviços e produtos ao longo de todo o ciclo de vida. Segundo ele, a agenda de segurança e qualidade não nasceu apenas de uma determinação regulatória, mas das próprias necessidades identificadas nos serviços de saúde e posteriormente incorporadas às políticas públicas.

Nas experiências apresentadas pelo Grupo Sabin, Fleury e Dasa, qualidade e segurança apareceram diretamente relacionadas à cultura organizacional, à formação das pessoas e à capacidade de manter padrões comuns mesmo em operações de grande escala e com presença em diferentes regiões do país.

Lídia Abdalla lembrou que o Brasil reúne realidades muito distintas de infraestrutura, sistemas de saúde e qualificação profissional.Por isso, desde a escolha de novos mercados e parceiros, o processo de expansão do Sabin considera a afinidade cultural e a capacidade de incorporar os padrões da organização. “Nós não abrimos mão e não há flexibilidade em segurança do paciente e qualidade”, afirmou. A integração envolve desde requisitos sanitários e sistemas informatizados até a capacitação das equipes e valorização de lideranças locais.

No Fleury, segundo Jeane Tsutsui, a padronização precisa acompanhar toda a jornada diagnóstica, incluindo preparo do paciente, coleta, transporte e as etapas pré-analítica, analítica e pós-analítica. Para uma operação que reúne unidades próprias, atendimento móvel, hospitais e milhares de laboratórios parceiros, transformar o conhecimento dos especialistas em processos institucionalizados e replicáveis é parte essencial da manutenção da qualidade. “A governança técnica é fundamental”, resumiu.

Já Rafael Lucchesi trouxe a experiência da Dasa e reforçou que a escala só se transforma em vantagem quando vem acompanhada de integração, processos e indicadores capazes de mostrar rapidamente qualquer desvio. Segundo ele, indicadores financeiros e de experiência do paciente convivem hoje com painéis específicos de qualidade assistencial e segurança. Quando algum risco é identificado, a informação chega prioritariamente à alta gestão. 

Com a digitalização dos serviços e o avanço da Inteligência Artificial, a cibersegurança também entrou nessa rotina de acompanhamento. Lucchesi destacou que os riscos tecnológicos passaram a exigir atenção permanente das lideranças. Wilson Shcolnik reforçou que, para o setor de saúde, proteger sistemas e informações também significa proteger o próprio paciente.

A gestão do parque tecnológico dessas empresas mostrou outra dimensão da estrutura de qualidade. Os participantes relataram processos contínuos de acompanhamento de equipamentos, que envolvem engenharia clínica, manutenção, desempenho analítico, qualidade de imagem, produtividade, calibração e planejamento de substituições.

No Sabin, o monitoramento alcança todo o parque tecnológico e é acompanhado diariamente. No Fleury, Jeane ressaltou que “a qualidade começa na seleção dos equipamentos” e explicou que o acompanhamento se estende durante toda a vida útil da tecnologia. Em 2025, o grupo destinou R$ 98 milhões à renovação de equipamentos. Já na Dasa, a aprovação regulatória é seguida por uma validação técnica própria antes da incorporação: equipamentos que não atingem os parâmetros estabelecidos pela instituição podem retornar aos fornecedores para ajustes antes de entrar na operação.

Uma regulação mais integrada

Ao tratar do papel da Anvisa, Thiago apresentou a complexidade da atuação da agência, especialmente nas áreas de portos, aeroportos, fronteiras e importações. De acordo com ele, o desafio envolve não apenas a amplitude das atribuições, mas a necessidade de aperfeiçoar processos e integrar os diferentes órgãos envolvidos nas análises.

Ele defendeu que a modernização precisa simplificar a relação com o poder público sem comprometer a avaliação sanitária. “Um processo na administração pública não pode ser tratado como uma gincana”, afirmou, ao defender sistemas em que diferentes órgãos possam analisar simultaneamente um mesmo processo, em vez de impor sucessivas etapas ao setor regulado.

Thiago também apontou a convergência internacional como um caminho importante para o aperfeiçoamento regulatório. A Anvisa já participa de fóruns globais e trabalha para aproximar suas regras das referências adotadas em outros mercados, embora algumas áreas ainda tenham espaço para ampliar esse intercâmbio. Para o diretor da Agência, a discussão precisa partir sempre da avaliação do risco sanitário que o país está disposto a aceitar e das melhores práticas disponíveis para gerenciá-lo.

A discussão mostrou que a regulação estabelece uma base indispensável, mas a qualidade se sustenta no dia a dia, por meio da formação das equipes, da governança técnica, do acompanhamento de indicadores e da atualização de processos e equipamentos. O desafio é construir normas capazes de responder às diferentes realidades dos serviços sem perder de vista o princípio que orientou todo o debate: a segurança do paciente. 

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Construção de ambiente regulatório capaz de promover a inovação na saúde é pauta do primeiro debate do FILIS 2026

Representantes da Anvisa, da Abramed e do setor hospitalar analisaram alternativas para garantir previsibilidade e fortalecer a sustentabilidade dos serviços

A inovação em saúde avança em um ambiente que exige segurança regulatória e qualidade dos processos, ao mesmo tempo em que novas tecnologias precisam encontrar condições para serem desenvolvidas e incorporadas à rotina assistencial. 

A pauta fez parte do debate “Regulação, inovação e os impactos para a Medicina Diagnóstica”, que abriu a programação do FILIS 2026 e contou com mediação de Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed, diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Participaram da discussão Diogo Penha Soares, diretor-adjunto da Presidência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa); Fernando Ganem, CEO do Hospital Sírio-Libanês; Henrique Neves, diretor-geral do Einstein Hospital Israelita; e Julio Vieira, membro do Conselho Fiscal da Abramed e CEO do Hcor.

Ao longo do painel, Cesar Nomura chamou atenção para o envelhecimento do parque de equipamentos de radiologia no país. Segundo pesquisa citada por ele, entre 30% e 40% das máquinas pesadas poderão chegar ao fim de sua vida útil nos próximos dois anos.

Diante desse cenário, Fernando Ganem abordou o desafio de avaliar quais inovações devem receber investimento e ganhar escala dentro de uma instituição de alta complexidade. Para ele, a capacidade de oferecer os recursos necessários ao diagnóstico e ao tratamento também está ligada à sustentabilidade e ao posicionamento estratégico do hospital.

O executivo trouxe a perspectiva de quem recebe, todos os dias, propostas de novas tecnologias e modelos de negócio e comentou que o desafio do gestor é ter informações técnicas consistentes para tomar decisões. “Se algum paciente ou profissional escolher não estar na nossa instituição porque nós não temos o recurso para fazer o diagnóstico ou o tratamento dele, temos um problema de sustentabilidade”, afirmou. 

Ganem defendeu ainda que a ciência e os dados orientem essa incorporação: “Trazer a ciência, trazer o dado, junto com as instituições sérias, para influenciar as políticas de saúde e a relação com as operadoras, e questionar aquilo que realmente gera valor para os pacientes que precisam do acesso”. 

Ao apresentar as experiências do Einstein em terapia celular, saúde digital e startups, Henrique Neves, por sua vez, mostrou que foi necessário desenvolver soluções ao mesmo tempo em que se construíam os caminhos regulatórios para viabilizá-las.

“Quando começamos a desenvolver projetos e a lidar com os desafios trazidos pelas novas tecnologias, isso despertou um interesse cada vez maior dentro da organização. E fomos aprendendo à medida que ampliávamos essas experiências”, afirmou. A partir desse processo, o hospital passou a estruturar uma governança específica, com um comitê de empreendedorismo e inovação que acompanha investimentos, resultados e novas colaborações.

Os dados da 8ª edição do Painel Abramed — O DNA do Diagnóstico mostram que esse movimento também ocorre entre as associadas: 52,9% investem em novos modelos de negócio e 35,3% mantêm parcerias ou investimentos em startups. 

Representando a Anvisa, Diogo Penha Soares destacou que o diálogo com quem desenvolve e utiliza novas tecnologias é parte importante da construção de respostas regulatórias.

“Queremos discutir a inovação com quem está desenvolvendo inovação. Aprendemos como regular junto ao regulado, que é quem está inovando”, ressaltou. Entre as iniciativas apresentadas, Diogo mencionou a proposta de criação de um sandbox regulatório — ambiente de experimentação que permitirá à agência avaliar novas soluções e aperfeiçoar a regulação a partir de dados e da interação com quem desenvolve as tecnologias.

Júlio Vieira trouxe a discussão para a capacidade das instituições de gerar resultados suficientes para sustentar a atualização tecnológica. Os dados do Painel Abramed ajudam a dimensionar esse esforço: em 2025, as associadas somaram R$ 933,4 milhões em CAPEX, mesmo diante das pressões sobre custos e margens. 

“Quando se fala de investimento em equipamentos, pensa-se muito na compra de um aparelho de ressonância, de tomografia ou de ultrassom. Só que esse investimento não vem sozinho. Ele vem também com investimento em infraestrutura e com um custeio adicional de manutenção, reposição de peças, trocas e substituições”, explicou.

Ele também lembrou que os hospitais trabalham com margens apertadas e precisam gerar resultados para cobrir a própria depreciação antes de investir em novos projetos. Para Vieira, a Medicina Diagnóstica vai ocupar uma parte cada vez maior dessa agenda, visto que mais de 70% das decisões clínicas já se apoiam no diagnóstico.

Ainda no âmbito financeiro e da governança do ecossistema de saúde, o CEO do Hcor comentou a relação entre prestadores e fontes pagadoras. A 8ª edição do Painel Abramed — O DNA do Diagnóstico mostra que o prazo médio de recebimento pode chegar a 71 dias. As glosas iniciais representam 4,6% do faturamento das associadas, enquanto 1,2% permanece não pago mesmo após a contestação, processo que pode superar 85 dias. 

“Na Medicina Diagnóstica, conseguimos melhorar esse processo, inclusive com informatização, automação e Inteligência Artificial. Mas a questão da glosa ainda é pouco técnica e muito administrativa, o que acaba gerando instabilidade para o setor”, comentou. Para ele, o tema deixou de ser apenas operacional e exige uma discussão mais ampla sobre regras e relações entre os diferentes agentes do setor.

Ao encerrar o debate, Cesar Nomura reforçou a necessidade de criar condições para que o setor incorpore novas soluções com segurança e gere valor para o sistema. “Vemos que a inovação precisa de sustentabilidade para fazer tudo isso”, afirmou.

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Diagnóstico 5.0 e o valor da medicina diagnóstica na transformação da saúde

Conceito que orienta a 10ª edição do FILIS traduz uma mudança que já alcança laboratórios e hospitais e reposiciona a medicina diagnóstica na jornada do cuidado

Depois de “indústria 4.0”, virou comum nomear qualquer salto tecnológico com uma numeração parecida. Na medicina diagnóstica, porém, mesmo que uma nova tecnologia entre em operação, o equipamento ganhe velocidade, o sistema processe mais informações e novas ferramentas ajudem a identificar padrões em grandes volumes de dados, nada disso, isoladamente, define o “Diagnóstico 5.0”.

O termo marca a passagem de uma fase em que digitalizar e automatizar eram os principais objetivos para outra em que a tecnologia só faz sentido quando gera resultados mais precisos e ágeis para o paciente. 

Exames de biologia molecular e testes genéticos já permitem identificar a causa de uma doença com mais precisão e ajustar o tratamento a cada paciente, em vez de repetir o mesmo protocolo para todo mundo. Segundo projeções do setor, exames de alta complexidade e medicina de precisão avançam de duas a três vezes mais rápido que o mercado como um todo, entre 15% e 25% ao ano, e devem chegar a R$ 70 bilhões até 2030.

Contudo, um levantamento do Comitê Gestor da Internet no Brasil mostra que, hoje, apenas 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros usam Inteligência Artificial. Esse percentual sobe para 29% nos serviços de apoio diagnóstico e terapêutico, mas o uso ainda é concentrado em tarefas operacionais, como organização de processos. O mercado de IA aplicada à saúde no Brasil deve crescer 38% ao ano até 2030, um ritmo alto exatamente porque a base de hoje ainda é pequena.

“O crescimento da medicina de precisão não é modismo, é continuidade de um movimento que já sustenta a medicina diagnóstica há 15 anos. A diferença é que, agora, cada ganho de tecnologia só se justifica se vier acompanhado da capacidade de transformar aquele resultado em decisão clínica ou de gestão”, avalia Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed. 

O ponto de transformação só acontecerá quando esses recursos passarem a conectar etapas que, por muito tempo, funcionaram de forma fragmentada: solicitação, realização do exame, análise, interpretação dos resultados, definição da conduta e acompanhamento do paciente. Nesse modelo, o diagnóstico deixará de ser compreendido como um momento pontual da jornada assistencial e ampliará sua participação nas decisões que orientam o cuidado.

“Diagnóstico 5.0 é sobre integrar todas essas informações com segurança e transformar isso em cuidado personalizado para quem está do outro lado do resultado”, diz Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

Para quem gerencia um laboratório ou uma rede hospitalar, isso deixou de ser uma discussão de médio prazo para se tornar uma decisão estratégica de agora: quanto investir em genômica, como preparar equipes para interpretar resultados mais complexos, como precificar um exame que entrega mais informação, mas também custa mais para ser feito.

São respostas que não podem ser dadas por uma única área. Elas são técnicas, financeiras, éticas e clínicas ao mesmo tempo. Respondê-las exige diálogo entre empresas, profissionais de saúde, reguladores, fontes pagadoras, desenvolvedores de tecnologia e representantes dos pacientes. Essa mistura é, talvez, a definição mais honesta de Diagnóstico 5.0, que não é uma tecnologia específica, mas o momento em que tecnologia, dado e decisão de negócio deixam de ser conversas separadas dentro de uma mesma organização.

Informação para cuidar e também para planejar

Os efeitos do Diagnóstico 5.0 ultrapassam a decisão sobre um caso individual. Quando analisados de forma agregada, segura e responsável, os dados produzidos pela medicina diagnóstica também podem revelar perfis de demanda, lacunas assistenciais, mudanças epidemiológicas e oportunidades de aprimoramento dos serviços.

Essas informações contribuem para dimensionar a capacidade de atendimento, planejar investimentos, organizar fluxos, reduzir repetições desnecessárias e direcionar recursos para onde podem gerar maior impacto. O diagnóstico passa, assim, a apoiar tanto as decisões clínicas quanto as organizacionais.

Uma mudança que fortalece o papel das empresas de medicina diagnóstica como parceiras na construção de modelos assistenciais mais eficientes, sustentáveis e orientados a melhores desfechos e aumenta ainda mais a necessidade de garantir a qualidade de todos os processos diagnósticos.

A precisão técnica do exame continua sendo indispensável e, cada vez mais, passará a integrar um conjunto mais amplo de responsabilidades, que inclui padronização das informações, rastreabilidade, proteção de dados, segurança dos sistemas e critérios transparentes para o uso de novas tecnologias.

“Estamos falando de uma transformação que atravessa toda a organização. Ela exige investimento em tecnologia, mas também em governança, qualificação das equipes, integração entre instituições e clareza sobre o valor que se pretende gerar. O Diagnóstico 5.0 só fará sentido se a inovação chegar à prática, fortalecer a sustentabilidade do sistema e produzir benefícios perceptíveis para pacientes e profissionais”, destaca Milva Pagano.

Uma transformação que depende de escolhas

Avançar não significa incorporar toda tecnologia disponível, mas saber escolher aquelas capazes de resolver problemas que há muito tempo fazem parte do setor. A tecnologia permite dar escala a essa capacidade de análise. O conhecimento médico, por sua vez, preserva o contexto necessário para definir qual investigação é necessária, em que momento deve ser realizada e como o resultado pode modificar uma conduta, evitando que os resultados sejam reduzidos a um conjunto de indicadores.

Essa discussão fará parte da 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), promovido pela Abramed em 26 de agosto, no Teatro Santander, em São Paulo. Sob o macrotema “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”, o encontro conectará Regulação, Valor da Medicina Diagnóstica, ESG e Inteligência Artificial.

Para participar do FILIS 2026, acesse o site do evento e adquira seu ingresso.

Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial avança no Congresso 

Construído coletivamente por entidades do setor, projeto propõe integrar a rede, assegurar padrões de qualidade e ampliar o acesso a exames na saúde pública 

O diagnóstico laboratorial orienta decisões que vão da prevenção ao acompanhamento dos tratamentos, mas o Brasil ainda não possui uma política nacional que organize a rede, articule padrões de qualidade e estabeleça bases sustentáveis de financiamento.

O Projeto de Lei 5.478/2025 busca preencher essa lacuna ao instituir a Política Nacional de Diagnóstico Laboratorial (PNDL). De autoria do deputado federal Pedro Westphalen (PP-RS), a proposta foi construída ao longo de um ano e meio, em diálogo com entidades representativas de diferentes segmentos do diagnóstico laboratorial e da saúde. 

Além da Abramed, participam dessa construção a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), a Federação Brasileira de Laboratórios de Análises Clínicas (Febralac), a Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar), o Conselho Federal de Farmácia (CFF), a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), o Conselho Federal de Biomedicina (CFBM), a Federação das Associações de Biomedicina (Faebim) e a Associação Médica Brasileira (AMB). 

Westphalen afirma que sua experiência como médico motivou a atuação em torno da proposta. “Eu só consigo fazer um tratamento adequado com um diagnóstico bem-feito, com precisão, segurança e sustentabilidade”, diz. Para o parlamentar, a pandemia de Covid-19 também evidenciou a importância dos profissionais que atuaram nos bastidores da resposta sanitária, como farmacêuticos e bioquímicos. 

O diálogo técnico e institucional contribuiu para que o projeto chegasse à relatoria com uma base considerada consistente. Responsável pelo parecer na Comissão de Saúde, o deputado Dr. Ismael Alexandrino (PSD-GO) avalia: “Meu primeiro diagnóstico foi de que o projeto chegou às minhas mãos muito maduro.” 

Qualidade, financiamento e dados

Na relatoria, o texto foi aperfeiçoado em diálogo com o Ministério da Saúde e as entidades envolvidas na construção da proposta, consolidando três eixos centrais: qualidade e isonomia sanitária, sustentabilidade financeira e interoperabilidade.

O primeiro reúne qualidade e isonomia sanitária. Como o processo diagnóstico compreende as fases pré-analítica, analítica e pós-analítica, o texto determina que os exames sejam executados por laboratórios licenciados e que os estabelecimentos autorizados a realizar coletas ou testes cumpram requisitos técnico-sanitários e padrões de qualidade equivalentes.

O segundo eixo é a sustentabilidade financeira. A proposta prevê a atualização anual da remuneração dos exames realizados para o SUS, com metodologia baseada nos custos reais de produção, considerando insumos, tecnologia, logística e recursos humanos.

A interoperabilidade constitui o terceiro eixo. Os laboratórios que integram a rede do SUS deverão conectar seus sistemas à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). A integração pode reduzir a repetição de exames, favorecer a continuidade do cuidado e ampliar o uso dos dados na vigilância epidemiológica.

“Esses pilares procuram resolver, na prática, a fragmentação sistêmica da rede, a dependência externa crítica de insumos e a oneração do erário com repetições desnecessárias de exames”, explica Alexandrino.

Para que a PNDL não se limite a princípios, o texto reúne mecanismos de qualidade, financiamento e monitoramento, como controle de qualidade nos laboratórios, rastreabilidade das amostras, atualização anual da remuneração e financiamento interfederativo. Segundo o relator, a implementação também deverá promover a integração entre o Sistema Nacional de Laboratórios de Saúde Pública (Sislab) e a rede privada.

A proposta incentiva ainda a pesquisa, a inovação e a produção nacional, com o objetivo de reduzir a dependência externa de insumos e equipamentos. Caso o projeto seja aprovado pelo Congresso e sancionado, o Poder Executivo terá 180 dias para regulamentá-lo.

Sem a PNDL, alerta Alexandrino, o país corre o risco de perpetuar a fragmentação e a desigualdade no acesso, além de limitar sua capacidade de resposta a futuras emergências sanitárias.

Próximos passos no Congresso

Em 17 de agosto, Alexandrino apresentou novo parecer pela aprovação do projeto, com substitutivo, na Comissão de Saúde. A proposta também está pronta para ser incluída na pauta do Plenário da Câmara.

O regime de urgência para o PL 5.478/2025 foi aprovado por unanimidade pelo Plenário em 9 de junho. Com isso, a matéria pode ser votada diretamente em Plenário, sem depender da conclusão prévia de toda a tramitação nas comissões.

Westphalen afirma que a articulação está concentrada no diálogo com as entidades e com as lideranças partidárias para incluir o projeto na pauta. O parlamentar manifestou a expectativa de votação em setembro e de sanção ainda em 2026.

Para os pacientes do SUS, os primeiros efeitos esperados estão na organização e na qualificação da rede, com maior segurança e confiabilidade nos exames. No médio prazo, a política pode ampliar o acesso a procedimentos de média e alta complexidade, reduzir desigualdades regionais e fortalecer a resposta a emergências sanitárias.

“A PNDL muda a vida do paciente do SUS de forma progressiva, mas consistente: primeiro na qualidade e na segurança do exame; depois, no acesso e na capacidade do sistema de antecipar e responder aos problemas de saúde da população”, resume Alexandrino.

A construção coletiva que levou a proposta até esta etapa evidencia a convergência das entidades em torno de uma agenda comum. O desafio agora é transformar essa base técnica em uma política pública efetiva, capaz de integrar a rede, dar previsibilidade ao financiamento, ampliar o acesso e elevar a segurança do diagnóstico oferecido à população.

Saúde privada atualiza Código de Boas Práticas e amplia agenda de governança de dados 

Construído por nove entidades, documento amplia orientações para aplicação da LGPD e incorpora temas como inteligência artificial, interoperabilidade e segurança da informação

A segunda edição do Código de Boas Práticas do Setor da Saúde foi lançada em 5 de agosto, na sede da CNSaúde, em Brasília, durante evento promovido pelo Instituto Consenso. O documento estabelece referências para a aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) em uma cadeia da saúde cada vez mais conectada e dependente do compartilhamento de informações.

Resultado de dois anos de trabalho conjunto, o Código foi construído por nove entidades representativas dos principais elos da saúde privada: Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (Abraidi), Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas (CMB), Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), Federação Brasileira de Hospitais (FBH), Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) e Associação Brasileira de Planos Odontológicos (Sinog).

O lançamento reuniu parlamentares, representantes de agências reguladoras, autoridades do Ministério da Saúde e lideranças do setor para debater governança de dados, interoperabilidade e Inteligência Artificial aplicada à saúde.

Durante o evento, a deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP) apresentou o andamento do projeto de lei sobre interoperabilidade de dados em saúde e a Rede Nacional de Dados de Saúde. Também participou do encontro Ana Estela Haddad, que, na ocasião, ocupava o cargo de secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde.

Representantes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) discutiram os impactos regulatórios da Inteligência Artificial e os caminhos para maior diálogo entre reguladores e setor. A apresentação do Código ficou a cargo das coordenadoras acadêmicas Laura Schertel Mendes e Mônica Fujimoto, do IDP/CEDIS, ao lado de Lorena Giuberti, diretora da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

O que muda na nova edição?

A primeira edição, lançada em 2021, ofereceu ao setor um parâmetro próprio de conformidade voltado especificamente aos prestadores privados de serviços de saúde.

Já a segunda versão amplia esse escopo ao incorporar também operadoras de planos de saúde e fornecedores e distribuidores de produtos para saúde, refletindo a própria dinâmica do setor.

Dados clínicos e administrativos percorrem diferentes organizações ao longo da jornada do paciente — do agendamento e realização de exames à emissão de laudos, autorização de procedimentos, faturamento, auditoria, assistência, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias. O Código reconhece a interdependência desses fluxos e propõe uma abordagem de proteção de dados que considere toda a cadeia.

Organizado em duas partes, o documento apresenta inicialmente conceitos, princípios e bases legais da LGPD aplicados à saúde e, em seguida, reúne orientações sobre temas como prontuário eletrônico, telessaúde, relação com terceiros, auditorias, direitos dos titulares, Relatórios de Impacto à Proteção de Dados Pessoais e segurança da informação.

Um dos principais avanços está no conteúdo dedicado à inovação, com orientações sobre privacy by design, pesquisa em saúde, biometria e utilização de Inteligência Artificial, associando a adoção de novas tecnologias a critérios como transparência, governança, avaliação de riscos e supervisão humana.

O conteúdo parte da premissa de que proteção de dados e inovação não são agendas opostas. Regras claras de governança podem favorecer o compartilhamento responsável de informações, a segurança jurídica e a confiança entre pacientes, profissionais e instituições.

O olhar da medicina diagnóstica

A medicina diagnóstica ocupa uma posição importante nessa discussão. Laboratórios, clínicas e serviços de diagnóstico por imagem produzem, processam, armazenam e compartilham informações clínicas sensíveis em atividades como realização de exames, emissão de laudos e intercâmbio de informações com médicos, hospitais e operadoras.

Por isso, desde o início da construção do Código, a Abramed atuou para incorporar ao documento a realidade da medicina diagnóstica e sua conexão com os demais elos da saúde.

Para Lucas Bonafé, advogado do escritório Machado Nunes e sócio da área de Direito Digital e Propriedade Intelectual, que acompanhou a elaboração do material, essa participação ajudou a conferir ao Código uma abordagem realista.

“A importância do Código de Boas Práticas de LGPD é conseguir demonstrar a capilaridade da medicina diagnóstica na área da saúde como um todo e explicar como os dados de saúde são utilizados hoje em toda a cadeia”, afirma.

Segundo o advogado, a Abramed levou ao debate as particularidades da medicina diagnóstica e contribuiu para a articulação das perspectivas de prestadores, operadoras e indústria. Esse diálogo ajudou a conferir ao documento uma abordagem prática, apoiada em exemplos reais de compartilhamento de informações.

Confiança como ativo da saúde

Para Rogéria Leoni Cruz, líder dos Comitês Jurídico e de Proteção de Dados da Abramed, a discussão ganha importância adicional na saúde por envolver informações produzidas em momentos de vulnerabilidade das pessoas.

“A saúde é construída sobre a confiança. Confiamos no médico que nos acolhe, nos hospitais que cuidam de nossas famílias e que informações profundamente pessoais serão tratadas com respeito, responsabilidade e segurança”, afirma.

Na avaliação de Rogéria, o avanço da Inteligência Artificial, da medicina personalizada, da interoperabilidade e de outras ferramentas digitais reforça a necessidade de incorporar a proteção de dados à estratégia das organizações.

“Proteger dados não significa limitar o avanço da ciência, da tecnologia ou da assistência. Significa garantir que esse avanço aconteça da forma correta”, ressalta.

A efetividade do Código dependerá agora de sua incorporação ao cotidiano de organizações de diferentes portes e segmentos. Ao transformar os princípios da LGPD em referências práticas para processos, contratos, tecnologias e relações entre os agentes da cadeia, o documento oferece uma base comum para que a inovação e o compartilhamento de dados avancem com segurança, responsabilidade e confiança.

Acesse a íntegra do Código de Boas Práticas do Setor da Saúde

Relembre o lançamento da primeira edição do Código, em 2021

Radiologia, radiômica e o desafio da sustentabilidade em saúde 

Imagens com maior resolução e Inteligência Artificial ampliam a capacidade diagnóstica e apoiam decisões clínicas mais precisas, contribuindo para o direcionamento adequado de tratamentos e procedimentos.  

Em 2016, o cientista Geoffrey Hinton, vencedor do Prêmio Nobel de Física de 2024, afirmou publicamente que em poucos anos não seria mais necessário formar radiologistas. A previsão não se confirmou e a demanda pela especialidade só cresceu desde então. A necessidade do radiologista não desapareceu; pelo contrário, aumentou. 

A radiômica vem apresentando publicações cada vez mais robustas e, apesar de ainda ser experimental, o horizonte a médio e longo prazo é promissor. Estamos em uma etapa em que melhorar a imagem significa também extrair mais informação e compreender aquilo que o olho humano não consegue perceber sozinho.  

Essa transformação pode modificar de forma significativa o papel do diagnóstico por imagem. Em vez de apenas responder o que está presente em determinado momento, caminhamos para uma radiologia capaz de estimar o que determinado achado pode representar e como poderá se comportar. 

Na tomografia computadorizada, uma das tecnologias que apontam nessa direção é a contagem de fótons, ou photon counting. O ganho de resolução espacial permite caracterizar melhor pequenas estruturas e alterações cuja caracterização, com tecnologias anteriores, seria menos precisa. Na avaliação das artérias coronárias, por exemplo, pode significar maior precisão na caracterização das placas e do grau de obstrução. O mesmo princípio ajuda, em outros órgãos, a compreender lesões pequenas ou inicialmente indeterminadas. 

Produzir imagens melhores, porém, é apenas uma parte dessa evolução. A Inteligência Artificial, o aprendizado de máquina e o deep learning dependem essencialmente da qualidade da informação que recebem. É o velho garbage in, garbage out: não existe algoritmo capaz de compensar indefinidamente uma base de má qualidade. Quanto melhores a imagem e os dados, maior a possibilidade de extrair informações clinicamente úteis. 

É nesse aspecto que a radiômica, método que transforma exames de imagem em dados numéricos detalhados, ganha importância. A partir dos pixels e de diferentes atributos quantitativos da imagem, ela permite analisar características não necessariamente identificáveis pela observação humana convencional e buscar correlações com achados, comportamentos ou desfechos. 

Isso abre uma perspectiva particularmente relevante diante dos achados indeterminados. Depois dos 50 anos, até 15% das pessoas apresentam algum nódulo pulmonar identificado num exame de tomografia. Isso não é sinônimo de câncer, pois a imensa maioria dessas alterações é benigna. Dependendo das características da lesão e do perfil do paciente, porém, novas imagens podem ser necessárias alguns meses depois para verificar se houve crescimento e, em determinadas situações, chega-se à necessidade de uma biópsia. 

Esse acompanhamento é indispensável quando bem indicado. O desafio é saber se novas tecnologias poderão nos ajudar a distinguir, com maior segurança, quem realmente precisa avançar para uma investigação invasiva e quem poderia ser acompanhado de outra maneira. 

A possibilidade de combinar características quantitativas da imagem com genética, genômica, histórico familiar, fatores de risco e outros dados clínicos poderá permitir calcular com maior precisão a probabilidade de uma lesão apresentar risco de malignidade. 

Vejo nessa integração uma das principais transformações dos próximos anos. A tecnologia amplia a quantidade de informação disponível e, com isso, aumenta a responsabilidade de quem precisa interpretá-la e integrá-la ao contexto clínico. O radiologista terá de compreender a imagem, os algoritmos, suas limitações e sua relação com outras informações do paciente. 

É nesse sentido que vejo esse profissional se tornando cada vez mais um gatekeeper: alguém que tem a imagem em mãos e está bem posicionado para integrar essas informações e discuti-las com o médico responsável pela conduta. Quanto mais complexa a medicina se torna, menos sentido faz trabalhar com informações fragmentadas. 

Há ainda uma dimensão importante de eficiência. Já existem algoritmos capazes de acelerar exames de ressonância magnética, como os musculoesqueléticos, reduzindo o tempo necessário para a captação das imagens. Isso permite utilizar melhor um equipamento de alto custo, ampliar sua capacidade de atendimento e melhorar a experiência do paciente. Para quem sente dor, ansiedade ou claustrofobia, permanecer menos tempo dentro do aparelho também faz parte da qualidade do cuidado.  

Por isso, a discussão econômica sobre inovação em saúde não pode se limitar ao preço de compra de uma tecnologia ou à remuneração de determinado exame. Quando incorporamos um equipamento mais avançado, o retorno não aparece necessariamente como receita maior naquele procedimento. O valor pode estar em um exame mais rápido e confortável, em menos repetições, em um diagnóstico mais preciso, em uma intervenção evitada ou no início mais adequado de um tratamento. 

Tecnologia também pode ser instrumento de sustentabilidade. Uma inovação mais cara pode reduzir custos globais se eliminar etapas desnecessárias da jornada assistencial. Da mesma forma, uma solução aparentemente mais barata pode gerar desperdício quando produz informação insuficiente, exige repetição ou leva a decisões menos precisas. 

A lógica precisa ser de custo-efetividade e geração de valor. Esse talvez seja um dos debates mais importantes para o futuro da medicina diagnóstica. 

Não basta saber quantos exames conseguimos realizar ou quantas novas tecnologias conseguimos incorporar. Precisamos avaliar quanto conhecimento extraímos de cada exame, quanto essa informação melhora a decisão médica e quais etapas da jornada do paciente podem ser evitadas ou qualificadas. 

Radiômica, Inteligência Artificial, novas gerações de equipamentos e integração de dados são ferramentas. O verdadeiro valor delas estará na capacidade de diminuir incertezas para o médico e para o paciente, permitindo melhor utilização dos recursos do sistema de saúde. Esse é o valor que a inovação diagnóstica precisa entregar. 

Cesar Higa Nomura – Presidente do Conselho de Administração da Abramed e Diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês 

Biomarcadores no sangue ampliam caminhos para o diagnóstico do Alzheimer

Reunião do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed debateu o avanço dos testes plasmáticos e os desafios de qualidade, interpretação e incorporação à prática assistencial 

Durante muito tempo, a investigação da doença de Alzheimer se apoiou na avaliação clínica, em exames de imagem e, em casos específicos, na análise de biomarcadores no líquor. A chegada de testes capazes de detectar no sangue alterações biológicas associadas à doença amplia as possibilidades diagnósticas. Para a assistência, a gestão e a medicina diagnóstica, surge uma questão central: como incorporar essa tecnologia de forma segura, clinicamente útil e operacionalmente viável? 

Foi esse o tema da reunião do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed, realizada em 13 de agosto, na sede da Roche, em São Paulo, que reuniu especialistas para discutir a evolução do diagnóstico da doença, as evidências para os novos biomarcadores e os desafios de levar essa tecnologia da pesquisa para a rotina assistencial.

Guilherme Lemos, coordenador de Valor Médico da Roche Diagnóstica Brasil, abriu a apresentação perguntando: quem nunca saiu de casa e voltou para conferir se tinha trancado a porta? A provocação chegou ao ponto principal da palestra: esquecimentos acontecem. O problema é quando passam a ser tratados automaticamente como consequência da idade e deixam de ser investigados.

O diagnóstico ainda costuma chegar tarde 

Estima-se que 2,71 milhões de pessoas com 60 anos ou mais vivam com demência no Brasil, número que pode chegar a 5,6 milhões em 2050. A doença de Alzheimer é a causa mais frequente, representando de 60% a 70% dos casos. Outro dado chama atenção: aproximadamente quatro em cada cinco idosos que apresentam critérios para demência não receberam diagnóstico formal. 

A ciência, porém, mostra sinais prévios: a patologia amiloide pode surgir cerca de 20 a 30 anos antes das primeiras manifestações clínicas. Identificar a doença mais cedo muda a conversa sobre diagnóstico, acompanhamento e, principalmente, elegibilidade para novas terapias.

A análise de biomarcadores no líquor e o PET amiloide são métodos consolidados, mas envolvem custos, infraestrutura e, no caso do líquor, uma coleta invasiva. Os biomarcadores plasmáticos entram nesse cenário com uma vantagem que interessa a qualquer gestor: escala. Uma coleta de sangue é mais simples, mais fácil de incorporar à rotina de um laboratório e mais acessível a um número maior de pacientes.

Nos dados apresentados, a p-tau217 se destacou pela sensibilidade e especificidade e pela capacidade de diferenciar pacientes com e sem patologia amiloide; a p-tau181 foi apresentada como alternativa relevante, sobretudo para triagem.

Gustavo Bruniera, coordenador médico do serviço de Líquido Cefalorraquidiano (LCR) do Einstein Hospital Israelita, reconstruiu essa evolução: dos critérios clínicos da década de 1980, passando pela sistema biológico AT(N) a partir de 2018, até a reclassificação mais recente, que ampliou a presença dos biomarcadores plasmáticos.

“Ninguém tem dúvida de que o plasma vai chegar, na verdade já chegou. Mas a grande dúvida é como isso vai ser utilizado”, afirmou.

Segundo ele, a Academia Brasileira de Neurologia segue uma linha próxima à do grupo europeu associado a Dubois, que exige a combinação entre manifestação clínica e biomarcador positivo. Já a linha americana, associada a Jack, trabalha com uma definição biológica da doença, em que o biomarcador tem papel central.

“O guideline não é uma reserva de mercado. É uma padronização de como todos nós temos que agir”, concluiu.

O laboratório passa a ter uma responsabilidade ainda maior

O debate mostrou que, além do desempenho clínico, existe uma segunda camada igualmente importante: a qualidade do processo laboratorial. Os novos testes trabalham com concentrações muito baixas, o que aumenta a importância do controle pré-analítico, da padronização e da automação, pontos que Guilherme destacou ao falar dos ganhos da automação no desempenho dos exames.

Carlos Eduardo Ferreira, um dos líderes do Comitê Técnico da Abramed e gerente médico do Laboratório Clínico do Einstein Hospital Israelita, levou essa discussão para a prática laboratorial. “Estamos discutindo um, dois, três, quatro marcadores soltos. Daqui a pouco, teremos a opção de mensurar um número maior de marcadores”, ponderou. “Se já está complexo com um ou dois marcadores, na hora que você colocar uma quantidade grande chegando ao mercado, isso pode gerar confusão”, completou. Ele vê na inteligência artificial uma ferramenta possível para organizar esse cenário, mas alerta para um problema anterior: entender o que significa um resultado alterado em quem ainda não tem comprometimento cognitivo.

A expansão dos biomarcadores aumenta a importância dos laboratórios. Os médicos, porém, também precisarão interpretá-los melhor dentro da história do paciente, dos sintomas e da avaliação cognitiva.

Foi nessa fronteira que Márcio Vega, coordenador médico do Senne Líquor Diagnóstico, trouxe a experiência de quem acompanha a utilização desses exames pelas equipes médicas. Segundo ele, na casuística acompanhada pelo serviço, a proporção de resultados positivos nas assinaturas clássicas de biomarcadores em líquor passou de cerca de 30%, anos atrás, para mais de 60% atualmente. Ainda assim, defendeu cautela em pacientes assintomáticos, lembrando que detectar uma alteração antes dos sintomas nem sempre muda a conduta clínica.

Alex Galoro, um dos líderes do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Abramed e gerente médico da DB Diagnósticos, ampliou a discussão, relacionando o avanço das doenças neurodegenerativas à própria transformação do perfil epidemiológico mundial: à medida que a medicina controla melhor doenças infecciosas e cardiovasculares e as pessoas vivem mais, as enfermidades neurodegenerativas ganham espaço e passam a demandar mais biomarcadores e tratamentos capazes de alterar sua evolução. Segundo ele, é para organizar esse volume crescente de variáveis, e não para substituir o raciocínio clínico, que a inteligência artificial deve ganhar espaço.

Uma agenda que vai crescer

As demências também têm uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. Segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, o custo total anual foi estimado em R$ 96,7 bilhões em 2022 e pode chegar a R$ 199,4 bilhões em 2050. Na estimativa referente a 2019, os custos indiretos representavam 78% do total. O estudo mostrou ainda que 83,6% dos cuidadores exerciam essa atividade de maneira informal e sem remuneração. 

Os participantes convergiram no ponto de que os biomarcadores já estão mudando o diagnóstico do Alzheimer, mas o setor ainda está aprendendo a organizar o uso dessa informação. A indústria desenvolve novos marcadores e a literatura cresce em velocidade; diretrizes, modelos assistenciais e critérios de incorporação ainda precisam acompanhar esse movimento.

Esse debate ultrapassa o território da neurologia e envolve laboratórios, hospitais, médicos, gestores, indústria diagnóstica e regulação. Também amplia o papel da medicina diagnóstica diante de um desafio crescente: transformar dados biológicos em informação clínica útil, capaz de produzir valor real para o paciente e para o sistema de saúde.

Abramed fortalece articulação internacional da medicina diagnóstica no ADLM 2026

Como uma das entidades organizadoras da 3ª Missão Brasileira, a entidade participou de uma agenda de conteúdo científico, articulação internacional e visitas técnicas nos Estados Unidos

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) integrou a organização da 3ª Missão Brasileira no ADLM 2026, realizada entre 27 e 30 de julho, na Califórnia, nos Estados Unidos. Representada por Lidia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração, a entidade participou da iniciativa liderada pela Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), voltada a ampliar a presença institucional do setor brasileiro e o intercâmbio com referências internacionais da medicina laboratorial.

A Missão ocorreu durante o ADLM, o maior congresso mundial do segmento laboratorial, promovido pela Association for Diagnostics & Laboratory Medicine, em Anaheim. Com mais de 250 atividades educacionais e a participação de mais de 700 empresas, a edição reuniu especialistas de diferentes países para debater inovações em exames laboratoriais e diagnóstico clínico. 

Na abertura, representantes de entidades brasileiras e internacionais dividiram o palco. Paul Jannetto, presidente da ADLM 2026, e Stan Lo, presidente eleito da organização, deram as boas-vindas aos participantes, ao lado de Carlos Gouvêa, presidente executivo da CBDL. Fúlvio Facco, presidente do Conselho de Administração da entidade, destacou a união dos stakeholders brasileiros naquele momento.

Lidia Abdalla defendeu uma agenda consistente junto às agências reguladoras, voltada às políticas públicas e ao fortalecimento da medicina laboratorial. “Estamos aqui buscando, cada vez mais, qualidade, melhor assistência, segurança do paciente em um setor que passa por grandes transformações”, afirmou durante a abertura.

Representantes de outras entidades também subiram ao palco. Leonardo Vasconcellos, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), associou o laboratório atual à gestão de big data e citou a Inteligência Artificial como tema central do congresso da própria sociedade neste ano.

Maria Elizabeth Menezes, da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), tratou da regulação do setor e do papel dos pequenos e médios laboratórios no acesso da população ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Ainda na noite de abertura, a sessão científica seguiu com dois painéis dedicados a mostrar como o diagnóstico avança do exame à inteligência integrada em saúde e a debater a interoperabilidade e a necessidade de padrões comuns para o uso de IA na rotina laboratorial. 

A contribuição institucional da Abramed para essas agendas foi ressaltada durante os debates. Rafael Jácomo, do Grupo Sabin, citou uma colaboração da Associação com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), do Ministério da Saúde, entre as iniciativas em curso no país para ampliar a integração das informações em saúde. Linaldo Vilar, da Dasa, também destacou o papel da entidade no avanço de iniciativas de interoperabilidade. 

Imersão em operações de referência

Nos demais dias, a Missão seguiu para San Juan Capistrano, na Califórnia, para uma visita técnica exclusiva ao campus da Quest Diagnostics, associada da Abramed no Brasil. A delegação brasileira acompanhou uma operação que funciona 24 horas por dia, recebe mais de 100 mil requisições diárias e processa hoje mais de 80% dos exames de apoio enviados do Brasil para a Quest Diagnostics.

Os participantes tiveram contato com áreas como biologia e genética molecular, doenças infecciosas, espectrometria de massas, hematologia, oncologia, química clínica e sorologia. A experiência mostrou como automação, gestão da informação e diferentes competências laboratoriais podem ser articuladas em uma operação de grande escala.

O encerramento ocorreu em 30 de julho, com uma visita técnica à Hologic, em San Diego, um dos principais centros mundiais de inovação voltados à saúde da mulher e ao diagnóstico molecular. A delegação conheceu suas plataformas, a linha de manufatura da empresa e o Centro de Inovação, que reúne tecnologias de citologia digital e inteligência artificial aplicada ao rastreamento do câncer.

Cooperação que ultrapassa o congresso

Além da agenda científica e técnica, a Missão também aproximou o Brasil de outras entidades internacionais. Tomris Özben, presidente da International Federation of Clinical Chemistry and Laboratory Medicine (IFCC), esteve presente, reforçando a conexão global da medicina laboratorial. A agenda internacional também incluiu a discussão de uma possível cooperação com Debi Boeras para cursos sobre resistência aos antimicrobianos (RAM), envolvendo CBDL, SBAC, SBPC/ML, Abramed e outras entidades.

Para as próximas edições, a organização já projeta um modelo permanente de relacionamento entre entidades brasileiras e ADLM.

A experiência reforça uma agenda que seguirá além do congresso: criar condições para que inovação e novas tecnologias possam ser incorporadas à medicina diagnóstica com qualidade, segurança e previsibilidade, conectadas às necessidades do cuidado e aos desafios do sistema de saúde brasileiro.

FILIS chega à 10ª edição transformando debates em propostas para a saúde 

Ao completar uma década, o Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS) reunirá dirigentes, executivos e autoridades para transformar os principais desafios do setor em pautas propositivas para a saúde brasileira.

No dia 26 de agosto, o Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), promovido pela Abramed, reunirá líderes da saúde para tratar dos próximos passos do setor diante das escolhas que a transformação da saúde impõe. Como incorporar a inteligência artificial sem abrir mão da segurança? Como fortalecer a governança em organizações que precisam, ao mesmo tempo, inovar e garantir sua sustentabilidade? Como construir um ambiente regulatório capaz de acompanhar a velocidade das mudanças?

Essas são algumas das questões que marcarão a 10ª edição do FILIS, realizada no Teatro Santander, em São Paulo. A nova casa acompanha o crescimento do fórum e marca os dez anos de um encontro que aproxima diferentes setores e transforma os desafios da saúde em pautas propositivas.

“O FILIS é, acima de tudo, um espaço de construção conjunta. A cada edição, reforçamos nosso compromisso em fomentar discussões e iniciativas que impulsionam a medicina diagnóstica. O Diagnóstico 5.0 não é apenas uma visão, mas um caminho que estamos trilhando coletivamente para um sistema centrado no paciente”, afirma Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed.

Com o macrotema “Diagnóstico 5.0: impactos e estratégias que transformam a saúde”, a programação foi organizada em quatro eixos que se complementam: Regulação, Valor da Medicina Diagnóstica, ESG e Inteligência Artificial.

A programação começa às 8h, com o credenciamento. A abertura institucional, às 9h, será conduzida por Cesar Nomura e Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

Regulação – segurança regulatória, inovação e sustentabilidade na saúde

O eixo Regulatório abre a programação com foco na regulação sanitária da medicina diagnóstica. As normas que estabelecem os requisitos para o funcionamento dos serviços precisam acompanhar a evolução das práticas e dos processos do setor, com atenção à gestão dos riscos sanitários, à qualidade e à segurança do paciente.

O primeiro debate abordará “Regulação, inovação, agenda regulatória e os impactos para a medicina diagnóstica”, com moderação de Cesar Nomura. Participam Fernando Ganem, CEO do Hospital Sírio-Libanês; Henrique Neves, diretor-geral do Einstein Hospital Israelita; e Julio Vieira, CEO do Hcor e membro do Conselho Fiscal da Abramed.

A programação continua com o debate “Regulação, segurança e qualidade dos serviços oferecidos”. Estão confirmados Rafael Lucchesi, CEO da Dasa; Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury; e Lídia Abdalla, vice-presidente do Conselho de Administração da Abramed e CEO do Grupo Sabin.

Após os painéis, acontece o primeiro Leaders Connection da programação, intervalo dedicado ao networking executivo e à aproximação entre os participantes.

Valor da Medicina Diagnóstica – dados, precisão e valor na jornada do paciente

No segundo eixo, o valor da medicina diagnóstica é abordado a partir de seu principal propósito: apoiar decisões clínicas mais precisas, qualificar a assistência e fortalecer a segurança do paciente ao longo de toda a jornada de cuidado.

O debate sobre o tema será moderado por Lídia Abdalla, com participação de Daniel Greca, diretor de Novos Negócios de Saúde do Hospital Sírio-Libanês, e Bruno Sobral de Carvalho, diretor-executivo da FenaSaúde.

Após o almoço, a programação será retomada às 14h25 com a entrega do Prêmio Dr. Luiz Gastão Rosenfeld, que reconhece profissionais que contribuem para o desenvolvimento da medicina diagnóstica e de todo o setor da saúde.

ESG – governança, ética e compliance como pilares da sustentabilidade institucional

A transformação da saúde não depende apenas da tecnologia que as organizações incorporam. Depende também da qualidade das decisões, dos critérios adotados, da gestão de riscos e da capacidade de conciliar inovação, ética e responsabilidade institucional.

Por isso, o eixo ESG abordará o papel da governança na construção de organizações mais transparentes, resilientes e preparadas para responder a um ambiente marcado por novas tecnologias, mudanças regulatórias e expectativas crescentes da sociedade.

Ives Gandra, advogado, professor, escritor e conferencista, participará do eixo com uma reflexão sobre governança e ética e sua importância para a solidez e a perenidade das instituições.

Em outro momento, serão apresentados os indicadores do Caderno ESG Abramed, que reúnem dados das associadas nos três pilares do ESG — ambiental, social e governança — e evidenciam a contribuição dessas empresas para o avanço de práticas mais responsáveis, éticas e sustentáveis na medicina diagnóstica.

Às 15h55, o segundo Leaders Connection abrirá mais um espaço para relacionamento e troca direta entre os participantes.

Inteligência Artificial – IA como estratégia para eficiência e qualidade na saúde

O último eixo do FILIS será dedicado à inteligência artificial, aos dados e às plataformas digitais. O Momento Transformação apresentará o case “OpenCare Interop”, projeto do InovaHC voltado à interoperabilidade. A apresentação será conduzida por Felipe Grecco, diretor de Relacionamento e Planejamento Comercial da Trillia, e Marco Bego, diretor-executivo do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e diretor de Inovação do InovaHC.

Na sequência, Moritz Hartmann, diretor global da Roche Information Solutions, apresentará a palestra internacional “Como IA, plataformas digitais e dados estão transformando a medicina diagnóstica”. A participação trará ao FILIS uma visão global sobre as mudanças já em curso e as condições necessárias para que a tecnologia gere valor na prática.

Com o tema “IA como vetor estratégico para a transformação da saúde, com foco em qualidade, inovação e novos modelos de cuidado”, o debate deste eixo reunirá diferentes perspectivas sobre o uso dessas ferramentas, sob moderação de Marcos Queiroz, membro do Conselho de Administração da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Einstein Hospital Israelita.

Participam, além de Moritz Hartmann, Priscila Cruzatti, especialista em Inovação e Saúde Digital para o Brasil no Google Cloud, e Giovanni Guido Cerri, presidente do Conselho Diretor do InRad-HCFMUSP e coordenador da Comissão de Inovação do HCFMUSP (InovaHC).

O painel encerrará a programação de conteúdo, conectando a tecnologia aos demais eixos do FILIS. “Os blocos temáticos do FILIS 2026 mostram como regulação, valor, governança e inteligência artificial se complementam na construção de um ecossistema de saúde mais eficiente e ético. Nosso objetivo é transformar conhecimento em decisões capazes de impulsionar o setor”, destaca Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed.

O encerramento será conduzido por Claudia Cohn, membro do Conselho de Administração da Abramed e diretora-executiva da Dasa.

“Essa construção de pautas propositivas só é possível porque quem participa do FILIS também toma decisões no dia a dia. O fórum não é um encontro sobre o futuro da saúde. É um encontro de quem constrói esse futuro”, afirma Milva Pagano.

Ao completar dez anos, o FILIS reafirma sua vocação de antecipar pautas, aproximar diferentes setores e transformar conhecimento em propostas para a saúde brasileira. Se, nas primeiras edições, o desafio era identificar tendências, hoje o fórum amplia essa missão ao articular diferentes perspectivas e transformar inovação em valor para pacientes, organizações e todo o sistema de saúde.

Mais informações e inscrições em www.abramed.org.br/filis.

Diálogo e decisões estratégicas orientam a agenda da saúde no segundo semestre 

Definições regulatórias e a aproximação das eleições exigirão  articulação entre entidades, reguladores e formuladores de políticas públicas para manter o avanço de pautas estruturantes. 

Com a aproximação das eleições, a agenda pública tende a ser marcada por pautas de maior apelo eleitoral, enquanto discussões técnicas e estruturantes podem perder espaço no debate legislativo.

Para a saúde, esse cenário representa um desafio. Temas como regulação, sustentabilidade, transformação do modelo assistencial e governança continuam essenciais e exigirão articulação entre entidades representativas, reguladores e poder público para avançar.

Um tema que deve permanecer na pauta é o Projeto de Lei nº 2.338/2023, que propõe o marco regulatório da inteligência artificial no Brasil. A regulamentação precisa garantir transparência, segurança, supervisão humana e responsabilização, sem impedir o desenvolvimento de ferramentas capazes de apoiar profissionais, qualificar processos e ampliar a capacidade assistencial.

Aprovada pelo Senado e em análise na Câmara dos Deputados, a proposta aguarda parecer na comissão especial e seguirá demandando atenção do setor.

Outro ponto relevante é a Agenda Regulatória 2026–2028 da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O planejamento estabelece 14 pautas prioritárias, organizadas em três eixos: proteção dos beneficiários; qualidade do cuidado e transformação assistencial; e sustentabilidade, dados e governança da informação. Entre os assuntos previstos estão o aprimoramento das regras para reajustes coletivos, portabilidade e reembolsos.

Embora muitas dessas iniciativas não sejam direcionadas especificamente à medicina diagnóstica, elas influenciam o ambiente regulatório da saúde suplementar e ajudam a definir as condições para o desenvolvimento do setor nos próximos anos.

“Acompanhar e influenciar esse processo é essencial. Projetos estruturantes não podem depender apenas de questões circunstanciais, e o papel do setor é garantir que o debate técnico aconteça no momento certo e com a profundidade necessária”, avalia Cesar Nomura, presidente do Conselho de Administração da Abramed.

A saúde no debate eleitoral

Ao longo do semestre, propostas relacionadas ao financiamento do sistema, à transformação do modelo assistencial, ao acesso e à integração entre os sistemas público e privado devem ganhar espaço nas conversas com candidatos, partidos e formuladores de políticas públicas.

Por estar presente em diversas etapas da jornada do paciente e por conectar o Sistema Único de Saúde (SUS) e a saúde suplementar, a medicina diagnóstica contribui para aproximar diferentes players em torno de desafios que ultrapassam as fronteiras de cada segmento.

Esse período também amplia a responsabilidade das entidades representativas de levar dados, evidências e conhecimento técnico ao debate público, contribuindo para que a saúde seja tratada como uma política estratégica para o desenvolvimento social e econômico do país, e não apenas sob a perspectiva das demandas imediatas.

A Abramed amplia o diálogo e a produção de conhecimento

Os próximos meses reúnem algumas das principais iniciativas da Abramed. Entre elas está a 10ª edição do Fórum Internacional de Lideranças da Saúde (FILIS), marcada para 26 de agosto.

O encontro reunirá reguladores, gestores e lideranças empresariais para debater temas estratégicos e transformar as discussões em propostas para os desafios e as oportunidades dos próximos anos da saúde brasileira.

“Como costumo dizer, somos vasos comunicantes. Saúde pública, saúde suplementar, reguladores e setor produtivo precisam caminhar de forma integrada. É essa habilidade de construir soluções em conjunto que permitirá à medicina diagnóstica manter sua capacidade de adaptação”, pontua Cesar Nomura.

O FILIS também será o principal momento de divulgação dos dados da 8ª edição do Painel Abramed – O DNA do Diagnóstico. A publicação será lançada na noite anterior, durante um jantar exclusivo para convidados, e reunirá os indicadores mais recentes das empresas associadas, acompanhados de análises sobre os resultados apurados.

A agenda do segundo semestre contará ainda com o Simpósio ESG Abramed, que aprofundará temas como responsabilidade ambiental, sustentabilidade econômica, governança e qualidade assistencial, cada vez mais relevantes para a gestão das organizações de saúde.

Na ocasião, a associação lançará, pela primeira vez em edição independente, o Caderno ESG Abramed. Até então, os indicadores e as iniciativas de sustentabilidade integravam o Painel Abramed. A realização de um simpósio e a criação de uma publicação dedicados ao tema refletem o amadurecimento dessa agenda na associação e no setor.

Essas iniciativas reforçam a relevância da medicina diagnóstica nos debates que influenciam a saúde brasileira. Diante das definições regulatórias e das articulações que antecedem um novo ciclo político, o setor precisará levar dados, conhecimento técnico e propostas aos espaços em que as decisões são construídas.